A Copa do Mundo de 1994 engrenou em 18 de junho. Naquela data, segundo dia da competição, os estádios americanos receberam algumas partidas históricas. O US Team estreou com empate diante da Suíça, um resultado visto como satisfatório pelos anfitriões. Mais felizes ficaram os irlandeses, que negaram o favoritismo da Itália e garantiram o triunfo por 1 a 0, naquele que pode ser considerado o mais emblemático resultado do país em Copas. Mas nada que superasse as emoções no Rose Bowl. O estádio da decisão também foi o palco de Romênia 3×1 Colômbia. Os cafeteros, que prometiam causar uma febre nos Estados Unidos, desabavam diante da categoria de Gheorghe Hagi e da velocidade de Florin Raducioiu. Um dos craques do Mundial exibia seu cartão de visitas.

A partir desta semana, até 17 de julho, faremos aqui na Trivela um diário para relembrar as histórias, os jogos e os personagens da Copa de 1994, 25 anos depois. Confira as pílulas, baseadas no noticiário da imprensa brasileira na época:

A tábua de salvação dos Estados Unidos

A seleção americana carregava enormes responsabilidades na Copa de 1994. O fato de ser anfitriã exigia uma boa campanha, mas não apenas isso. Depois da falência da NASL, o US Team sentia o peso de fazer o futebol pegar novamente no país, diante dos projetos de criação da MLS. A participação no Mundial de 1990, encerrando um hiato de 40 anos fora do torneio, ajudou a formar uma geração talentosa rumo a 1994. De qualquer maneira, havia um longo trabalho a se realizar. Na época, a federação local criou uma academia de futebol para desenvolver parte de seus atletas – dedicados exclusivamente a isso. Eles ganhavam salários baixos, lidavam com problemas estruturais e passavam a maior parte do ano na estrada, realizando a preparação. Em compensação, conseguiram criar um senso coletivo, aguçado por um treinador experiente como Bora Milutinovic. Apesar dos temores de um fracasso, a iniciativa deu certo.

Uma novidade nas Copas

O primeiro jogo de 18 de junho foi Estados Unidos x Suíça, realizado em Pontiac, cidade nos arredores de Detroit. O Pontiac Silverdome era o primeiro estádio coberto da história a receber um jogo de Copa do Mundo. A grama natural foi plantada na Michigan State University e transplantada ao local às vésperas do início do torneio. Os jogadores, todavia, reclamaram do campo pesado durante o duelo. Nada que barrasse as pinturas anotadas quando a bola rolou.

Estados Unidos 1×1 Suíça: O alívio americano

Depois de todo o esforço na preparação à Copa do Mundo, o intuito dos Estados Unidos era evitar um baque na estreia da competição. A Suíça, vista como uma seleção em ascensão, surgia como a adversária. A equipe helvética superou um grupo duro nas Eliminatórias, voltando ao Mundial após 28 anos, mas não possuía estrelas tão aclamadas. O time treinado por Roy Hodgson ganhava respaldo por sua disciplina e pelo estilo de jogo “à inglesa”. Os dois times, além do mais, lidavam com desfalques importantes: o meia americano Claudio Reyna e o atacante suíço Adrian Knup não puderam atuar. Ao final, o empate por 1 a 1 satisfez ambos.

A Suíça começou melhor a partida, firme na defesa e levando perigo principalmente pelo lado esquerdo, com Alain Sutter. Foram algumas ocasiões de gol, até que os helvéticos abrissem o placar aos 39 minutos. Sutter sofreu falta na entrada da área e Georges Bregy chutou com categoria, no canto de Tony Meola. Ao menos o US Team não levou o prejuízo para o intervalo. O empate saiu cinco minutos depois, também em uma bela cobrança de falta. Eric Wynalda mandou um míssil e acertou o ângulo da meta adversária, sem que o goleiro Marco Pascolo chegasse a tempo. Durante a segunda etapa, o jogo se manteve aberto e os americanos saíram mais para o ataque, ameaçando nos contragolpes. Os suíços sentiram o desgaste pelo calor e também pararam nas boas defesas de Meola.

Os reflexos do Milan de Sacchi

A seleção mais tradicional a estrear no segundo dia de Copa do Mundo foi a Itália. Treinada por Arrigo Sacchi, a Azzurra confiava na boa fase de seus clubes, apesar das dificuldades encaradas durante as Eliminatórias. Sobretudo, apostava na maneira como o domínio europeu do Milan poderia influenciar o sucesso nos Estados Unidos. Sacchi deixou Milanello rumo à seleção. Fabio Capello mantinha o alto nível do Diavolo e cedeu sete jogadores à convocação. Curiosamente, o segundo clube com mais convocáveis era o Parma, cinco no total. A Juventus tinha três, mesmo número da Lazio. O comandante continuava aplicando suas estratégias revolucionárias dos tempos de rossoneri e prometia um time ofensivo, mesmo que os resultados recentes gerassem críticas da imprensa local.

Irlanda 1×0 Itália: A primeira surpresa

O segundo jogo daquele 18 de junho aconteceu em Nova York. Itália e Irlanda se enfrentavam na cidade onde tinham enormes colônias – e que também gerou suspeitas de armação no chaveamento. De qualquer forma, as expectativas eram altas para a estreia da Azzurra contra um adversário que vinha à sua segunda Copa do Mundo consecutiva e tinha a fama de ser uma equipe muito sólida. O trabalho do bonachão Jack Charlton se baseava em uma defesa firme, ligações diretas e muitas tentativas pelo alto. No fim das contas, os irlandeses não apenas barraram o ataque adversário no Giants Stadium. Eles também arrancaram a vitória por 1 a 0, com ares de revanche, após a eliminação diante dos próprios italianos nas quartas de final do Mundial em 1990.

A marcação de Jack Charlton esteve muito mais encaixada do que o ataque de Arrigo Sacchi, com seis milanistas escalados entre os titulares. E o gol precoce ajudou a Irlanda. A equipe abriu o placar aos 11 minutos, numa linda finalização de Ray Houghton. Franco Baresi falhou na hora de fazer o corte e o meio-campista do Aston Villa dominou a bola na entrada da área. Soltou o pé e encobriu o adiantado Gianluca Pagliuca. Depois disso, prevaleceu a zaga encabeçada por Paul McGrath e Phil Babb. Roberto Baggio não viveu uma tarde inspirada e as próprias alterações da Azzurra, com as entradas de Daniele Massaro e Giuseppe Signori, surtiram pouco efeito. Além disso, a arbitragem não assinalou um pênalti para a Azzurra. Melhor para o Eire, que controlou o ritmo do jogo, viu o capitão Andy Townsend mandar no meio-campo e ainda acertou uma bola no travessão durante o segundo tempo, com John Sheridan.

A Colômbia-mania

A empolgação com a campanha da seleção colombiana era ampla e notável na cobertura do Mundial. Não à toa, após o sucesso nas Eliminatórias, a torcida cafetera invadiu os Estados Unidos. Segundo números divulgados pela Folha na época, 15 mil torcedores viajaram para acompanhar o torneio. Além disso, na estreia em Pasadena, eles poderiam ter o reforço de 40 mil colombianos que viviam no sul da Califórnia. O adereço mais comum eram as perucas loiras, clara alusão ao craque Carlos Valderrama. Os torcedores acreditavam que uma boa campanha poderia mudar a imagem do país internacionalmente, sobretudo pela força do narcotráfico naqueles anos.

A vontade de transmitir uma alegria em campo era reverberada pelo técnico Francisco Maturana. “O Brasil de antigamente ganhava e mantinha seu estilo alegre. Fez isso por muito tempo. A Argentina também. Por que não podemos fazer o mesmo? Para ganhar, não se pode renunciar ao seu estilo”, disse, à Folha de S. Paulo, botando a Seleção de 1970 como uma inspiração. “O ataque é intreinável. Não se pode treinar a fantasia. É algo que se sente, é inspiração.  A gente se diverte e tenta divertir os outros. Mas ficamos sérios quando tem que ser sério. Não vamos entrar rindo em campo”.

Uma Romênia abaixo do radar

A Romênia não era exatamente uma surpresa na Copa do Mundo. Mantinha a base do time que participou do Mundial de 1990 e possuía atletas badalados no futebol europeu. Ainda assim, os romenos ganhavam o rótulo de “azarões” no cruzamento com a Colômbia. Os jornais da época indicavam a “correria” e a “disciplina” do 4-5-1 utilizado por Anghel Iordanescu. O treinador também era mencionado por seu estilo linha-dura e pelo comportamento fechado com a imprensa, oposto do que se notava com Pacho Maturana. Nem Gheorghe Hagi era unanimidade. Recebia elogios por seu talento, em contraste às críticas por sua falta de empenho na marcação.

Romênia 3×1 Colômbia: Os destinos que se cruzaram

Os dois jogos anteriores de 18 de junho foram bastante interessantes. Apesar disso, as maiores atenções se concentravam ao Rose Bowl, onde Colômbia e Romênia se enfrentariam. Duas seleções simbólicas à Copa de 1994, embora os destinos tenham se invertido sob o sol escaldante da Califórnia. Favoritos, os Cafeteros viram o seu sonho começar a ruir naquela tarde. Enquanto isso, Hagi se agigantava como um dos craques do Mundial. E certamente foram poucos os que realmente acertaram o placar no bolão: triunfo inapelável dos romenos por 3 a 1.

A empolgação ao redor da Colômbia se notou desde os primeiros minutos em Pasadena. O time de Pacho Maturana preservava o seu estilo de toques curtos e bola no chão. Aos 12 minutos, já ouviam-se os gritos de olé da torcida nas arquibancadas. Contida na defesa, a Romênia aguardava o momento de contra-atacar. E a eficiência se traduzia na canhota afiada de Hagi. Aos 15 minutos, os romenos abriram o placar. Após uma roubada de bola, a equipe já iniciou o contragolpe. Hagi deu um lindo drible de corpo em Gabriel Gómez, deixando o meio-campista no chão. Enfiou para Florin Raducioiu, que dominou no bico da grande área. O atacante reserva do Milan fintou dois marcadores e, no arremate, tirou do alcance de Óscar Córdoba. A história se desenhava na Califórnia.

Os Cafeteros tentaram responder de imediato. Foram duas boas defesas do goleiro Bogdan Stelea, embora em um dos lances Freddy Rincón tenha bem mais culpa pelo gol perdido. O problema dos colombianos era se proteger de Hagi. Quase o camisa 10 anotou uma pintura do meio da rua, obrigando Córdoba a buscar na gaveta. Já aos 34, sem que o goleiro assimilasse o aviso, o meia balançou as redes e ampliou a diferença. Aproveitou o péssimo posicionamento do jovem arqueiro para arriscar de longe, próximo à linha lateral. Surpreendeu e encobriu o camisa 1. A Colômbia reavivou suas esperanças com Adolfo Valencia. O “Trem” descontou em uma cabeçada certeira aos 43, pouco depois de exigir novo milagre de Stelea.

O segundo tempo viu a pressa dos colombianos. O sul-americanos atacavam com velocidade e exploravam o lado direito. Faustino Aspirlla começou a chamar a responsabilidade para si, mas estava em tarde descalibrada, sem superar Stelea. Enquanto isso, a Romênia via Hagi gastar a bola com seus dribles, apesar dos detalhes que não permitiam o terceiro gol. Com a defesa romena suportando a pressão, o placar se resolveu aos 44. Após uma falta na intermediária, Hagi cobrou rápido e lançou Raducioiu. O atacante pegou a defesa cafetera totalmente aberta e deu um toque na saída de Córdoba, antes de concluir à meta escancarada. Era uma prova contundente sobre o que o time de Anghel Iordanescu ainda realizaria nos Estados Unidos.

“O excesso de individualismo de nossos jogadores contribuiu para a derrota. Mostramos falta de mobilidade no meio de campo, falta de coesão na defesa e um ataque desunido”, explicou Maturana, depois da partida. O time também pouco aproveitou as jogadas pelos lados do campo. E, grande maestro daquele esquadrão, Valderrama fez uma atuação apagada. Voltando de lesão, o camisa 10 chegou a ser dúvida para o Mundial, mas se recuperou. Titular contra os romenos, não exibiu a influência que se esperava.

Pelé, o homem de negócios

Atrelar a imagem de Pelé à Copa do Mundo de 1994 era natural. O Rei teve enorme importância à popularidade do futebol nos Estados Unidos e se tornou um personagem recorrente, não apenas pelo posto como comentarista na TV Globo. O veterano conduziu diversos outros negócios durante a competição. Contratado para participar da programação da TV Azteca, Pelé foi garoto-propaganda da Pizza Hut, da Antárctica e da Mastercard. Também investiu em luvas, populares entre os torcedores brasileiros naquele momento. Além disso, sua empresa teve direitos exclusivos de comercialização dos 4,5 mil ingressos reservados aos brasileiros para o torneio – em negócio estimado em US$35 milhões. No Brasil, o craque ainda possuía os direitos relativos à logomarca do Mundial dos EUA e ao mascote da competição, o cãozinho Striker.

Enquanto isso, na seleção brasileira…

Sem Romário, poupado após sentir dores musculares, o time titular do Brasil fez um péssimo treino às vésperas da estreia com a Rússia. O Baixinho, todavia, seguia com moral. – especialmente com as torcedoras. Segundo reportagem do Jornal do Brasil, ele recebia cerca de 250 cartas por semana, a maioria de jovens fãs declarando seu amor. Zagallo, por sua vez, falava com a imprensa e botava o Brasil no grupo de favoritos. “Se eu puder jogar bonito e eficiente, tudo bem. Mas se for preciso jogar feio para vencer, fico com isso”, declarou o assistente técnico, ao JB. Parreira orientava o time com Müller no lugar de Romário, enquanto Raí e Leonardo eram confirmados entre os titulares.

Quem também aparecia em alta era Taffarel. O goleiro recebeu duras críticas durante as Eliminatórias, assim como a reserva no Parma colocou sua posição em xeque. Empenhou-se, recuperou a forma ao se transferir à Reggiana e vinha motivado ao Mundial. “Hoje conheço tudo da carreira de jogador. Sei o lado bom e o mau. Agora vou aproveitar todos os ensinamentos para fazer uma grande Copa e ser tetracampeão”, afirmou o arqueiro. “Quando os comentários acontecem e você sabe que não é aquilo, tudo bem. Decepcionante é quando a gente vê que tudo é verdade. Eu chegava tarde nas bolas, saía errado, foi um desespero. Tanto que acertei com o Parreira de ficar treinando com a equipe na Copa América, enquanto os outros ‘estrangeiros’ saíram de férias. […] Não quero contar vantagens, é apenas a satisfação de chegar na melhor forma. Os jornais italianos sempre me deram boas notas no campeonato. No fim, elogios à vontade. Foi com toda essa bagagem de otimismo e confiança que retornei à Seleção”.