Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994. Confira o diário de 10 de julho, com a definição dos últimos classificados às semifinais, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

A Alemanha se reorganizava

A Alemanha precisou se virar com a ausência de Matthias Sammer na cabeça de área, e nem isso levou Berti Vogts a adiantar Lothar Matthäus para o meio. O capitão permanecia como líbero, enquanto Guido Buchwald ocupava a lacuna como volante. Ao seu lado, Andreas Möller e Thomas Hässler davam fluidez à faixa central. Já na frente, repetia-se a dupla que arrebentou contra a Bélgica: Jürgen Klinsmann e Rudi Völler.

A Bulgária se reguardava

A Bulgária contou com o retorno de três jogadores que estavam suspensos nas oitavas de final, embora perdesse Emil Kremenliev, expulso contra o México. Desta forma, o técnico Dimitar Penev formava uma equipe resguardada na defesa, com cinco jogadores atrás. Tudo para dar fluidez ao seu forte setor ofensivo, apostando na velocidade. Enquanto Yordan Letchkov e Krasimir Balakov se responsabilizavam pela ligação, Emil Kostadinov e Hristo Stoichkov tentavam resolver na frente. Não era uma grande campanha do time até então, limitada à vitória sobre uma despedaçada Argentina. O melhor dia seria justamente aquele 10 de julho.

Bulgária 2×1 Alemanha: A grande surpresa das quartas

A Alemanha indicava o seu crescimento na Copa do Mundo. Encontrou a formação ideal contra a Bélgica e carregava o favoritismo diante da Bulgária. De fato, faria outra atuação consistente. Mas a falta de velocidade da equipe e o cansaço de um elenco envelhecido acabaram limitando o sonho em East Rutherford. Apesar de sair em vantagem, o Nationalelf não soube administrar o resultado e viu o ataque adversário funcionar. O triunfo por 2 a 1 garantia uma das maiores surpresas daquele Mundial, com a inédita classificação búlgara às semifinais. A um time que nunca havia ganhando um jogo de Copa até 1994, a geração dourada se saía melhor que a encomenda.

Atacando com velocidade, a Bulgária ameaçou nos primeiros minutos de jogo. Bodo Illgner seria obrigado a realizar uma boa defesa, enquanto Balakov carimbou o pé da trave. A Alemanha acordou depois disso e também responderia à altura. A principal alternativa ofensiva do Nationalelf estava na movimentação de Hässler, um dos melhores jogadores do país naquele Mundial. O meia dava fluidez e criava chances. Klinsmann quase fez de peixinho, mas a bola veio em cima do goleiro Borislav Mikhailov. Depois, a zaga travaria uma batida de Möller.

O primeiro gol da Alemanha aconteceu aos três minutos do segundo tempo. Klinsmann recebeu na área e, quando tentava driblar Letchkov, se jogou – em marcação discutível do árbitro. Matthäus cobrou com segurança, apenas deslocando Mikhailov para marcar. O problema é que, aos nove minutos, o time se desestruturou. Destaque nas oitavas, o ala Martin Wagner sofreu um choque de cabeça e, após ficar desacordado, precisou ser substituído. Thomas Strunz acabou improvisado no setor, mas não rendeu tanto.

A Alemanha ainda teve um ataque ou outro no início do segundo tempo, mas sem muita precisão. Hässler voltou a aparecer, parando em defesa de Mikhailov, que salvou com uma bela ponte. Enquanto isso, a Bulgária cresceu. Balakov orquestrava o meio-campo, distribuindo o jogo e forçando a defesa alemã para trás. Faltava apenas aos búlgaros encontrarem uma brecha, sem tantas chances claras, apesar da insistência principalmente a partir das bolas paradas.

Quase a Alemanha anotou o segundo gol aos 28. Möller acertou um tiro violento na trave. O rebote sobrou no pé de Völler, que ajeitou e concluiu às redes. Corretamente, a arbitragem anulou o lance por impedimento. E a Bulgária empatou dois minutos depois, graças a uma arma recorrente na Copa: as faltas de Stoichkov. Aos, 30 atacante cobrou uma infração pelo lado direito da área. Mandou no cantinho, mesmo que à meia altura. Mal posicionado, Illgner não conseguiu chegar a tempo. A Alemanha tentou responder, mas se desligou e tomou a virada três minutos depois. A partir de um cruzamento de Zlatko Yankov, Letchkov saltou às costas do baixinho Hässler e possibilitou a vitória.

Berti Vogts ainda tentou sua última cartada com a entrada de Andreas Brehme, herói na Copa de 1990. Com o lateral, a Alemanha ganhava um jogador excelente nos passes e nos chutes de longe. Enquanto isso, Dimitar Penev sacou seus dois atacantes, Stoichkov e Kostadinov, para reforçar a zaga – em tática um tanto quanto suicida, se houvesse prorrogação. Contudo, a pressão dos alemães não deu resultado, sem forçar Mikhailov. O Nationalelf também sentiu os 35°C no Giants Stadium, em partida que começara às 12h. Os tricampeões mundiais sucumbiam, quatro anos depois de seu título na Itália. Já os búlgaros se preparariam para encarar a Itália na semifinal.

A maldição dos 21

Lothar Matthäus poderia se tornar isoladamente o jogador com mais partidas em uma Copa do Mundo, caso a Alemanha avançasse às semifinais. A eliminação conteve o líbero em 21 aparições, empatado com outros três jogadores: Uwe Seeler, Wladyslaw Zmuda e Diego Maradona. O argentino, aliás, também não arrebatou o recorde por causa do caso de doping que o tirou do torneio ainda na fase de grupos.

A homenagem a Penev

Luboslav Penev foi um dos principais responsáveis pela classificação da Bulgária à Copa do Mundo. O atacante do Valencia anotou três gols nas Eliminatórias, mas precisou se afastar do futebol no início de 1994, ao descobrir um câncer no testículo. Os companheiros dedicaram a vitória sobre a Alemanha ao amigo. Penev retomaria a carreira meses depois. Virou destaque no Atlético de Madrid campeão espanhol em 1995/96, além de ter disputado a Copa de 1998.

Com a palavra, Stoichkov

“Na hora em que ajeitei a bola para bater a falta, me lembrei que era o dia do aniversário da minha filha, Michaela. Ela está fazendo seis anos e, em questão de segundos, pensei que um gol seria uma grande lembrança para ela ter em sua vida. Aí me concentrei e chutei. Não houve nada de especial. A bola simplesmente foi direto para o gol”

Com a palavra, Matthäus

“Não me perguntem sobre aposentadoria. Esse não é um assunto digno para agora, dez minutos depois da eliminação. No segundo gol, a defesa falhou ao não marcar a chegada de Letchkov. Nos treinos e no papel, nós parecemos excelentes. Na partida, porém, relaxamos”.

Com a palavra, Dimitar Penev

“Foi a maior vitória da história do futebol búlgaro. O que anima é que nossa tendência nessa Copa tem sido melhorar a cada partida. Contra a Alemanha, tínhamos certeza de que venceríamos. Os alemães mudaram o estilo quando viram que estavam perdendo”.

Raducioiu voltava à Romênia

A Romênia contava com um reforço importante para encarar a Suécia nas quartas de final. Um dos melhores atacantes durante a fase de grupos, Florin Raducioiu retornava à equipe, após cumprir suspensão. Comandava o ataque, apoiado por Gheorghe Hagi e Ilie Dumitrescu, responsáveis por eliminar a Argentina na etapa anterior. O técnico Anghel Iordanescu baseava-se em uma equipe bem montada na defesa e que desse espaço aos seus homens de frente.

A Suécia sem o seu capitão

A Suécia, por outro lado, tinha seus problemas. O capitão Jonas Thern sentiu lesão no joelho e chegou a ter seu retorno anunciado, mas não se recuperou a tempo de encarar a Romênia. Hakan Mild era seu substituto no meio-campo, enquanto Roland Nilsson ficava com a braçadeira. No mais, as esperanças se concentravam na dupla de ataque composta por Kennet Andersson e Martin Dahlin, muito bem apoiados por Tomas Brolin.

Suécia 2×2 Romênia (5×4 nos pênaltis): Ravelli decide

Suécia e Romênia fizeram um duelo de estilos distintos em Stanford. Enquanto os suecos mantinham o seu resguardo, confiando nas bolas aéreas, os romenos apostavam bem mais na qualidade individual. Prevaleceu a igualdade. Os escandinavos conseguiram dar um passo à frente, mas a pressão dos oponentes rendeu o empate no final do segundo tempo. O equilíbrio prevaleceu também na prorrogação, com um gol para cada lado. Ao final, o 2 a 2 no placar determinou a disputa por pênaltis, na qual a Suécia se deu melhor. Thomas Ravelli defendeu duas cobranças e, nas alternadas, permitiu o triunfo por 5 a 4. Pela primeira vez em 36 anos, os suecos avançavam à semifinal de um Mundial.

A Suécia criou a primeira chance de gol, aos três minutos, quando Martin Dahlin acertou uma cabeçada na trave esquerda. Porém, o domínio dos 45 minutos iniciais foi da Romênia. Hagi tinha liberdade para flutuar e ditava o ritmo do time, a partir de seus passes. Faltava ser um pouco mais contundente. Na melhor chance criada pelo camisa 10, ele driblou dois e abriu espaço para o chute cruzado, mas acabou mandando para fora.

A linha ofensiva da Suécia funcionou melhor durante o segundo tempo. Se a ausência de Thern era sentida por sua equipe, o técnico Tommy Svensson resolveu liberar mais Brolin, o que causou problemas à Romênia. O craque forçou uma grande defesa de Florin Prunea aos 20 minutos, em chute cruzado. Pouco depois, seria a vez de Klas Ingesson ter um tento anulado por impedimento, após encobrir Prunea com uma cabeçada. Já aos 33, não teve quem barrasse o primeiro gol sueco. Em uma cobrança de falta ensaiada, Brolin esperou atrás da barreira e recebeu a enfiada de Mild dentro da área. Mesmo com pouco ângulo, encheu o pé e deixou os escandinavos em vantagem.

A situação levou a Romênia ao ataque. A equipe tentava pressionar e encontrou o gol de empate aos 43, também graças a uma cobrança de falta. O chute de Hagi desviou na barreira, mas sobrou com Raducioiu dentro da área. O atacante aproveitou o cochilo da zaga para arrematar na saída de Ravelli. A igualdade provocou a prorrogação e os romenos pareciam mais inteiros para os 30 minutos extras. Logo na primeira etapa, já conquistaram a virada. Eram mais ofensivos, até que Raducioiu desse sorte outra vez. A dividida de Dumitrescu sobrou com o companheiro de ataque, que bateu de primeira na meia-lua. Tiro rasteiro que Ravelli não alcançou.

Com um a menos após a expulsão de Stefan Schwarz, Tommy Svensson tomou uma decisão ousada, ao tirar o artilheiro Dahlin. Henrik Larsson veio do banco e ajudou a mudar a partida no segundo tempo extra. O atacante incomodou bastante a defesa romena com sua movimentação, ainda que o segundo gol tenha dependido de um erro. Roland Nilsson fez o cruzamento, Prunea saiu mal da meta e Kennet Andersson desviou de cabeça aos nove minutos. Larsson até poderia ter desempatado no fim, mas perdeu excelente oportunidade. O destino seria conhecido nos pênaltis.

Na marca da cal, brilhou a estrela de Ravelli. Mild isolou logo o primeiro chute da Suécia, mas o goleiro tratou de deixar tudo igual na quarta cobrança da Romênia, espalmando a batida de Dan Petrescu. Já na primeira série de alternadas, enquanto Larsson fez o seu, Ravelli voou no cantinho para salvar o chute forte de Miodrag Belodedici. Apesar de seus encantos, a Romênia caía mais cedo no Mundial. A Suécia, outra vez, enfrentaria o Brasil.

O herói que vendia motores

“Jogo na seleção desde 1981 e nunca tive um status tão grande quanto agora. Não acredito que agora alguém vai me criticar”, declarou Ravelli, que completou naquela tarde seu 115° jogo pela seleção. Titular do IFK Göteborg, o veterano de 34 anos tinha dois empregos, já que o futebol semi-profissional da Suécia não garantia todo o seu sustento. Concomitantemente, vendia motores eletrônicos para grandes empresas.

Com a palavra, Tommy Svensson

“Foi uma vitória da persistência. Conseguimos sempre manter a coesão tática e nunca entregar o jogo. É dessa forma que vamos enfrentar novamente o Brasil”, declarou o técnico da Suécia, Tommy Svensson, após a partida.

Branco explica o seu gol

Ainda que o assunto não tenha tomado a pauta dos holandeses após o jogo, Branco era questionado por duas irregularidades no Brasil x Holanda. O lateral segurou um holandês, em pênalti não anotado pela arbitragem, e, no lance de seu famoso gol, cometeu falta no marcador antes de sofre-la. Questionado sobre o assunto pela Folha, o veterano minimizava: “Experiência. Na briga pela bola dentro da área, a gente não pode ir no macio. Ali é uma guerra. Todo mundo empurra todo mundo. Já no lance antes do gol, eu realmente mandei meu braço em cima do holandês para me livrar dele. E me livrei”.

O lateral também confessou que valorizou um bocado na hora de cavar a falta que permitiu o seu tento: “Senti que dava para correr para o meio da área, com o holandês me perseguindo. Tratei de proteger a bola, sabendo que ele faria a falta. Não deu outra. Eu caí, fiquei rolando, aos berros, na esperança de que o juiz expulsasse o cara. Não colou. Quando olhei para o relógio, pensei comigo mesmo: ‘Tenho que botar essa lá dentro'”.

Parreira se tranquiliza com vitória da Suécia

O Brasil havia feito sua pior apresentação na Copa do Mundo até aquele momento contra a Suécia, no fechamento da fase de grupos. Ainda assim, Carlos Alberto Parreira comemorou o confronto com os escandinavos nas semifinais: “Vamos enfrentar um time que já conhecemos, que tem uma jogada batida, rebatida, batidíssima: o jogo pelo alto. Temos que tomar cuidado, porque é pelo alto e nos contra-ataques que eles podem vencer”.

Márcio Santos, chamuscado contra a Holanda

A maior preocupação do Brasil após a vitória sobre a Holanda era sobre a postura de Márcio Santos. O zagueiro se saiu mal em Dallas. Não fez o corte diante de Dennis Bergkamp no primeiro tento dos holandeses e errou várias saídas simples, reavivando os adversários na partida. Ainda em campo, segundo relato da Folha, tomou broncas de Taffarel, Aldair, Jorginho, Mauro Silva e Dunga. Precisava acordar ao compromisso seguinte, em que teria a missão de marcar Kennet Andersson. “Houve acomodação e relaxamento, por isso erramos”, avaliou.

Cruyff analisa o Brasil 3×2 Holanda

“A trajetória da Holanda neste Mundial acabou justamente no momento de seu melhor futebol. No instante que a seleção holandesa se atreveu a pôr em prática tudo aquilo que sabe fazer, chegou a eliminação pelas mãos do Brasil. Seguramente, não há outra seleção que tenha a qualidade futebolística capaz de fazer dois gols nos brasileiros e mantê-los encurralados em seu campo, deixando os canarinhos quase sem capacidade de reação. Cair fora do Mundial jogando um futebol de alto nível e sendo derrotado pelo Brasil não é demérito algum, mas eu gostaria de saber por que a Holanda teve que esperar dois gols para decidir-se a aplicar o futebol ofensivo que todo mundo sabe que ela é capaz de praticar”, escreveu Johan Cruyff, em sua coluna na Folha. “Foi, sem dúvidas, o melhor jogo da Copa, futebolisticamente falando. Pela primeira vez neste Mundial, duas equipes mostraram qualidade técnica suficiente para reinventar o futebol em cada jogada”.

Telê Santana analisa o Brasil 3×2 Holanda

“Foi a melhor partida da Copa até agora. Mais importante: foi a melhor partida realizada pelo Brasil. Pode-se dizer tudo desta Seleção, menos que ela não luta, não se empenha, não tem coração. Muito do que temos feito até aqui deve-se ao entusiasmo dos jogadores. A Holanda também jogou muito bem. Valorizou a vitória brasileira. É uma seleção técnica, que teve força para reagir depois dos 2 a 0. Nesse ponto, devo começar a dizer que jogamos bem, conquistamos boa vitória, já estamos na semifinal, mas não tivemos a grande atuação que aguardamos. Desta vez, não foi bem a defesa”, escreveu Telê, em sua coluna na Folha.