O Grupo C foi um dos mais insossos da Copa de 1994. Tinha Alemanha e Espanha, que traziam muitas pompas ao seu redor, mas pouco produziram durante os primeiros três jogos. Encontraram dificuldades até mesmo para derrotar dois azarões claros, Coreia do Sul e Bolívia. Os sul-coreanos, aliás, eram os únicos que mereciam algum elogio. Deram trabalho aos favoritos, apesar de falharem justamente no confronto com os bolivianos. Individualmente, ao menos, a chave trazia seus destaques. Jürgen Klinsmann assumiu a artilharia do Mundial com quatro gols, enquanto José Luis Caminero era o protagonista da Fúria.

Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994, 25 anos depois. Confira o diário deste 27 de junho, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

Matthäus, líbero ou meio-campista?

Quando liderou a Alemanha Ocidental na conquista da Copa de 1990, Lothar Matthäus atuava no meio-campo. Fazia um trabalho similar ao da Internazionale, onde atravessava ótima fase. Dava combate na faixa central, mas também possuía liberdade para avançar, rotineiramente pisando na área para concluir. Quatro anos depois, o que se via era outro Matthäus, transformado no Bayern. Era um líbero ainda com firmeza, que coordenava o jogo a partir da defesa. Nos bávaros, a cobertura funcionava bem em suas subidas. Na seleção, não tanto. E o esquema gerou questionamentos a Berti Vögts, diante de sua insistência em mantê-lo. Apesar de tudo, o camisa 10 o treinador: “Gosto da posição, já me acostumei e me sinto bem como líbero. Minha primeira função é organizar a defesa, só então auxiliar o meio-campo”.

A postura de Matthäus era bem diferente de outros companheiros. Após duas atuações mornas da Alemanha na Copa do Mundo, diferentes veteranos foram aos microfones reclamar das decisões de Berti Vögts. Após a estreia, Thomas Berthold e Andreas Brehme fizeram críticas às escolhas do treinador. Já depois da segunda partida, seria vez de Jürgen Klinsmann e Andreas Möller realizarem seus questionamentos. Apesar do respaldo aos campeões do mundo em 1990, o ambiente não era dos mais favoráveis, com muitos bradando mais por reputação do que propriamente por momento.

Rummenigge e a metralhadora de besteira

Segundo nota do Jornal do Brasil, a empreitada de Karl-Heinz Rummenigge como comentarista na TV alemã vinha sendo um fracasso. Contratado por uma rede pública, o ex-atacante era alvo de críticas. “Seus inimigos que trabalham nos jornais da Alemanha juram que Rummenigge tropeça na gramática e não consegue falar direito. Os torcedores também estão insatisfeitos com suas opiniões”, escrevia o relato. A carreira como dirigente seria bem mais promissora ao velho craque.

Alemanha 3×2 Coreia do Sul: Por pouco a Alemanha não derrete

A Copa do Mundo de 1994 sofreu com o calor escaldante dos Estados Unidos. E poucos jogos foram tão influenciados pela temperatura do que Alemanha x Coreia do Sul. O duelo aconteceu às 15h em Dallas, sob sufocante máxima de 48°C. Os alemães anotaram três gols durante o primeiro tempo, mesmo vendo os oponentes tomarem a iniciativa. Contudo, o preparo físico dos sul-coreanos se mostrou bem melhor e eles quase arrancaram o empate. Ao final, a vitória por 3 a 2 confirmou a Alemanha na liderança do Grupo C, mas levou o técnico Berti Vögts a admitir que sua equipe “teve sorte” por não sofrer o tropeço. Nas arquibancadas do Cotton Bowl, 24 pessoas precisaram ser atendidas por sentirem os efeitos do calor e quatro foram levadas ao hospital.

Contando com o retorno de Guido Buchwald após se recuperar de lesão e recolocando Karl-Heinz Riedle no ataque, a Alemanha precisou de 19 minutos para encaminhar o resultado. O primeiro gol saiu aos 11. Thomas Hässler avançou pela direita e rolou para Klinsmann, genial em sua conclusão. De costas para a meta, o craque dominou já levantando a bola e, no giro, acertou um lindo chute sem deixar cair. Já aos 19, Buchwald carimbou a trave e Riedle marcou no rebote. A Coreia do Sul assustava e abria buracos na defesa alemã, mas pecava demais nas conclusões. Foram duas boas defesas de Bodo Illgner, além de dois chutes para fora na pequena área. O Nationalelf, do outro lado, buscava os contragolpes. Já aos 36, Klinsmann anotou mais um. Mesmo pressionado pela marcação, arrematou e contou com a colaboração do goleiro Choi In-young, que deixou a bola passar entre suas mãos. Os germânicos não podiam reclamar da sorte, afinal. Enquanto o capitão sul-coreano destoava, Bodo Illgner teve sua pele salva por Jürgen Kohler, que evitou um frango do camisa 1 ao salvar em cima da linha.

Choi seria substituído no intervalo por Lee Woon-jae, que iniciava sua imensa carreira com a seleção sul-coreana. E, sem a permissividade do novo goleiro, o segundo tempo da Alemanha foi desastroso. Com o calor derretendo o time, os defensores exibiam extremas dificuldades em acompanhar os adversários e cederam o resultado. O primeiro gol da Coreia do Sul veio logo aos sete minutos. Matthäus escorregou, Hwang Sun-hong escapou e deu um toquezinho para encobrir Illgner. Já aos 18, Hong Myung-bo aproveitou uma sobra e chutou de longe, contando com o desvio, ainda que Illgner pudesse fazer melhor. Os asiáticos se animaram e pressionaram pelo empate na meia hora restante, tocando bem a bola, mas não tiveram sucesso nas conclusões. Chegaram a reclamar de um pênalti que o juiz não deu, enquanto Illgner se redimiu com algumas boas defesas. A torcida texana vaiou os alemães nos minutos finais.

Com a palavra, Klinsmann

Artilheiro da Copa àquela altura, com quatro gols, Klinsmann questionava as condições do jogo em Dallas. “O calor nos abateu. No segundo tempo, não conseguíamos mais correr. Por que jogar nesse calor? Para os europeus assistirem aos jogos em horário nobre?”, apontou. Único destaque individual do Nationalelf, o atacante sentiu câimbras e cólicas durante o embate.

Os bruxos bolivianos contra a arbitragem

Em meio às superstições que rondam a Copa do Mundo, surgiu a história de que “bruxos bolivianos” teriam realizado um ritual para amarrar as pernas dos alemães na estreia. A tática não deu muito certo, a Bolívia se complicou depois das primeiras rodadas e os feiticeiros encontraram um culpado para a ineficácia de suas magias: a arbitragem. Eles chegaram a redigir um documento oficial, declarando que “a Fifa pediu aos juízes que prejudicassem a seleção boliviana”. A expulsão de Marco Etcheverry sugeria outra coisa.

Espanha 3×1 Bolívia: Um show de Caminero

A Espanha começou a Copa do Mundo com atuações pragmáticas. O duelo contra uma desfalcada Bolívia era a melhor chance de se reerguer. O técnico Javier Clemente promoveu o retorno de Julen Guerrero ao time titular, barrando Luis Enrique, assim como tirou um zagueiro e botou um meia, com a substituição de Fernando Hierro por Felipe Miñambres. Já La Verde perdia Luis Cristaldo e Julio César Baldivieso, se juntando a Marco Etcheverry entre os suspensos. Neste cenário favorável, a Fúria finalmente conquistou seu primeiro triunfo no Mundial e carimbou a classificação. Aproveitou o talento de José Luis Caminero e anotou 3 a 1 em Chicago.

Quase aconteceu uma surpresa no Soldier Field. Logo nos primeiros minutos, William Ramallo arriscou de longe e carimbou o travessão. Buscando o jogo aéreo, a Espanha controlou a situação e abriu o placar aos 19. Contou com um pênalti bastante discutível a seu favor, aliás. Miñambres subiu para cabecear e mergulhou na área, em lance no qual o árbitro viu a infração. Pep Guardiola converteu. A Fúria não faria muito no ataque até o intervalo, ainda que a Bolívia se limitasse aos chutes de longe. Foram 45 minutos fracos tecnicamente. A chave aos espanhóis veio no intervalo, quando Clemente resolveu recolocar Hierro e tirou Miñambres. Com isso, Caminero ganhou liberdade para se aproximar da área. E gastou a bola.

Caminero se combinava principalmente pela direita, com Ion Andoni Goikoetxea, mas o companheiro perdeu boas chances. O ídolo do Atlético de Madrid ainda acertaria uma bola na trave, até abrir o placar aos 21. Caiu pela esquerda e, diante da ótima jogada do lateral Sergi, chutou na saída do goleiro Carlos Truco, mesmo com pouco ângulo. A Bolívia descontou no minuto seguinte. Erwin Sánchez finalizou de fora da área e a bola desviou na marcação, enganando Andoni Zubizarreta. Era o primeiro gol boliviano na história dos Mundiais. Só que o terceiro tento espanhol já saiu aos 25, de novo com Caminero. Guardiola deu um lançamento magistral e o meia foi ainda mais feliz na conclusão, matando no peito antes de dar um arremate sutil. No final, o técnico Xabier Azkargorta reforçou o seu ataque e tentou sufocar, mas La Verde desperdiçou as oportunidades. Na melhor delas, Zubizarreta saiu estabanado e Ramallo estava com a meta aberta à sua frente, mas chutou para fora.

Como ficou o Grupo C

A Alemanha não convenceu muita gente, mas passou em primeiro mesmo assim, com sete pontos. A Espanha foi ainda pior e fez cinco, em segundo. A Coreia do Sul se despediu com dois pontos, mas um futebol digno. Deu trabalho às potências, apesar dos erros pontuais. Já a Bolívia fez apenas um ponto, longe de aproveitar da melhor maneira sua geração de ouro.

Enquanto isso, na seleção brasileira…

Na véspera do jogo contra a Suécia, Carlos Alberto Parreira adotou um discurso receoso. “Ficar em segundo lugar no nosso grupo não é um mau negócio”, dizia. “O empate contra a Suécia pode ser um bom, já ficamos em primeiro. Mas há um preconceito cultural no Brasil sobre armar um resultado e eu não saberia dizer para o time apenas empatar”. O treinador também prometia manter a escalação do jogo contra Camarões, para dar mais sequência aos jogadores.

O maior foco de tensão não estava no campo, e sim nos bastidores. Os jogadores davam sinais de insatisfação com o regime de concentração e vigilância, bem como a proibição das esposas em seus quartos. Parreira, então, convocou uma reunião para ouvi-los, com a presença de Ricardo Teixeira e de Mustafá Contursi, chefe de delegação. Raí e Jorginho foram os porta-vozes do elenco, reclamando da comida e do aparato de segurança no hotel. O treinador pediu para que “contivessem a revolta”, já que o esquema de segurança era algo imposto pelo Comitê Organizador da Copa. “É normal o time estar cansado, a pressão é enorme. Tento manter o nível de concentração e paciência dos jogadores. Temos que evitar que o tédio e o cansaço sejam nossos inimigos”, afirmou Parreira, à Folha de S. Paulo.

Outra pauta na imprensa antes do jogo contra a Suécia era o Estádio Pontiac Silverdome, o único coberto do Mundial. “É lógico que é melhor jogar sem o efeito direto do sol. O desgaste e a perda de líquido durante o jogo será menor. Assim, os atletas ficam com mais energia. O que importa é estar bem preparado fisicamente. O nosso time está bem. Neste caso, se o estádio tem uma temperatura menor que o normal, nós estaremos em melhores condições de aproveitá-lo”, avaliava o preparador físico Moraci Sant’Ana, à Folha.

Já no Jornal do Brasil, Taffarel falava sobre a maneira como a defesa contribuía ao seu trabalho, pouquíssimo testado nos dois primeiros jogos: “Não há problema em aparecer pouco. Isso é bom. Primeiro é um sinal de que a marcação está muito boa, a bola pouco chega na nossa área. Além disso, um goleiro só é muito exigido quando seu time está sendo muito sufocado. E a possibilidade de haver uma falha do goleiro é maior do que quando ele pega poucas bolas”.