O 26 de junho guardou o início da terceira rodada da fase de grupos da Copa de 1994. E confirmou aquilo que todos aguardavam, depois de duas derrotas: a Colômbia estava fora do Mundial. Cotada como favorita, se afundou em seus erros e viu o triunfo sobre a Suíça no último compromisso se transformar em inútil alívio. O time de Pacho Maturana se despedia. Também naquela data, a Romênia se recuperou e alinhou os Estados Unidos no caminho do Brasil. Já a Bulgária também ergueu a cabeça, mesmo sem apresentar muita coisa.

Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994, 25 anos depois. Confira o diário deste 26 de junho, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

Bora, o Mestre Yoda do US Team

Alexi Lalas costumava comparar o jeito de Bora Milutinovic com o de Mestre Yoda. As frases do treinador nem sempre eram inteligíveis, mas na maioria das vezes transmitiam sua sabedoria e seu estilo motivador. Algo que o iugoslavo ressaltou em entrevista à Folha de S. Paulo: “Isso aqui não é um trabalho para mim. É um prazer. Frases como ‘Carpe Diem’ [em alta após o sucesso do filme Sociedade dos Poetas Mortos e escrita no vestiário durante o intervalo do jogo contra a Colômbia] servem para fortalecer o espírito de equipe. Gosto muito de compartilhar com os garotos esse espírito e ser sincero. Talvez por isso tenha dado resultados tão bons”.

O comandante ainda destacava a disciplina como virtude dos Estados Unidos, que surpreendia com suas boas apresentações nas primeiras rodadas: “É muito fácil falar que um time é o pior do mundo, mas no futebol podem acontecer coisas que ninguém imagina. O que importa é que o time faz no campo. As pessoas perguntam sobre nosso segredo, mas trabalho as coisas que para mim são normais. Minha relação com os jogadores é uma das coisas mais importantes. Disciplina faz parte da nossa equipe, mas só isso não ganha jogo. Temos outras virtudes. Jogamos muito bem taticamente, sabemos ocupar o campo, tocar a bola”.

Marcelo Balboa rasgava elogios ao técnico na véspera do duelo contra a Romênia: “Diziam para nós que era impossível vencer a Colômbia. Nós vencemos. Todos diziam que era impossível irmos para a segunda fase da Copa e já estamos quase lá. O mundo vai ter que aprender que nós sabemos jogar futebol. Bora é incrível. Ele nos deu confiança e descobriu um jeito de jogar que funciona”.

Cruyff, contra a empolgação

Em sua coluna na Folha, Johan Cruyff se mostrava contrário a comprar jogadores em meio à empolgação causada pela Copa do Mundo: “Depois de ver a primeira partida de todas as equipes, todos concordaram em destacar Hagi como um dos jogadores mais brilhantes. Mas qual é o Hagi verdadeiro? O da partida contra a Colômbia? O que jogou no Real Madrid? Ou o que atualmente joga no Brescia. Provavelmente, este último seja o verdadeiro Hagi. O seu jogo, partida a partida, semana a semana, não deve ser o que exibiu frente à Colômbia. Senão, não estaria jogando no modesto Brescia. O Mundial não é o melhor lugar para se negociar um jogador. Até atreveria a afirmar que é o pior lugar para se contratar jogadores. Em alguns casos, a margem de erro é mínima, mas são casos muito específicos”. Curiosamente, Hagi assinou com o Barcelona após o Mundial. Segundo o presidente Joan Gaspart, era recomendado por Cruyff, então técnico dos blaugranas. Chegava para substituir Michael Laudrup. Não emplacou no Camp Nou, entrando em conflito com o comandante.

Olho em Tab Ramos

Líder defensivo da Romênia, Miodrag Belodedici afirmava que a chave para uma vitória de sua equipe sobre os Estados Unidos seria a marcação em cima de Tab Ramos, habilidoso meia americano: “Ele é quem organiza todas as jogadas da equipe. Acredito que, se conseguirmos anulá-lo, o trabalho ficará facilitado. Não podemos nos preocupar em marcar apenas um jogador. Marcaremos por zona, como estamos fazendo em todos os jogos”.

Romênia 1×0 Estados Unidos: No caminho do Brasil

A Romênia tinha a obrigação no Rose Bowl. A derrota contra os Estados Unidos poderia ser fatal e a equipe buscava ao menos um empate para seguir no torneio. Entretanto, naquele momento já se sabia que o terceiro colocado do Grupo A corria o risco de pegar o Brasil nas oitavas. A vitória era bem-vinda para evitar o cruzamento mais duro. Após a goleada sofrida contra a Suíça, o técnico Anghel Iordanescu realizou apenas duas mudanças na escalação, mas uma delas foi no gol, trocando Bogdan Stelea por Florin Prunea. Já os EUA, com a vaga nas mãos, mantinham o 11 inicial que bateu a Colômbia. Só que não deu certo desta vez, com o encaixe do jogo romeno e o triunfo por 1 a 0.

Os Estados Unidos começaram mandando no jogo. Com apenas dez minutos, criaram duas chances perigosíssimas. John Harkes carimbou a trave, enquanto Eric Wynalda mandou para fora uma cabeçada. Porém, o duelo mudaria aos 17 minutos. Após troca de passes, Dan Petrescu recebeu na direita. Quase sem ângulo, o lateral finalizou e Tony Meola aceitou, deixando o canto aberto. Seria o gol da vitória. Os americanos sentiram o baque, com a Romênia fechando muito bem os espaços na defesa. Os romenos poderiam ter ampliado, com Meola salvando uma bola nos pés de Gheorghe Popescu. A resposta do US Team viria apenas pouco antes do intervalo, graças a uma falha de Prunea, mas Belodedici bloqueou o chute de Lalas.

Para o segundo tempo, os Estados Unidos voltaram com uma postura mais ofensiva e finalizaram mais. Já a Romênia jogava no erro dos adversários e ainda incomodou, a partir da maestria de Hagi. Raducioiu chegou a sair de frente com Meola no primeiro minuto, mas bateu por cima da meta. De qualquer maneira, o empate americano parecia mais provável diante da postura dos anfitriões. Nos minutos finais, Ernie Stewart ameaçou em uma cabeçada, enquanto Prunea salvou a tentativa de Harkes. Faltou mais qualidade ao US Team nas conclusões. Ao apito final, os romenos celebraram a liderança.

Colômbia se agarrava à mínima esperança

Com chances remotas de classificação, a Colômbia precisava de uma combinação de resultados para se garantir. Tinha que vencer a Suíça, torcer por uma derrota da Romênia e ainda secar os outros cinco grupos para avançar entre os melhores terceiros colocados. E o desânimo era evidente nas palavras de Carlos Valderrama: “Nunca jogamos tão mal. Ou era o ataque ou era a defesa que jogavam mal, nunca os dois juntos, e assim nada se salvou. Tudo deu errado. O conjunto depende de todos. E não fui o único que não estive bem nos primeiros jogos”. O meia também falou sobre as ameaças de morte à família de Barrabás Gómez: “Não fui ameaçado diretamente, mas esse tipo de coisa acaba atingindo todo o grupo”.

Colômbia 2×0 Suíça: Tarde demais

A principal novidade na escalação da Colômbia era o retorno de Adolfo Valencia ao ataque. O “Tren” havia anotado os dois gols do time no Mundial, mesmo barrado para a utilização de Antony de Ávila contra os Estados Unidos. Já a Suíça repetiu a formação que goleou a Romênia, com todos os seus destaques. Pois o time de Roy Hodgson teve que engolir a seco a derrota por 2 a 0, com os Cafeteros voltando a apresentar seu melhor futebol. O toque de bola e as jogadas ensaiadas funcionaram. Só que o triunfo se tornou insuficiente para salvar os colombianos. Estavam eliminados mesmo assim.

O roteiro dos outros jogos se repetiu: a Colômbia tinha a iniciativa, dominando a posse. Seguiu criando muitas chances de gol. E também desperdiçando muitas. Mas, desta vez, o meio-campo fazia uma apresentação segura sob a tutela da dupla formada por Valderrama e Leonel Álvarez. Valencia mostrou seu cartão de visitas com um chute forte que passou por cima, aos nove minutos. Logo depois, o goleiro Marco Pascolo parou Freddy Rincón. O arqueiro faria outro milagre diante do Tren, em batida no alto. Antes dos 20 minutos, a arbitragem ainda anulou corretamente um gol de Rincón. Mas também errou aos montes, parando um lance em vantagem e negando um pênalti aos sul-americanos, bem como ao não ver uma cotovelada de Valderrama em Ciriaco Sforza, que deveria ter rendido o cartão vermelho ao camisa 10.

Diante da pressão, a persistência colombiana foi recompensada aos 44. Valderrama cobrou falta em direção à área e o volante Hernán Gavíria completou de cabeça, contando com a falha de Pascolo. Os Cafeteros tiravam um peso das costas antes do intervalo. Apesar da vitória parcial da Romênia em Pasadena, a torcida colombiana mantinha sua animação em Stanford. Era maioria entre os 83 mil presentes, mesmo que o sonho estivesse próximo do fim. Durante o segundo tempo, os Cafeteros trataram de administrar a situação, rodando a bola atrás e explorando a velocidade de seus atacantes. Já a Suíça não demonstrava grande inventividade para romper a defesa adversária, apressada em finalizar. Por fim, o placar se complementou aos 43. Numa rara jogada pela ponta, John Harold Lozano, que saíra do banco, tabelou com Faustino Asprilla e invadiu a área. O meia entortou o marcador com sua ginga e finalizou rasteiro, botando um ponto final à participação do país na Copa.

A decepção com a Colômbia naquele Mundial se concentra mais nas expectativas quebradas do que exatamente no que o time apresentou. Não foi uma Colômbia tão diferente do que se vira contra a Argentina nas Eliminatórias, de atacantes possantes, mas manejo lento da bola. O ponto é que, diferentemente do que ocorreu em Núñez, a eficiência nas conclusões esteve muito aquém de um aproveitamento satisfatório.  Além do mais, os erros na defesa foram frequentes. Se em volume de jogo e em chances criadas os Cafeteros foram bem, o ajuste fino explicava o desastre do time de Pacho Maturana, pouco concentrado em seu trabalho.

Como acabou o Grupo A

A Romênia, na liderança, tinha seis pontos. A Suíça ficou com o segundo lugar, com quatro pontos e vantagem no saldo de gols. Já os Estados Unidos, com os mesmos quatro pontos, ainda dependiam de sua confirmação como um dos melhores terceiros colocados. A Colômbia, eliminada, somou três pontos.

Bulgária também com problemas

Não era só Camarões que teve problemas com o pagamento de sua premiação na Copa de 94. A Bulgária passou pelo mesmo entrave. O capitão Borislav Mihaylov foi a público dizer que a federação não cumpriu o prometido em relação à classificação ao Mundial. Segundo o goleiro, a oferta era de US$60 mil, mas apenas US$16 mil havia sido depositados. Além disso, o veterano criticou a preparação física, apontando como uma das razões para a derrota contra a Nigéria na estreia. “Não estamos prontos para a Copa”, sentenciou.

Bulgária 4×0 Grécia: Uma goleada mentirosa

A Bulgária chegou à Copa do Mundo respaldada por sua campanha nas Eliminatórias e também pela presença de Hristo Stoichkov, um dos melhores atacantes do mundo naquele momento. Não correspondeu de início, com a derrota para a Nigéria por 3 a 0. Ainda assim, o técnico Dimitar Penev manteve o time praticamente inalterado para encarar a Grécia no fechamento da segunda rodada, em Chicago. Confiança correspondida com uma goleada por 4 a 0, que expunha os gregos como o time mais fraco daquele Mundial.

Apesar do placar elástico, a Bulgária não apresentou um futebol exuberante como o da Argentina. O primeiro tempo ficou mais marcado pelos erros da arbitragem. Aos cinco minutos, o emiratense Ali Bujsaim marcou um pênalti inexistente aos búlgaros, que Stoichkov converteu. A Grécia até buscou tomar a iniciativa, mas não tinha qualidade técnica para resolver as jogadas. E foi prejudicada outra vez, em lance no qual Stoichkov deveria ter sido expulso, ao pisar na barriga de Spiros Marangos e cuspir no meio-campista. O apitador não viu. A única chance dos búlgaros de ampliar o placar antes do intervalo aconteceu a partir de uma falha do goleiro Elias Atmatsidis, mas Ioannis Kalitzakis salvou o chute de Trifon Ivanov em cima da linha.

Somente no segundo tempo é que o placar se dilatou. Stoichkov fez mais um de pênalti aos 10 minutos. Aos 20, na jogada mais bem trabalhada, Yordan Letchkov arrancou, tabelou e tocou na saída do goleiro. Os gregos seguiam tentando, mas desperdiçaram um bom número de oportunidades. E o quarto gol veio já nos acréscimos. Stoichkov bateu falta, Atmatsidis espalmou e Daniel Borimirov aproveitou o rebote. Exceto por Stoichkov, ainda não era uma exibição convincente dos búlgaros nos Estados Unidos.

Com a palavra, Maradona

Após a vitória sobre a Nigéria, Diego Maradona falou sobre os seus sentimentos no Mundial ao Jornal do Brasil: “Estar em campo, com meus companheiros, meus amigos, me faz sentir feliz. E quando estou feliz, tenho vontade de jogar futebol. Por isso, agradeço à Argentina e ao povo argentino por ter podido voltar a jogar futebol. Somente os argentinos sabem o que isso significa para mim. Agradeço também à minha família, que sempre confiou em mim. Os torcedores dos outros países não entendem minha emoção na comemoração contra a Grécia. Isso me deu arrepio… O gol era importante para mim e para a equipe. Quando olhei para trás e vi todos pulando, me emocionei muito. Há tempos não sentia isso. Depois de anos com tantos problemas, foi como voltar a viver. Jogamos com alegria. Como um time de rua. A gente se joga e festeja, porque nosso futebol é uma festa”.

O US Team já pensava no Brasil

Àquela altura, com a terceira colocação, os Estados Unidos sabiam: se avançassem, ou pegariam o Brasil ou a Alemanha. “É como alguém pedir para eu escolher: você prefere pular de uma ponte ou de um prédio? Mas, falando sério, a temperatura em San Francisco não é tão alta quanto em Chicago e nosso time funciona melhor contra adversários latinos”, afirmou Tab Ramos, que antes da possibilidade tinha dito torcer para o Brasil na luta pelo título. Já John Harkes declarou: “Se quisermos mostrar ao mundo que sabemos jogar futebol, é bom jogar logo com o melhor time do mundo. Seria a prova de fogo pegar o Brasil”.

Enquanto isso, na seleção brasileira…

Carlos Alberto Parreira também se antecipava e analisava o possível encontro com os Estados Unidos:”A seleção americana seria um adversário difícil, porque não tem vergonha de jogar como time pequeno. Por isso tornam a partida mais complicada para quem ataca muito, como nós. O apoio da torcida também não pode ser desprezado, especialmente por causa da data”. O encontro estava marcado para 4 de julho, dia da independência americana.

Parreira também se rendia ao futebol exuberante da Argentina: “A vantagem é que Simeone e Redondo são fortes na marcação e, quando o time vai à frente, se destacam também pela habilidade. Simeone e Redondo completam com Maradona um grupo capaz de levar a Argentina à final. O time tem técnica e força. Com Batistuta e Caniggia na frente, a Argentina não tem problemas. Foi assim que liquidou a Nigéria. Pelo que tenho observado, devemos nos encontrar na final. Estamos aqui para ser tetracampeões. Como escolher adversário?”.

Mais uma vez assunto em Los Gatos, o retorno de Ricardo Rocha ao time ficava distante. O zagueiro voltara a sentir dores. Além disso, Parreira elogiou Aldair e Márcio Santos, titulares durante a vitória sobre Camarões: “Eles foram muito, muito bem. Ficando fora de dois jogos, Ricardo perde ritmo. Se Aldair e Márcio jogam bem, entram num ritmo bom, por que eu mudaria a zaga? O retorno de Ricardo fica difícil”.

Esperando o confronto com a Suécia, Taffarel brincava com Thomas Brolin, seu amigo nos tempos de Parma: “Quero ver se aquele cabeçudo consegue marcar, como anda falando. Ele brinca bastante com o gol que fez na Copa de 90. Eu sempre dizia a ele: ‘Cuidado para não pegar o Brasil pela frente, pois vocês não terão chance’. É um jogador muito frio e técnico, que sempre olha o goleiro antes de chutar. E mantém a concentração o tempo todo. Fora de campo é muito brincalhão. Mas dentro é superútil, pois não fica só na frente, ajuda o meio a marcar”.