Há exatamente 364 dias, esta Trivela publicava um texto sobre o título do Corinthians no Campeonato Brasileiro de 1998 – no qual dizia que, mesmo com todas as brigas internas e complicações na campanha, tudo acabara bem, com a conquista na Série A. Tal texto terminava assim: “Em 1999, seria protagonista de novo. De maneira até mais brilhante e mais fácil do que em 1998. Mas aí, já é conversa para ser relembrada daqui a um ano”. Pois bem: chegou a hora de relembrar como o clube do Parque São Jorge repetiu a dose no Brasileiro de 1999, no que é considerado por muitos o melhor time da história corintiana. E de fato, a dose foi repetida, com o Alvinegro mostrando do começo ao fim do campeonato que era o melhor time do Brasil naquele ano.

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A parceria com o Banco Excel (àquela altura, BBVA, após ser vendido para o espanhol Bilbao Vizcaya) já ficara no passado. Mas deixaria uma consequência dolorosa para o torcedor corintiano: o passe de Gamarra não era do clube, mas do banco. O Corinthians não podia nem pensar em fazer uma oferta que comprasse o zagueiro sem dilapidar o já frágil cofre. Restou curti-lo no Campeonato Paulista de 1999, até que o Atlético de Madrid oferecesse o que o BBVA queria, vendendo Gamarra no meio do ano, antes do Brasileiro, e encerrando a passagem daquele que, para muitos, é o maior zagueiro da história alvinegra – e que mantém, até hoje, relação cordial com o clube (vale lembrar: Gamarra estava no Pacaembu, na final da Libertadores de 2012).

Mas era o único motivo de lamentação no Parque São Jorge. Se uma parceria acabara, outra começara – podia ter sido o banco Icatu, cogitado em janeiro, mas foi mesmo o fundo de investimentos norte-americano Hicks, Muse, Tate & Furst que passou a turbinar o caixa alvinegro. Com isso, grande parte dos destaques de 1998 estava mantida: Vampeta, Rincón, Marcelinho, Edílson. Ainda coadjuvante no ano anterior, Ricardinho crescia de produção e de importância no time titular. E o Corinthians garantiu um título paulista no primeiro semestre daquele 1999, pelo menos. Sim, teve problemas:  a queda para o arquirrival Palmeiras, nas quartas de final da Copa Libertadores da América naquele ano, foi obviamente dolorosa. Houve ainda a eliminação na Copa do Brasil (para o futuro campeão Juventude) e a passagem de Evaristo de Macedo como técnico foi tão rápida quanto turbulenta e esquecível. Mas se sabia: o Corinthians seguia forte, candidato aos títulos. E ficaria até mais forte no Brasileiro.

Não bastassem os supracitados destaques, não bastasse o comando de Oswaldo de Oliveira, conseguindo minorar a ardente fogueira de vaidades, o poderio financeiro da parceria com a Hicks Muse possibilitou “matar formigas” (ou seja, corrigir problemas do time) com “tiros de canhão” (ou seja, reforços acima de qualquer suspeita). Ao lado do veloz e habilidoso Edílson, era necessário um homem-gol, já que Didi e Mirandinha irritavam a torcida em 1998? Pois de La Coruña veio um dos bons: Luizão, repatriado do Deportivo.

Outro símbolo da imposição que a HMTF dava ao Corinthians para o Brasileiro viria para o gol. Titular na conquista de 1998, Nei caíra em desgraça após as falhas e rebotes contra o Palmeiras, na Libertadores – e Maurício, embora calmo, experiente e querido pelos colegas de grupo, não dava muita confiança à torcida. Então, se Dida enfrentava problemas na transferência do Cruzeiro para o Milan, via Lugano-SUI, por quê não buscá-lo? Pronto: por empréstimo, o arqueiro baiano chegava ao Parque São Jorge justamente na fase em que era um dos melhores do mundo, titular absoluto da Seleção Brasileira de então.

A única desconfiança quanto ao nível dos reforços ia para a defesa. Nas laterais, César Prates chegava para a direita, Augusto vinha para a esquerda tentando suceder Silvinho, que fora para o Arsenal após o Paulista, mas o tempo os faria disputar – e perder – a posição. No miolo de zaga, já se sabia que a ausência de Gamarra seria praticamente insuperável e insanável. E isso não mudou nem mesmo com o reforço promissor que veio: João Carlos, adversário na final de 1998 pelo Cruzeiro, chegava credenciado como titular da Seleção Brasileira na conquista da Copa América de 1999, mas era aposta para o futuro. Nenê, vindo durante o Paulista, tivera algumas atuações elogiáveis. Havia ainda o zagueiro Luciano, que começara no Grêmio e viria do Standard Liège belga. Mas nenhum deles – nem Márcio Costa, que seguiria – dava a impressão de segurança que a torcida se acostumara a sentir com o paraguaio.

Finalmente, a base corintiana, amparada pelo título da Copa São Paulo em 1999, trazia nomes capazes de ajudar em vários setores: Índio e Kléber nas laterais – direita e esquerda, respectivamente -, Edu (agora Gaspar) como volante, Fernando Baiano e Ewerthon no ataque.

Com uma ponta de maldade, era possível dizer: a defesa daria trabalho, mas o ataque compensaria para o Corinthians, que já começava favorito ao bicampeonato em 1999. Foi exatamente o que aconteceu na primeira partida, em 26 de julho, no Mané Garrincha, contra um Gama que estreava na Série A. O Verdão começou ameaçando uma tremenda surpresa: fez 2 a 0 em casa, com a dupla de ataque Alexandre Gaúcho-Romualdo. Mas Luizão já começou a “se pagar ali”. No primeiro tempo, o paulista de Rubineia fez os gols de empate; na reta final do jogo, Luizão marcou mais dois. Corinthians 4 a 2, quatro do atacante. Começava ali um grande campeonato dele – e do time.

Afinal de contas, se em 1998 foram nove rodadas de invencibilidade, em 1999 seriam sete vitórias do Corinthians nas sete primeiras rodadas da fase de classificação. Umas mais fáceis: 4 a 1 no Botafogo-SP, 4 a 2 no Botafogo-RJ, 5 a 1 no Vitória (com um belo gol de Vampeta). Outras mais árduas, como no primeiro clássico da fase de classificação – 1 a 0 no São Paulo, com Ricardinho fazendo o gol do desafogo no segundo tempo. Se a sequência invicta de 1998 tivera empates, daquela vez os triunfos levavam o Corinthians a abrir uma vantagem valiosa na liderança da primeira fase. Liderança que ele manteria de ponta a ponta das 22 rodadas em 1999.

Liderança mantida mesmo com os percalços que vieram a partir da 8ª rodada, com a primeira derrota – 2 a 1 para o Flamengo, em pleno Pacaembu, numa grande atuação de Romário (e um pênalti perdido de Luizão). Viriam outras pequenas manchas naquela campanha corintiana: a goleada sofrida para o Palmeiras (4 a 1 no Morumbi, num grande dia do atacante Pena e numa péssima jornada de Augusto, que ali perdeu a titularidade na lateral esquerda para o jovem Kléber), uma decepcionante queda para o Vasco (um movimentado 4 a 2, em grande noite de Edmundo), perda de dois mandos de campo exatamente por invasão do gramado do Pacaembu contra o Vasco, uma goleada sofrida para o Atlético Mineiro (4 a 0, em jogo mandado no Maracanã, cumprindo a punição citada – no outro jogo, também mandado no Maracanã, vitória: 4 a 2 no Internacional).

Mas o Corinthians seguia sólido, seguia líder. Sempre que necessário, mostrava ótimas atuações – destaque para dois triunfos por 3 a 1, contra Cruzeiro e Santos, quando o Corinthians fez o que quis contra esses adversários, mesmo fora de casa. Os pontos fracos do time eram aprimorados: na lateral direita, por exemplo, César Prates cedia cada vez mais espaço ao jovem Índio. Mesmo com a Seleção Brasileira tirando alguns jogadores nas convocações – por exemplo, Dida e Vampeta, titulares absolutos da equipe que Vanderlei Luxemburgo treinava -, os solavancos eram controlados: numa vitória sobre o Paraná Clube (1 a 0), Maurício e Marcos Senna foram bem como substitutos dos supracitados, que no mesmo dia jogavam amistoso pelo Brasil, contra a Holanda – no 2 a 2 em Amsterdã, Dida pegou pênalti cobrado por Patrick Kluivert, e a torcida corintiana urrou no Pacaembu.

E o Corinthians encerrou a fase de classificação com um 3 a 2 no Coritiba, chegando aos mata-matas justificando o favoritismo de antes do campeonato começar: com Marcelinho Carioca vivendo uma grande fase na carreira, com Edílson mantendo a velocidade, com Luizão fazendo o que dele se esperava (ou seja, gols – disputando a artilharia daquela Série A com Guilherme, do Atlético-MG), com um meio-campo de que os corintianos sempre terão saudades (Vampeta, Rincón, Marcelinho e Ricardinho). Sim, havia discussões internas: Edílson, Marcelinho Carioca, Rincón… sempre havia brigas, e até os corintianos sabiam disso. Mas todas elas ficavam do lado de fora do gramado.

Como em 1998, o mata-mata era disputado das quartas de final à final, com “melhor de três” se um time não vencesse os dois primeiros jogos. E foi assim que o Corinthians se viu diante do Guarani, com Gilson Batata como destaque – além dos novatos Edu Dracena e Marinho na zaga. A classificação teve lá suas dificuldades: um tenso 0 a 0 no Brinco de Ouro, uma vitória por 2 a 0 que teve polêmicas no Morumbi (Fernando Baiano foi contestado pela torcida, e Oswaldo de Oliveira saiu em defesa do atacante) e, no tira-teima, empate em 1 a 1, e a vaga era alvinegra, pela vantagem do empate. Mas houvera dificuldades: Marcinho abrira o placar para o Bugre, Luizão empatara… e Dida pegara um pênalti, de Marcelo Souza. Era só o primeiro do guarda-metas baiano de Irará naquele mata-mata.

Porque viriam as semifinais para o Corinthians. E se clássicos já são nitroglicerínicos por si só, o São Paulo x Corinthians que definiria uma vaga na final do Brasileiro o seria ainda mais. E somente a partida de ida no Morumbi já ficaria para sempre no inconsciente de cada corintiano: as alternâncias de resultado (o Corinthians fazia gol, o São Paulo ia atrás e empatava), a postura destemida do Tricolor (tendo Rogério Ceni, Marcelinho Paraíba, França e, acima de todos, Raí como destaques) valorizando o 3 a 2 corintiano… e acima de tudo, os dois pênaltis que Dida pegou de Raí naquela tarde-noite empolgante de 28 de novembro de 1999 no Morumbi. Dida foi tão monumental que os torcedores nem notaram sua saída – na tentativa de aproveitar o rebote do segundo pênalti, aos 90′, as travas da chuteira de Raí arranharam seu joelho, fazendo-o gritar de dor. Maurício entrou, e colocou sua nota de rodapé naquela vitória: nos acréscimos do segundo tempo, fez grande defesa em chute de Souza.

Diante da emoção da ida, o 2 a 1 da volta pareceu até “menor”. Mas só “pareceu”: afinal de contas, já com duas vitórias, o Corinthians voltava à final do Campeonato Brasileiro. Mais do que isso: ali a equipe consolidava o tamanho daquele momento, dentro de campo, na história do clube da Rua São Jorge. Um momento tão grande, de tanta técnica, que nem mesmo um valente São Paulo – contando com Raí, velho carrasco corintiano – conseguira frear.

E o adversário na final também teria a mesma coragem. E o mesmo talento para buscar segurar o Corinthians. Também anabolizado por vitória em clássico no mata-mata – eliminara o Cruzeiro nas quartas de final -, o Atlético Mineiro superara o Vitória nas semifinais. Tinha vários bons nomes naquele campeonato: Velloso e Cláudio Caçapa na defesa, Belletti e Robert no meio-campo e, simbolizando aquela campanha, a dupla Marques-Guilherme – principalmente o último, que superaria Luizão na disputa pela artilharia do Brasileiro.

Pois na primeira partida da final, com um Mineirão abarrotado, Guilherme abriu o placar com 40 segundos, fez três gols, quase igualou o recorde de gols num só Brasileiro que Edmundo estabelecera em 1997 (o atacante seria artilheiro do torneio com 28 gols) e deixou o Atlético Mineiro na rota da vitória naquela partida – até aproveitando a fragilidade do miolo de zaga corintiano, e a lesão muscular de Rincón naquele jogo. Mas o Corinthians sempre tinha, entre seus titulares, quem pudesse diminuir as dificuldades. Foi o que Vampeta fez, no primeiro tempo, diminuindo a vantagem do Galo. Foi o que Luizão fez no segundo tempo, diminuindo para um 3 a 2 reversível no Morumbi. Os atleticanos seriam campeões em caso de vitória no Morumbi, mas o ambiente corintiano era de confiança plena: aquela fora a única falha.

E Luizão novamente mostrou o tamanho de seu protagonismo no segundo jogo, marcando os dois gols do 2 a 0 da equipe paulistaAntes deles, os atleticanos ganharam motivos para reclamar: uma bola na mão de Índio, dentro da área, no primeiro tempo, que Márcio Rezende de Freitas deixara seguir. Mas o Corinthians vencera. E tinha a vantagem do empate para a decisão em 22 de dezembro de 1999 – que seria à tarde, mas foi transferido para a noite, por decreto do então prefeito paulistano Celso Pitta, alegando que uma final de campeonato tornaria inviável o já árduo trânsito da capital paulista, em fim de ano.

Veio o jogo. Que simbolizou, de certa forma, o que o Corinthians viveu naquele campeonato. Houve tensões e temores – como no segundo tempo, quando Robert cruzou, Márcio Costa “espirrou o taco” ao tentar afastar, e Dida espalmou evitando o gol do Atlético. Mas o Corinthians sempre trazia perigo – como na bola que Marcelinho mandou ao travessão, de falta, no primeiro tempo. O jogo ficou no 0 a 0. E ficou claro: por mais que o Atlético Mineiro, o São Paulo ou qualquer outro clube tentasse (e tentaram: a delegação atleticana foi recebida calorosamente pela torcida, no aeroporto de Confins, após a final), na fase de classificação ou no mata-mata, por mais que a panela de pressão interna já desse sutis sinais de desgaste (que explodiriam com força ao longo de 2000), o Corinthians se mostrara francamente superior naquele Campeonato Brasileiro. Como todos imaginavam que seria. Quem disse que mata-mata sempre é imprevisível?

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