Um toque na bola. Um toque e a bola parece receber um manual de instruções. Um toque e ela segue uma trajetória teleguiada. Um toque e apenas desenhos complexos conseguem esquematizar o que ocorreu, quando a olho nu o cérebro tem dificuldades para captar todos os detalhes do movimento. É necessário ver e rever. Perceber a mudança na trajetória da esfera, o desvio com a parte interna do pé esquerdo, a reação do zagueiro. Sobretudo, o movimento do corpo de Dennis Bergkamp, em um giro friamente calculado, com total noção do espaço e do tempo. A consciência plena do que aconteceu, do que acontece e do que vai acontecer, tudo aglutinado em frações de segundos. Quem assiste ao lance tem dificuldades em reparar no que estava milimetricamente traçado na mente privilegiada do gênio. E então, de frente para o goleiro, com uma tranquilidade imensa, o gol. O gol antológico. O epítome do craque que tantas obras de arte. Irreplicável.

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Não é possível definir o gol de Bergkamp – e se faz preciso. A jogada indescritível não deve ser catalogada entre lances repetidos à exaustão, ainda que raros. Há bicicletas, há escorpiões, há chutaços. Há “aquele gol do Bergkamp contra o Newcastle”. Apontar apenas uma de suas nuances seria limitá-lo. O domínio, que virou drible, que virou passe para ele mesmo, que deixou o zagueiro perdido, que terminou nas redes. Qualquer rótulo não dimensiona o que realmente aconteceu. Só vendo. E revendo. E revendo. E revendo.

Para entender a construção daquele gol, é primordial mergulhar na mente de Bergkamp. Uma tentativa de compreender a linha de raciocínio daquele menino que cresceu batendo bola nas ruas de Amsterdã, moldando-se como um dos atacantes mais técnicos de todos os tempos. “Durante a maior parte do tempo, eu ficava sozinho, apenas chutando a bola contra a parede, observando como ela quicava, como ela voltava, controlando tudo. Eu achava isso muito interessante. Tentava de diferentes maneiras: primeiro com um pé, depois com outro, com a parte interna do pé, com a esterna, com os cadarços… criava uma espécie de ritmo, acelerando e retardando o lance. Algumas vezes, eu mirava certo tijolo. Pé esquerdo, pé direito, fazendo a bola girar. E de novo, e de novo… Muito tempo depois, você poderia me dar um passe no jogo e eu olharia para o passado, sabendo o que fazer. Mas, como um menino, só estava chutando a bola contra a parede. Não pensava no passe. Você apenas curte a mecânica disso, o prazer de fazer isso. Eu não era obcecado. Eu estava apenas intrigado sobre como a bola se mexe, como o giro acontece, o que é possível fazer para domá-la”, conta o holandês, em sua autobiografia, ‘Calma e velocidade’.

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O virtuosismo de Bergkamp atingiu um novo patamar a partir dos 12 anos, quando ingressou nas categorias de base do Ajax. E, na melhor escola da Holanda, pôde aprender com outros gênios. Dividiu o campo com Marco van Basten. Sobretudo, contou com a orientação de Johan Cruyff, seu treinador nas primeiras temporadas como profissional. “Por tudo o que ele sabe e ensina, é uma benção dos céus para os jovens tê-lo como treinador. Ele nos permitia fazer coisas em campo que outros técnicos, por causa da pressão, nunca deixariam. Ele fazia o que pensava que fosse certo. Mais do que isso, ele tinha o formidável mérito de ir contra a corrente. Quando todo mundo trabalhava a defesa, Johan assumia os riscos para um futebol espetacular”, contou, ao livro ‘The Real Arsenal’. O mestre ensinava que o simples sempre era o melhor. O simples que, aos olhos dos outros, tantas vezes parece sofisticado.

Bergkamp se firmou como um fenômeno no Ajax, mesmo depois da saída de Cruyff. Teve uma passagem de altos e baixos pela Internazionale. Até se transferir ao Arsenal. Até transformar o que se entendia por futebol em Highbury. Que Arsène Wenger tenha assumido o comando, não se pode negar o que a mente de Bergkamp agregou aos Gunners. Um profissional que sempre perseguiu o perfeccionismo, elogiado por se empenhar a cada lance nos treinos, por não se contentar com o que não fosse o máximo. Mais do que isso, ele revolucionou conceitos. Os próprios companheiros admitem que o holandês foi o responsável por um “renascimento estilístico”, como aponta Amy Lawrence, autora do livro ‘Invincible’: “Ele tocava a primeira nota da orquestra. Ele começava, o resto respondia. Ele criou uma nova identidade, elevou o padrão, incorporou o ideal holandês de futebol total (técnico, inventivo, coletivo). A partir de sua chegada, tudo começou a florescer, e efetivamente tornaram o solo em sinfonia”.

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Bergkamp conquistou a Premier League pela primeira vez com o Arsenal em 1997/98. Naquele mesmo ano, ofereceu à Copa do Mundo uma peça incontestável de sua genialidade e do raciocínio único. O gol contra a Argentina, de certa maneira, serviu como prévia do que aconteceria quatro anos mais tarde, em St. James Park. Era o atacante pensando em uma velocidade absurda em cada detalhe, para produzir um gol no ápice de sua perfeição. Depois disso, anotou outros tantos golaços pelo Arsenal. Três dias antes da visita ao Newcastle, havia assinado outra pintura pela Liga dos Campeões, contra o Bayer Leverkusen. Girou para cima da marcação, limpou o caminho e deu um belíssimo toque por cobertura da entrada da área. Um mero aperitivo para a antologia, em 2 de março de 2002.

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Vale ressaltar que, mais do que um gol fabuloso, aquele gol contra o Newcastle foi um gol importante. Um gol decisivo para a conquista da Premier League 2001/02. O Arsenal aparecia na terceira colocação e perseguia o Manchester United, então líder da competição. A viagem ao nordeste da Inglaterra era a chance de igualar os Red Devils no topo da tabela. Ainda que o Newcastle fosse um desafio deveras indigesto, justamente o segundo colocado. O time treinado por Sir Bobby Robson havia vencido o confronto pelo primeiro turno, três meses antes, por 3 a 1 em Highbury. Além disso, menos de uma semana depois, também seria o desafio nas quartas de final da Copa da Inglaterra. E trazia um elenco de respeito, protagonizado por Alan Shearer, mas que também contava com destaques do porte de Shay Given, Gary Speed, Laurent Robert.

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Bergkamp carregava sobre as costas as principais expectativas do Arsenal naquela partida. Arsène Wenger precisou lidar com diversos desfalques, incluindo Thierry Henry. Quanto mais cedo o holandês tirasse o seu coelho da cartola, melhor. E ele não demorou para dar um nó no espaço-tempo. Para descobrir uma nova dimensão em plena entrada da área do Newcastle. Aos 11 minutos, Patrick Vieira roubou a bola. Passou para Robert Pirès na ponta esquerda. O meia avançou. Então, abriu-se o vórtice no pé esquerdo de Bergkamp. Ou, segundo suas próprias palavras, em sua autobiografia:

“Eu queria o passe de Pirès no meu pé, mas ele veio atrás de mim. Não era o que eu esperava, então pensei: preciso de uma outra ideia aqui. Eu sabia que o zagueiro estava se aproximando e a velocidade da bola poderia me ajudar. Nove metros antes que a bola chegasse, eu tomei minha decisão: eu irei girar em torno dele. Você sabe onde o zagueiro estará e que seus joelhos ficarão um pouco flexionados, e assim ele terá dificuldades para se virar. A ideia era apenas desviar a bola e ver o que aconteceria. O movimento inteiro foi milimetricamente perfeito”.

Como se fosse simples assim.

A bola, limpa, terminou com o chute chapado na saída de Shay Given. Estufou as redes. Na comemoração, os punhos cerrados, com a satisfação de quem havia atingido o seu objetivo, a perfeição. Não havia o que derrubasse o Arsenal naquele momento. Antes do intervalo, Sol Campbell sacramentou a vitória por 2 a 0. A partir de então, os Gunners assumiram a vice-liderança e decolaram na temporada.

O Newcastle voltaria a ser derrotado no replay das quartas de final da Copa da Inglaterra, que acabou conquistada pelo time de Arsène Wenger, superando o Chelsea na decisão. Já na Premier League, ninguém mais foi capaz de conter os londrinos. A equipe emendou 10 vitórias consecutivas depois da visita ao St. James’ Park. Assumiu a ponta três rodadas depois e, em maio, derrotou o Manchester United, dizimando as esperanças de um tetracampeonato inglês em Old Trafford. O Arsenal terminou a campanha sete pontos à frente do Liverpool, o vice-campeão.

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Bergkamp desfrutou mais quatro temporadas em Highbury. Fez parte dos Invincibles e ergueu outras cinco taças. Virou estátua bem em frente ao Emirates – em escultura inspirada em um domínio de bola contra o mesmo Newcastle, em 2003. Talvez porque não fosse possível reproduzir, com tanta fidelidade, o lance daquele gol. Até hoje, o brilhantismo daquele domínio/drible não se mede. O único a se aproximar é Nikos Dabizas, o zagueiro envolto pelo sublime: “Muitas pessoas vêm falar comigo desde aquele jogo. Elas pensam que eu tenho vergonha, que fico chateado… De jeito nenhum! Vou falar para vocês: Eu tenho muito orgulho. Eu fui parte de um trabalho de arte. Porque esse movimento é uma obra de arte de verdade. Ela foi feita por um gênio. Eu entrarei na história por isso”.