130 anos de Manuel Bandeira: O texto em que o poeta homenageou os campeões mundiais de 1958

Cronista do Jornal do Brasil na época do título, Bandeira falou sobre o feito do Brasil na Copa

Poucos escritores se fizeram tão influentes à literatura brasileira quanto Manuel Bandeira. Um dos ícones do Modernismo, o pernambucano se consagrou com um estilo solto e despojado, tratando de assuntos do cotidiano. Serviu de referência a tantos outros que o seguiram. Libertinagem, de 1930, tornou-se o seu livro mais celebrado. E, dez anos depois, em 1940, o autor ganhou o reconhecimento ao ser admitido na Academia Brasileira de Letras.

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A poesia compõe a parte mais reconhecida da obra de Bandeira. No entanto, o escritor também emprestava o seu talento à prosa. Como cronista, assinou uma coluna no Jornal do Brasil. Entre tantos assuntos cotidianos, também falou de futebol. O recifense radicado no Rio de Janeiro desde a juventude não era dos mais fanáticos pelo esporte – dizia-se torcedor do Flamengo “porque acho o nome bonito e porque é o clube de Zelins”, em referência ao amigo José Lins do Rego. Contudo, como tantos outros brasileiros, deixou se contagiar pela conquista da Copa de 1958. Bandeira acompanhou até mesmo os festejos nas ruas da capital durante a recepção aos campeões. Veria ainda o bicampeonato quatro anos depois, falecendo em 1968.

Abaixo, o texto que Bandeira escreveu para homenagear o primeiro título do Brasil no Mundial. Uma lembrança no dia em que o escritor completaria 130 anos:

Gol!

Gol! Gol do Brasil! Uma jogada espetacular do Brasil!

Isto é para falar na linguagem sensacionalista dos locutores de rádio (esses homens são de fato extraordinários e sabem criar o suspense que pode provocar o enfarte). Por todo o dia e toda a noite de domingo para segunda-feira fiquei com aquelas vozes no ouvido, aquelas vozes e o eco dos estouros de bombas, que a gente não sabia mais se eram em homenagem aos campeões ou a São Pedro.

Afinal, o Brasil arrebata o cobiçado título depois de tantos fracassos memoráveis. Não sei se esta apagada e vil tristeza em que viemos vivendo há tantos lustros não correria por conta do completo de inferioridade de nossos patrícios pela frustração da máxima aspiração brasileira, que foi ser o Brasil o “maior” em futebol.

Também eu participei do delírio coletivo e desde o começo do campeonato fiquei chumbado ao meu rádio a escutar as partidas dos brasileiros. Passei por momentos de grande emoção nos matches com os ingleses, com os galeses, com os suecos. Com os austríacos, com os russos e com os franceses a emoção foi menor, embora na verdade o que eu fazia mais questão era primeiro que sovássemos os russos para que eles não ganhassem o campeonato e não fossem atribuir a vitória ao regime político soviético.

Ainda mais do que a vitória, me encantou o comportamento dos nossos craques, desta vez irrepreensível e merecendo esta coisa inefável – os carinhos das louras menininhas da Suécia. Em matéria de futebol o que mais me doeu nestes lustros de fracassos foram aquelas palavras do comentarista inglês, que, a propósito do nosso sururu com os húngaros em 1954, nos chamou de “uma malta de negróides histéricos”. Espero que o enfatuado ariano ainda esteja vivo para morrer de despeito diante de nossa classe. Porque, não resta a menor dúvida, desta vez ganhamos na “classe”.

Só uma coisa veio empanar o brilho da nossa representação: o gesto daquele membro da delegação brasileira, abraçando com palmadinhas nas costas o rei sueco. Felizmente não foi o chefe, não foi o Feola, não foi nenhum dos jogadores. Todos estes se conduziram sempre como grandes esportistas e impecáveis cavalheiros. Merecem os presentes, o entusiasmo, a alegria com que iremos recebê-los (estou escrevendo na radiosa manhã de segunda-feira e repetindo os belos versos de Ronald de Carvalho: “Nesta hora de sol puro… ouço o canto enorme do Brasil!”).