“Lara, o craque imortal,
Soube o seu nome elevar
Hoje, com o mesmo ideal,
Nós saberemos te honrar”.

Quando Lupicínio Rodrigues compôs o hino do Grêmio, em 1953, os tricolores já tinham atravessado meio século de paixão. Experimentaram tantas glórias e também decepções, em devoção que tomava diversos cantos de Porto Alegre. E contavam com seu panteão de ídolos. Um deles, impossível de ser ignorado nos versos daquela que se tornaria a canção-símbolo do clube. Eurico Lara era o maior craque a vestir a camisa gremista até então. O goleiro espetacular que defendeu a meta por 15 anos, para conquistar 16 títulos. O último deles, já com a saúde debilitada, dando ao Grêmio o triunfo no histórico Campeonato Farroupilha de 1935, dois meses antes de falecer.

Diante da ocasião dos 120 anos do nascimento de Lara, nesta terça, resgatamos texto publicado em novembro de 2015 sobre a trajetória do ídolo tricolor. Como diz aquele título, “o melhor goleiro que a Seleção não teve”. Lenda bastante exaltada pelos gremistas, mas que também deveria ser reconhecida em outros cantos do país.

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Dizia-se que o vencedor do campeonato porto-alegrense de 1935 se eternizaria pelos próximos 100 anos. Afinal, aquele torneio citadino tinha um valor especial: consagraria o campeão em meio aos festejos pelo centenário da Revolução Farroupilha, evento que parara o Rio Grande do Sul. E a final trazia justamente um Gre-Nal de proporções enormes. Um clássico para ser contado e recontado por décadas. Dono da melhor campanha, o Inter tinha a vantagem do empate. O que fez o principal craque gremista cometer uma loucura. Aos 38 anos, o goleiro Eurico Lara sofria com tuberculose e insuficiência cardíaca. Mesmo vetado pelos médicos, disputou a decisão.

Lara não aguentou em campo além do intervalo, deixando o campo com fortes dores no peito. Mesmo assim, segurou o empate por 0 a 0 no primeiro tempo, apesar da pressão colorada. E foi fundamental para a conquista do Grêmio. Na etapa complementar, Foguinho e Lacy fizeram os gols na vitória por 2 a 0, que deu aos tricolores o título de campeão farroupilha. Para, assim como já se tornara praxe nos anos anteriores, Lara ser carregado nos braços por sua torcida fanática. A última glória de um goleiro lendário.

Em 6 de novembro de 1935, menos de dois meses depois, Eurico Lara faleceu. A decisão do Campeonato Farroupilha serviu como o emblemático último ato de uma carreira gloriosa no Grêmio, com o qual conquistou 16 títulos a partir de 1920. Seu enterro reuniu mais de 30 mil pessoas nas ruas de Porto Alegre, com tributos prestados por tricolores e também colorados. Seu nome acabaria eternizado para sempre pela genialidade de Lupicínio Rodrigues, que versou sobre o “goleiro imortal” no hino gremista.

Ver o talento Lara foi um privilégio quase que exclusivo dos gaúchos. Goleiro arrojado, fazia defesas incomuns para os seus pares da época, acumulando milagres. O Grêmio o descobriu em Uruguaiana, em um time que “nunca perdia quando titular estava em campo”. Comprovou a fama e resolveu contratar Lara, que, a princípio, não queria deixar sua cidade natal. Entretanto, por meio de um influente militar gremista, o jovem foi transferido para um quartel de Porto Alegre. Na capital, não recusaria o Tricolor outra vez. E, conciliando a farda com as chuteiras, se tornou um dos maiores ídolos da história do Grêmio. Mais do que isso, uma referência do futebol no Rio Grande do Sul.

Até a sua morte, em 1935, Lara era o único jogador a ter disputado todas as partidas da seleção gaúcha. Era reconhecido em outros cantos do país desde 1922, graças a um duelo contra os paulistas no Parque Antarctica. Apesar da derrota por 4 a 2, o goleiro fechou a meta e operou 20 defesas, diante da fome de gols de Friedenreich. Voltou para casa como herói, mas nunca teve o gosto de defender a seleção brasileira. Em tempos nos quais as convocações eram fechadas apenas entre Rio de Janeiro e São Paulo, diante das limitações de transporte, o Rio Grande do Sul atravessou 17 anos sem ter um jogador em campo pela equipe nacional – de Alvarizza, em 1920, a Cardeal, em 1937. Justamente ao longo do auge de Lara no Grêmio.

Não é a ausência da Seleção, porém, que tira a importância de Lara. Os colorados sabem respeitar o adversário duríssimo que tiveram ao longo de uma década e meia. E os gremistas veneram aquele que poucos ainda vivos viram, mas que a maioria considera como o maior goleiro que já defendeu o clube. Lara se manteve fiel às raízes e às tradições, entregou-se de corpo e alma na batalha. O título farroupilha de 1935 não poderia ter maior símbolo.

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