João Saldanha apareceu no Galeão de cadeira de rodas. Tinha 72 anos, quase 73, e a saúde havia adquirido o mau hábito de deixá-lo na mão. Consequência dos cigarros que compuseram a sua imagem pública desde que jogava bola no time de praia do Posto 4, desde que foi técnico do Botafogo e da seleção brasileira, militante do Partido Comunista e um dos comentaristas esportivos mais famosos do Brasil no século passado. João Saldanha simplesmente não conseguia mais respirar direito. Havia passado por internações e o ar lhe faltava tão frequentemente quanto ele costumava puxar o fumo para os pulmões.

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Mesmo assim, João Saldanha apareceu no Galeão. Do seu ponto de vista, era o que tinha que fazer, o que queria fazer, e João sempre fez o que achava que tinha que fazer. Treinou a Seleção entre os militares contra os quais batalhava, barrou Pelé, discutiu publicamente com um ditador-general para não convocar quem não queria convocar e entrou nas instalações de pelo menos dois clubes grandes do Rio de Janeiro com arma na mão para tirar satisfação. Nem sempre dava para aplaudir ou aprovar o que ele achava que tinha que fazer ou queria fazer, como ficou bem claro. Mas ele não dava a mínima. Nunca se intimidou, nem temeu. Nem na guerrilha, nem na militância, nem no futebol. Era o João Sem Medo.

E o João Sem Medo não temeria algo tão banal e certo quanto a morte. Sabia que, se fosse para a Itália trabalhar na Copa do Mundo de 1990, dificilmente retornaria. Mas queria ir. Gostava do ambiente das grandes competições internacionais e aquela certamente seria a última. Contrariou todos os conselhos para estar no aeroporto, naquele dia, com uma passagem paga do próprio bolso porque a TV Manchete postergou a compra até receber o sinal verde da família e dos médicos. Os filhos eventualmente se resignaram e permitiram que ele fosse, sabendo que provavelmente nunca mais o veriam. Ninguém nunca conseguiu realmente segurá-lo.

Os médicos diziam que ele tinha três meses de vida, período que seria encurtado pelos desgastes de uma viagem internacional. Morrer no Brasil ou morrer na Itália, qual a grande diferença? Uma vez inevitável, o fim poderia muito bem vir enquanto João fazia o que mais gostava. Passou diversas dificuldades, às vezes não conseguia sair do seu quarto de hotel, mas escreveu sua coluna todos os dias e comentou as partidas que deveria comentar até a semifinal entre Argentina e Itália, em 3 de julho de 1990, seu aniversário. Foi a última vez que aquela voz tão popular foi transmitida para o Brasil carregando sua sabedoria sobre futebol.

João Saldanha encarou o último inimigo, o próprio pulmão, de maneira honrosa até 12 de julho daquele ano, quando sua cabeça recebeu um merecido descanso depois de funcionar incessantemente por 73 anos, quando seu coração do tamanho de um latifúndio parou de bater, quando sua vida com mil facetas e mil histórias, algumas verdadeiras, algumas lendárias, chegou ao fim. Morreu no campo de batalha. Morreu na Copa do Mundo.

As feras do Saldanha

Não foi com ausência de surpresa, e até mesmo de certa confusão, que o mundo do futebol brasileiro recebeu a notícia de que a missão de classificar a Seleção para a Copa de 1970 era, agora, de João Saldanha. O homem designado pela CBD, percussora da CBF, para chefiar o projeto era Antônio do Passo, que foi ao apartamento de João, em fevereiro de 1969, para fazer o convite. A resposta foi simples e sem rodeios: eu topo!

João mentia que foi o terceiro convite que recebeu para treinar a seleção brasileira. Segundo ele, em texto para Revista Placar, de março de 1970, foi o quinto. “Eu disse à imprensa que já tinha sido convidado três vezes. Mentira: fui convidado cinco vezes, em 1958, 1966, 1967, 1968 e 1969. Aceitei porque achava que daria uma dimensão maior à luta que sempre travei na imprensa. Topei sabendo que ia brigar contra a inveja, a calúnia, a perfídia. Sabia que ia me aborrecer muito. Que ia lutar contra tudo”, escreveu.

A resposta ao quinto convite, ou ao terceiro convite, ou ao primeiro convite – é sempre difícil saber com João Saldanha -, foi simples, mas a situação era um pouco mais complicada.

Saldanha era comunista registrado, de carteirinha, fichado no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) desde 1947 e um crítico verborrágico da ditadura militar que governava o Brasil. A mesma ditadura militar que queria usar o Mundial como propaganda do regime e era apoiada por João Havelange, presidente da CBD, possuidor do talento incomparável de sempre estar aliado ao poder, o que seria estendido aos seus mandatos à frente da Fifa. E de repente, o cargo mais público, senão o mais importante, do futebol brasileiro era de Saldanha.

Saldanha comentando com o cigarrinho na mão
Saldanha comentando com o cigarrinho na mão

Por que Havelange tomou essa decisão? Diz que deu a Antônio do Passo a autonomia de fazer a escolha que quisesse, sem a sua interferência. Mas vamos fingir que não temos cinco anos de idade para comprar essa versão e tentar aprofundar um pouco a história. Uma possibilidade era a velha tática de anular um inimigo: Saldanha não poderia criticar a CBD se fosse empregado da CBD – teoricamente. E nem a imprensa criticaria com tanta veemência as escolhas de um dos seus, como analisou Armando Nogueira, em sua coluna Na Grande Área, no Jornal do Brasil, segundo o livro Quem Derrubou João Saldanha:

“É fora de dúvida que o presidente Havelange deu uma de Getúlio Vargas; enquanto as rodas do futebol discutiam sobre Aymoré Moreira e Zagallo (antecessores de Saldanha), ele convidava para o comando técnico da Seleção um terceiro nome, absolutamente virgem de fofocas, de pressões e igualmente competente para a missão. Mas o toque getuliano não fica nisso apenas, pois a escolha de João Saldanha é um pouco também uma forma de transferir para um dos poderes do futebol – a imprensa – uma cota de responsabilidade na campanha de 1970. A imprensa, convém notar, vinha crucificando a CBD há seis meses com o fogo cerrado de críticas pelo excesso de planos e escassez de time. E, na vanguarda dos protestos, dia e noite, João Saldanha, sem dúvida o comentarista de maior repercussão no futebol brasileiro. Qual a saída de João Havelange a essa altura? A imprensa fez o diagnóstico, ela que nos dê a receita de cura e salvação do escrete”.

Outra era usar a sua popularidade de escudo em um momento complicado da seleção brasileira, ainda lambendo as feridas da campanha trágica na Copa de 1966. Saldanha era um oráculo, o comentarista favorito do país. Tinha a tática de identificar nas arquibancadas do Maracanã um torcedor que o estava ouvindo e fingia que conversava diretamente com ele, olho no olho, como se não estivesse em uma cabine de imprensa, mas em um dos botecos de Copacabana, ali na região da Miguel Lemos com a Barata Ribeiro. Falava a língua do povo, sem termos rebuscados e tinha uma didática impressionante. Seria uma escolha quase unânime, o que é engraçado porque ele não era exatamente um treinador de futebol.

Para começar, João Saldanha não foi jogador profissional de futebol, experiência quase obrigatória para virar treinador naquela época. Afirma que atuou no juvenil do Botafogo, mas seus grandes feitos vieram nas areias. Era o meia-direita do time do Posto 4, treinado por Neném Prancha. Sergio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, era um dos goleiros. O time tinha outro cronista famoso, Sandro Moreyra, e frequentemente recebia o reforço de Heleno de Freitas.

No futebol profissional “gramático”, como diria Vicente Matheus, ex-presidente do Corinthians, João Saldanha entrou para o departamento de futebol do Botafogo, seu clube de coração, em meados da década de cinquenta e assumiu a equipe principal em 1957, depois da saída do ex-jogador Geninho, cuja renovação de contrato havia chegado a um impasse monetário de três contos de réis. Saldanha deveria apenas quebrar um galho por alguns meses, mas gostou da brincadeira e ficou por dois anos.

Até porque era um time bom de treinar. Tinha Nilton Santos, Didi, Paulinho Valentim e Quarentinha, além de Mané Garrincha. Chegou à partida decisiva do Carioca de 1957 um ponto atrás do Fluminense, que tinha a vantagem do empate, e comandou uma atuação primorosa do Botafogo: 6 a 2 contra o time de Telê Santana e Castilho, com cinco gols de Valentim. Não conseguiu repetir o feito nos dois anos seguintes, em meio a intermináveis excursões para o exterior em busca de uma graninha e, cansado da rotina e de brigar com dirigentes de futebol, pediu demissão, em 1959, para começar a sua nova carreira.

Rapidamente, Saldanha abraçou todas as mídias que estavam à disposição. Passou a comentar no rádio, a escrever no Última Hora e se tornou titular da Grande Revista Esportiva Facit, da TV Rio, o embrião das mesas redondas de debates sobre futebol que se tornaram tão naturais quanto a novela e o telejornal na televisão brasileira. Sentava-se ao lado de nomes como Luiz Mendes, José Maria Scassa, Vitorino Vieira, Nelson Rodrigues e Armando Nogueira, em discussões de proporções épicas. A carreira de treinador de futebol havia sido trocada pela de comunicador. Até o “topo” para Antônio do Passo.

Saldanha ao lado de Nelson Rodrigues na Resenha Fácit
Saldanha ao lado de Nelson Rodrigues na Resenha Fácit

O ditado não diz que o Brasil é um país com 150 ou 200 milhões de técnicos de futebol, dependendo da demografia da época? E que cada um tem uma seleção brasileira diferente? João Saldanha tinha a dele e escalou quase imediatamente depois de ser anunciado – o livro João Saldanha: uma vida em jogo afirma que foi na própria coletiva de apresentação, Quem Derrubou João Saldanha contesta e diz que foi alguns dias depois. O time, porém, era Félix; Carlos Alberto, Brito, Djalma Dias e Rildo; Piazza, Gérson e Dirceu Lopes; Jairzinho, Tostão e Pelé. Um ano antes, o esboço dessa equipe já estava na ponta da língua do comentarista, com variações táticas e tudo:

“Minha seleção – todo mundo tem a sua e eu também (…) Mas aí vai o time: no gol, qualquer um – Félix, Ubirajara, Picasso. Tanto faz. São todos muito bons. Em seguida, uma linha de quatro jogadores formada por Carlos Alberto, Brito, Piazza e Rildo. Imediatamente à frente desses quatro, o Gérson. Um pouco mais à frente, formando uma linha de dois homens, o Dirceu Lopes e o Tostão. Mais à frente ainda, outra linha de três, com Jairzinho, Pelé e Edu. Explico a razão deste 4-1-2-3. Se nós saíssemos ganhando o jogo, manteríamos a formação como está acima. Caso tomássemos um gol, Gérson poderia avançar para o lugar de Tostão e este iria mais à frente juntar-se à linha avançada. Teríamos, então, o 4-2-4. Se o adversário se trancasse mais ainda, teríamos outra alternativa: avançar Piazza para junto de Gérson e Dirceu Lopes andaria mais à frente. Teríamos, então, outra formação, o 3-2-5. Poderia ser feita outra alternativa, com Gérson indo à frente e Dirceu ficando junto a Piazza. Quer dizer, é uma equipe para jogar qualquer tipo de jogo e contra qualquer adversário. Um time formado com cobras deste gabarito, treinando uns dois ou três meses, não perde para ninguém”.

Quase profético porque a seleção brasileira, sob o comando de Saldanha, venceu todas as seis partidas das Eliminatórias para a Copa do Mundo, marcando 23 gols e sofrendo apenas dois, com direito a três goleadas: 5 a 0 e 6 a 0 sobre a Venezuela e 6 a 2 sobre a Colômbia. Mas Saldanha nunca treinaria o time no México em 1970.

Eu não sou sorvete

A demissão de Saldanha é atribuída ao bate-boca público que ele teve com o ditador Emílio Garrastazu Médici, o escolhido pelos militares para ser presidente do Brasil, em 1969. Médici cobrou a presença de Dadá Maravilha no time brasileiro, atacante do Atlético Mineiro, que não vinha sido convocado. Saldanha respondeu que ele escalava a seleção da mesma maneira que Médici escalava o seu ministério.

O próprio treinador admite que houve essa pressão, como nesta entrevista para o Roda Viva, nos anos oitenta: “Eu tive a petulância de dizer ao presidente da República que ele nunca tinha visto o Dario jogar. Isso era fácil de provar. Sempre que o Dario jogou, ele tava em outro lugar. Aquilo foi uma imposição só para forçar a barra. Eu nunca estive com ele em pessoa. Até me recusei a ir a um jantar com ele, num convite que fizeram em Porto Alegre, eu estava por lá por acaso. É claro que, na porta, eu talvez fosse até barrado. Eu disse: ‘Eu não vou’. O cara matou amigos meus. Eu levei para o México uma pilha de documentos de 3 mil e poucos presos, 300 e tantos mortos e não sei quantos torturados. Vou pactuar com um ser desse? Eu tinha um nome a zelar, já tinha e tenho ainda. Então eu disse a ele: ‘Você organiza seu ministério, eu organizo meu time'”.

A pressão para escalar Dario era apenas parte de um cerco que se fechava em torno de Saldanha e nunca se encontrou provas de que Médici tenha intervido diretamente pelo jogador do Atlético Mineiro ou qualquer outro. Mas seu passado comunista incomodava o regime, que estava começando a perceber a força que o futebol poderia ter na sua propaganda ufanista e temia que a Taça Jules Rimet voltasse do México nas mãos de um adversário. Em viagens pela Europa para se atualizar, João denunciava os crimes da ditadura militar para a imprensa internacional.

André Iki Siqueira, em seu livro João Saldanha: uma vida em jogo, relata que, “de acordo com a corrente que vê a mão da ditadura na queda do treinador”, houve uma movimentação do governo para desestabilizar Saldanha. “Nessa versão, era preciso marcar João mais em cima, e o Planalto queria receber informações do cotidiano dele na concentração, nos treinos, nos intervalos, nas viagens, nos hotéis – queria, enfim, saber de tudo que pudesse desestabilizar o técnico”, escreveu. O brigadeiro Jerônimo Bastos virou chefe da delegação, e todos os preparadores físicos, de repente, eram militares: João estava cercado de inimigos acompanhando todos os seus passos.

E a realidade é que não bastava muito para desestabilizar o esquentadinho Saldanha, que não levava desaforo para casa. Um caso muito público foi quando tentou invadir a concentração do Flamengo, com arma em punho, para tirar satisfação com o técnico Yustrich. Em 1969, quando este era técnico do Atlético Mineiro, o Galo ganhou da seleção de Saldanha por 2 a 1, em um jogo-treino no Mineirão, com gol de – claro – Dadá Maravilha, e Yustrich ordenou que a equipe desse uma volta olímpica no gramado. Na imprensa, fazia críticas duras a Saldanha até o ponto de João explodir e ir à casa rubro-negra tirar satisfação.

O episódio não pegou bem, nem o entrevero que criou com Pelé. João começou a dar declarações – embora ele negue, vários jornalistas da época ouviram e registraram – de que o Rei tinha problemas sérios de visão e não poderia jogar à noite. Quem Derrubou João Saldanha traz a declaração, publicada pelo Correio da Manhã:

“Saí porque no meu time Pelé não jogava mais. Nas 17 partidas pela Seleção Brasileira em que ele atuou, sempre esteve mal. Nos jogos noturnos, então, nem se fala. O crioulo perdia inteiramente a visão de campo. Por isso, já na partida contra o Chile, domingo, seria substituído por Tostão. Conversei com Pelé sobre o assunto, procurando inteirar-me do seu estado físico (…). Expliquei ao médico que, assim que Pelé voltasse à sua melhor forma física, teria chance de voltar ao time. Como estava é que não seria mais possível. Pessoalmente, Pelé nada tem a ver com isso. Se está mal, não é culpa dele. Jamais poderia acusá-lo de má vontade comigo. Quando disse a Antônio do Passo que Pelé estava barrado, o presidente da comissão técnica achou ruim. Disse que o programa da CBD estava totalmente baseado em Pelé, que ele era faturamento certo e outras coisas”.

Havia esse fator: tanto com a camisa da seleção brasileira quanto com a do Santos, Pelé era um chamariz virtuoso de dinheiro, o que o obrigava a entrar em campo em todos os amistosos caça-níqueis que era possível marcar. Ele realmente não estava jogando tão bem na véspera da Copa do Mundo e, segundo algumas versões, a ideia de Saldanha com a história do problema de visão era encontrar uma desculpa para poupá-lo. Outras afirmam que, na iminência de ser demitido, ele buscou briga com o nome mais famoso da seleção para gerar repercussão o bastante para protegê-lo de represálias do regime ou em uma tentativa de sair por cima.

Além disso, o desempenho do Brasil havia caído nos amistosos de preparação, culminando em um empate por 1 a 1 com o Bangu, o último jogo de Saldanha à frente da seleção. Convocado à sede da CBD por Havelange, ouviu do presidente que “a comissão técnica está dissolvida”. Respondeu: “Não sou sorvete para ser dissolvido. O que quer dizer dissolvido? Demitido?”. “Está demitido”. “Até logo, boa noite. Vou para casa dormir”.

Histórias de João

Na praia

Antes de virar técnico do Botafogo e jornalista esportivo, João Saldanha viajou várias vezes à Europa, como correspondente de guerra, e para executar missões para o Partido Comunista. Uma dessas viagens foi por volta de 1944, quando as tropas aliadas chegaram à Normandia para o famoso Dia D, o início do fim da Segunda Guerra Mundial. Saldanha voltou para o Brasil afirmando que havia estado ao lado do próprio marechal Montgomery no desembarque para retomar a França. Conta o livro João Saldanha: uma vida em jogo: “Vários conhecidos que até hoje adoram João falam das várias vezes em que, viajando com ele para cobrir jogos na Europa, o encontravam triste, em um canto do hotel, olhando para um mapa da França ou uma imagem da Normandia. Quando lhe perguntavam a razão da tristeza, respondia contando sua participação na histórica campanha”.

Na outra praia

O Copacabana enfrentava o Ipanema, em uma praia na zona sul do Rio de Janeiro, com Stanislaw Ponte Preta, João Saldanha, Heleno de Freitas e outros conhecidos, e terminou o primeiro tempo vencendo tranquilamente por 2 a 0. No retorno para a etapa final, a torcida de Ipanema começou a pressionar o árbitro, que cedeu e marcou um pênalti. Pouco depois, saiu o empate. Saldanha abordou o apitador e, segundo a revista Placar, de janeiro de 1978, disse: “Agora, vê se dá um pênalti para a gente”. “No finalzinho, eu dou. Mas tem uma coisa: a torcida de vocês têm de me garantir, senão vou apanhar da outra”. “Deixa com a gente. Dá o pênalti que nós garantimos”, respondeu Saldanha. No fim do jogo, veio o pênalti, e o Copacabana venceu por 3 a 2. No entanto, irritados com o árbitro, os jogadores saíram de campo assim que ouviram o apito final. “Ao mesmo tempo, o paredão inteiro desceu atrás do juiz”, relata a revista.

O tiroteio

Como já foi citado, João Saldanha entrou nas instalações de pelo menos dois grandes cariocas com uma arma na mão. Uma delas foi para tirar satisfação com Yustrich, então técnico do Flamengo. A outra foi em um caso envolvendo Manga, ex-goleiro do Botafogo. Na televisão, Saldanha havia sugerido que Manga estava comprado, ou pelo menos comprometido, na final do Campeonato Carioca de 1967, na qual o Fogão venceu o Bangu por 2 a 1. Manga não gostou dos comentários e preparou uma emboscada para Saldanha na festa dos jogadores na sede náutica do clube. Os detalhes eu deixo para o próprio João contar, na entrevista ao Roda Viva (PS: o Bebeto citado por ele é Bebeto de Freitas, ex-presidente do Botafogo).

Uma coluna Prestes no Leblon

João Saldanha foi encarregado de organizar o retorno de Luis Carlos Prestes do exílio, quando o general Figueiredo assinou a Lei de Anistia, em 1979. Prestes, o da Coluna que percorreu 25 mil kms do Brasil nos anos vinte e companheiro de Olga Benário, era o principal dirigente da esquerda brasileira e secretário-geral do Partido Comunista. Ficou hospedado no próprio apartamento de Saldanha, no Leblon. Era um constante entra e sai, como conta Maria Prestes no livro Meu companheiro: 40 anos ao lado de Luiz Carlos Prestes: “O arquiteto Oscar Niemeyer nos presenteou com um carro e o jornalista João Saldanha nos cedeu temporariamente seu apartamento. Nossa resistência, nos primeiros meses, se transformou numa Meca. Deputados e vereadores, advogados e professores, jornalistas e escritores, líderes de partidos políticos e militares vinham até o Velho, queriam saber como ele estava e o que pensava da realidade brasileira”. O apartamento ficou grande demais para todo mundo, e Saldanha, acompanhado da mulher Maria Sylvia, foi morar em outro lugar. João havia insistido que Prestes utilizasse também o seu telefone, mas a conta veio meio alta, “quase daria para comprar um apartamento”. Segundo João Saldanha: uma vida em jogo, amigos tiveram que fazer uma vaquinha porque Prestes passava o dia inteiro ligando para Moscou e outros países da Europa.

Frases
Saldanha: um bom frasista
Saldanha: um bom frasista

“Campo de futebol não é loteamento. Ninguém é dono de lote, de posição fixa”

“Eu não brigo para ganhar. Eu brigo porque tenho razão”.

Em um programa de televisão na Alemanha, foi questionado sobre a matança de índios do Brasil e respondeu: “Nosso país tem 470 anos de história. Nesses 470 anos foram mortos menos índios do que dez minutos de guerra provocada por vocês. Os selvagens são vocês” Fonte: texto para a Placar, em 1970.

“Nosso time era uma máquina de jogar. Eu atirava as camisas para o alto e ia embora para casa, dormir” Fonte: João Saldanha: uma vida em jogo

“Diante de uma pedida de aumento salarial de Garrincha, um dirigente do Botafogo reclamou que ele, um diretor da Light, não poderia receber menos que Garrincha. João disse: “Dá licença de fazer uma observação? Olha, se você fosse o Mané Garrincha da engenharia nacional, naturalmente estaria ganhando o mesmo que ele. Mas como você é um engenheiro de merda, o seu salário é esse mesmo” Fonte: João Saldanha: uma vida em jogo

“Em um dia de vento, um cara dirigindo um carro, um cabeludo, bate nos olhos, tem que fazer assim (balança a cabeça), a bola vem tem que fazer assim, nos crioulo, black power, com aquela grama daquele tamanho, abaixa, diminui, eles perdem a conta da bola. Que ele anda assim na rua acho bacana, acho legal, mas no meu time não joga não.”

“O macaco, o macaquinho, deixou de namorar a girafa por causa disso: é muito penoso ir lá em cima dar um beijo, vir embaixo pegar na mãozinha dela, ir de novo, não dá” – criticando a falta de pontas no time de Telê em 1982

“Eu o quero para jogar no meu time, não para casar com a minha filha”

“Se eu não fosse otimista, já tinha me naturalizado dinamarquês. É claro que sou otimista. Confio muito no nosso povo e no nosso país”