1. “Helmut Schön era um técnico com grande formação e grande humanidade. Para nós, jogadores, ele contrastava demais com os técnicos dos clubes. Ele nunca nos forçou a algo que a tática pedia, ele tinha outra conduta. Quando nós voltávamos dos clubes e reclamávamos dos problemas que existiam, ele tinha calma e agia de maneira racional. Era o tipo perfeito para comandar uma seleção”. Tais palavras seriam elogio se tivessem vindo da boca de qualquer pessoa. Mas, ditas por Franz Beckenbauer, se tornam uma honraria ainda maior. E ninguém melhor do que o Kaiser para descrever Helmut Schön, o técnico que permaneceu 14 anos à frente da seleção da Alemanha Ocidental. Formou a geração mais talentosa do país, para conquistar uma Copa do Mundo e uma Eurocopa. Lenda que completaria 100 anos nesta terça, se ainda estivesse vivo.

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Se Schön fez fama como técnico, as boas influências começaram desde garoto. Nascido em Dresden, o alemão começou a carreira no principal clube da cidade, o Desdner. E por lá teve contato, ainda nas categorias de base, com as ideias de um dos técnicos mais lendários da história do futebol: Jimmy Hogan. Considerado como principal influência da Europa Central (ponto de partida para as seleções fantásticas da Áustria de 1934 e da Hungria de 1954), o inglês passou em 1928 pelo clube alemão. O suficiente para que absorvessem a sua filosofia de jogo fluido e troca de passes. De certa maneira, pesou na formação de Schön como jogador.

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E, antes de ser um dos melhores treinadores da história, o alemão também fez muita fama como atacante. Não fosse o período conturbado vivido em seu país, com a ascensão do Terceiro Reich, talvez fosse bem mais reconhecido como artilheiro. Schön atuou 16 vezes pela seleção alemã, com um retrospecto impressionante, anotando 17 gols pelo Nationalelf. Só que estreou pela equipe apenas em 1937, aos 22 anos, sem a chance de brilhar em uma Copa. Seu auge aconteceu em plena Segunda Guerra Mundial, na primeira metade da década de 1940. Ele se sagrou bicampeão alemão com o Dresdner – e invicto em uma das campanhas.

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Ao fim da guerra, Schön permaneceu atuando em Dresden, apesar de uma rápida passagem pelo St. Pauli. Mas deixou a Alemanha Oriental à medida que a influência soviética aumentava. O regime comunista desmanchou o Dresdner (então chamado de Friedrichstadt) por ser uma “equipe burguesa”, o que fez o elenco fugir para Berlim Ocidental. Por lá, o atacante também se tornou técnico do Hertha Berlim, em uma decisão que fez os clubes do leste serem proibidos de enfrentarem os do oeste.

Já a continuidade da carreira de técnico veio em Sarre, região alemã que se tornou protetorado da França após a Segunda Guerra.  Schön se tornou treinador da seleção local e também comandou o Saarbrücken, principal clube do território. Disputou até mesmo as Eliminatórias da Copa de 1954, caindo para os próprios alemães ocidentais. E acabou chegando ao Nationalelf por questões geopolíticas: em 1956, quando o Sarre votou por se reunificar à Alemanha Ocidental, o técnico se tornou assistente de Sepp Herberger na seleção. Aprendeu muito com o homem responsável pelo Milagre de Berna.

Weltmeister Franz Beckenbauer (li.) und Bundestrainer Helmut Schön (re.) jubeln gemeinsam, dahinter ZDF Reporter Dieter Kürten (alle BR Deutschland) World Champion Franz Beckenbauer left and German coach Helmut Beautiful right cheer together behind ZDF Reporter Dieter Kuerten all BR Germany

Sua chance veio, por fim, a partir de 1964, assumindo o cargo efetivamente. Com resultados notáveis desde então. Schön terminou com o vice da Copa de 1966 e o terceiro lugar em 1970, além do título da Eurocopa de 1972. Pela maneira como a movimentação dos atletas acontecia, seu jogo era considerado modelo por ingleses e italianos, derrotados no Mundial do México. Abriu as portas para uma renovação notável no Nationalelf, chamando vários jovens talentos que começavam a surgir no país. Foi ele quem lançou na equipe nomes como Beckenbauer, Gerd Müller, Maier, Breitner, Netzer, Heynckes e Vogts – e isso sem contar outros craques posteriores, como Rummenigge e Schuster. Formou a partir da década de 1960 a base para o seu grande feito: a conquista da Copa do Mundo de 1974.

Durante o Mundial disputado em casa, Schön teve que conviver com as turbulências. A liberdade que dava aos jogadores foi colocada como culpa pela derrota para a Alemanha Oriental na primeira fase. O que ajudou a dar brios aos alemães ocidentais na sequência da campanha. O time venceu os seus três jogos nas etapas seguintes, até cruzar com a temida Holanda na decisão. O treinador soube armar o seu time para neutralizar o Futebol Total de Rinus Michels, sem perder a qualidade técnica de seu próprio jogo. Venceu o duelo em Munique de virada, por 2 a 1, erguendo a taça.

O fim da passagem de Schön pela seleção, no entanto, teve uma queda de desempenho, especialmente pela despedida de algumas referências da equipe. Perdeu a Euro de 1976, no clássico gol de Panenka, enquanto a campanha na Copa de 1978 ficou abaixo das expectativas, marcada pela derrota para a Áustria e pelas atuações ruins. Último capítulo ruim para quem tinha feito tanto. Aos 63 anos, Schön se aposentou do Nationalelf, passando o bastão ao assistente Jupp Derwall. E viu outro pupilo triunfar, com Franz Beckenbauer comandando o time na conquista da Copa de 1990, antes de falecer seis anos depois, em fevereiro de 1996. Ainda hoje, os 14 anos à frente da seleção significam muito aos alemães. E não só pelas conquistas, mas também pela maneira como desempenhou o seu trabalho. Um técnico que privilegiava a qualidade e a liberdade. Por isso, triunfou tanto.

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