O Campeonato Brasileiro é pródigo em criar histórias – de tragédia ou sucesso. São muitas as histórias de times que se formaram de forma capenga e venceram, como o Flamengo de 2009, outros que se planejaram e fizeram tudo certo para serem campeões, mas entraram pelo cano, como o Internacional entre 2005 e 2007. A bagunça cria boas histórias também, o que é curioso. Escolhemos dez personagens deste Brasileirão que ficarão marcados.

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Ney Franco com idas e vindas e um rebaixamento na conta

Ney Franco começou o ano no Vitória, onde fez um bom trabalho no Brasileirão de 2013. Com ele, o rubro-negro baiano chegou a sonhar com uma vaga na Libertadores, acabou em quinto lugar – dois pontos atrás do Botafogo, quarto – e com boas perspectivas futuras. É, só que tudo foi por água abaixo em 2014.

O ano já começou ruim com a derrota no Campeonato Baiano. O Vitória comandado pelo técnico fez a melhor campanha, mas acabou perdendo para o Bahia a final do estadual. Depois, Ney Franco deixou o Vitória para assumir o Flamengo na quarta rodada do Campeonato Brasileiro, quando o time tinha cinco pontos.

Assumiu o Flamengo no lugar do demitido Jayme de Almeida com a esperança de dar dias melhores ao time carioca. Não conseguiu. Foram sete jogos comandando o time, com quatro derrotas e três empates. Nenhuma vitória. Acabou demitido. Dirigiu o time entre 18 de maio e 20 de julho. Teve todo o período de pausa para a Copa do Mundo para organizar um time, mas foi mal, não conseguiu montar uma equipe e viu o Flamengo, fragilizado e desorganizado em campo, tornar-se um time que não assustava ninguém.

Depois da demissão no Flamengo, acabaria voltando a trabalha no Brasileirão justamente… No Vitória. Assumiu o time na 17ª rodada, quando o time era último colocado, com 15 pontos. A situação já era trágica e não melhorou. O rubro negro terminou em 17º lugar, com 10 vitórias, oito empates e 20 derrotas. Perdeu o último jogo para o Santos – se tivesse vencido, sobreviveria, já que o Palmeiras só empatou com o Atlético Paranaense em São Paulo. Ney Franco deixa o cargo com o time rebaixado e um 2014 para esquecer.

Levir Culpi, a sinceridade e o Atlético Mineiro jogando muito no segundo semestre

A escolha de Paulo Autuori para comandar o Atlético Mineiro no lugar de Cuca pareceu um erro desde o início. Não faltaram críticas, mas foi preciso que o time sofresse em campo para que a demissão acontecesse. Tarde demais para a Libertadores – o time tinha perdido o primeiro jogo das oitavas de final para o Atlético Nacional por 1 a 0, e poderia ter perdido por 4 se não fosse o goleiro Victor. Foi quando Levir Culpi assumiu. E tudo mudou no Galo. A eliminação dramática no jogo de volta foi dolorida, mas o pior ainda estava por vir.

Levir tinha uma missão: reformular o Galo de Cuca. O time campeão da Libertadores em 2013 tinha sumido sob o comando de Autuori. Foi preciso mudar. Ronaldinho deixou o time depois da conquista da Recopa. Diego Tardelli bateu de frente com o técnico, mas depois acabou se acertando para se tornar o principal jogador do time. Guilherme cresceu de produção. Jô foi afastado duas vezes, a segunda definitivamente. O que parecia um semestre de trevas acabou sendo uma reinvenção.

As entrevistas mostravam um Levir Culpi solto, sem amarras e com carta branca para enfrentar os figurões do time. O time acabou com a concentração antes dos jogos. Jogadores como Carlos E Jemerson surgiram para ocupar bem um lugar no time. Dátolo tornou-se fundamental no time. O time da emoção que se caracterizou com Cuca parecia reconstruído com novos jogadores e algumas diferenças técnicas.

Foi superando barreiras na Copa do Brasil, passando por Corinthians e Flamengo depois de sair muito atrás nos jogos de ida contra ambos. Venceu o Cruzeiro, arquirrival, com autoridade, com duas vitórias. Brigou pelos primeiros lugares do Brasileiro até a reta final. Com um futebol envolvente, o Atlético Mineiro foi dos poucos que conseguiu encarar o Cruzeiro. E vencer. Levir Culpi continuou mostrando toda a sua sinceridade e bom trabalho em campo. O Atlético de Levir, Diego Tardelli e Luan é um time de muita intensidade e coração, que soube encantar e tem tudo para ser forte de novo na Libertadores 2015. Graças a Levir, um personagem fascinante.

Luxemburgo e sua recuperação no Flamengo

Se Ney Franco foi um fracasso retumbante no comando de dois times diferentes, Vanderlei Luxemburgo surpreendeu pelo contrário. O último trabalho de Luxa tinha sido o Fluminense e foi terrível. Ele encaminhou o time ao rebaixamento em 2013. Deixou o clube e ficou desempregado esse tempo todo.

Quando Ney Franco caiu no Flamengo, a notícia da sua contratação pegou todo mundo de surpresa. Como contratar o técnico que tinha feito um trabalho terrível no rival Flu no ano anterior, justamente lutando contra o rebaixamento – e falhando, sendo demitido na reta final por isso? Foi o que aconteceu, mas o resultado foi totalmente diferente do que ele fez em 2013.

Luxemburgo começou falando em tirar o time da “zona confusão”. Carimbou o termo, que já se tornou de uso corrente em sua passagem. Deu a organização ao Flamengo que Ney Franco não conseguiu. Afastou o goleiro Felipe, colocando Paulo Victor como titular, foi dando espaço para Eduardo da Silva brilhar e conquistou uma sequência de pontos que rapidamente tiraram o Fla da rabeira.

Aos poucos, o time ganhou consistência até para brigar na Copa do Brasil. Acabou tomando uma traulitada do Atlético Mineiro de Levir Culpi, mas o saldo não foi ruim. Esteve longe de ser um dos melhores trabalhos de Luxemburgo, mas teve muitos bons momentos. Se salvou do rebaixamento com sobras. Poderia ter feito melhor no jogo que culminou na eliminação da Copa do Brasil. O time está longe de ser competitivo em termos de título. Mas recuperou um Flamengo que estava esfacelado quando ele assumiu. Em 2015, a cobrança será maior, mas Luxemburgo é experiente o suficiente para saber que o arroz com feijão não será suficiente para satisfazer os rubro-negros no próximo ano.

Felipão fazendo bom trabalho no Grêmio

O 7 a 1 da Alemanha reverberará daqui até a eternidade no futebol. O Brasil caiu de uma forma vergonhosa no Mineirão para a seleção que se tornaria campeã do mundo e Felipão ficou marcado pelo vexame. Surpreendentemente, ele voltou à ativa rapidamente. A demissão de Enderson Moreira do Grêmio levou Luiz Felipe Scolari de volta ao banco de reservas onde teve algumas das suas maiores glórias como treinador. Tudo graças a um pedido pessoal de Fabio Koff, presidente do tricolor gaúcho na época.

Scolari assumiu o time no clássico contra o Internacional, no dia 10 de agosto. Não demorou nem um mês entre a decisão de terceiro lugar contra a Holanda, no dia 12 de julho, e assumir o Grêmio. O time era o 11º colocado, com 19 pontos. Começou com derrota por 2 a 0, sem ter tido tempo de treinar o time.

Aos poucos, fortaleceu ainda mais a defesa gremista, que terminou como a melhor do campeonato. Foram só 24 gols sofridos em 38 jogos. Com Felipão, foram 14 gols sofridos em 25 jogos. Felipão conseguiu tornar o time muito forte e pareceu, já nas rodadas finais, que beliscaria uma vaga na Libertadores. Acabou em sétimo lugar, com 61 pontos, empatado com o Fluminense, que ficou à frente no saldo de gols. Felipão termina o ano em alta, apesar da sensação de frustração por não ter classificado ao torneio continental quando parecia perto de conseguir. Felipão vai para 2015 bem melhor do que se imaginava quando terminou a Copa.

Fred dando a volta por cima depois da Copa terminando como artilheiro do campeonato

Fred virou a piada pronta da Copa do Mundo. Foi chamado de cone de cima a baixo por torcedores e programas humorísticos. O atacante estava em má fase e, em um time que pouco conseguia jogar, que não trabalhava as jogadas e que dava poucas chances ao centroavante, Fred sucumbiu. O time precisava de um atacante mais móvel, por tudo que se via na Copa, mas a culpa por ser escalado não era dele. O fato do time não conseguir criar chances de gol o prejudicava. E ele deixou a Copa do Mundo marcado como um dos símbolos do fracasso.

A volta ao Brasileirão foi dura, em um Fluminense que parecia ter acertos e erros sempre com intensidade. O Fluminense era o time de grandes vitórias e ótimo futebol e de derrotas inacreditáveis com futebol ridículo – como foi contra a Chapecoense, no Maracanã, quando perdeu por 4 a 1. Mas Fred, aos poucos, retomou a sua veia goleadora. Tecnicamente, não deixou de ser o melhor camisa 9 do futebol brasileiro e passou a marcar gols e mais gols.

Fred só tinha marcado dois gols antes da Copa, em cinco jogos. Voltou ao time no dia 3 de agosto, vindo do banco. Só voltou a balançar a rede no dia 24 de agosto, em um jogo contra o Sport, no Maracanã. Foram dois gols, que o tornaram o nome do jogo. A partir dali, marcou gols no campeonato com uma regularidade que o próprio Fluminense não conseguiu ter para brigar no topo da tabela, como chegou a dar pinta antes do Mundial. Foram 16 gols de Fred depois da Copa, que o fizeram terminar o Brasileirão como artilheiro, com 18. Fred termina o ano bem, conquistando esse troféu individual que é importante para quem saiu da Copa tão massacrado.

Emerson Sheik bradando contra a CBF e sendo demitido do Botafogo

Emerson Sheik chegou ao Botafogo por não ter espaço no Corinthians e recebendo do time paulista. Foi uma contratação de peso, estelar, e que chegou com a responsabilidade de decidir. Em um time caindo aos pedaços, conseguiu se destacar rapidamente. Tecnicamente, mostrou que podia contribuir, fez gols, bons jogos e parecia que seria um dos destaques do time.

O verbo no condicional não é por acaso. Emerson fez 15 jogos, todos como titular, com cinco gols marcados e boas atuações. Emerson vivia a peculiar situação de receber um salário alto em um time que não conseguia manter os pagamentos em dia. Mas ele não sofria com isso, porque quem pagava seu salário durante o empréstimo era o Corinthians. O atacante ajudava companheiros e tornou-se um dos líderes do elenco, ao lado do goleiro Jefferson, capitão do time, e de outros jogadores experientes. Dizem que chegou a emprestar dinheiro para jogadores do elenco que estavam sem receber e começaram a ter problemas.

Para piorar a situação, em um dia que deu tudo errado para o Botafogo, na 22ª rodada, Emerson acabou expulso, o que considerou um exagero do árbitro, que errou muito no jogo. Saiu de campo falando cobras e lagartos contra a CBF, dizendo que a entidade era “uma vergonha”. Acabou sendo julgado pelo STJD (claro, quem não é?) e não foi punido. Mas acabaria punido pelo próprio clube por motivos que até agora ainda estão esclarecidos. Depois da 25ª rodada, na derrota para o Grêmio por 2 a 0, o Botafogo estava em 16º lugar, o primeiro fora da zona do rebaixamento. O presidente Mauricio Assumpção demitiu Emerson Sheik, Bolívar, Edílson e Júlio César do clube. Emerson termina o ano parado, com vínculo com o Corinthians. E o Botafogo termina rebaixado.

Kaká chegando no meio do campeonato e melhorando o São Paulo

Ídolo são-paulino, Kaká voltou ao Morumbi depois de deixar o Milan no meio do ano. Ele assinou contrato com o Orlando City, dos Estados Unidos, mas o clube só passaria a jogar na MLS em março. Então, precisava jogar em outro lugar até lá. Ele quis jogar no São Paulo, seu clube de coração e que o formou como jogador. Chegou em julho, quando o Campeonato Brasileiro foi retomado depois da Copa do Mundo. E sua participação no time foi importantíssima, ainda que de forma muito diferente dos seus melhores tempos.

A maior contribuição de Kaká no São Paulo foi tática. Com ele em campo, Ganso e Pato tiveram que assumir outras funções e ele mesmo passou a mostrar que era possível, sim, o time jogar com vários jogadores ofensivos e ainda assim recompor. Ele e Ganso passaram a fechar os lados do campo e Kaká muitas vezes voltou marcando com força, mostrando muita dedicação.

Além da vontade e do exemplo que deu em campo, também foi importante por ser inteligente em campo, saber aproveitar espaços e, muitas vezes, se colocar em boas condições para receber a bola e fazer o time funcionar. Os gols e assistências não foram tão importantes e ele não foi o melhor jogador do time – este foi Ganso -, mas Kaká foi muito importante como um coadjuvante que fez o time jogar. Elogiado por todos os companheiros, acabou mostrando por que é um jogador importante.

Marcelo Moreno, de reserva de Brocador a destaque do campeão brasileiro

Em 2013, Marcelo Moreno saiu do Grêmio desvalorizado, depois de não convencer e ver Barcos ser contratado e lhe tomar a posição. Foi emprestado ao Flamengo, onde a expectativa era que seria titular com sobras. Chegou a gravar o épico vídeo em que ele marcava o gol do título Mundial do Fla.

O que ninguém esperava era que ele virasse reserva de Hernane Brocador e fosse só banco na conquista da Copa do Brasil. Sem espaço no Flamengo e no Grêmio, com quem tinha contrato, acabou emprestado ao Cruzeiro, clube onde já tinha ido muito bem anos antes. Era para compor elenco de um time que já tinha Borges, Júlio Baptista e Ricardo Goulart no setor ofensivo.

Nas chances que teve quando o Cruzeiro disputava a Libertadores, Marcelo Moreno foi titular. Ganhou a posição em campo e não saiu mais. Dos 32 jogos que fez, só três não foram como titular. Fez 15 gols, sendo um deles de pênalti, e acabou o Brasileirão como o artilheiro do Cruzeiro na competição, ao lado de Ricardo Goulart. Além disso, ainda fez uma série de golaços, como o que fechou os 15 gols. Está valorizado, com o Cruzeiro querendo comprá-lo e o Grêmio pensando em levar de volta. Algo que poucos poderiam esperar.

Valdívia, a transferência que não aconteceu e o time capenga que dependeu dele até o fim

A relação de amor e ódio do palmeirense com Valdivia oscila mais que a paixão de um adolescente pela primeira namoradinha. Do céu ao inferno, e às vezes no purgatório, mas sempre com algum sentimento, nunca com indiferença. O Campeonato Brasileiro do chileno também foi uma montanha-russa da Disney. Na parada da Copa do Mundo, foi vendido ao Al Fujairah, dos Emirados Árabes, e terminaria sua passagem pelo Palestra Itália. O torcedor não achou ruim. Ganharia um bom dinheiro por um jogador na casa dos 30 anos com um histórico de lesões com mais de cinco páginas. Acima de tudo, livraria-se da dúvida e da expectativa quase sempre frustada de que na próxima vez ele engataria uma sequência de jogos.

Mas nada é simples com Jorgito. A negociação melou, e ninguém ainda sabe exatamente por que, mas tem alguma coisa a ver com o Ramadã. Valdivia passou dez dias aprimorando o físico e reestreou contra o São Paulo. Teve 14 minutos exuberantes e se machucou novamente. Deixou o time à deriva no final da passagem de Ricardo Gareca. Com Dorival Júnior, liderou a equipe no período em que o Palmeiras teve uma das melhores campanhas do segundo turno, voltou à seleção e se machucou novamente. Atuou com dores na reta final, ao ponto de enfrentar o Atlético Paranaense sem conseguir correr. Sintomático da campanha do Palmeiras: foi o melhor em campo mesmo assim. Herói, vilão, e na maioria das vezes um pouco de cada um.

A VOLTA: Nem jogando bem Valdívia consegue passar confiança para a torcida
IDA E VOLTA: Checamos com um xeique palmeirense se Ramadã impediria Valdivia de assinar

O último ano de um craque da camisa 10, Alex

A última caminhada pelos palcos do futebol tem muitos momentos marcantes. Cada ação tem um valor histórico: o último gol, a última partida em casa, a última partida fora de casa, a última vitória, a última derrota, o último erro de domínio. Alex passou por todos esses cenários, menos o último. Sua técnica praticamente impede que a bola o desobedeça. Sua visão de jogo, os passes precisos e os chutes de fora da área foram essenciais para livrar o Coritiba do rebaixamento. Ídolo de quatro torcidas, não poderia se despedir de uma delas, a primeira delas, melancolicamente. Inteligente, sabia que precisava se aposentar por cima. Executou esse plano tão bem que chegou ao final da carreira inundado com pedidos para que continuasse a ser atleta de futebol profissional. Mas Alex quer manter o seu legado e não pretende esperar o momento em que o fôlego abandona os pulmões, a cabeça pensa mais rápido que as pernas, e as bolas começam a escapar. Não quer passar a errar domínios.

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