Quem não conhece Néstor Ortigoza e cruza com o veterano na rua, à paisana, dificilmente imagina que ele é um jogador de futebol profissional. Um tanto quanto rechonchudo e de caminhar arqueado, o meio-campista está distante de aludir ao tipo físico de um atleta. Entretanto, alguns minutos em campo bastam para notar a qualidade do argentino naturalizado paraguaio. El Gordo lembra, no melhor dos sentidos, aqueles peladeiros que controlam o jogo apenas com sua técnica. E que, independentemente disso, trabalha incansavelmente em prol do time. A prova cabal de que o futebol é feito de coração, cérebro e bola nos pés, mesmo com uma barriga avantajada. Assim, o volante conquistou a idolatria no San Lorenzo. Foi além e buscou ainda a sonhada Copa Libertadores com o Ciclón, um dos protagonistas no elenco de Edgardo Bauza. Carregará para sempre a gratidão em Boedo e Bajo Flores – algo que sentiu nesta terça, em seu último jogo com a camisa azulgrana naquela que foi sua casa por seis anos.

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Ortigoza começou sua trajetória no futebol amador, embora conciliasse as jornadas na várzea com as categorias de base do Argentinos Juniors. O talento faria o prodígio pender para o lado profissional, estreando no clube aos 20 anos. Não demorou a conquistar o seu espaço nos colorados, firmando-se no meio-campo. Chegaria ao ápice em 2010, conquistando o Clausura e encerrando o jejum do clube que perdurou por 25 anos. Formou uma dupla inesquecível com Juan Mercier. Semanas depois, disputaria também sua primeira Copa do Mundo com a seleção paraguaia, assistindo do banco à dolorosa eliminação para a Espanha.

No início de 2011, a grandeza de Ortigoza não caberia mais no Argentinos Juniors. O San Lorenzo confiava no meio-campista para liderar a equipe em novos tempos. Todavia, o início da passagem do Gordo pelo Nuevo Gasómetro não seria tão brilhante. Os cuervos não iam além de posições intermediárias no Campeonato Argentino e o volante acabou cedido ao Emirates Club. Permaneceu uma temporada nos Emirados Árabes, em grande fase. Retornou para casa em um novo momento, com a ascensão do Ciclón a partir de 2013. Reeditaria a parceria com Mercier, contratado no ano anterior.

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O impacto de Ortigoza em seu reinício no San Lorenzo foi imediato. Distribuindo o jogo com extrema qualidade e controlando o tempo, o meio-campista ajudou o Ciclón a faturar o Torneio Inicial em 2013. O time voltava a colocar a faixa no peito depois de seis anos e, de lambuja, assegurava a participação na Copa Libertadores. Justamente o ápice do Gordo. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelo clube ao longo da campanha, precisando se reinventar na fase de grupos, o camisa 20 teve importância vital. Era o homem de confiança para chamar a responsabilidade e ditar o ritmo da equipe. Aos poucos, os azulgranas cresceram na competição. E, fazendo a engrenagem girar, motorzinho se colocou como estrela na competição continental. Em um time no qual preponderou a eficiência, ele contribuiu demais neste sentido – seja na proteção, nas bolas paradas ou na ótima saída de jogo.

O grande momento de Ortigoza veio justamente na decisão, contra o Nacional do Paraguai. Depois do empate por 1 a 1 no Defensores del Chaco, o San Lorenzo teve um pênalti a seu favor no Nuevo Gasómetro. Exímio cobrador, o meio-campista não sentiu a pressão de meio século sem a taça continental e converteu. Garantiu que o troféu finalmente chegasse às mãos dos cuervos. Acabou eleito como o melhor jogador da decisão e também do campeonato. Sua maestria o referendou, merecidamente, a todas as honrarias.

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Nos últimos três anos, Ortigoza não manteve o mesmo nível. Ainda assim, continuou imprescindível ao Ciclón em vários momentos. Até a diretoria achar o contrário. Mesmo titular absoluto no Campeonato Argentino e na Libertadores, o volante de 32 anos não terá o seu contrato renovado. Nesta terça, se despediu do Nuevo Gasómetro, na vitória por 1 a 0 sobre o Banfield. Uma partida carregada de emoção. Os torcedores gritavam o nome do “Gordo” desde a entrada de campo. Aos 20 minutos, em referência ao número de sua camisa, o aplaudiram em pé. E em triunfo decidido graças a um passe magistral do meio-campista, mesmo desperdiçando um pênalti, a ovação ganhou ainda mais força depois do apito final. O ídolo agradecia o carinho caminhando no gramado ao lado do filhinho, Federico. Nas arquibancadas, se espalhavam várias homenagens, além de queixas à postura da diretoria.

Na saída de campo, Ortigoza confirmou que este é um caminho sem volta. “Hoje me despedi das pessoas, estava mais do que claro. Aproveitei muito, foi uma noite especial, e graças a Deus ganhamos, seguindo com chances de nos classificar à Libertadores. Não há possibilidade de que eu siga, já disse tudo. Na última semana, eu me reuni com os dirigentes e eles queriam renovar por um ano, mas eu preferia por dois. Isso foi simples, e sinto que preciso ir. Vou pela porta da frente, como quero. Perderam a confiança em mim, mas eu não perdi. Como confio, vou embora. E vou feliz”, apontou. “No San Lorenzo, cresci muito como pessoa, desde que pisei no clube pela primeira vez. Carregarei comigo o carinho da torcida”.

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Por sua categoria e por sua tarimba, Ortigoza tinha capacidade para defender o San Lorenzo por mais tempo. Certamente fará falta nos mata-matas da Libertadores. Agora, buscará a sequência da carreira com outra camisa, mas sabendo que, sempre que voltar a Bajo Flores ou Boedo, receberá os aplausos daqueles a quem ofereceu tanto. Ao longo dos últimos seis anos, o meio-campista foi mais um torcedor e os honrou como poucos. Está na história do Ciclón e nada apagará.