A ampliação da fase de grupos da Liga dos Campeões da África, de 8 para 16 participantes, beneficiou o torneio como um todo. A mudança deu oportunidade a novas equipes e mais países no certame, ganhando visibilidade e competitividade. A atual edição, por exemplo, colocou no mapa lugares que sequer estão acostumados a disputar a Copa Africana de Nações – como Suazilândia e Botsuana. Os 16 participantes da fase de grupos em 2018 representavam 13 estados diferentes. E a variedade acaba se refletindo também nos mata-matas. A sexta-feira é histórica para o futebol de clubes da África lusófona. Pela segunda vez desde a criação da competição, a primeira em 17 anos, uma equipe desses países chega às semifinais da Liga dos Campeões. Feito e tanto do 1º de Agosto, de Angola, que deixou pelo caminho o poderoso Mazembe.

Os lusófonos já tinham causado boa impressão na Liga dos Campeões da África de 2017. O Ferroviário da Beira alcançou as quartas de final e registrou a melhor campanha de um time de Moçambique, vendendo caro a eliminação diante do USM Alger. Já na atual edição, o 1º de Agosto foi o único representante lusófono. Na fase de grupos, os angolanos perderam apenas um jogo e passaram na segunda colocação do Grupo D, com nove pontos. Terminaram atrás do Étoile du Sahel, mas deixaram pelo caminho os zambianos do Zesco United, de boas participações recentes. Até que o Mazembe, ainda invicto, surgisse como desafio.

O empate por 0 a 0 em Luanda, no último final de semana, não teve muitos motivos para comemorar. A partida terminou marcada (mais uma vez) pelo caos nas arquibancadas no continente africano – algo recorrente e que deixou uma vítima fatal na última Data Fifa. Durante a saída do estádio, houve correria em um dos portões de acesso e cinco pessoas morreram no tumulto, sendo duas crianças e três vítimas da mesma família. Mais de 50 mil estavam presentes no Estádio 11 de Novembro.

Já nesta sexta, o 1º de Agosto voltou a campo para enfrentar o Mazembe, diante de 17 mil em Lubumbashi, na República Democrática do Congo. Os pentacampeões continentais abriram o placar aos 12 minutos, com Jackson Muleka. Já aos 34, o congolês Mongo Bokamba empatou para os rubro-negros, acertando um chutaço da intermediária. Na sequência da partida, diante da pressão do Mazembe, o herói foi o goleiro Tony Cabaça. Ele pegou um pênalti no final do primeiro tempo e defenderia outro no segundo. Além disso, já nos minutos derradeiros, operaria um milagre em cabeçada à queima-roupa.

A vitória do 1º de Agosto não demorou a provocar uma festa nas ruas de Luanda. Centenas de torcedores saíram para celebrar o feito histórico dos rubro-negros. A última (e única) vez que um clube angolano havia alcançado as semifinais da Liga dos Campeões da África aconteceu em 2001. Na ocasião, o Petro Atlético chegou a superar o Al Ahly na fase de grupos, mas não resistiu ao Mamelodi Sundowns na etapa seguinte, perdendo nos pênaltis. Os sul-africanos seriam superados justamente pelos egípcios na decisão. O Petro é o maior rival do 1º de Agosto.

Apesar da tradição do futebol em Angola e nos demais países lusófonos da África, o fluxo de atletas para Portugal e os conflitos internos ajudam a explicar os resultados relativamente modestos nas competições de clubes do continente. O 1º de Agosto, no entanto, está entre as principais potências do país. Fundado em 1977, pelas Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, o clube ligado ao exército conquistou o Girabola (o Campeonato Angolano) 12 vezes. Continentalmente, a melhor campanha havia ocorrido na Recopa Africana de 1998, quando os angolanos perderam a final para os tunisianos do Espérance.

O momento atual é favorável ao 1º de Agosto. O clube é o atual tricampeão angolano, em sequência que repete apenas pela terceira vez em sua história. Além dos jogadores angolanos, o elenco atual é reforçado por congoleses e nigerianos. Já um nome conhecido no futebol brasileiro é o meia Geraldo, que teve uma passagem significativa pelo Coritiba. Vestindo a camisa 11 dos rubro-negros, anotou gols importantes ao longo da fase de grupos da Champions e esteve entre os titulares nesta sexta-feira.

O 1º de Agosto terá outra pedreira pela frente nas semifinais. Os angolanos enfrentam o Espérance, que eliminou justamente o Étoile du Sahel na etapa anterior. Do outro lado da chave, o ES Sétif aguarda o vencedor do duelo entre Horoya e Al Ahly, que acontece neste sábado. O primeiro jogo, disputado em Guiné, terminou sem gols. Caso classifique, o Horoya será o primeiro clube guineense numa semifinal da Champions desde 1981. Sinais de novos tempos em uma competição costumeiramente equilibrada, mas que começa a ir além de seus principais centros.