Orgulho do Sertão: Afogados afundou mais o Galo, numa das maiores zebras da história da Copa do Brasil

O Afogados da Ingazeira possui uma história relativamente curta no futebol. O clube surgiu em 2013, fundado em uma cidade de 37 mil habitantes na região do Pajeú, e só estreou na elite do Campeonato Pernambucano em 2017. No entanto, os últimos meses se tornaram históricos à Coruja do Sertão. Primeiro, o time despachou o Santa Cruz no estadual de 2019, feito que valeu a vaga inédita na Copa do Brasil. Já neste início de 2020, a primeira empreitada além dos limites de Pernambuco amplia as façanhas do Afogados. Nesta quarta, os azarões eliminaram o Atlético Mineiro na segunda fase da Copa do Brasil, bem como provocaram a demissão de Dudamel. Após o empate por 2 a 2 no tempo normal, quando os tricolores tiveram a vantagem no placar por duas vezes, o épico se consumou com a vitória por 7 a 6 nos penais – de virada.

O Afogados tinha se dado bem no sorteio da primeira fase da Copa do Brasil. A estreia em torneios nacionais aconteceu contra o Atlético Acreano, um adversário melhor colocado no Ranking da CBF, mas que sofreu o rebaixamento à Série D no último ano. Dentro do Estádio Vianão, a Coruja do Sertão não encontrou dificuldades e garantiu a festa de sua torcida com a vitória por 3 a 0. Porém, o nível do desafio aumentaria bem mais contra o Atlético Mineiro, por mais que o Galo não inspirasse confiança neste começo de trabalho com Rafael Dudamel.

Após suar contra o Campinense na primeira fase da Copa do Brasil e cair na Copa Sul-Americana ante o Unión Santa Fe, o Atlético Mineiro tinha uma chance de resposta no Vianão. Não correspondeu, contra um oponente inexperiente no cenário nacional. Durante o primeiro tempo, o Galo criou as principais chances e até acertou uma bola na trave, com Guilherme Arana. Isso não significava que o time fazia uma boa apresentação, travado demais na construção e (de novo) sem contar com o mínimo de colaboração de Franco Di Santo. Além do mais, quando exigido, o goleiro Wallef se saiu bem.

Mais recuado, o Afogados achou seu gol aos 16 minutos do segundo tempo. E a finalização de Candinho foi extremamente feliz: mesmo com pouco espaço, o atacante acertou um chutaço de fora da área e venceu o goleiro Michael. A desvantagem aumentava a pressão sobre o Galo, que ao menos não demorou a responder. Depois de mais uma bola na trave de Arana, o empate saiu aos 20, com o zagueiro Gabriel empurrando a batida cruzada de Hyoran. Mas nada que permitisse aos atleticanos relaxarem.

Aos 22 minutos, o duelo pareceu se abrir à virada do Atlético. O zagueiro Márcio recebeu o segundo amarelo e foi expulso. Todavia, mesmo com um jogador a menos, o Afogados conseguiu retomar a dianteira no placar cinco minutos depois. Jogadaça de Philip, que passou fácil por Gabriel e soltou o pé na hora de finalizar. E, empenhados na marcação, os tricolores evitariam a derrota no tempo normal. O empate do Galo ocorreu aos 33, com Ricardo Oliveira, que entrara no lugar de Jair pouco antes. Mas, sem fazer muito para virar e com um futebol fraco, os atleticanos ainda viram Hyoran ser expulso nos acréscimos. A definição ficaria aos penais.

O Atlético Mineiro até pareceu próximo da classificação, ao converter suas duas primeiras cobranças e contar com dois erros do Afogados. Diego Ceará e Douglas Bomba mandaram por cima. Foi então que o goleiro Wallef se agigantou. Logo depois, o arqueiro pegou os chutes de Allan e Nathan, permitindo que a Coruja do Sertão empatasse em 2 a 2. E depois que ambos os times converteram a quinta série de arremates, o drama se estenderia às alternadas. Os batedores eram perfeitos, até que a classificação se definisse na nona cobrança de cada equipe. Gabriel mandou para fora, antes que Diego Teles decretasse a classificação dos pernambucanos.

Após a partida, o Atlético Mineiro anunciou a demissão de Dudamel, assim como de Rui Costa (diretor de futebol) e de Marques (gerente de futebol). As eliminações precoces nos dois principais mata-matas da temporada pesam à decisão, sobretudo pela forma apática como o Galo atuou. Contra o Unión Santa Fe no Independência, os atleticanos até ofereceram sinais de melhora, mas foram impotentes no Vianão. Por mais que alguns reforços ainda cheguem, as escolhas de Dudamel e suas dificuldades dentro dos próprios jogos o expuseram.

Com dois meses de trabalho, o treinador paga o pato por razões até compreensíveis, apesar da falta de paciência. Contudo, parece também uma forma da presidência limpar sua própria barra, quando comete erro atrás de erro nos últimos anos. As demissões não significam que os atleticanos já saibam qual seu norte para a sequência da temporada ou que encontrarão um técnico imune aos mesmos problemas. Pelo contrário, de planos ambiciosos, o sinal de alerta soa alto diante do risco de um Brasileirão claudicante.

E se por um lado pesa o vexame, por outro se ressalta a ascensão meteórica. O Afogados da Ingazeira não poderia imaginar uma campanha de estreia nas competições nacionais melhor do que esta. Jogou com empenho, teve os seus lampejos e contou com um goleiro que mudou a história da disputa por pênaltis. A vitória vale uma epopeia ao futebol do interior de Pernambuco, assim como uma bolada. Por conta da classificação, a Coruja do Sertão embolsa R$1,5 milhão, dinheiro que engorda o orçamento e poderá auxiliar na preparação do clube para a Série D de 2020. E a história na Copa do Brasil não está concluída, afinal. Dá para sonhar com mais, agora pegando Ponte Preta ou Vila Nova na terceira fase.