Fazia frio na noite de Moreira de Cónegos. Sob grossos casacos, torcedores dividiam em pé o espaço em frente ao televisor de um restaurante. Os jovens, mais eufóricos, entoavam cânticos de apoio ao Moreirense, o time local. No fundo, com a visão privilegiada da tela e do que acontecia ao seu redor, um senhor enxugava as lágrimas que corriam pelo rosto emocionado.

O motivo do choro daquele homem estava a 600 quilômetros de distância da pequena vila, de apenas 4,72 km² e cerca de 5 mil habitantes. Era no estádio do Algarve que o Moreirense erguia o troféu de campeão da Taça da Liga, uma conquista tão improvável quanto histórica.

Quando o clube foi fundado, há 78 anos, alguns dos que estavam naquele restaurante eram crianças. Segurando um cachecol alviverde, uma senhora só desgrudou o olho da tela para falar com um dos vários repórteres que cobriam a comemoração. “Esperava essa festa há muito tempo. Sou natural de Moreira de Cónegos, tenho 62 anos e tenho filhas e netas, todas naturais de Moreira de Cónegos”. A ligação do Moreirense com sua localidade é inquestionável. Os vídeos da festa mostram que, vez ou outra, alguém soltava um “viva a Moreira”, deixando claro que o orgulho pela conquista ia além da paixão pelo time de futebol.

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A décima edição da Taça da Liga entrou para a história por ser a primeira disputada no novo formato, batizado de Final Four pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP). Os vencedores de cada um dos quatro grupos classificatórios foram até o Algarve para, em poucos dias, disputar as semifinais e a final. Para dar mais importância à competição, a LPFP ainda criou o status de “campeão de inverno” ao ganhador do troféu.

Obter a mais importante conquista de sua história não estava nos planos do Moreirense. Não somente porque o time, em tese, não teria condições de jogar de igual para igual com os grandes, mas porque a prioridade na temporada é fugir do rebaixamento na primeira divisão do Campeonato Português. Atualmente, a equipe ocupa o 14º lugar entre os 18 participantes, quatro pontos acima da zona da degola.

Foi para fugir da segunda divisão que o clube contratou o consagrado técnico Augusto Inácio. Ocorre que, em meio à disputa do campeonato nacional, o time foi emendando bons resultados na Taça da Liga. Depois da classificação na fase preliminar frente ao Estoril, a fase de grupos começou com vitória contra o Feirense e empate diante do Belenenses. O ápice dava a impressão de ter chegado no triunfo diante do Porto, num jogo que ficou marcado por erros de arbitragem.

A classificação para o Final Four parecia já ser grande demais para a nanica equipe. Tanto que, na semifinal contra o Benfica, o treinador abriu mão de seis titulares, preocupado que estava (e ainda está, diz) com a missão de permanecer na divisão de elite. Mesmo assim, o Moreirense conseguiu uma improvável vitória e classificou-se para a final.

O adversário seguinte era o Braga. E se já havia derrubado dois dos três grandes do futebol português, o Moreirense passou a acreditar que poderia também ganhar daquele que é considerado a quarta força do país. Augusto Inácio recolocou os seis titulares no time e foi em busca do improvável.

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A partida decisiva, disputada neste domingo (29) não foi agradável tecnicamente. Com poucos lances de perigo, ambos os goleiros quase nem trabalharam. Mas foi o arqueiro Matheus, do Braga, quem se tornou protagonista ao cometer pênalti bobo em Geraldes. Cauê cobrou pênalti nos instantes finais do primeiro tempo e fez o gol da vitória – e do título invicto – do Moreirense.

A pequena caravana de torcedores que encarou os 600 km da viagem para um jogo no domingo à noite (a LPFP foi bastante criticada por causa do horário e do local da partida, longe demais para ambas as torcidas) viu in loco o seu time se tornar apenas a 10ª equipe fora do trio de ferro a conquistar uma competição nacional de primeiro nível em Portugal (considerando Campeonato Português, Taça de Portugal, Taça da Liga e Supertaça).

Em termos de Taça da Liga, o time entrou para a galeria que conta com somente quatro campeões (são sete títulos do Benfica, um do Braga, um do Vitória de Setúbal e, agora, um do Moreirense). Façanha capaz de fazer o presidente Vítor Magalhães cravar: “Somos o expoente máximo dos clubes pequenos”.

Augusto Inácio, que já ganhou os maiores títulos possíveis no futebol lusitano, tem a dimensão do que representa esta conquista. “Ganhar uma taça dessas pelo Moreirense é a mesma coisa que ganhar a Liga dos Campeões. São momentos mágicos, para perpetuar daqui a 40 ou 50 anos”, disse.

Mesmo não sendo nativo do vilarejo, o treinador tem a noção de quanto o clube e sua comunidade se completam. “Moreira de Cónegos nunca foi tão falado como agora e isso deve-se realmente ao pequeno grande clube que é o Moreirense”, afirmou, em meio à festa no Algarve.

Do outro lado do país, torcedores também festejavam, seja no restaurante onde o choro de emoção estava liberado, seja nas ruas, onde fogos de artifício cortavam o silêncio da noite dominical. Naquela vila, todos esperaram uma vida inteira para viver um momento como este.

A festa será completada nesta segunda-feira (30), quando a delegação fizer a longa viagem de volta e a população puder receber seus heróis e o troféu de campeão. A comemoração, mesmo intensa, certamente acabará em algum momento e Moreira de Cónegos voltará à sua rotina. Mas a épica história escrita pelo time do vilarejo já se imortalizou nas lágrimas derramadas pelo homem que, no restaurante, via pela TV o impossível acontecer.