A espera já durava 21 anos. Até que, finalmente, se rompesse em comemoração neste domingo. Pela primeira vez desde 1995, um clube da África do Sul voltou a conquistar a Liga dos Campeões da África. Méritos do Mamelodi Sundowns, que se transformou no maior orgulho nacional do momento. Os ‘Brazilians’ (como são conhecidos, por causa do uniforme) fizeram o serviço no jogo de ida, ao vencerem o Zamalek por 3 a 0. Já na volta, apesar da pressão enfrentada em Alexandria, a derrota por 1 a 0 não foi suficiente para tirar a taça das mãos dos sul-africanos. Glória importante não só para o clube, mas também para o país, que conta com uma das ligas mais interessantes do continente, mas quase nunca vê esse sucesso se reverter além de suas fronteiras. Não à toa, as felicitações se estenderam por todos os outros grandes times locais.

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Maior vencedor da história da Premier League da África do Sul, criada após o Apartheid, o Mamelodi Sundowns desfrutou distintos momentos de sucesso, no final da década de 1990 e em meados dos anos 2000. Já nos últimos anos, retomou o topo sob o comando de Pitso Mosimane, treinador do clube desde 2012. O sul-africano foi assistente de Carlos Alberto Parreira e Joel Santana na seleção, antes de se tornar técnico principal dos Bafana Bafana na sequência da Copa de 2010. Já à frente dos Brazilians, conquistou o título nacional em 2014 e 2016, além de ter sido vice-campeão em 2015.

Mosimane potencializou a força estrutural que o Mamelodi Sundowns possui desde 2003. Naquele ano, o clube foi comprado por Patrice Motsepe, magnata da mineração e dono da 22ª maior fortuna da África, avaliada em US$ 1,5 bilhão. Além das garantias financeiras, os Brazilians também estão localizados em Pretória, uma das mais populosas e mais cosmopolitas cidades do país. O moderno Estádio Lucas Masterpieces Moripe, inaugurado em 2008, foi usado como base pela Alemanha durante o Mundial de 2010. E costuma receber bons públicos, com média de 10 mil torcedores por jogo na última temporada, a maior do Campeonato Sul-Africano.

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Além disso, o Mamelodi Sundowns conta com a equipe que mais investe em jogadores estrangeiros no futebol sul-africano. Atualmente, são 10 jogadores de outros países no elenco, sobretudo africanos. Entre os mais badalados estão os goleiros Kennedy Mweene e Denis Onyango, bem como os atacantes Khama Billiat e Anthony Laffor. Ainda assim, também há espaço para os talentos locais. Uma das estrelas do time é o meia Keagan Dolly, protagonista da seleção olímpica durante os jogos do Rio de Janeiro.

Durante a Liga dos Campeões da África, o Mamelodi fez de sua casa a fortaleza na campanha. Os Brazilians caíram ainda nas preliminares durante a edição passada, superados justamente pelo campeão Mazembe. Desta vez, contudo, venceram todos os jogos em Pretória, o que explica bastante sobre o sucesso rumo ao topo do continente. Na decisão, o Zamalek até poderia ser colocado como favorito, pela larga experiência no torneio, mas o ótimo placar estabelecido em seu mando foi a chave para a conquista dos sul-africanos. Enfrentar os 70 mil presentes no Estádio Borg El Arab não foi nada fácil, especialmente diante do clima intimidador, com objetos atirados em campo. De qualquer maneira, os visitantes conseguiram segurar o placar favorável diante dos egípcios, apesar da derrota por 1 a 0.

A euforia pela façanha do Mamelodi Sundowns foi imensa. Até mesmo o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, se manifestou: “É um momento realmente glorioso para o país. Felicitamos os jogadores, a comissão técnica e toda a gestão do Mamelodi Sundowns por nos representarem tão bem nesse torneio historicamente difícil, conquistando outra estrela à África do Sul. Nós estamos extremamente orgulhosos pela realização notável e acreditamos firmemente que esta campanha elevará o futebol sul-africano internacionalmente”. Já nas redes sociais, outros 12 clubes do Campeonato Sul-Africano (todos que mantêm suas contas atualizadas) exaltaram o título dos Brazilians. Algo que só demonstra a representatividade disso para o futebol local.

Embora conte com uma liga bem estruturada e relativamente rica, a África do Sul está distante de ser uma potência continental. Os clubes são tradicionais, mas não há um envolvimento do público tão grande como em outras nações, sobretudo as árabes. Além disso, a falta de tarimba internacional dificulta o caminho, assim como os clubes sul-africanos costumam concentrar suas contratações no próprio talento local. E, considerando a falta de jogadores expressivos nos Bafana Bafana, dá para entender um pouco mais a falta de competitividade. O Mamelodi Sundowns, justamente, é uma exceção neste sentido.

Em 2013, o Orlando Pirates já tinha se aproximado do topo da África, perdendo a decisão da Champions para o Al Ahly. Pesou a força de um clube acostumado a conquistar taças internacionais e que ainda vivia os últimos momentos de sua geração de ouro, encabeçada por Aboutrika. O Mamelodi Sundowns, por sua vez, não teve um desafio tão grande. De qualquer maneira, nada disso tira os seus méritos, sobretudo pela maneira como peitou um gigante como o Zamalek. Serve de esperança aos clubes locais, ainda mais com a presença inédita de um sul-africano no Mundial de Clubes.