Em regra, amistosos entre seleções costumam ser chatos e carentes de motivação, nos dias atuais. Pior ainda quando há uma “data Fifa” na véspera de uma final da Liga dos Campeões, que é o que de fato está importando no futebol – dentro das quatro linhas, bem entendido, já que fora delas o assunto principal é óbvio. Mas é justo dizer que a Holanda tem uma motivação ao entrar em campo nesta sexta, em Amsterdã, para enfrentar os Estados Unidos. E principalmente, é justo dizer que o jogo será um “treino de luxo” para a sexta-feira que vem, com o duelo contra a Letônia, em Riga, pelas eliminatórias da Euro 2016.

Numa frase: a Laranja quer (e precisa) deixar de lado a irregularidade mostrada desde que Guus Hiddink reassumiu o comando. As duas últimas atuações da seleção, em março, foram exemplos da montanha-russa. O empate pavoroso contra a Turquia, nas eliminatórias da Euro 2016, deixou a situação de Hiddink e do elenco por um fio. Era perder para a Espanha, em amistoso, e o destino do treinador estaria definitivamente traçado – pelo menos, no desejo de torcida e imprensa. Só que a Holanda ganhou, por 2 a 0. E mostrando um nível de jogo bem mais aceitável, embora tenha sofrido muitas vezes na defesa.

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Exatamente para fazer com que essa atuação mais auspiciosa contra os espanhóis se tornasse algo mais definitivo é que a preparação do elenco holandês está numa intensidade quase nunca vista nesta segunda passagem de Hiddink pela Oranje. Para começo de conversa, no dia 15 de maio (20 dias antes do amistoso), 31 jogadores foram relacionados para uma primeira fase de treinos, no “quartel-general” esportivo da federação, em Hoenderloo. Já no dia 19, foram iniciados os trabalhos em campo. E desde então, com a chegada gradual dos outros convocados, eles acontecem – e seguirão até o jogo contra os letões.

Na preparação, Hiddink também buscou novidades no estilo de jogo, a partir de novas caras. Entre os 31 relacionados, três jogadores estrearam em convocações. Dois deles poderiam ser usados na ponta-direita: Tjaronn Chery, destaque da temporada no Groningen campeão da Copa da Holanda, e Steven Berghuis, um dos goleadores do AZ na temporada. Afinal de contas, quem não terá Robben, precisa arrumar com quem caçar, mesmo que não tenha a ferocidade ofensiva do grande destaque da Oranje.

A primeira fase de treinamentos, encerrada no dia 27, também deu uma certeza a Hiddink. Era preciso ousar mais no meio-campo, fazer a equipe perder o medo. Foi a principal crítica recebida após o 1 a 1 com os turcos: diante de uma equipe que apostava prioritariamente nos contra-ataques, a Oranje foi defensiva e abdicou cedo demais do toque de bola. Por isso, a grande mudança: mesmo pré-convocados, Nigel de Jong e Leroy Fer, mais defensivos, foram cortados da delegação.

Em contrapartida, aumentou a chance da titularidade para gente como Jordy Clasie ou até o estreante Davy Pröpper, destaque da ascensão fulminante do Vitesse no returno do Campeonato Holandês – muito criticado nos últimos jogos, Afellay sequer foi chamado desta vez. Paralelamente, continuava a intensidade do trabalho em campo. Na última quarta, Van Persie comentou admirado à revista “Voetbal International”: “A pressão é grande, mas não somos piores do que Islândia ou Turquia. E do jeito que a gente treinou hoje… um nível altíssimo”. Hiddink também comemorou a possibilidade de um trabalho mais profundo com o elenco: “Estou trabalhando com o elenco por toda uma semana, parece que voltei a ser técnico de clubes”.

De fato, a Holanda usou bem as duas semanas que já trabalhou para se fortalecer. Nesta sexta, o amistoso servirá para os ajustes finais contra os Estados Unidos. Tentando evocar a atuação nos 6 a 0 contra a Letônia, um dos únicos momentos em que o time satisfez sob seu comando, Hiddink anunciou a tática num 4-4-2, com Jetro Willems na lateral esquerda. Martins Indi formará a zaga com Jeffrey Bruma (Stefan de Vrij chegou só nos últimos dias, após a última rodada do Campeonato Italiano), e Memphis Depay tem tudo para receber sua maior chance, como titular no ataque junto de Van Persie.

Os 2 a 0 contra a Espanha mostraram: só com muita rapidez pelos lados, com os da frente ajudando na marcação desde a saída de bola adversária, a Holanda terá chances de manter o 4-3-3. E será bom manter a volúpia ofensiva vista nas vezes que o time escolheu o 4-4-2 como esquema. Dessa maior voluntariedade defensiva com a reorganização no ataque pode surgir o foco que a Oranje precisa para navegar em águas mais calmas. O jogo desta sexta começará a responder se o longo período de treinamentos ajudou a resolver os problemas. Por mais que seja um amistoso desinteressante.