Por incrível que pareça, a seleção que terminou a Copa do Mundo na terceira posição está mais pressionada do que a equipe derrotada por ela na decisão de 3º e 4º lugares. Afinal, mesmo com o 7 a 1 como uma memória incômoda (e talvez eterna), a Seleção Brasileira começa a se reerguer lentamente, em termos de resultado, e teve bom augúrio na vitória categórica contra a França, no amistoso desta quinta. Já a Holanda tem o mau começo nas eliminatórias da Euro 2016 muito vivo na memória. E terá duas partidas decisivas nesta rodada de jogos internacionais, para provar que aprendeu a lição.

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Pior ainda: a Oranje terá de fazer isso sem o seu grande dínamo, Arjen Robben, que rompeu um músculo abdominal na semana passada, sendo obrigado a abdicar da convocação para os jogos contra Turquia (neste sábado, pelas eliminatórias da Euro) e Espanha (amistoso, na próxima terça). Como se não bastasse a ausência de seu principal jogador, Robin van Persie ainda é outra falta sentida, com a lesão no tornozelo que já o tiraria naturalmente da convocação de Guus Hiddink, anunciada na sexta passada.

Está certo que talvez seja exagerado falar em crise numa seleção que aplicou 6 a 0 na Letônia, em sua última partida de 2014, já pela qualificação do torneio europeu de seleções. Todavia, a Letônia é um time fraquíssimo, destinado a fazer figuração nas eliminatórias. De mais a mais, as declarações de Hiddink após aquele jogo, desconversando sobre a possibilidade de se demitir mesmo após a goleada, deram alguma sequência às incertezas que cercavam (e ainda cercam) seu trabalho.

Além do mais, as derrotas para Itália, em amistoso, e principalmente para República Tcheca e Islândia – estas, pela qualificação -, ainda retumbam na mente dos holandeses. E o sufoco passado contra o Cazaquistão, lanterna do grupo A, só aumenta o tamanho da incógnita que paira sobre a Oranje. O que faz pensar em como será a partida contra a Turquia, time experiente, e que deixará os laranjas fora da zona de classificação para a Euro caso vença o jogo de Amsterdã.

Ainda há a Espanha, adversário do amistoso, que poderia estar em fase tão irregular quanto a Holanda. Todavia, a equipe de Vicente del Bosque já parece muito mais segura em sua transição entre a geração que lhe sepultou os traumas, conquistando uma Copa e duas Euros, e a atual, que já começa a ter lugares fixos nos titulares, com gente como Carvajal, Koke, Isco e Alcácer – sem contar Diego Costa, também cortado por lesão. Mesmo com as derrotas em amistosos para França e Alemanha, os espanhóis ainda exibem certa paciência. Nas eliminatórias, se perdeu para a Eslováquia, a Espanha logo teve Belarus e Luxemburgo para recuperar seu respeito. E contra a Holanda, mesmo num jogo de valor muito menor, ainda terá o 5 a 1 sofrido na Copa a lhe motivar.

O cenário turbulento deixa os convocados por Hiddink com uma grande tarefa. Sem Robben nem Van Persie, a situação atual pede que alguns jogadores da nova geração assumam destaque – coisa que a Holanda atual não desenvolveu tão bem ainda, ao contrário de Alemanha, Espanha e até França. Dessa prontidão dos novatos em segurarem a bucha dependerá o sucesso do esquema com que Guus Hiddink escalará a equipe.

Sem a possibilidade do 4-3-1-2/4-1-4-1 usado contra a Letônia, que permitiu a Robben circular mais pelo campo, Hiddink deverá ter duas cartas na manga. É mais provável que a Oranje seja escalada no 4-3-3 velho de guerra, com dois pontas a ladearem Huntelaar, fixo na frente. E nesses dois pontas estão dois grandes exemplos de meninos que precisam logo virar homens em campo com a camisa laranja: Quincy Promes, bem na temporada pelo Spartak Moscou, e Memphis Depay, o grande jogador da temporada na Holanda.

Se usar Memphis na ponta esquerda será quase uma obrigação, em caso de 4-3-3, a ponta direita, território do qual Robben é dono, virou uma grande incógnita. E Quincy Promes não quis crescer a voz, em entrevistas: “O treinador fez as escolhas dele. Narsingh também está com ritmo de jogo e tem muitas qualidades”. De fato, o ponta-direita do PSV voltou a jogar bem após a séria lesão no joelho. E está muito bem entrosado com Depay e (por que não?) Luuk de Jong, também convocado.

Mas a maior possibilidade está mesmo na escalação de Huntelaar na frente. Tanto que ele é o único jogador do trio ofensivo presente no “plano B” testado por Hiddink: um incomum 3-3-4. Aí, Sneijder e Afellay seriam os “pontas” no quarteto de ataque, enquanto Wijnaldum armaria as jogadas no meio, com Blind e Clasie como marcadores. E Huntelaar teria a companhia de Bas Dost, outro atacante de área.

Por sinal, Dost, que chegou credenciado pelo impressionante início de ano que teve no Wolfsburg, desdenhou de supostas pressões (quando se apresentava, viu a imprensa a lhe fotografar e brincou: “Há um pouquinho de exagero, tudo isso só porque eu marquei uns gols?”) e assumiu, à FOX Sports holandesa, que a chance de entrar jogando é pequena (“Espero poder jogar alguns minutos, e aí farei de tudo para ir bem. Se não der, tudo bem, também.”).

Seja num esquema ou no outro – Hiddink nada revelou, e fez um treino secreto na Amsterdam Arena, local dos dois jogos, nesta quinta –, o que se sabe é que a Holanda vai precisar que os novatos apareçam. E, claro, que os veteranos, representados desta vez por Huntelaar e por Sneijder, cumpram seu papel habitual. Tudo para ajudar a Oranje a decolar, enfim. Afinal de contas, o rascunho foi mal feito. E a equipe já tem de passá-lo a limpo, sem muito mais tempo para erros.