Clubes de grande tradição no futebol nordestino e adversários nesta segunda-feira pelo primeiro jogo da decisão da Série D nacional, Ferroviário e Treze dividem o fato curioso de já terem se enfrentado por todas as quatro divisões do Campeonato Brasileiro. Na elite, os confrontos foram realizados durante a década de 80, período mais bem-sucedido de ambos no âmbito nacional. Por dois anos seguidos, 1982 e 1983, os dois clubes caíram no mesmo grupo na fase inicial do Brasileirão e ficaram frente a frente em partidas de ida e volta, as quais relembramos agora.

Levando-se em conta apenas os campeonatos a partir de 1971, a Paraíba foi o último estado do Nordeste a ter representante no Brasileirão (com o Campinense em 1975). O Treze faria sua estreia no ano seguinte, disputando também as edições de 1977, 1979, 1982, 1983, 1984 e 1986 (neste último, vindo do Torneio Paralelo), além do Módulo Amarelo de 1987. Seus melhores momentos vieram nos anos 80, quando o Galo da Borborema chegou a derrotar o Botafogo em Caio Martins, o Santos na Vila Belmiro, arrancar um empate com o Corinthians no Morumbi e quebrar uma série invicta de 16 jogos de um São Paulo que se sagraria campeão.

O estado do Ceará, por outro lado, já contava com representante no Brasileirão desde a primeira edição do formato implementado em 1971. No entanto, durante quase toda aquela década, as participações ficaram restritas a Ceará e Fortaleza, com o Ferroviário estreando apenas em 1979. Graças às boas campanhas no estadual (que colocava campeão e vice no torneio nacional) na primeira metade dos anos 80, o Ferrim esteve em seis Brasileirões seguidos até 1984, ano de sua última presença na elite. E também conseguiu ótimos resultados, como uma goleada sobre o Fluminense no Castelão e empates contra o São Paulo no Morumbi e o Cruzeiro no Mineirão.

Os Brasileirões de 1982 e 1983 tiveram o mesmo formato na primeira fase: os 40 clubes eram divididos em oito grupos de cinco (jogando em turno e returno dentro das chaves), sendo que os grandes eram distribuídos entre eles e os demais eram alocados seguindo um critério mais ou menos regionalizado. E foram nestas edições e nesta etapa que os dois finalistas da Série D 2018 registraram todos os seus quatro confrontos pela elite nacional.

1982

Anúncio sobre a partida no Diário do Nordeste (Fonte: Site Almanaque do Ferrão)

Na primeira edição em que se cruzaram, em 1982, Treze e Ferroviário ficaram no Grupo C, que era ponteado por dois dos grandes favoritos ao título daquele ano, Flamengo e São Paulo. Os rubro-negros vinham de levantar, no fim do ano anterior, os títulos do Carioca, da Libertadores e do Mundial Interclubes, todos num espaço de tempo de pouco mais de 20 dias. Já o Tricolor, então apelidado de “Máquina” pela imprensa paulista, vinha de um bicampeonato estadual. Considerado a terceira força da chave, o Náutico era o outro adversário.

Campeão paraibano em 1981 após um jejum de 15 anos, o Treze perdeu alguns de seus principais jogadores para a campanha no Brasileirão do ano seguinte, mas manteve outros, como o goleiro Hélio Show, além do técnico Pedrinho Rodrigues. E também se reforçou, trazendo nomes experientes como o volante Draílton (ex-Náutico) e o ponta-direita Jangada, que havia deixado justamente o Ferroviário no fim do ano anterior. Vice-campeão cearense, o Ferrim, por outro lado, ainda contava com outros jogadores rodados, como o lateral Paulo Maurício (ex-America do Rio), o zagueiro Darci Munique e o centroavante Roberto.

O primeiro confronto aconteceu pela terceira rodada, no dia 24 de janeiro, no Castelão. O Ferroviário, que havia perdido em casa para o Náutico na estreia e folgado na rodada seguinte, foi novamente surpreendido em seus domínios: o Treze, que somara um ponto ao empatar em casa com o Náutico quatro dias antes, venceu por 2 a 0. O meia Wilson, de pênalti, abriu o placar aos 12 minutos de jogo, e o atacante João Paulo anotou o segundo, aos 25 da etapa final.

O resultado colocou o time paraibano na disputa com o Náutico pela terceira vaga direta do grupo (o quarto colocado disputaria uma repescagem), enquanto deixou a situação dos cearenses bem complicada. Para tentar reagir, o Ferroviário chegou a se reforçar trazendo por empréstimo o goleiro Barbirotto, reserva do São Paulo, e pareceu voltar à briga ao bater o Timbu no Recife, aumentando a expectativa para o jogo da volta com o Galo, marcado para 14 de fevereiro.

No estádio Ernani Sátiro, o Treze voltou a vencer pelo mesmo placar da partida de ida e se colocou em ótima situação para garantir a classificação direta. Pouco antes do intervalo, o ponta-esquerda Hélio Sururu abriu o placar para o time da casa. E na etapa final, outra vez João Paulo balançou as redes aos 40 minutos, confirmando a vitória e decretando a eliminação do Ferrim. Na última rodada, um empate sem gols diante do Náutico no Arruda deixou o time paraibano na terceira colocação do grupo, despachando os alvirrubros para a repescagem.

Na segunda fase, o Galo da Borborema cairia num grupo com Botafogo, São José e Londrina, no qual os dois últimos ficariam com as vagas. O time ficaria na lanterna somando apenas uma vitória e um empate, mas se despediria de maneira honrosa, aplicando 3 a 1 no Alvinegro carioca no estádio de Caio Martins, em Niterói.

1983

No ano seguinte, Treze e Ferroviário voltaram a se encontrar na primeira fase do Brasileirão, agora no Grupo H, e novamente tendo a companhia do Náutico. Porém, nos lugares de Flamengo e São Paulo, desta vez estavam o Vasco (detentor do título carioca de 1982) e o Cruzeiro (que então atravessava uma das fases mais difíceis de sua história e ao fim daquele ano assistiria ao rival Atlético conquistar o hexacampeonato mineiro).

Para tentar apagar a campanha ruim do Brasileiro anterior, o Ferroviário trouxe reforços, como o experiente meia Betinho, ex-Santa Cruz. E se, em 1982, o ponteiro Jangada havia trocado o Ferrim pelo Galo, agora era a vez do goleiro Hélio Show fazer o caminho inverso, depois de ter sido afastado do clube de Campina Grande por seu revelado envolvimento no escândalo da Máfia da Loteria Esportiva. O Treze, por sua vez, havia mantido boa parte dos titulares, mas era agora treinado pelo veterano Pinguela, que havia feito história no Bahia.

No dia 5 de fevereiro, o Ferroviário registrou sua única vitória no campeonato – e no confronto pela elite nacional – ao bater o Treze por 2 a 1 no estádio Presidente Vargas, em Fortaleza. O time tricolor saiu na frente quando Almir recebeu passe de Jorge Veras e driblou o goleiro para marcar aos 24 minutos de jogo. Mas aos 43, Rocha aproveitou a indecisão na defesa da equipe da casa e empatou. O gol da vitória do Ferrim viria na etapa final aos 15 minutos, mais uma vez com Almir, agora desviando cruzamento da ponta esquerda.

Quando as duas equipes voltaram a se enfrentar, pela oitava rodada no dia 23 de fevereiro, o cenário era bem diferente do grupo do ano anterior, com o Náutico se intrometendo mais na briga com os ponteiros do que na luta pela vaga direta, deixando a disputa entre cearenses e paraibanos apenas pela repescagem. No caso do Treze, era preciso salvar também a honra, já que o Galo da Borborema havia perdido todas as seis partidas que havia feito até ali.

E pelo menos naquele dia em Campina Grande, a missão foi bem-sucedida: o Treze deu o troco e venceu por 2 a 1, abrindo o placar com Wilson, de pênalti, aos 15 minutos e ampliando com Lula aos 42. No último minuto da partida, os cearenses descontaram com Ivã. O resultado, porém, não seria o suficiente para o Galo, que somou ali seus únicos pontos naquele Brasileiro. Mesmo perdendo também seus dois últimos jogos, o Ferrim assegurou o quarto lugar do grupo e foi à repescagem em jogo único, caindo de virada diante do Botafogo no Maracanã por 3 a 1.