Por Marina Andrade*

O embate comparativo – e quase filosófico – entre os elencos de Palmeiras e Flamengo, respectivamente o eliminado e o classificado da Libertadores, ocupa a grade de canais esportivos com frequência assustadora. Com a mesma regularidade, pouco se pode extrair das análises, algumas gritadas, que não-raro chegam à conclusão de equivalência. Cordial aos olhos de torcedores-telespectadores, estabelecer que o plantel de um e de outro são equiparáveis despreza o fundamental: a diferença particular de cada equipe, que não pode ser observada em um abordagem comparativa. O erro analítico mora na necessidade de polêmica e parece contaminar as ações dos clubes.

Cuéllar ser melhor ou pior que Felipe Melo é uma besteira pouquíssimo objetiva que, por exemplo, não deixa espaço para uma avaliação mais profunda sobre o problema no meio-campo rubro-negro, agravado com a venda do colombiano para o Al Hilal e com a lesão de Diego Ribas – algo pouquíssimo subjetivo. E isso esconde, inclusive, a falha de planejamento da diretoria do Flamengo. Se o erro está em iniciar a temporada com Abel ou na troca por Jorge Jesus, fica à escolha do analisador, não é o mérito do presente texto. A premissa aqui é dizer que a comparação entre Arrascaeta e Dudu não fala que o Flamengo, hoje, só tem um meia reserva, o jovem Reinier.

O planejamento iniciado com Abelão previa muitos pontas para o 4-3-3 do enófilo técnico, que usava apenas um meia, Diego, Everton Ribeiro como ponta, e saboreava como um bom Cabernet ter Arrascaeta no banco. De repente, Jorge Jesus chegou e efetivou todos os meias do elenco no time titular, em esquema que dispensa pontas. Lesão, novamente, fez o Flamengo lançar Reinier às pressas e colocou em apuros o torcedor. Não havia atleta suficiente, nem na reserva. Esse realmente é melhor elenco do Brasil?

Isso sem comentar que não se tem a menor ideia do que fazer com Berrío e Vitinho no Flamengo. Mais interessante ainda é constatar que Bruno Henrique, estrela reluzente convocada para a Seleção de Tite, fatalmente amargaria injusta reserva caso a operação por Balotelli obtivesse êxito. Comparar Balotelli e Borja pareceu elucidativo? Há agora para a posição de volante somente William Arão, Piris da Motta e Hugo Moura. Jorge Jesus terá de puxar da base o garoto Vinição. Perdoem-me a insistência: esse é mesmo o melhor elenco do Brasil?

Há um profunda confusão, em muito provocada por rasos debates televisivos, entre qualidade do elenco e quantidade de elenco. E ambas são variáveis tolas quando não se constata equilíbrio dentro do próprio plantel. Flamengo tem um elenco recheado de grandes nomes e de desequilíbrio quantitativo entre os setores. Palmeiras tem um plantel numeroso, com fartas e boas opções, mas extremamente desigual em qualidade entre as posições.

 

Ambos padecem, no fim, do mesmo mal: são clubes deslumbrados com o próprio poderio financeiro e com grande dificuldade de recorrer ao simples exercício de olhar apenas para si a fim de resolver as próprias carências. O título de maior predador do mercado importa muito pouco para o torcedor.

E lá foi o Palmeiras, uma equipe com Felipe Melo, Bruno Henrique, Gustavo Scarpa, Lucas Lima, Zé Rafael, Dudu, com tantas opções em tantas posições, correr atrás de Ricardo Goulart e Ramires enquanto o comando de ataque sofria entre Borja e Deyverson, soluções de Scolari. Será esse, então, o melhor elenco do Brasil? Luiz Adriano chegou tão tarde que mal sabia se havia feito seu primeiro gol pelo Palmeiras ou pelo Flamengo. Parecia tão assustado e confuso quanto o próprio clube diante da eliminação na Libertadores, algo que visivelmente não passava pela cabeça de ninguém na Academia. E daí se Gustavo Gómez for melhor ou pior que Rodrigo Caio?

Há também uma pergunta espinhosa, que o Flamengo corajosamente se fez, e o Palmeiras não parece interessado: tudo é só uma questão de elenco?

O gramado do vizinho sempre parecerá mais verde, mais tapete, menos esburacado. Ano passado, a arena do Palmeiras parecia mais vívida. Agora, o Maracanã parece ter um verde diferente. As emissoras cumprem seu papel ao buscar a audiência. Os torcedores, em procurar defender a sua equipe como a melhor, seja qual for o resultado desportivo da vez. Mas os clubes não podem se distrair em mera disputa de vaidades. Vem aí no domingo, desta vez, o embate estritamente desportivo entre Flamengo e Palmeiras, e a observância do desempenho no duelo, no campo e na bola, é que vai revelar os muitos buracos de cada elenco. Não a comparação.

*Marina Andrade é jornalista e colunista o canal Ultrajano