Derrotas doloridas têm efeito semelhante ao das marés. Quando a água baixa e a praia se revela, a qualidade do mar se mostra. Não há calçadão modernoso que esconda garrafa plástica. A maré é implacável.

A eliminação diante do Grêmio deveria ter esse efeito para o Palmeiras. Três eliminações seguidas na Libertadores, jogo no Pacaembu e Deyverson no segundo tempo são apenas sinais na areia, as garrafas plásticas que irremediavelmente voltam para nos assombrar. O que limpa o mar não é mutirão com vassourinha. Não é discurso moralista dizendo “essas pessoas que fazem farofa e sujam a praia!”. O trabalho é muito mais profundo. Lamento dizer, mas Alexandre Mattos e Felipão são apenas sinais. Eles se guiam de acordo com os sinais que o Palmeiras lhes dá. E o Palmeiras, é bom dizer, é uma combinação de torcida e diretoria.

Um Palmeiras que se guia por contratações de impacto, resultado em campo acima de tudo e equilíbrio financeiro a despeito das consequências para a torcida e para a organização do clube colhe exatamente o que o Palmeiras está colhendo: alguns títulos, muitas decepções e uma enormidade de neuroses.

Para sair desse ciclo, é necessário mudar o funcionamento da máquina. O Palmeiras precisa se livrar de um pensamento mágico que, inevitavelmente, nos joga de volta aos anos 50 do século passado. E como fazer isso? Primeiro, trago algumas pistas do que já deu certo. Depois, mostro as razões desse passadismo. Por fim, faço um convite: precisamos deixar de ser uma enorme quermesse num estádio modernoso.

Sociedade anônima

Dudu cobra escanteio contra o Corinthians no Allianz Parque (Foto: Getty Images)

Nos seus piores anos, entre 2002 e 2014, diante da sucessão de Arapiracas, Goiases e rebaixamentos, uma multidão de palmeirenses fez o trabalho pesado que legou ao clube a infraestrutura política e econômica que lhe permite manter Dudu, por exemplo. Muitos desses palmeirenses se organizariam mais tarde em grupos políticos dentro do Palmeiras, ganhando poder real dentro do clube – a vantagem do caos é que ele abre uma enorme janela de oportunidade para novos atores políticos. As barreiras de entrada ficam menores.

Poucos anos atrás, quando Arnaldo Tirone ainda era presidente do Palmeiras, foi a mobilização de sócios, torcedores e algumas pessoas que já tinham migrado para a política institucional palmeirense que permitiu a renovação democrática do clube. Não é pouca coisa. O Palmeiras foi o único clube grande de São Paulo que passou eleições diretas CONTRA a vontade do presidente do clube à época. Tanto no Santos quanto no Corinthians, as diretas passaram com apoio institucional.

Esse movimento abalou a estrutura petrificada de poder que fazia do Palmeiras, ao mesmo tempo, um gigante do Brasil e um anão aprisionado pela avenida Pompeia. As eleições diretas tornaram mais difícil priorizar a bocha ao futebol, por mais absurdo que isso pareça.

Foi também o trabalho desses palmeirenses, muito deles inimigos corleônicos atualmente, que manteve o Allianz Parque vivo. Há dez anos, havia oponentes poderosos ao projeto do estádio, muitos deles com cargos na diretoria. Mustafá Contursi era contra o estádio e seus aliados atuaram ativamente contra o projeto encabeçado por Belluzzo – primeiro como conselheiro, depois como presidente. A obra foi vilipendiada, sabotada, embargada. Num determinado momento, com o velho Palestra abaixo, havia o risco real de não ter estádio – nenhum estádio.

Com a união de palmeirenses improváveis, a casa nova se materializou. A obsessão foi tão grande que havia câmeras monitorando a construção do estádio (era possível acompanhar a obra pela internet) e ação jurídica voluntária. Além, claro, da pressão. Os conselheiros que eram contra o estádio sofreram muito nas alamedas do clube social.

Os meios que permitiram tudo isso também foram, em si, pilares da reconstrução. Os grupos no falecido Orkut, os blogs, os fóruns, tudo isso nasceu primeiro como grupo de autoajuda e revolta. Mais tarde, a raiva virou potência. A potência criou identidade. E a identidade deu força a centenas de pessoas que se mexeram para reinventar o Palmeiras. A pujança econômica atual tem muita relação, claro, com o dinheiro do estádio e o patrocínio da Crefisa.  Mas nenhum deles viria sem essa mobilização em rede de palmeirenses ao longo de muitos e doloridos anos. Não haveria Brasileirão 2016 sem essas pessoas.

Então, o que deu errado? Como um time humilhado virou um time antipático? Como um time com tal processo democrático caiu nas mãos de meia dúzia de pessoas? Como um time que dependeu tanto da torcida nos anos difíceis abriu mão dela nos anos gloriosos?

Há várias respostas. Vou esboçar algumas, sem a pretensão de dar a definitiva. O Palmeiras, como bem sabem os palmeirenses, é um mistério que se esconde numa porta mágica na rua padre Antônio Tomás.  Mas a principal é simples: o passado não morre no Palmeiras. Ele apenas muda de roupa.

Bem-vindos aos anos 50

Leila Pereira e o presidente Mauricio Galiotte

A primeira resposta é simples. A velha ordem não desaparece só porque há gente nova no poder do clube.

Os conselheiros do Palmeiras continuam sendo, em sua maioria, os mesmos de dez anos atrás. Com algumas (e crescentes) exceções, predomina uma visão paroquial de clube e de mundo. Cultura política demora a morrer. Mustafá pode ter sido derrotado, mas a cultura que pariu Mustafá continua lá. A paixão recente por Leila Pereira, dona da Crefisa, segue a mesma rota do mustafismo. O poder no Palmeiras tem paixão por um líder forte e, na aparência, benevolente.

Na festa junina do clube, dois meses atrás, Leila Pereira era protagonista de um beija-mão constrangedor. Muitos conselheiros imploravam por migalhas de poder e prestígio que caiam das mãos da patrocinadora. Era um cenário semelhante ao dos tempos em que Mustafá reinava soberano. Mas, naquele contexto, o que ele podia oferecer era vaga de carro dentro do clube e ingressos para as partidas importantes. O que Leila pode oferecer, ao menos em teoria, é muito maior. Não há esperança de mudança relevante nesse contexto. O Palmeiras fica sempre atrelado a um padrinho.

Com exceção das eleições diretas, o Palmeiras continua preso a um imaginário, a um jeito de funcionar, dos anos 50. O atual modelo é só o atraso vestido com roupas novas. É difícil imaginar que o grupo de conselheiros vá passar medidas relevantes e estruturais nesse contexto. O Palmeiras pode até parecer um clube-empresa no discurso, mas é um clube-quermesse no funcionamento.

Outra explicação é que a modernização no Palmeiras foi sui generis. Desde a gestão de Paulo Nobre, o clube decidiu abrir mão, voluntariamente, de uma parcela relevante da torcida. A política de ingresso caro criou um efeito terrível.

Além de excluir milhares de pessoas, a medida hostilizou e alienou grandes grupos de torcedores que batalharam por mudanças na década anterior, afastando em bloco pessoas que ajudaram o clube a superar os anos de seca. A política antipática de ingresso irritou as pessoas que miravam um Palmeiras com o dobro de torcedores em 10 anos.

A visão de curto prazo, de faturar o máximo possível em cada partida, combinada a uma ridicularização dos oponentes, afastou uma massa crítica do clube. Isso inclui tanto palmeirenses mais à esquerda no espectro político quanto palmeirenses mais à direita, muitos deles no mercado financeiro.

Para os primeiros, a exclusão era um problema em si. Para os segundos, cada lugar vazio no estádio é uma oportunidade financeira perdida. É melhor fazer algum dinheiro do que nenhum dinheiro. E, claro, há um ponto que os une. Para ambos, estádio pela metade é isso: um estádio que faz metade da pressão positiva que o time precisa para jogar e vencer. Não dá para abrir mão disso, mas tanto Nobre quanto Mauricio Galiotte fizeram essa escolha.

Por fim, o ingresso caro criou uma política de “turismo de estádio”. A mensagem do clube é simples: a única exigência para fazer parte da torcida é ter dinheiro para gastar. Não precisa cantar, não precisa se envolver, não precisa se importar.

Sei que o clube não tinha essa intenção, mas cultura é aquilo que a gente cria com as nossas ações – voluntárias ou não.  Em vários jogos decisivos, a torcida se comportou com a indiferença de quem assiste a um filme ruim no cinema. Só isso, terrivelmente isso. Em outros tempos, a diretoria teria sofrido o inferno na terra para que o jogo contra o Grêmio fosse no Allianz Parque. Hoje, a torcida assiste indiferente a um show que interdita o estádio à torcida.

O curioso é o quanto essa política que parece racional, focada em faturamento, ecoa velhas concepções dentro do clube. O Palmeiras para poucos torcedores é só uma reedição do “Palmeiras para italianos e seus descendentes”. É a mentalidade de clube de colônia, assustado com a sua própria grandeza. Curioso, não? A suposta planilha no Excel só reedita o caderninho de sotaques.

Torcida obsessiva

O scolarismo domina o imaginário palmeirense (Foto: Getty Images)

Calma, estou quase terminando. Mas, antes disso, preciso falar de mais dois itens: torcida e identidade.

Do lado da torcida, os anos de crise produziram paixão ainda mais forte – e também rancor e síndrome de perseguição. Sim, muito disso tem base real (eu lembro bem das comparações com o Guarani). O ponto é que o Palmeiras incorporou o rancor e a perseguição à sua identidade – que já não era muito fácil.

A torcida se tornou impermeável a críticas, a si a ao clube. Ao mesmo tempo, manteve a irritação e a impaciência em níveis dignos dos tempos de fila. É uma torcida que não consegue ter paz – e que não consegue passar paz ao time.

Mesmo que a diretoria esbanjasse uma vocação inclusiva (não esbanja) e se corresse riscos sinceros para levar o clube a outro patamar (não corre), a torcida dá mostras de que não colaboraria. Em vez de pressionar de um jeito inteligente, via instituição, a torcida do Palmeiras pinta muro e persegue jogador. A torcida do Palmeiras, generalizando bem, virou um dreno de energia para o clube. Não esqueceu nada – e não aprendeu nada. Achamos que o melhor jeito é o apavoro.

E, neste ponto, chegamos ao scolarismo.

Tenho muito orgulho do passado do Palmeiras. Esse apego à história, essa relação com os times e torcedores que nos antecederam, é uma das características mais bonitas do clube. Somos um clube enraizado no tempo. Rapaz, como isso é poderoso.

Mas, como bem sabemos, a história permite muitas leituras – e frequentemente é usada como âncora em disputas de poder. No caso específico do Palmeiras, a história que impulsionou os movimentos de reforma nos anos 2000 também virou ilusionismo em momentos vindouros – inclusive agora. Isso produziu o eterno retorno de uma possível Parmalat (alô, Traffic, alô, Crefisa), de jogadores (Valdívia & Kleber) e de um jeito de jogar a Scolari.

Os dois primeiros itens são mais fáceis de resolver do que o terceiro. Eles são circunstanciais. Já o scolarismo, não. Ele afetou profundamente a identidade palmeirense. Passamos muitos anos procurando o próximo Scolari.

O Palmeiras tinha uma identidade relativamente clara até o fim da década de 1990. Era o time da Academia de Futebol. Luiz Felipe Scolari mudou isso. O Palmeiras trocou a Academia pelo resultadismo, e isso funcionou bem por um tempo.

O time conquistou a taça Libertadores pela primeira vez, venceu a Copa do Brasil e, ano passado, levou o Brasileirão. Tudo lindo, maravilhoso, comemorei muito. Mas é inegável. O Palmeiras ficou no divã quanto ao seu modelo de jogo, quanto à sua contribuição ao futebol. Os palmeirenses queremos a Academia, mas, sempre que a coisa aberta, apelamos ao scolarismo – mesmo quando ele não funciona mais.

O scolarismo se transformou num fantasma que pressiona a cabeça dos vivos, e ninguém teve a coragem de colocar esse fantasma na sala e discuti-lo a sério. Ele é o apelo irresistível do passado e dos jogos memoráveis diante do Corinthians. Ele se impôs. Queremos o futebol bonito, mas sem tempo para que ele floresça. Queremos o resultado, mas reclamamos se ele vem de qualquer jeito. Assim, fica difícil. É muita bipolaridade distribuída em milhões de almas.

Portanto, não é Scolari que está atrasado. Somos nós, palmeirenses. Nós queremos que tudo mude para que tudo continue como está. “Você está exagerando, Leandro!”. Desculpe, mas não estou. A crise de identidade que o scolarismo revela também mostra o quão somos apegados ao que não funciona mais: um jeito de gerir o clube, um jeito de torcer, um jeito de liderar o futebol.

E agora?

Jogadores do Palmeiras lamentam contra o Grêmio (Foto: Getty Images)

A maré da derrota diante do Grêmio deveria chamar os palmeirenses a uma profunda reflexão. Pode trocar o técnico, pode tirar o Mattos, pode mandar o Dudu embora (NÃO!). Enquanto o Palmeiras estiver comprometido com o passado, irresistivelmente atrelado a uma visão paroquial de mundo, embora com uma roupa outono/inverno 2019, o clube estará condenado a picos brilhantes e vales de dor.

Por mais que a gente diga “se a Crefisa for embora, o Palmeiras continuará no azul”, não será assim. O clube ficará fragilizado. Ele pode entrar em parafuso quando, em vez das contratações de impacto, começarem a chegar mais apostas do que certezas. Vão recomeçar as guerras fratricidas. São nestes momentos que o clube passa a ficar em décimo lugar no Brasileiro e, pouco tempo depois, entra numa relação abusiva com a zona de rebaixamento. Foi assim no pós-Parmalat e no pós-Traffic. A questão nunca é só o dinheiro. É o modelo viciado. O Palmeiras pode até usar terno, mas continua se comportando como uma quermesse, numa mistura de amadorismo, paroquialismo e visão de curto prazo. Não é possível construir um Palmeiras diferente desse jeito.

O Palmeiras teria condições de superar uma eventual saída da Crefisa se apostasse, por exemplo, na ascensão das suas vitoriosas categorias de base ao time principal. Porém, sejamos sinceros: Felipão não aposta nos moleques porque sabe que você, torcedor, também não apostaria.

O maior desafio do clube, portanto, não é mudar o estatuto, o técnico ou os cantos da torcida. É ter coragem de se reinventar de verdade, de renovar sua identidade e sua presença no mundo. O momento de bonança seria ótimo para fazer isso. Seria o momento para repactuar pontos importantes com a torcida, com o conselho. Seria o momento para reinventar a relação. Hoje, porém, não há lideranças nem projeto para fazer isso.

A derrota escancarou nosso atraso. O que nós vamos fazer com ele?  Abraça-lo e chama-lo de nosso? Ou deixa-lo passar, com coragem de se recriar? Está nas nossas mãos. É um bom momento para os palmeirenses que se importam com o clube voltarem a atuar.

*Leandro Beguoci é jornalista da Nova Escola, ex-colega e sempre companheiro da Trivela e aparentemente palmeirense.