A edição de 2004 da Libertadores é uma daquelas que ficará para sempre como a vitória do improvável diante dos pesos pesados. Um campeão inédito que enfileirou gigantes e os derrubou um dos grandes times do Boca Juniors para levantar o troféu mais desejado da América do Sul. O Once Caldas, com seu ferrolho, derrubou potências sul-americanas parea viver, passo a passo, seu sonho continental e ficar com o título improvável.

Um dos principais responsáveis pelo título estava no banco: Luis Fernando Montoya, técnico daquela equipe. Foi ele o autor do muro defensivo que transformou o Once Caldas em um demolidor de gigantes. Apesar de chegar ao topo da América, o treinador viveu um drama que mudou a sua vida.

Conquistar um título da Libertadores por um clube colombiano é uma missão ingrata até hoje. Antes do Once Caldas, só um time havia conseguido o feito: o Atlético Nacional, em 1989. O Once Caldas conseguiu em 2004 e os colombianos só voltariam a comemorar a conquista da taça em 2016, novamente com o Atlético Nacional. Tudo isso só torna aquele título, conquistado há exatamente 15 anos, no dia 1º de julho de 2004, um feito ainda maior.

O início

Luis Fernando Montoya se formou em educação física e começou a sua vida de técnico em 2001, como treinador da base do Atlético Nacional. Foi alçado ao posto de técnico principal naquele mesmo ano e chegou a ser vice-campeão no Apertura de 2002. Em 2003, assumiu como treinador principal do Once Caldas. Algo que mudaria a sua vida e a história do clube.

O Once Caldas foi campeão no torneio Apertura de 2003, um título que não vinha há mais de 50 anos quando aconteceu – tinha sido campeão em 1950. Assim, classificou-se para a Libertadores do ano seguinte.

Sorteado para o Grupo 2 da Libertadores, o Once Caldas teve como adversários o Maracaibo, da Venezuela, o Féniz, do Uruguai, e um adversário mais forte, o Vélez, da Argentina. Os colombianos iniciaram com tranquilidade: uma vitória por 3 a 0 sobre o Fénix, jogando em casa. Fora de casa, na segunda rodada, bateu o Maracaibo por 2 a 1. Fechou o primeiro turno contra o Vélez, perdendo por 2 a 0 na Argentina.

No segundo turno, venceu o Vélez por 2 a 0 em Manizales, se colocando em uma boa posição para se classificar. E isso ficou claro nos jogos seguintes, porque venceu Maracaibo por 2 a 1, novamente em casa, e fechou sua participação no Uruguai empatando por 2 a 2 com o Fénix. Com 13 pontos, foi primeiro colocado, à frente do segundo colocado, Maracaibo, com oito, e deixando Vélez Sarsfield, com sete, e Fénix, com cinco, eliminados.

No mata-mata, uma fortaleza

Quando começaram as oitavas de final daquela Libertadores, pouca gente deve ter se atentado ao duelo Barcelona, do Equador, contra Once Caldas. Com tantos outros times pesados naquela fase, era normal que os holofotes estivessem em duelos como São Paulo x Rosário Central, River Plate x Santos Lafuna e Boca Juniors e Sporting Cristal, para ficar em alguns deles. Havia ainda o Santos, de Robinho e Diego, contra a LDU; o Cruzeiro, do craque Alex, contra o Deportivo Cali; até mesmo o São Caetano, vice-campeão da Copa em 2002, contra o badalado América do México.

Foi contra o Barcelona de Guayaquil que o Once Caldas mostrou um pouco do que se tornaria a sua marca: a força defensiva. No Equador, os dois times empataram por 0 a 0, no estádio Monumental, em Guayaquil. Depois, em Manizales, os times empataram em 1 a 1 – naquela época ainda não havia o gol fora de casa como critério de desempate. Por isso, decisão nos pênaltis e vitória por 4 a 2 dos colombianos.

Gigantes caem como dominó

Se ninguém tinha muitos motivos para olhar para o Once Caldas até as oitavas de final daquela Libertadores, foi nas quartas de final que as coisas esquentaram. O duelo era contra o Santos. O primeiro jogo foi na Baixada Santista e, mesmo com na Vila Belmiro, os colombianos arrancaram um resultado para se comemorar. Depois de sofrer um gol de Basílio aos 38 minutos do segundo tempo, alcançaram o empate com Arnulfo Valentierra, um dos grandes nomes daquela conquista: 1 a 1 e decisão para Manizales.

O jornal Folha de S. Paulo tinha manchete no dia seguinte: “Defesa falha, e Santos cede empate no fim”. O time de Vanderlei Luxemburgo era cobrado por ser mais ofensivo contra um time que montou uma retranca. Depois de abrir o placar com Basílio, o zagueiro Pereira falhou e o empate foi cedido aos visitantes.

Na época, Luxemburgo era o técnico mais importante do país, mas não conseguia o título internacional. Por isso, depois da derrota por 1 a 0 na Colômbia e a eliminação diante do Once Caldas, a Folha de S. Paulo colocou na capa do caderno de esportes o destaque inteiramente no técnico: “Santos cai com Luxemburgo”. Novamente Arnulfo Valentierra, aos 25 minutos do segundo tempo, marcou o gol do Once Caldas que eliminou o time que tinha Renato, Elano, Diego, Robinho e Deivid.

Viria então a semifinal. Novamente, um time brasileiro pelo caminho: o São Paulo, que voltava à Libertadores depois de 10 anos de ausência. Novamente, os brasileiros jogariam a primeira partida em casa. E, outra vez, o Once Caldas se mostrou uma retranca muito complicada. “São Paulo frustra alçapão e perde recorde e embalo”, diz a manchete da Folha. O São Paulo tinha Rogério Ceni, Cicinho, Fabão, Danilo, Grafite e Luís Fabiano.

Enquanto isso, as atenções do continente se voltavam ao outro duelo da semifinal. River Plate e Boca Juniors fizeram um confronto histórico. No jogo de ida, o Boca Juniors venceu em casa o River por 1 a 0 na Bombonera, o dia seguinte ao 0 a 0 entre São Paulo e Once Caldas.

Na semana seguinte, era a vez do jogo de volta. No dia 16 de junho, Once Caldas e São Paulo entraram em campo no estádio Palogrande, em Manizales. Herly Alcázar marcou pelo Once Caldas aos 27 minutos, mas Danilo empatou pelo São Paulo aos 32 minutos, tudo ainda no primeiro tempo. Só que nos acréscimos do segundo tempo, quando o jogo tinha cara de pênaltis, Jorge Agudelo recebeu nas costas da defesa, cortou Fábio Santos, e chutou para marcar o gol da vitória por 2 a 1, que levava o time a uma histórica final.

“Aos 45 min do 2º tempo, gol condena São Paulo ao passado”, dizia a manchete da Folha de S. Paulo. O time, curiosamente dirigido por Cuca, treinador atual do São Paulo, ficou a poucos minutos de conseguir ao menos ir para os pênaltis. Havia uma sensação de fracasso dos brasileiros, por terem caído para o Once Caldas. Até porque do outro lado tinha o Boca Juniors, que conseguiu a classificação em pleno estádio Monumental, depois de perder por 2 a 1 e avançar nos pênaltis em vitória por 5 a 4.

Só que a final trouxe um cenário que nos acostumamos a ver em todo mata-mata. Os colombianos começaram a disputa fora de casa e, adivinha só, ficaram em um empate por 0 a 0 na histórica Bombonera. Era o Boca Juniors do técnico Carlos Bianchi e de Carlos Tevez, um astro na época. Na volta, na Colômbia, novo empate: 1 a 1, com gol de Viáfara para o Once Caldas e Burdisso para o Boca. O destino daquela Copa América seria selado nos pênaltis. E foi uma festa de erros. A disputa acabou em 2 a 0 para os colombianos, que, assim, levantaram a mais almejada taça da América do Sul.

Ouça a narração do último pênalti daquela disputa, pela Rádio Caracol, da Colômbia:


Rádio Caracol lembra da conquista:

O drama de Luis Fernando Montoya

“Campeão da Vida”. O técnico Luis Fernando Montoya viveu o ponto mais alto da sua carreira no mesmo ano que viveu um dos momentos mais trágicos da sua vida. Naquele dia 1º de julho de 2004, ele conduzia o Once Caldas ao inédito título da Libertadores, um feito histórico. “Das coisas que mais gostei da Copa Libertadores foi o compromisso e disciplina da equipe”, afirmou Luis Fernando Montoya.

O time disputaria o Mundial de Clubes daquele ano, a última edição da Taça Intercontinental contra outro campeão surpreendente: o Porto. Curiosamente, o Porto tinha dois jogadores eliminados pelo Once Caldas no caminho para a taça da Libertadores: Diego, ex-Santos, e Luís Fabiano, ex-São Paulo.

Adivinha só: os dois times ficaram em um 0 a 0 no Estádio Internacional de Yokohama, no dia 12 de dezembro de 2004. Nos pênaltis, os portugueses vencem por 8 a 7, com Diego sendo o primeiro a cobrar e comemorando muito em cima do goleiro Henao – o que rendeu um inusitado cartão vermelho nos pênaltis para o ex-santista.

Um feito enorme se pensarmos que o Once Caldas não era favorito em nenhum duelo que fez desde as quartas de final da Libertadores, e também não era favorito diante do Porto no Mundial. Não por acaso, Luis Fernando Montoya foi eleito o melhor técnico da América do Sul em 2004 pelo tradicional jornal El País, do Uruguai.

Só que o destino foi cruel com o treinador colombiano. Já de férias, no dia 22 de dezembro, ele foi vítima de um assalto. Tentou defender a sua esposa, Adriana Herrera, em uma tentativa de assalto ao seu carro. Foi ferido com dois tiros que atingiram sua medula espinhal. Como consequência, ficou tetraplégico. E, acredite, isso ainda foi lucro.

Sua sobrevivência era considerada improvável quando ele foi hospitalizado. Ele sobreviveu e ouviu que seria dependente de um ventilador mecânico para respirar e um marca-passo. Mais: ele talvez nunca mais conseguisse falar. Se tornou, então, o “campeão da vida”. Segue como professor na região de Medellín, na Colômbia, além de colunista em jornais do país. Atualmente com 62 anos, o professor vive, fala, não depende mais de aparelhos e consegue alguns leves movimentos com as mãos e com os pés.

“Sempre sonhei primeiro em ganhar a Copa Libertadores. Depois disso, pensava em ir para a Europa ou algum país da América do Sul, como Argentina ou Brasil, que me chamavam muito a atenção. Queria aprender mais, atualizar meus conceitos, valorizar tudo que fiz, para então ter as condições de assumir mais tarde uma seleção colombiana. Era um plano que tinha”, disse Montoya em entrevista ao Terra, em 2015.

O treinador continua empolgado com futebol. É alguém que segue muito ativo porque, como ele diz, mentalmente é o mesmo. As limitações são apenas físicas. “(O que me faz viver) é a motivação dar o exemplo ao meu filho, pode dialogar, falar com ele. É poder escutar a minha esposa. Graças a Deus estou vivo, e isso é o mais importante”, afirmou Luis Fernando Montoya. Um nome que será para sempre lembrado como capaz de levar um limitado time do Once Caldas à sua maior glória na história. Uma glória que completa 15 anos neste dia 1º de julho.