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O Olympique de Marseille está em boa posição para, pela primeira vez em sete anos, voltar a se classificar para a Champions League. Segundo colocado da Ligue 1, não disputa o título, mas tem vantagem boa para Rennes (3º) e Nantes (4º), de cinco e nove pontos, respectivamente. E, em uma temporada surpreendentemente boa, arranjou sarna para se coçar.

Se em campo as coisas vão bem, fora dele uma confusão administrativa transbordou durante entrevista coletiva de André Villas-Boas na última quarta-feira (15). Nela, o técnico português se mostrou irritado com a contratação do inglês Paul Aldridge como conselheiro especial do clube. O objetivo com a nomeação, segundo divulgado pelo L’Équipe, era ter um dirigente especialmente focado na tarefa de vender jogadores na Inglaterra. Aldridge é um homem de conexões no país, tendo trabalhado como diretor-geral do West Ham na época em que o clube contratou Javier Mascherano e Carlos Tevez e, nos últimos anos, passando por Bolton Wanderers, Sheffield Wednesday, Manchester City e Leicester.

A contratação trouxe dois problemas de imediato ao trabalho de Villas-Boas: o primeiro de ordem técnica, com o português vendo a chegada de Aldridge como uma sinalização de que seu elenco poderia ser enfraquecido na atual janela de transferências, que se encerra em 1º de fevereiro. O segundo, de ordem operacional, com a presença do inglês gerando dúvida sobre o trabalho de Andoni Zubizarreta, diretor esportivo do clube e nome importante para a contratação do próprio André Villas-Boas no começo da temporada.

“Vim para cá, primeiro, pela grandeza do clube. Segundo, pelo Zubi. Eu disse que meu futuro estava intimamente ligado ao futuro dele”, alertou Villas-Boas na entrevista coletiva da semana passada.

A menção de Villas-Boas a Zubizarreta acontece porque uma das funções do diretor esportivo é justamente de negociar transferências, sejam elas de chegada ou de saída, e a nomeação de Aldridge pode indicar uma interferência em seu trabalho ou ao menos uma ameaça à sua autonomia no comando.

Eyraud, em entrevista ao L’Équipe, tentou colocar panos quentes na situação, dizendo que Aldridge chegava não só para ajudar com transferências, mas também com conselhos em relação a eventos, infraestrutura e na experiência do torcedor. “A cessão de jogadores faz completamente parte do campo de competências do Andoni Zubizarreta. Nenhuma venda acontece sem que ele seja consultado”, completou.

Villas-Boas ficou especialmente irritado com a comunicação fraca em torno da chegada de Aldridge, revelada pelo jornal francês no último dia 14. À imprensa, o técnico disse que só ficou sabendo da novidade duas semanas atrás, por meio de Zubizarreta, que por sua vez a ouviu em 30 de dezembro.

“As únicas declarações do presidente que eu pude ler não estão no nosso site, mas no L’Équipe. Eu não fui informado pelo presidente sobre essa decisão. Eu a respeito, mas, se essa decisão vai contra o que eu tenho feito esportivamente com o Andoni (Zubizarreta) há seis meses, estou do lado dele (Zubizarreta).”

O treinador disse que, quando chegou ao clube, sabia que o lado econômico estaria acima do esportivo nesta temporada, mas isso não diminuiu sua irritação com as últimas novidades. “Se tem uma coisa que ajuda os clubes a vender, essa coisa é o rendimento esportivo da equipe. (…) E, no fim da temporada, se houver propostas, bem, se não houver propostas, ótimo, você mantém seu elenco.”

Villas-Boas preocupa-se também com as renovações de contrato, já que importantes nomes do elenco têm vínculo até apenas 2021, como Thauvin, Mandanda, Payet e Amavi.

“É preciso lhes oferecer algo para continuarem a sonhar e para atingir os objetivos do OM. Eu estou no lado esportivo. No lado econômico, são Jacques-Henri (Eyraud, presidente) e Frank (McCourt, proprietário do clube) que decidem se é importante vender os jogadores ou vender o treinador, não sei…”

Do lado do clube, o foco especial em gerar receita é completamente compreensível. O Marseille é uma empresa no vermelho. O último balanço publicado pela direção de controle de gestão mostrou um déficit de € 78,5 milhões na temporada 2017/18. A campanha seguinte ainda não teve os números revelados, mas a estimativa é de outro déficit, de cerca de € 80 milhões. Já o cálculo mais otimista para a atual temporada aponta que, exceto por alguma venda de jogadores, o prejuízo ficará na casa de mais de € 60 milhões.

Pressionado por um risco de punição via Fair Play Financeiro, o Marseille tem a missão de fazer uma grande venda no próximo verão europeu, até junho de preferência. Dois nomes estariam liderando essa possibilidade: Florian Thauvin e Morgan Sanson. A expectativa com este é de uma negociação de € 30 milhões, mas com o primeiro a situação é mais difícil. Thauvin jogou apenas 10 minutos na atual temporada e, como falamos acima, seu contrato, por ora, vai até o fim da temporada 2020/21, o que tiraria muito do poder de barganha do clube.

Da semana passada para cá, algumas arestas foram aparadas. Na sexta-feira (17), Eyraud e Villas-Boas se encontraram para colocar os pingos nos is. O técnico disse no dia seguinte, após vitória contra o Granville pela Copa da França, que tudo retornaria ao normal.

“Esclarecemos um pouco as coisas. (…) Sou um homem emotivo, é fácil ver que eu estava com as emoções à flor da pele quando falei na coletiva. Nas organizações, sempre há problemas de falta de comunicação que, às vezes, levam a situações como essa.”

Eyraud, por sua vez, concedeu entrevista ao L’Équipe nesta terça-feira (21), falando de toda a situação e garantindo que não haveria nenhuma venda nesta janela de inverno, “exceto por algo irrecusável”.

Desde os problemas da semana passada, o presidente do Marseille diz ter recebido ameaças de morte de torcedores, sendo forçado a colocar um esquema de segurança especial em sua residência, um sintoma do quão fora de controle a pequena crise esteve a certa altura.

Mais uma vez, o presidente reforçou que “Zubizarreta é o diretor esportivo de exercício pleno deste clube. É o arquiteto desta equipe, nada disso irá mudar. Nenhuma discussão sobre compra ou venda de jogadores acontecerá sem sua participação, como é o caso há três anos”.

Entretanto, Eyraud defendeu seu novo contratado. O presidente afirmou que Aldridge tem uma vasta experiência como dirigente de alto nível no futebol inglês, “uma referência, com uma rede de contatos e com ética total”.

“Ele ficará na Inglaterra, e é um recurso a mais para o clube, nada mais, nada menos do que isso. Um recurso para sermos melhores. Vai nos ajudar no mercado de transferências, mas não só isso. Ele nos trará seu know-how e seus conselhos sobre o funcionamento do clube, as infraestruturas e o acolhimento dos torcedores. Sua missão é a de um conselheiro sênior, como em vários clubes, exceto que, aqui, ele é um funcionário e as coisas são transparentes.”

Em sua missão de equilibrar as contas, o Olympique de Marseille tem dois motivos para ser otimista. Em primeiro lugar, o novo acordo bilionário de direitos de TV em território nacional. A Mediapro pagará € 1,1 bilhão para exibir a Ligue 1 entre 2020 e 2024, um salto significativo dos € 726,5 milhões do período entre 2016 e 2020. Entretanto, os clubes ainda não definiram como será feita a divisão dessa receita – embora, como um dos clubes mais populares do país, o OM não precise se preocupar tanto.

O outro ponto é justamente a boa posição em que os Phocéens estão para voltar à Champions League pela primeira vez desde 2013/14. Uma participação na fase de grupos da competição europeia garantiria ao menos entre € 40 milhões e € 45 milhões. Ainda assim, como a matemática simples revela, essa participação, sequer garantida, não seria suficiente para dar segurança financeira.

O Marseille precisa reencontrar estabilidade e constância na Liga dos Campeões, encaixar uma sequência de participações que, então, influenciariam significativamente no balanço financeiro do clube. E, para alcançar isso, parece ter encontrado em André Villas-Boas um ótimo nome para conduzir o projeto técnico em campo. Mas Eyraud tem que satisfazer acionistas e proprietário do clube ao mesmo tempo, e ao presidente caberá a tarefa de encontrar este difícil equilíbrio.

“Todos presidentes de clubes têm essa tensão. Dirijo uma empresa e um clube, com o objetivo de garantir sustentabilidade a longo prazo. (…) Temos o dever de garantir equilíbrio financeiro, é fundamental. Ao mesmo tempo, preciso permitir que a equipe atinja seus objetivos, respeitando as exigências econômicas da Uefa ou da Ligue 1. É um trabalho muito difícil, mas sabemos disso.”

Villas-Boas pareceu razoável em todo o episódio, consciente das dificuldades financeiras do clube. Contratações pontuais como a de Rongier no verão passado podem trazer o reforço necessário ao elenco, mas não haverá loucuras, como ficou claro com a dispensa de Balotelli mesmo após grande desempenho do atacante italiano. Corrigida a comunicação interna e garantido o respeito à hierarquia com Zubizarreta, o OM parece estar em um bom caminho. A questão é justamente conseguir fazer isso.