Corruptos costumam causar repugnância. Saber que alguém se beneficiou ilegalmente é realmente revoltante e quem comete atos de corrupção deve ser punido severamente conforme a lei. No entanto, é relativamente comum no Brasil a indignação recair sobre o corrompido, e o corruptor passa despercebido. Se punir o corrompido é essencial, punir quem corrompe é tão importante quanto. O caso do rebaixamento da Portuguesa em 2013, que voltou ao noticiário com a reportagem do Estadão, indica que o clube paulista ou membros dele teriam sido corrompidos. Segundo o texto, o Ministério Público acredita que dirigentes da Portuguesa fizeram com que Héverton fosse escalado irregularmente de propósito, recebendo dinheiro para tanto. O que ainda está em investigação é quem da Portuguesa recebeu o dinheiro e, principalmente, quem é o corruptor e que clube representava.

POLÊMICA: A lei foi respeitada no caso do rebaixamento da Portuguesa? Depende
TORCIDA: O que leva centenas de torcedores e irem ver a Portuguesa já rebaixada à Série C?
FÉ: O que a torcida da Portuguesa pode fazer para reerguer o clube?

Casos de corrupção no futebol não são novos. Em um dos maiores escândalos do futebol europeu, os corruptores foram punidos de forma mais severa que os corrompidos.

O caso Bernard Tapie

Poucas semanas depois de levantar o seu quinto título seguido do Campeonato Francês e a Champions League, o Olympique de Marseille seria rebaixado, perderia o título francês e teria o seu diretor de futebol, Jean-Pierre Bernes, preso acusado de suborno de jogadores adversários. E ficaria pior, porque dois anos depois, o presidente do clube, Bernard Tapie, acabaria na prisão.

É importante lembrar o contexto que levou à explosão do escândalo. O Olympique melhorou desde que Bernard Tapie assumiu como presidente do clube, em 1986. Foram contratações estelares, cinco títulos consecutivos do Campeonato Francês e a coroa, a Champions League de 1993, o grande sonho do time. O OM se tornava o primeiro clube francês a ser campeão da principal competição de clubes da Europa, com nomes como o volante Deschamps, o jovem capitão do time, e o goleiro Barthez, ambos jogadores que estariam no time campeão mundial pela França na Copa do Mundo de 1998, anos mais tarde.

Poucos dias antes da decisão da Champions League, surgiram especulações que o Marseille teria subornado jogadores do Valenciennes para o jogo de 20 de maio. O objetivo não era assegurar a vitória, pois ela era muito provável devido ao desnível técnico dos times, mas garantir que o triunfo seria obtido sem grande esforço. Com isso, poderia deixar o time marselhês descansado uma semana antes da final europeia sem prejudicar a luta pelo título francês. Tudo saiu conforme planejado: o Olympique venceu por 1 a 0 e ficou com o título francês antecipado. Isso porque, depois da final da Champions League, no dia 26, o time ainda teria que jogar com o Paris Saint-Germain na última rodada e, se não vencesse, precisaria de um resultado contra o rival fora de casa.

Tudo começou quando detetives encontraram um envelope com 250 mil francos enterrados no quintal da casa da tia de Christophe Robert, atacante do Valenciennes. Foi então que a polícia chamou os principais personagens da trama para depor. O investigador no comando da operação, Bernard Beffy, conseguiu ordem judicial para entrar na sede do Olympique de Marseille e ficaram horas procurando provas no escritório de Jean-Pierre Bernes, diretor de futebol do clube. Quando os jogadores chegaram ao centro de treinamento, 12 deles foram convocados a depor.

Jean-Jacques Eydelie, então meio-campista do Marseille, foi uma figura central da história. Ele intermediou a negociação do suborno, ligando para três jogadores do Valenciennes para acertar o acordo: Christophe Robert, Jacques Glassmann e Jorge Burruchaga, aquele mesmo, campeão do mundo pela Argentina em 1986. Eydelie e Bernes foram presos pouco depois acusados de corrupção ativa. Robert admitiu aceitar o suborno, Burruchaga disse que aceitou, mas depois mudou de ideia e Glassmann disse que nunca aceitou esse acordo.

Indignação dos torcedores do Marseille

Torcedores do Marseille levaram as acusações para o lado pessoal, atribuindo aos mais diversos fatores, de perseguição pelo time ser o mais vencedor do país naquele momento até acusações que seria uma postura de rejeição do resto da França à Provença, região onde fica Marselha. “A França está contra o Marseille, e isso nos deixa bravos. Nós não estamos bravos com a França, mas a França está brava conosco”, disse Gilbert Gouirand, torcedor do time em uma matéria do The New York Times de 12 de julho de 1993. Ele ainda afirmou considerar a acusação de suborno “ridícula”. Muitos atribuíram o que chamaram de “perseguição” a uma suposta má vontade do resto da França com os marselheses, que teriam um estilo de vida diferente. “Quando um clube é o maior da França, não precisa pagar outro clube que é pior”, afirmou Gouirand.

O torcedor mostrava indignação e atribuía as acusações ao Marseille a uma questão maior, política. “No nosso país, o norte tem o poder político. O norte nunca gostou do sul. Eles têm inveja da nossa mentalidade, nossa cultura. Nós somos o lugar da luz do sol e eles são o lugar da neve e da chuva. O presidente do clube [Bernard Tapia] é de esquerda e o poder da França é de direita”, reclamou ainda o torcedor.

Quando o repórter do New York Times perguntou o que aconteceria se o Marseille fosse considerado culpado e perdesse o título, ele reagiu com veemência. “Será uma guerra”, disse. Depois, resolveu mudar a frase. “Você apenas escreva que nós não seremos mais parte da França. Nós seremos a Provença [nome da região onde fica Marselha]”. Como se vê, em termos de discurso, os torcedores são parecidos no Brasil, na França e provavelmente em qualquer outro lugar onde a paixão por futebol arda em chamas.

Torcedores defendiam Bernard Tapie, que tinha transformado o time não só em uma potência no país, mas também na Europa. Em 1991, os franceses decidiram o título da Copa dos Campeões, perdendo a final para o Estrela Vermelha. O escândalo era gigantesco e à medida que se revelou, tornou-se impossível prever onde iria parar.

O castelo de cartas começa a cair

Depois de muitas negações sobre o ocorrido, Jean-Jacques Eydelis admitiu que pagou suborno para três jogadores do Valenciennes. A confissão aconteceu depois de uma visita de cinco horas de Bernard Beffy, o investigador-chefe da operação, com quem o jogador do OM se comunicou por carta da prisão. Foi então que o caso ganhou mais força. O promotor público em Valenciennes, Eric De Montgolfier, disse que “esse é um passo decisivo para a continuação do inquérito”.

O caldo engrossou quando o técnico do CSKA Moscou disse que dirigentes do Marseille tentaram subornar seus jogadores quando os dois times se enfrentaram pela Champions League, vitória francesa por 6 a 0 na fase de grupos (que, pelo regulamento da época, dava uma vaga na final). Depois, o técnico retirou a acusação, embora a Uefa tenha continuado as investigações. Nunca foi provado nada nesse sentido. O título do Marseille foi mantido na história, ao contrário do título francês.

Repórteres do jornal francês Le Monde, Jérôme Fenoglio e Edwy Plenel, publicaram uma reportagem mostrando que a polícia encontrou envelopes idênticos ao encontrado no quintal da casa da tia de Robert. A reportagem dizia  ainda que foi a mulher de Eydelie, Christine, que acusou o marido de ter aceitado o pedido do diretor do Marseille, Bernes, de intermediar o suborno com os jogadores do Valenciennes, pedindo em troca uma garantia que começaria jogando a final da Champions League.

Anos depois, em 2006, Eydelie publicou um livro que contava como foi pedido a ele que fizesse a intermediação. “Bernard Tapie disse pra mim: ‘É imperativo que você entre em contato com seus ex-companheiros de Nantes que estão no Valenciennes [havia dois, um deles Burruchaga]. Nós não queremos que eles ajam como idiotas, nos quebrando antes da final com o Milan. Você os conhece bem?’”.

Robert aceitou o suborno, Burruchaga aceitou, mas depois mudou de ideia e não recebeu o dinheiro. Glasmann não aceitou e denunciou o esquema. O jogador avisou a diretoria do Valenciennes sobre o ocorrido. Surgiram então rumores sobre a questão e foram iniciadas as investigações. No dia do jogo, já havia a especulação sobre o suborno, que foi, claro, prontamente negada por Tapie. “Estou enojado”, disse o então presidente do Marseille após a vitória do seu time no polêmico jogo, que acabou 1 a 0. “É um linchamento e não há a menor prova de culpa”.

Condenação, perda de título, prisão e rebaixamento

Tinha culpa sim. Em 7 de setembro, a Uefa excluiu o Marseille da Champions League 1993/94 por causa do escândalo. Dias depois, o título francês foi cassado por ter sido conquistado por meio ilícitos. Além disso, o OM foi rebaixado para a segunda divisão nacional. “Nós tínhamos que fazer sansões sobre esse caso, que seriamente causou danos à moralidade do nosso esporte”, afirmou Jean Fournet-Fayard, presidente da Federação Francesa de Futebol (FFF). O título europeu foi mantido, mas o clube perdeu o direito de disputar competições internacionais e, por isso, o Milan representou a Europa no Mundial Interclubes de 1993, contra o São Paulo.

A questão ficou ainda mais séria quando o técnico do Valenciennes, Boro Primorac, avisou o presidente do Marseille de oferecer a ele uma boa quantia de dinheiro para que ele assumisse a culpa. Cercado, Tapie tentou incitar o orgulho dos marselheses dizendo que os oficiais de justiça da França eram “como a Inquisição ou a Gestapo” e que o clube estava sendo tratado injustamente. O caso esquentou ainda mais, porque em outubro de 1993, Eydelie alegou que Tapie havia tentado comprar o seu silêncio.

Tapie tinha imunidade parlamentar por ser ministro, mas acabou perdendo a imunidade graças a uma votação no parlamento. Com isso, ele ficou exposto a poder ser processado. Em fevereiro de 1994, ele passou a ser investigado por corrupção e coação de testemunhas (Primorac, técnico do Valenciennes, e Eydelie, o jogador do Marseille). Ele foi obrigado a deixar a presidência do clube no dia 20 de abril. Ele continuou negando participação em qualquer esquema de corrupção e continuou como parte da diretoria do Marseille. Foi só em março de 1995, quando o caso foi julgado na justiça, que Tapie acabou sendo condenado. Graças à admissão de culpa de Bernes, o diretor de futebol que foi a parte operacional do esquema. “É hora de falar a verdade. Tapie ordenou a corrupção do seu barco em Marselha”, declarou em juízo.

O julgamento do caso terminou no dia 15 de maio. Tapie foi considerado culpado e, depois de recorrer da sentença, foi preso por oito meses. Burruchaga e Robert foram suspensos do futebol por seis meses. Eydelie foi suspenso por um ano por ter um papel mais importante na trama. O caso foi o fim de uma relação intensa de admiração da cidade de Marselha e os torcedores do OM pelo dirigente. “O que todo mundo realmente queria era que Tapie nunca tivesse sido condenado. Ele era um grande antítodo contra as classes dominantes da França e Marselha amava o fato de ele ter adotado a cidade, mesmo tendo nascido perto de Paris. Ele e o OM eram uma dupla perfeita”, relatou Helene Foxonet, repórter do jornal L’Équipe em Marselha, logo depois da condenação.

Os torcedores do Valenciennes sempre protestaram exigindo que o título do Marseille fosse retirado, como acabou sendo. Os do Marseille alegaram perseguição, mas acabaram tendo que aceitar a punição. Cair para a segunda divisão e perder o título era o mínimo que poderia acontecer para um time que subornou adversários para conseguir facilitar o seu caminho rumo ao título. As dois títulos, no caso. Esportivamente, inaceitável. O Valenciennes não foi punido coletivamente, apenas seus jogadores. O Marseille, sim, pois toda a instituição se beneficiou com o esquema. Teve que jogar a segundona, perdeu o título, a vaga na Champions League e teve um enorme prejuízo financeiro com tudo isso.

A sensação de empatia com o dirigente permaneceu na cidade de Marselha, mesmo com o escândalo tendo sido comprovado. Depois de cumprir sua pena, Tapie ainda voltou a ocupar um cargo no Marseille, em 2001, como diretor de futebol. A lição que parece ficar é que as torcidas, seja onde for, se comportam de forma parecida. Os dirigentes também. Por isso, a punição precisa ser dura, porque esse é o tipo de atitude que vai contra tudo que significa o esporte. Se o Ministério Público realmente concluir que dirigentes da Portuguesa foram subornados para escalar Héverton, resta saber se a punição ao clube que a subornou será dura. Afinal, a corrupção não acontece só por causa dos corrompidos. Acontece principalmente porque há corruptores.


Os comentários estão desativados.