Durante alguns anos, Darijo Srna foi provavelmente um dos melhores jogadores da Europa que não atuava nos grandes centros. Com grande capacidade ofensiva e uma bola parada letal, era ameaça constante pelo flanco direito, onde se estabeleceu como um potente lateral ou ala direito, às vezes deslocado para o meio-campo. Defendeu a Croácia com distinção, e o Shakhtar Donetsk, com lealdade. Entrou em campo 536 vezes pelo clube ucraniano ao longo de 15 anos, com 26 títulos, incluindo dez da liga nacional e uma Liga Europa. E, depois de uma passagem rápida pelo Cagliari, está de volta para um novo capítulo da sua carreira: aposentado do futebol aos 37 anos, será membro da comissão técnica de Luis Castro, que substituiu Paulo Fonseca, novo comandante da Roma.

Muita coisa aconteceu na carreira de Srna, do começo no Hadjuk Split, da Croácia, às glórias com o Shakhtar Donetsk. Passou pelas decepções com a seleção croata, lidou com a morte do pai no meio de uma Eurocopa e teve sua passagem encerrada na Ucrânia por um caso de doping. Um teste realizado em março de 2017 produziu resultados adversos. Ele continuou jogando até setembro, quando o caso foi anunciado ao público, e o próprio Srna se retirou dos gramados até que o processo fosse resolvido. Acabou ficando um ano afastado. Em fevereiro de 2018, o Centro de Anti-Doping da Ucrânia o sentenciou a 17 meses de suspensão, mas de maneira retroativa: começaria a valer no dia do teste. Em um comunicado, relatou que Srna reconheceu ter violado as regras anti-doping, mas que não encontrou nenhum traço de negligência ou culpa por parte do jogador. Por isso, a leniência.

No entanto, já com idade avançada e uma temporada afastado, Srna não teve o contrato renovado. “Quando o presidente do Shakhtar me informou, foi como um soco na cara. Eu entendo, ele está fazendo o trabalho dele. O Shakhtar é minha paixão, mas eu sei que jovens precisam crescer”, disse. O clube reconheceu sua importância e, pela primeira vez, aposentou uma camisa. Na conquista do título da Copa da Ucrânia de 2018, Taison, capitão no lugar do lateral direito, vestiu a farda número 33 com o nome de Srna, virado para frente, na hora de levantar o troféu. “O time inteiro dedicou o troféu a mim, os torcedores aplaudiram e foi um momento extremamente emocionante, que sempre lembrarei. Aquele momento valeu mais do que todos os contratos e dinheiro, todos os jogos que eu disputei pelo Shakhtar. Vivi um respeito incrível nos 15 anos que passei no Shakhtar”, afirmou.


Naquela época, ele poderia ter ficado, trabalhando em outra função no clube, mas não queria que sua carreira terminasse com um caso de doping. Queria que fosse nos gramados. Acertou com o Cagliari para uma última temporada, na qual entrou em campo mais 28 vezes antes de pendurar as chuteiras. As homenagens não foram à toa. Ao longo da carreira, Darijo Srna deu diversos indicativos de que, além de ter sido um grande jogador de futebol, é também uma pessoa da melhor qualidade, como mostraremos a seguir.

Porque ele dedica seus gols ao irmão com síndrome de Down

Sempre que marca um gol, Darijo Srna homenageia o irmão Igor, que tem síndrome de Down. Carrega o nome dele em uma tatuagem no peito e não esquece o resto da família. Na perna, tem um veado que, em croata, é “srna”. Quando marcou um gol contra a Macedônia, em 2007, mostrou uma camisa com a mensagem “Igor, svi smo uz tebe”. Igor, estamos todos aqui para você.

Porque ele nunca esqueceu o que o pai fez por ele

A história do pai de Srna merece uma trilogia em Hollywood. Uzeir nasceu no leste da Bósnia, um ano antes do começo da Segunda Guerra Mundial. Com o avanço alemão, a família precisou fugir. Em meados de 1941, acharam que era seguro retornar apenas para verem sua vila ser incendiada por nacionalistas sérvios. O pai de Uzeir, seu irmão Safet e ele, aos três anos, correram para a floresta. A mãe, grávida, e a irmã foram queimadas vivas.

Os Srnas seguiram um grupo de refugiados para Bosanski Samac, no norte da Bósnia, mas, no caminho, Uzeir separou-se de seu pai e de seu irmão. Foi parar na Eslovênia, adotado por um policial. O patriarca conseguiu emprego em um café e foi morto por uma bala perdida. Safet reagiu entrando para o exército e, alguns anos depois, ficou sabendo de um órfão bósnio que havia sido adotado na eslovena Murska Sobota. Assim que pode, viajou para lá e se reuniu com o irmão.

Os dois voltaram para Bosanski Samac, onde Uzeir aprendeu o ofício de padeiro. Assim que recebeu o primeiro pagamento, comprou uma passagem para Sarajevo e começou a aproveitar seu talento como goleiro. Defendendo o bósnio Celik, de Zenica, viajou a Metkovic para um amistoso contra o Neretva, cujo goleiro havia se machucado. O clube croata pediu que Uzeir quebrasse o galho e ficou impressionado com a sua qualidade debaixo das traves. Pediu para que ficasse. Anos depois, Darijo nasceria em Metkovic e defenderia o mesmo Neretva.

Quando Srna chegou ao Shakhtar Donetsk, comprou uma Mercedes para o pai Uzeir. Dois anos depois, acrescentou uma BMW. Foi uma maneira de agradecê-lo por tudo que ele fez para sua carreira. “Eu não posso esquecer. Meu pai teve uma vida muito, muito difícil, e fico muito orgulhoso que ele possa viver em paz agora, sem estresse. Eu sei que é impossível pagar tudo que ele fez por mim, mas eu comprei um carro e lhe dei dinheiro suficiente para viver uma vida normal agora, enquanto ele está velho. É o mínimo que eu posso fazer”, contou, ao Guardian.

Porque ele ficou na seleção durante a Euro para cumprir o último desejo do pai

Depois de disputar o último amistoso de preparação da Croácia para a Eurocopa de 2016, Srna voltou para casa. O pai estava doente, e eles discutiram se ele deveria pedir dispensa. Nada disso. “Todos sabem qual foi o último desejo do meu pai. Era que eu voltasse para jogar pela seleção”, disse. Pouco depois da estreia da Croácia, Uzeir morreu. Darijo voou para o funeral e retornou para a França. Havia se comprometido, com o time e com o pai. E foi impossível segurar as lágrimas durante o hino nacional antes da segunda rodada contra a República Tcheca.

Porque escreveu uma linda carta para a torcida croata em seu adeus à seleção

Srna, pela Croácia (Foto: Getty Images)

Aquele foi o último torneio que Srna disputou pela Croácia. Depois de 134 partidas, o capitão pendurou a braçadeira e a camisa quadriculada, com uma linda carta de despedida.

“Minha vida inteira pode ser resumida nesses 15 anos em que joguei pela Croácia. Então, nunca conseguirei encontrar as palavras apropriadas para me despedir. Tudo que sei é que nada é para sempre, nenhum de nós, mas agora precisa ser dito e tudo que eu disser não será suficiente para explicar a honra e o orgulho que senti representando meu país. Não é fácil… parte de mim sabe que isso precisa ser feito, a outra parte quer ficar, e as duas partes sabem o que é certo.

Quando alguém vai embora, as coisas são somadas, subtraídas, medidas… Partidas tornam-se números, competições tornam-se anos, e isso é estranho para mim. Não sou uma dessas pessoas. Números são frios, alcançáveis. Eu quero transformar essas linhas em emoções, mesmo isso não sendo sempre possível na vida, imagina no futebol. Os melhores poetas não são capazes de contar as histórias que são contadas em um segundo de uma partida de futebol, e eu vivi uma eternidade desses momentos em meus 15 anos com a Croácia.

Enfatizar uma única partida não seria justo com alguns dos meus companheiros, se eles não tiveram a sorte de disputá-la, e não seria justo com os feitos esportivos dizer que foram todos iguais. O que é justo é dizer que eu comecei cada partida com o coração cheio, como todos meus companheiros. E essa é a verdade.

Na França, ouvindo o hino nacional da Croácia pela última vez, como um adulto, um pai, um capitão – que se lembra de tê-lo ouvido pela primeira vez como garoto – senti a mesma coisa. Nada mudou. Ao longo da minha carreira, pelo GOSK Gabela, Neretva, Hajduk Split e Shakhtar Donets, me apresentar à seleção foi uma paixão e um orgulho. A última vez foi difícil porque eu sabia que poderia ser a última e por causa do meu pai, eu devo tudo a ele.

Não consigo expressar gratidão suficiente para todas as pessoas que ajudaram, ao longo dos anos, a me tornar quem sou agora. Nomeá-las significaria certamente pular alguém e cometer um erro maior do que apenas dizer que sou eternamente grato pelo menor dos esforços que me ajudou a viver meus sonhos, como a pessoa mais feliz do mundo. O mesmo se aplica à minha família. Ela significa tudo para mim. Sem meus pais, meus irmãos, minha mulher e meus filhos, eu não seria o mesmo.

Eu deixo a seleção com orgulho, sabendo que dei tudo que podia. Tudo. Se você me perguntar o que eu prefiro ser – tricampeão mundial com outro time nacional ou o que sou agora com a Croácia -, eu nem preciso responder. Jogar pela Croácia foi como sonhar acordado.

Portanto, este é o melhor e mais triste dia da minha vida. Afastar-se para sempre de algo que amo tanto quebra minha alma, prende minha respiração, enche meus olhos de lágrimas, busca palavras que não aparecem. Não há nenhuma, não pode haver nenhuma. Como poderia? Eu fui capitão do time nacional de futebol da Croácia. O capitão dos Vatreni. O primeiro entre excelentes pessoas, gigantes, os melhores dos melhores. Valeu cada segundo…

Para sempre, enquanto respirar, serei um de vocês!

Darijo Srna”

Porque enviou 20 toneladas de mexerica para crianças na zona de guerra em Donestk

A guerra civil no leste da Ucrânia deslocou o Shakhtar de Donetsk para Kiev. Mas Srna nunca esquece suas raízes. Em agradecimento a tudo que a região fez por ele, em 2014, enviou 20 toneladas de mexerica para mais de 23 mil crianças de escolas primárias em Donetsk. E por que mexerica? Porque ao mesmo tempo ele conseguiu ajudar sua cidade adotiva e sua cidade natal: as frutas vieram de Metkovic, onde nasceu na Croácia. Dois anos depois, mandou 100 laptops. “Respeito muito Donetsk. É minha cidade, a cidade em que fui apoiado há 11 anos. Graças a ela amadureci como jogador e indivíduo. Eu não faço isso para alguém dizer ‘Muito bem, Darijo’. É algo do coração e da alma”, disse. Muito bem, Darijo!

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Porque decidiu ficar no Shakhtar Donetsk, apesar da guerra

Srna, do Shakhtar Donetsk (Foto: Getty Images)

Quando a guerra eclodiu, em 2014, Srna ainda tinha 32 anos e poderia ter seguido carreira em outro lugar, em vez de precisar morar, ao lado do resto do time, em um hotel – bem luxoso, é verdade – em Donetsk. Nada feito. “Eu lembro meu último dia em Donetsk. Foi 16 de maio de 2014. Disseram que tínhamos que sair rapidamente. Não levei nada de casa. Apenas dois carros. Minhas camisas ainda estão penduradas no guarda-roupa. Fui o único que acreditou que voltaríamos rápido. Disse a todo mundo que estaríamos de volta em seis meses”, disse. O Shakhtar ainda não voltou para casa. “Perdemos nossas casas, nosso estádio, nossos torcedores. Perdemos nosso centro de treinamento, perdemos nossa cidade. Eu vivi em uma guerra na Croácia. Shakhtar era minha casa. Eu não acho que depois de tantos anos eu poderia simplesmente ir embora e deixá-los nesta situação. Eu não sou esse tipo de pessoa”, completou. “Tive algumas ofertas importantes de times como Chelsea, Bayern de Munique, Borussia Dortmund. Mas se eu tivesse ido para o Chelsea, eu teria que começar do início e para mim não faz sentido”.

Porque decidiu ficar no Shakhtar Donetsk, apesar do interesse do Barcelona

O Shakhtar Donetsk foi o maior clube que Srna defendeu. Isso poderia ter mudado, em 2017, quando o Barcelona manifestou interesse na contratação do jogador para preencher o vácuo deixado por Daniel Alves. Ele seria uma daqueles reforços emergenciais dos catalães, mas ganharia a oportunidade de disputar para valer a Champions League, jogar ao lado de Messi, conquistar alguns títulos. Não quis nem saber. “Não vou fazer nenhum comentário sobre o Barcelona porque é pouco profissional. O mais importante é que decidi e quero permanecer no Shakhtar. Estou contente com a minha decisão. Escutei meu coração e isso me levou a ficar no Shakhtar”, disse, na época. 

Porque mesmo depois de sair do Shakhtar, ele nunca esqueceu a Ucrânia

Srna, pelo Cagliari (Foto: Getty Images)

Mesmo tendo saído do Shakhtar Donetsk a contragosto, ao fim da sua suspensão por doping, para jogar no Cagliari – “Meus amigos me disseram: ‘você percebe que pessoas pagam para morar na Sardenha, onde pagarão para você morar?’”-, Srna não esqueceu o seu país adotivo e anunciou, por meio do clube, um projeto de “larga escala” para cuidar de crianças na Ucrânia.

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