Poucos clássicos ao redor do planeta possuem um passado tão rico quanto Nacional x Peñarol. O grande dérbi de Montevidéu mobiliza as massas desde os primórdios do Século XX e está recheado de episódios históricos. O presente dos gigantes está distante das eras áureas de outrora. Ainda assim, farão um duelo que vale bastante ao Campeonato Uruguaio neste sábado. Campeões do Apertura e do Intermedio, os tricolores tentam tirar a diferença de quatro pontos em relação aos aurinegros, líderes do Clausura. Um jogo que pode definir o destino de ambos os rivais nesta reta final de temporada.

Como esquenta ao dérbi, aproveitamos a ocasião para relembrar brevemente dois jogos do passado. Dois confrontos que marcam ambas as torcidas e representam principalmente a tal “garra charrua” que os uruguaios tanto exaltam. No primeiro, em 1934, o Nacional conseguiu buscar o título da liga mesmo jogando com dois jogadores a menos. Já em 1987, o Peñarol fez ainda melhor, ao vencer uma batalha de oito contra onze – em noite definitiva para o sucesso de Óscar Tabárez com os carboneros. Confira:

O clássico da maleta

Alguns campeões do mundo permaneciam defendendo Nacional e Peñarol em 1933. E o momento dos clubes era acirrado. Chamado de La Máquina, o Bolso sobrou no início do Campeonato Uruguaio daquele ano, mas viu o Manya tirar a diferença durante o segundo turno. Assim, empatados no topo da tabela, precisariam fazer um jogo-extra para definir a taça. Partida esta que acabaria marcada apenas para maio de 1934.

O placar permanecia zerado até os 21 do segundo tempo, quando aconteceu o lance da discórdia. O ponteiro brasileiro Bahía (outras fontes mencionam Pellegrín Anselmo) arrematou ao Peñarol. Não acertou o gol, mas sua proeza seria maior: em chute que passou muito próximo da meta, ele carimbou a maleta de madeira do massagista do Nacional, que estava ao lado da trave do Centenario – mas já fora das quatro linhas. A bola voltou para o meio da área e, “no rebote”, Braulio Castro emendou para as redes. Estava formada a confusão.

O árbitro fez um sinal pouco claro e os jogadores do Nacional entenderam que o gol havia sido validado. As reclamações se acaloraram e, após ser agredido, o juiz Telésforo Rodríguez resolveu expulsar três tricolores: o lendário capitão José Nasazzi, Ulises Chifflet e Juan Labraga. O homem do apito não quis retornar ao gramado, por conta das pancadas que levou, sendo substituído por um dos seus assistentes. A bagunça, de qualquer maneira, tomou bons minutos do clássico. O Bolso se recusava a seguir o duelo. Quando o confronto ia ser retomado, a noite já havia caído e, diante da falta de energia no estádio, a peleja teria que ser remarcada para outro dia.

Em julho, a federação uruguaia deu seu veredito sobre o dérbi. Nasazzi e Labraga receberam suspensões de um ano, enquanto Chifflet foi absolvido. Além disso, o tribunal desportivo determinou que o gol realmente não era válido, mantendo o placar zerado. O jogo recomeçou apenas em 25 de agosto de 1934, com os portões do Centenario fechados. O Nacional jogava com dois a menos, por conta das expulsões. Técnico do Bolso, Américo Sziguetti fez todo um desenho tático para que seus comandados entendessem como se movimentar. Deu certo. Apesar da pressão do Peñarol, os tricolores mantiveram o empate durante os 24 minutos restantes do tempo regulamentar, além de mais 60 minutos de prorrogação – na época, disputada inicialmente em 30 minutos e, se necessário, mais 30. Sem que os pênaltis existissem, com o 0 a 0 prevalecendo, os rivais precisariam reagendar a finalíssima para outra data.

Um segundo jogo-extra foi realizado em 2 de setembro, agora com os dois times completos. Novamente o placar permaneceu zerado, depois de 90 minutos de tempo normal e mais duas prorrogações de meia hora cada. A definição do campeão uruguaio de 1933 só aconteceu em 18 de novembro de 1934, no terceiro desempate. Na ocasião, o Peñarol abriu dois gols de vantagem no primeiro tempo. A virada histórica do Nacional saiu dos pés do mítico Héctor “Manco” Castro, lenda da Celeste, que assinalou os três tentos no triunfo por 3 a 2. Não é só o troféu que permanece no museu do Bolso até hoje. O clube ainda guarda a bola da partida e a famosa maleta em sua sede.

Os oito contra onze

O Peñarol conquistou o Campeonato Uruguaio em janeiro de 1987, mas vivia um momento difícil. A situação econômica não era boa e o técnico Roque Máspoli aceitou uma proposta do Barcelona de Guayaquil. Em busca de seu substituto, o presidente José Pedro Darmiani fez uma aposta ousada: contratou Óscar Tabárez. O ex-professor comandava a seleção uruguaia juvenil, que disputava o Campeonato Sul-Americano. Às vésperas de completar 40 anos, o Maestro ainda iniciava sua carreira, após passagens por clubes modestos de Montevidéu. Os aurinegros seriam sua prova cabal.

Dirigindo uma equipe essencialmente jovem, Tabárez não começou bem sua trajetória no Peñarol. Era criticado pelo futebol inconsistente e pela falta de resultados. Os jogadores demoraram a assimilar seus conceitos. Assim, recebeu uma notícia nada boa da diretoria em abril de 1987. Foi chamado para uma reunião e ouviu que não seria mais técnico do clube na sequência do ano. Ficaria apenas até o clássico contra o Nacional, que aconteceria dois dias depois. O duelo valia pela Copa Andalucía, um torneio triangular que também contava com a participação do Betis. Apesar da pressão, a raça dos carboneros se impôs no Estádio Centenário.

Mesmo pegado, o primeiro tempo não gerou grandes sobressaltos. Ricardo Viera abriu o placar ao Peñarol, antes de Cardaccio empatar ao Nacional. A história do clássico se transformaria apenas na etapa complementar. Aos 23 minutos, Viera foi expulso. Pouco depois, José Herrera também iria para o chuveiro mais cedo. E diante das reclamações, José Perdomo recebeu o vermelho. Restavam mais 15 minutos de bola rolando e os aurinegros precisariam resistir com três jogadores a menos.

Foi quando a mística prevaleceu. Tabárez tinha mandado a campo pouco antes Diego Aguirre e Jorge Cabrera, dois atacantes. Uma aposta que acabaria valendo a façanha ao Peñarol, mais agressivo do que poderia se imaginar para aquele cenário. Enquanto o Bolso se acomodou, o Manya botou a faca entre os dentes e jogou bravamente. Cabrera tabelou com Aguirre e, arrancando em direção à área, anotou o segundo gol aos 37 do segundo tempo. A incredulidade era geral. Com a vantagem nas mãos, os aurinegros passaram a se defender avidamente. “Também com toda a torcida do Peñarol nos ajudando”, definiria depois o Maestro. Quando o apito final soou, se confirmava o milagre possibilitado por aqueles oito homens.

Graças à vitória, a diretoria do Peñarol desistiu de demitir Tabárez. A Copa Andalucía podia não valer muito, mas serviu para inflar o orgulho dos carboneros. Os heróis daquela partida seriam exaltados e, ganhando confiança, pegaram embalo na sequência do ano. Uma temporada histórica, por sinal, que terminaria com o igualmente épico triunfo na final da Libertadores sobre o América de Cali, com o gol decisivo de Aguirre saindo nos segundos derradeiros do terceiro duelo. Pela quinta (e última) vez, os aurinegros eram campeões continentais.