O Real Madrid sabia que estava fazendo uma aposta quando contratou Martin Odegaard. O meia-atacante havia estreado aos 15 anos e já impressionava da Noruega. Da mesma maneira que a idade aumentava seus feitos também gerava um enorme ponto de interrogação que seria respondido apenas com o tempo. É possível dizer que o meio não lhe foi generoso, precoce demais em insinuar o seu fracasso. Odegaard precisou percorrer a estrada entre a confiança de um adolescente prodígio e as dúvidas que começam a surgir quando um jovem não está preparado para corresponder às expectativas. Nesta quarta-feira, a jornada tomou um passo dos mais importantes. A Real Sociedad confirmou que o Real Madrid pediu que ele retornasse um ano antes do fim do seu contrato por empréstimo.

Odegaard foi contratado pelo Real Madrid aos 16 anos. Reforço badalado que custou algumas milhões de libras, pouco para o mercado em geral, mas relevantes para um adolescente. Houve acusações sólidas de que se tratava mais de um exercício de Relações Públicas, uma maneira de gerar manchetes, especialidade dos merengues, do que realmente uma medida esportiva. O próprio Carlo Ancelotti chegou a dizer isso e acrescentou que Florentino Pérez o obrigou a dar três jogos no time titular para Odegaard.

No fim, foram apenas dois. No primeiro, entrou no lugar de Cristiano Ronaldo, gerando uma ótima foto para agradar Pérez, a 30 minutos do fim da última rodada de La Liga, em 2014/15. Também foi titular na Copa do Rei contra o Leonesa, em 2016. Passou um ano e meio majoritariamente defendendo o Castilla, time B do Real Madrid, também sem muito brilho, o que acabou sendo um sinal de preocupação.

O próximo passo foi um empréstimo para outro país, uma chance de jogar entre profissionais e sair dos holofotes da imprensa espanhola. Não foi tão bem no Heerenveen, fazendo com que mais sobrancelhas se levantassem, mas ainda era um garoto de apenas 20 anos. A virada chegou na temporada seguinte. Ainda na Holanda, foi um dos melhores jogadores da Eredivisie, com oito gols e dez assistências, agora defendendo o Vitesse.

Etapa por etapa, Odegaard teve seu terceiro empréstimo com a Real Sociedad, um teste importante para ver como seu futebol se desenvolveria no mesmo campeonato que o Real Madrid disputa, e passou com nota próxima de dez. Ganhou prêmio de melhor jogador do mês e foi um dos destaques do sexto colocado, peça essencial na classificação do clube basco à Liga Europa e à final da Copa do Rei.

Além da qualidade que sempre teve, Odegaard se mostrou mais maduro nas tomadas de decisão, mais forte fisicamente para aguentar o ritmo, regular em seu desempenho dentro do possível de uma campanha em que a Real Sociedad oscilou bastante. Chegou até a fazer gol na marcante vitória contra o Real Madrid nas quartas de final da Copa do Rei.

E não é que ele demorou para explodir. Ele ainda tem 21 anos e, embora outros jogadores tenham sido mais precoces, como Vinícius Júnior, por exemplo, importante jogador do Real Madrid desde os 19, atletas diferentes se desenvolvem de maneiras diferentes e é importante respeitar o tempo de cada um.

A derrota para o Manchester City foi um dos motivadores para que Zidane antecipasse os planos para Odegaard, segundo o Marca. O meio-campo que tanto sucesso rendeu ao Real Madrid, com Casemiro, Luka Modric e Toni Kroos foi dominado pelos ingleses e precisa de sangue novo. Com as dificuldades financeiras impostas pela pandemia, Odegaard aparece como uma opção barata, e Zidane o conhece bem. Era o treinador do Castilla quando o norueguês chegou ao segundo time dos merengues.

Ele tem a capacidade de ser o jogador mais criativo do trio de meio-campo do Real Madrid ou até atuar mais como camisa 10, com uma mudança tática, como às vezes Zidane faz com Isco. O importante é que tudo indica que terá chances. Como havia dito antes de enfrentar os clube com o qual tem contrato, em novembro, sua meta era vencer no Real Madrid “seja em dois ou em cinco anos”. Acabou sendo muito antes, e pode até dar errado no fim, mas Odegaard deu todos os sinais na Real Sociedad de que está preparado para o desafio.