Clube mais tradicional da Lituânia e único da república báltica a alcançar a divisão de elite da antiga liga da União Soviética, o Zalgiris, de Vilnius, despontou como força emergente no futebol da nação líder do bloco socialista em meados da década de 1980, já nos últimos anos da existência do país. Se não chegou a levantar títulos nacionais (algo que só ocorreria após a independência lituana), pelo menos acumulou ótimas campanhas e classificações europeias, projetando uma boa geração de jogadores que chegou a frequentar as derradeiras seleções soviéticas.

Num contexto mais abrangente, o auge do Zalgiris também é particularmente significativo por ter vindo num momento especial da liga da União Soviética. Naquele ano de 1987 e em 1988, a competição foi apontada como a segunda mais forte da Europa – atrás apenas da galáctica Serie A italiana – de acordo com o ranking de coeficientes da Uefa, com base no retrospecto dos clubes nas copas continentais das últimas cinco temporadas.

Breve história do clube

Nação independente até 1940, chegando a disputar as Eliminatórias para as Copas do Mundo de 1934 e 1938, a Lituânia foi anexada pela União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, mas por muito tempo teve – assim como a Estônia e a Letônia – pouca expressão no futebol daquele país. Esse cenário mudaria nos anos 1980 por obra do Zalgiris, clube fundado em 1947 como Dinamo Vilnius, passando a se chamar Spartak Vilnius no ano seguinte.

Mas suas origens remontam a outra equipe também denominada Zalgiris, que disputou como um combinado lituano uma divisão inferior da liga soviética em 1946. Aquela equipe, no entanto, era formada integralmente por atletas dos clubes de Kaunas, segunda maior cidade lituana. A criação como um clube de verdade, e em Vilnius, hoje capital da Lituânia, fez com que o clube passasse a desfrutar da estrutura estatal do governo central soviético.

E seria como Spartak Vilnius que o clube estrearia na elite em 1953. Lanterna de um torneio com 11 clubes, seria rebaixado, voltando apenas em 1960 para uma sequência de três campanhas na chamada “Classe A”, mas também sempre brigando nas últimas posições. Na terceira, em 1962, adotaria o nome Zalgiris – referência a uma histórica batalha ocorrida em 1410, que serve de símbolo ao nacionalismo lituano desde então. Excluído da primeira divisão em meio a um enxugamento do certame, teria de esperar mais duas décadas para participar novamente da divisão principal.

O acesso viria juntamente com o título da segunda categoria, conquistado num jogo extra contra o moldávio Nistru Kishinev (que também subiu), disputado no campo neutro de Simferopol, na então República Socialista Soviética da Ucrânia, em 16 de novembro de 1982, e vencido por 1 a 0. No ano seguinte, o Zalgiris mostraria que não faria apenas número na elite: ao fim do primeiro turno, liderava a tabela com campanha consistente. Porém, alguns problemas interferiram, e o time terminou em quinto.

Falando ao site russo Sports Daily em 2014, o ex-atacante Arminas Narbekovas, um dos melhores jogadores da história do futebol lituano, citou como motivos para a queda de rendimento a falta de experiência de primeira divisão (apesar de o elenco ter muitos jogadores veteranos), algumas divergências entre atletas e o técnico de então, Algimantas Liubinskas, e ainda as arbitragens: “No segundo turno, começaram a apitar pênaltis contra nós”, relembrou.

Na temporada seguinte o time caiu para a nona colocação, motivando a troca de treinador para a campanha de 1985. Para o lugar de Liubinskas – que mais tarde comandaria a seleção lituana – voltava Benjaminas Zelkevicius, treinador da equipe entre 1977 e 1982 e responsável pelo acesso. Foi feita uma varredura no elenco, abrindo espaço para nomes surgidos nas categorias de base, e o clube se recuperou aos poucos, até a campanha marcante de 1987.

A década de 1980 é marcada por um aprimoramento na prospecção de talentos no esporte por parte do aparato estatal na Lituânia, centralizando às equipes principais da república: no basquete, o Zalgiris Kaunas (fundado dentro da mesma estrutura do clube de futebol, mas sem se transferir para Vilnius) revelou uma geração histórica, na qual brilhava o jovem pivô Arvydas Sabonis, e com a qual levantou um tri da liga soviética entre 1985 e 1987 e o título intercontinental da FIBA em 1986.

“Nos anos 1980, as categorias de base da Lituânia funcionaram muito bem. A produtividade foi maior. Quase todas as escolas de futebol, seja em Vilnius ou em alguma cidade pequena, entregavam um ou dois juniores promissores ao Zalgiris, e dobrando a cada ano. A competição foi boa”, relembrou Narbekovas, ele próprio formado na academia de futebol de Panevezys, uma das mais importantes da então república soviética.

Narbekovas se tornaria o maior destaque de uma equipe praticante de um futebol às vezes tido como cauteloso, mas bastante dinâmico e taticamente muito flexível, em que quase todos os jogadores podiam atuar sem sustos em mais de uma função. Um grande símbolo disso era Sigitas Jakubauskas, atacante goleador do time em 1983 e 1985 (respectivamente, com 14 e 12 gols), mas que em breve passaria a defensor, jogando em todas as posições do setor.

Já beirando os 30 anos, Jakubauskas era um dos nomes mais experientes do elenco de 1987. Outro deste grupo de veteranos era o goleiro Vaclovas Jurkus, que chegara ao clube uma década antes e se firmara na posição. À frente dele, o miolo da defesa poderia ter dois ou três zagueiros, a depender do adversário. Mas os sólidos Romas Mazeikis e Arvydas Janonis (este, no Zalgiris desde 1978, atuando mais pelo lado esquerdo) eram nomes certos.

O já citado Sigitas Jakubauskas jogava onde fosse preciso: como líbero, zagueiro de lado, lateral, ou até mais à frente, relembrando seus tempos de atacante. Outro jogador versátil no setor era o sóbrio Vyacheslav Sukristov, geralmente utilizado como homem da sobra num esquema com três zagueiros ou então como volante, iniciando a saída de jogo à frente da defesa. Já Vidmantas Rasiukas, embora costumasse vestir a 10, jogava quase sempre nas laterais.

No meio, o volante Igor Pankratiev também fazia as jogadas de transição da defesa para o ataque, auxiliado pela operosidade do também versátil Valdas Ivanauskas, um dos maiores talentos do time, e que podia atuar pelos dois lados como ala, meia ou ponta. Já Kestutis Ruzgys também participou com frequência da metade inicial da campanha. Além destes, havia o meia-esquerda Algimantas “Algis” Matskevicius, capitão da equipe e outro de seus nomes mais antigos.

O incansável e agudo Stasys Baranauskas vestia a camisa 7 e podia atuar tanto partindo de trás como meia-armador quanto como um dos integrantes da dupla de ataque. Por fim, Arminas Narbekovas compartilhava da mesma movimentação incessante. Nome de maior destaque da equipe, era veloz, habilidoso e não se intimidava na área adversária, assumindo o posto de principal artilheiro do Zalgiris a partir da temporada de 1986. 

A primeira parte da campanha histórica

A campanha que seria a melhor do clube em sua história na elite soviética, no entanto, começaria com uma derrota. Em Moscou, o time cairia por 1 a 0 diante de um Dynamo que reunia atacantes jovens que mais tarde despontariam na seleção, como Igor Kolyvanov, Aleksandr Borodyuk e Igor Dobrovolski, autor do único gol do jogo. O Zalgiris ainda custou a engrenar, parando em empates diante do CSKA, também em Moscou (2 a 2) e do Dnipro em casa (0 a 0).

A primeira vitória viria na quarta partida, diante do Shakhtar novamente em seus domínios. Após o meia Matskevicius abrir o placar, o time sofreria o empate com gol de pênalti de Petrov. Mas dois tentos de Sukristov na etapa final garantiriam o triunfo, antes de Yurchenko diminuir pouco antes do apito final. Importante também foi a vitória diante do Ararat Yerevan por 2 a 1 de virada diante do Estádio Hrazdan lotado. Razyukas e Ruzgis marcaram para os lituanos.

Os dois resultados positivos seguidos fizeram o time pular da 12ª para a quinta posição. Porém, antes de voltar a subir, uma derrota pelo placar mínimo diante do Neftchi Baku, gol de Akhmedov, fez o Zalgiris descer uma colocação. Com três jogos em casa em sequência pela frente, as chances de acumular pontos e encostar nos ponteiros era grande. E por muito pouco o clube não obteve 100% de aproveitamento, alcançando pela primeira vez o terceiro posto.

O Dinamo Tbilisi ainda tinha remanescentes do histórico time que conquistou a Recopa de 1981, como o zagueiro Aleksandr Chivadze e o atacante Ramaz Shengelia – dois que jogaram Copas pela União Soviética. Mas diante de uma cada vez mais empolgada torcida do Zalgiris, não conseguiu sustentar sua vantagem obtida de início. Um gol de Baranauskas pouco antes do intervalo e dois de Narbekovas na etapa final decidiram a vitória dos lituanos por 3 a 1.

A surpresa viria no próximo jogo, contra outra equipe da Geórgia, o estreante Guria Lanchkhuti. Com os visitantes trancados na defesa, um empate em 0 a 0 frustrou os torcedores. Menos mal que, oito dias depois, o clube arrancou uma épica vitória de virada sobre o Dinamo Minsk a cinco minutos do fim. Kondratiev colocou os bielorrussos em vantagem no primeiro tempo, mas outros dois gols de Narbekovas – o segundo aos 40 da etapa final – garantiram o 2 a 1.

Após alcançar o terceiro lugar, o clube não conseguiu se manter nele por muito tempo, voltando a oscilar. Perdeu para o Zenit em Leningrado (1 a 0), bateu o Kairat Almaty pelo mesmo placar (gol de Sukristov), também caiu pela contagem mínima diante do Metalist em Kharkov e salvou um empate diante do Torpedo em Moscou graças a um gol de pênalti de Narbekovas no fim, antes de ser batido inapelavelmente pelo Dynamo Kiev na Ucrânia por 3 a 1.

Até que, na última rodada do primeiro turno, em 22 de junho, a equipe resolveu lançar mão de uma atuação memorável diante do Spartak Moscou, líder isolado do campeonato e que sofrera apenas uma derrota até ali nas 14 rodadas anteriores. O time moscovita contava com muitos nomes de seleção, como o zagueiro Vagiz Khidiyatullin, o meia Yuri Susloparov e os atacantes Fyodor Cherenkov e Sergei Rodionov, além da revelação Aleksandr Mostovoi.

Naquele jogo estaria, no entanto, desfalcado de seu maior astro, o goleiro Rinat Dasaev, um dos melhores do mundo na época. Em seu lugar, jogaria o até ali pouco utilizado reserva Stanislav Cherchesov, de 23 anos. E ele falharia nos dois primeiros gols, dando rebote para a conclusão de Matskevicius aos 35 minutos e depois falhando feio ao não conseguir segurar uma cabeçada num escanteio que terminou no gol de Baranauskas aos 37.

Ainda no primeiro tempo, o Zalgiris marcaria o terceiro, com Ivanauskas completando passe da esquerda. Na etapa final, o time da casa chegaria ao quarto gol com Narbekovas após uma jogada sensacional de Baranauskas pela ponta direita. O Spartak diminuiria com Cherenkov, mas logo em seguida, Sukristov marcaria o quinto para os lituanos. No fim, Pasulko voltaria a descontar, mas sem conseguir evitar a goleada impiedosa por 5 a 2 aplicada pelos alviverdes.

O desempenho chamou a atenção dos cartolas da federação soviética. Na virada do turno, o clube precisou antecipar suas duas primeiras partidas, já que havia sido escolhido para representar a seleção nas Universíadas disputadas em Zagreb entre os dias 5 e 18 de julho. Com isso, os jogos contra o Guria e o Dinamo Tbilisi na Geórgia, marcados inicialmente para 10 e 14 de julho, tiveram de ser transferidos para 27 de junho e 1º de julho, respectivamente.

O Guria foi derrotado por 2 a 0 num jogo em que, segundo Narbekovas (autor dos dois gols), os jogadores foram abordados com ofertas em dinheiro para entregar o resultado. Ao fim da partida, a torcida da casa ainda arremessou tijolos em campo. Já diante do bom time do Dinamo Tbilisi, Baranauskas e Jakubauskas marcaram os gols, com Shengelia descontando. O resultado levou o Zalgiris à vice-liderança, seu ponto mais alto naquela temporada.

Ouro nas Universíadas

Embalado pelas três ótimas vitórias consecutivas e pelo excelente momento na liga soviética, o Zalgiris partiu quase integralmente para Zagreb. Todos os 16 atletas convocados defendiam o clube, mas três dos titulares habituais – o goleiro Vaclovas Jurkus, o defensor Sigitas Jakubauskas e o meia-armador Algimantas Matskevicius – não puderam participar da competição por já terem graduação universitária, critério excludente da competição.

Como era de se esperar em um torneio disputado por seleções universitárias, o nível técnico era bastante irregular e favorecia as nações em que o futebol era reconhecido como amador ou semiamador. Diante disso, países como Brasil, Argentina, Uruguai, Alemanha Ocidental, França, Holanda e Reino Unido levaram equipes bem mais fracas, enquanto as demais (não só as socialistas, mas as asiáticas e os Estados Unidos) tinham times mais próximos dos principais.

Assim, o Zalgiris (que utilizou durante a competição seu próprio uniforme inteiramente verde, e não o vermelho da União Soviética) foi derrotado na estreia pela Coreia do Sul por 3 a 2, mas se recuperou vencendo por 1 a 0 a boa equipe da anfitriã Iugoslávia – que contava com craques como Dragan Stojkovic e Robert Prosinecki – antes de golear uma inexpressiva e obscura seleção brasileira por 6 a 0, avançando na primeira colocação de seu grupo.

Nas quartas de final, a URSS-Zalgiris arrasou o Uruguai por 6 a 1, avançando para enfrentar nas semifinais a Coreia do Norte (que eliminara a Holanda também com goleada: 7 a 0). A vitória por 2 a 1, com gols de Baranauskas e Pankratiev, levou a equipe à decisão, onde teria a oportunidade de revanche diante da Coreia do Sul, que incluía alguns nomes de futuro como o defensor Gu Sang-bum, convocado para as Copas do Mundo de 1990 e 1994.

A vitória veio fácil na decisão disputada no Estádio Maksimir: Sukristov abriu a contagem logo no primeiro minuto, Baranauskas e Narbekovas ampliaram e o mesmo Sukristov anotou seu segundo ainda na etapa inicial. No segundo tempo, Rasyukas fechou a goleada por 5 a 0, que rendeu aos jogadores, além da medalha de ouro, o título de “Mestres do Esportes da União Soviética – classe internacional”, por parte do Comitê Estatal de Esportes do país.

O time voltou a jogar pela liga uma semana depois de conquistar o ouro em Zagreb. Com a mesma escalação que havia goleado os sul-coreanos, bateu o Ararat em Vilnius por 2 a 0. Seria um jogo marcante pelas mudanças feitas na equipe titular. Dos três graduados que ficaram de fora da Universíada (e daquela partida), Jakubauskas logo retomaria seu posto na equipe, ao contrário dos outros dois companheiros, que passariam à reserva até o fim da temporada.

De volta à liga

As boas atuações em Zagreb e o maior ritmo de jogo fizeram com que Almantas Kalinauskas, de apenas 20 anos, fosse mantido como goleiro titular no lugar de Jurkus. O capitão Matskevicius também perderia seu lugar no meio-campo do time, que agora passaria a comportar ao mesmo tempo Pankratiev, Baranauskas e Ivanauskas. Além deles, Ruzgis seria sacado para abrir espaço ao volante Vladimir Buzmakov, encorpando o setor.

A grande simbologia ficaria por conta do placar da vitória sobre o Ararat: Pankratiev, agora fixo como titular, abriria o placar no primeiro tempo. E Baranauskas, o novo dono da braçadeira, faria o segundo gol, já na etapa final. Apesar da vitória, o time havia sido desalojado da vice-liderança e cairia para o quarto lugar, ultrapassado por Dnipro e Torpedo Moscou, que se aproveitaram de sua ausência durante a Universíada para tirar a diferença de pontos.

Ainda naquele mês de julho, a equipe ainda lamentaria o ponto desperdiçado no empate em casa com o Neftchi Baku por 1 a 1, quando Abdullaev igualou para os visitantes a dois minutos do fim. Quem pagou com juros pela frustração foi o modesto Neftyanik Fergana, do Uzbequistão. O time que disputava a terceira divisão foi arrasado por 11 a 3 no placar agregado (incluindo um 8 a 3 em Vilnius) pela fase de 16-avos de final da copa soviética, no início de agosto.

Pela liga, a vitória voltou a sorrir no jogo seguinte, quando os lituanos receberam o Dynamo Kiev, que embora ainda fosse a base da seleção soviética e tivesse no comando o experiente Valeriy Lobanovskyi, atravessava período de crise e ocupava apenas a sexta colocação – pouco para a grande qualidade de seu elenco. Pankratiev converteu uma penalidade sofrida por Sukristov aos 19 minutos da etapa final e marcou o único gol do jogo.

Uma grande atuação de Ivanauskas, autor dos dois gols, levaria o time a mais um triunfo no jogo seguinte, um 2 a 0 diante do Metalist que fez a equipe encostar de novo no Dnipro na segunda posição. Porém, a sequência favorável teve fim com a única derrota em casa na campanha, para o Torpedo. O jovem Dmitri Kharine fechou o gol moscovita e, num contra-ataque, Shirinbekov recebeu de Yuri Savichev e marcou o único tento do jogo.

Os lituanos ainda ficariam sem vencer pelos próximos três jogos, todos fora de casa: o mordido Spartak deu o troco da goleada de junho ao vencer por 3 a 0 em Moscou, mantendo-se na ponta e livrando cinco pontos do próprio Zalgiris. Depois, a equipe de Vilnius arrancou um empate do bom time do Dinamo Minsk em Belarus (1 a 1) e jogou fora uma vantagem de dois gols na visita ao Kairat Almaty, cedendo o 2 a 2 a dez minutos do fim da partida.

No entanto, os quatro jogos sem vencer logo se transformariam em seis sem perder. Um gol de Narbekovas deu a vitória pelo placar mínimo diante do Zenit, antes de a equipe emplacar outras duas grandes exibições contra gigantes de Moscou. A primeira delas viria diante de um CSKA que já descia à zona de rebaixamento. Narbekovas abriu o placar de pênalti e fez o segundo antes do intervalo. Na etapa final, Ivanauskas decretou um inapelável 3 a 0.

A seguinte viria duas semanas depois, em 31 de outubro, diante do Dynamo, então em 11º lugar. Naquela tumultuada tarde de sábado, Ivanauskas abriu a contagem pouco antes do intervalo. E na etapa final, o Zalgiris marcou mais três vezes num espaço de oito minutos. Sukristov ampliou em cabeçada aos 11 minutos; Jakubauskas, numa arrancada pela esquerda da área, fez o terceiro aos 14; e Narbekovas, cobrando pênalti, fechou a goleada de 4 a 0 aos 18.

Mesmo com a boa reação na reta final, o título já não era mais possível, com o Spartak cinco pontos à frente faltando apenas duas rodadas. Ainda havia, no entanto, a possibilidade de superar o Dnipro e terminar como vice-campeão. No dia 5 de novembro, em jogo antecipado da última rodada, o time ficou no empate em 1 a 1 diante do Shakhtar fora de casa e confirmou a terceira colocação. O último obstáculo seria o confronto direto em Dnipropetrovsk.

O time da casa, porém, ainda alimentava esperanças de título: precisaria vencer seus dois jogos e torcer por duas derrotas do Spartak e tentar levar a melhor no saldo de gols. O Dnipro foi para o tudo ou nada e levou a melhor: dois gols de Oleg Protasov no primeiro tempo estabeleceram a vantagem que o gol solitário de Narbekovas aos nove minutos da etapa final não conseguiu extinguir. O Zalgiris, no entanto, encerrava sua participação de cabeça erguida.

A campanha havia sido sólida: em 30 jogos, foram 14 vitórias, oito empates e oito derrotas. O time terminou com o segundo melhor ataque do campeonato (43 gols), atrás apenas do Spartak. E Narbekovas, com 16 tentos, se sagrava o vice-artilheiro da competição, superado apenas por Protasov, com dois a mais. Outro destaque ficou com o desempenho como mandante, somando 11 vitórias, três empates e apenas uma derrota, sofrendo apenas oito gols em 15 jogos.

Além disso, o Zalgiris recebeu também duas das muitas premiações simbólicas oferecidas pela imprensa soviética. Foi o vencedor do Prêmio Grande Contagem, do jornal “Football”, entregue ao clube que vencesse mais jogos pela diferença de três ou mais gols, e ainda o do Prêmio “Vontade de Vencer”, do jornal “Rússia Soviética”, dedicado ao clube que triunfasse mais vezes de virada – o qual já havia faturado em 1983 e voltaria a levar em 1989.

Os efeitos da grande campanha

Mas melhor do que tudo isso foi garantir a inédita classificação à Copa da Uefa, marcando a primeira participação de um clube lituano numa competição continental. Porém, a vaga só valeria para a edição 1988/89 do torneio europeu, uma vez que o calendário da liga soviética não era sincronizado com o da maioria do continente. A Copa da União Soviética, no entanto, seguia o formato mais comum, e o Zalgiris chegaria às semifinais da edição 1987/88.

Depois de surrar o já citado Neftyanik Fergana por 11 a 3 no agregado, o clube superou outro adversário uzbeque, o Pakhtakor Tashkent, pelas oitavas de final: venceu as duas partidas (2 a 1 fora de casa e 1 a 0 em Vilnius), disputadas ainda em novembro de 1987, e se classificou para enfrentar o Neftchi Baku nas quartas em jogo único, marcado para 13 de abril de 1988. Diante de sua torcida, o Zalgiris levou a melhor e venceu por 2 a 1.

Nas semifinais, porém, os lituanos cairiam para o Metalist Kharkov, futuro e surpreendente campeão, perdendo dentro de casa por 2 a 1 na partida disputada em 18 de maio de 1988. Na decisão disputada dez dias depois em Moscou, no estádio do Dynamo, os ucranianos comandados em campo por Leonid Burjak – veterano meia da Copa do Mundo de 1982 e então já com quase 35 anos – superariam o Torpedo por 2 a 0, faturando o caneco.

Outro ponto recompensador das ótimas campanhas nos torneios nacionais, somadas ao título da Universíada, foi a chegada definitiva de jogadores do Zalgiris e da Lituânia à seleção soviética – ou às seleções: se até ali, a presença havia se limitado aos dez minutos de Jakubauskas em campo no amistoso contra a Romênia em agosto de 1985, o ano de 1988 seria marcado pelo aumento expressivo do contingente lituano tanto no time principal quanto no olímpico.

Primeiro seria a vez de Vyacheslav Sukristov, que estrearia na seleção principal participando de três amistosos preparatórios para a Eurocopa de 1988 e, por suas boas atuações, seria incluído na lista final de convocados. No torneio na Alemanha Ocidental, a União Soviética bateria Holanda e Inglaterra e empataria com a Irlanda na fase de grupos. Nas semifinais, eliminaria a Itália. E na final, ficaria com o vice, levando o troco de uma fabulosa Laranja.

Inscrito com o número 14, Sukristov não chegaria a atuar na Euro, mas voltaria a vestir a camisa vermelha num amistoso contra a Alemanha Ocidental em Düsseldorf em setembro daquele ano. Um mês depois, seria a vez de Valdas Ivanauskas defender pela primeira vez a União Soviética principal na partida contra a Áustria em Kiev pelas Eliminatórias para a Copa de 1990. No fim do ano, ele ainda participaria de excursão ao Oriente Médio, atuando em três jogos.

Houve ainda a brilhante participação da seleção em um forte torneio olímpico de futebol nos Jogos de Seul, entre setembro e outubro de 1988. Sem a restrição por idade, como acontece atualmente, a competição era aberta a quaisquer atletas, exceto aqueles que tivessem jogado partidas de Copa do Mundo – o que, no caso de seleções em processo de renovação, como Brasil, Alemanha Ocidental e Itália, significava levar praticamente o que havia de melhor.

Treinada por Anatoliy Byshovets, aquela União Soviética olímpica que levaria o ouro ao derrotar o Brasil por 2 a 1 na final teve Arminas Narbekovas como titular em toda a campanha, anotando dois belos gols nas vitórias por 4 a 2 sobre os Estados Unidos, no último jogo da fase de grupos, e por 3 a 2 diante da velha freguesa Itália na prorrogação pelas semifinais. E teve ainda Arvydas Janonis no elenco, entrando durante a partida contra os norte-americanos.

As aventuras europeias

Também naquele segundo semestre de 1988, o Zalgiris enfim faria sua estreia na Copa da Uefa, tendo pela frente um Austria Viena liderado em campo pelo veterano Herbert Prohaska e repleto de jogadores da seleção austríaca – adversária da União Soviética nas Eliminatórias para Copa do Mundo. No jogo de ida, uma vitória por 2 a 0 em Vilnius encheu os torcedores de esperanças, mas elas ruíram diante de uma goleada de 5 a 2 sofrida na volta.

Com o time um pouco modificado em relação à temporada 1987, o Zalgiris faria outras duas boas campanhas na liga soviética nos anos seguintes, terminando na quinta colocação em 1988 e na quarta em 1989. Em ambas, garantiria vaga na Copa da Uefa. E na edição de 1989/90 do torneio europeu, protagonizaria uma das maiores surpresas ao eliminar o IFK Göteborg, que pouco mais de dois anos antes havia conquistado a competição pela segunda vez.

Na primeira partida, em casa, o herói da vitória por 2 a 0 foi o atacante Robertas Fridrikas, outra boa revelação da base e autor dos dois gols, um em cada tempo. Já na volta, o time sueco – que contava com caras conhecidas, como o goleiro Tomas Ravelli, o lateral Roland Nilsson, o zagueiro Pontus Kamark, o meia Klas Ingesson e o atacante Kennet Andersson – chegou a abrir 1 a 0 com gol de Mikael Nilsson, mas o Zalgiris resistiu bravamente e saiu com a classificação.

Difícil, porém, seria superar o próximo adversário: o esquadrão do Estrela Vermelha. O time de Dragan Stojkovic, Dejan Savicevic, Robert Prosinecki, Darko Pancev e treinado então pelo antigo craque Dragan Sekularac estava entre os melhores da Europa. Na temporada seguinte, com poucas mudanças, levantaria a Copa dos Campeões. Por ora, não teria problemas para eliminar o Zalgiris, na Copa da Uefa, vencendo ambas as partidas.

No Marakana de Belgrado, a goleada chegou a 4 a 0, com Ivanauskas descontando no fim. Os lituanos tinham como missão aplicar ao menos um 3 a 0 na volta em casa para tentar a vaga pelos gols marcados como visitante. Mas amargariam outra derrota, desta vez por 1 a 0, com Prosinecki marcando no segundo tempo. O jeito seria tentar chegar mais longe no ano seguinte. Acontece, porém, que a República Soviética da Lituânia estava às portas de uma reviravolta.

Em 11 de março de 1990, em meio a crescentes manifestações populares, a Lituânia declarou sua independência unilateral da União Soviética, o que teve implicações imediatas para o esporte no novo país. Após disputar a rodada de abertura do Campeonato Soviético de 1990 (com derrota de 1 a 0 para o Chernomorets fora de casa), o Zalgiris decidiu abandonar o certame e se desfiliar da federação da URSS, juntando-se à recém-criada Liga Báltica.

A competição que reunia clubes de Estônia, Letônia e Lituânia, além de duas equipes russas: o Progres Cherniakhovsk e o Kaliningrad Oblast. Porém, a decisão trouxe prejuízos internacionais: além de encerrar qualquer chance de atletas lituanos defenderem a seleção soviética na Copa do Mundo de 1990, o fato de a nova federação lituana ainda não ser filiada à Uefa retirou o Zalgiris da disputa da Copa da Uefa de 1990/91, para a qual tinha se classificado.

Além disso, como a entidade também ainda não era filiada à Fifa (até pelo próprio status da Lituânia como país independente ainda estar pendente de amplo reconhecimento internacional), a situação inviabilizava a transferência de jogadores lituanos para o exterior, em especial aos mercados da Europa Ocidental – algo ainda mais sentido num momento de abertura econômica que tornava a própria União Soviética uma nação exportadora de craques.

Para fugir desse limbo, muitos atletas foram transferidos para equipes russas e, de lá, fizeram a ponte para outros países do continente. Alguns dos principais nomes do Zalgiris – Jurkus, Janonis, Sukristov, Ivanauskas e Narbekovas – migraram em bloco para o Lokomotiv Moscou ainda em 1990 e, entre aquele ano e o seguinte, transferiram-se para clubes austríacos ou israelenses. Os dois últimos jogadores, os mais cobiçados, seguiram para o Austria Viena.

Na única edição da Liga Báltica, em 1990, o Zalgiris lideraria com folga a fase de pontos corridos, vencendo 27 e perdendo apenas uma das 32 partidas, marcando 104 gols e sofrendo 11 e ainda somando 11 pontos a mais que o vice-líder Sirijus Klaipeda. Porém, em seguida haveria uma etapa em mata-matas para definir o título lituano. E nela, a equipe cairia nas semifinais, eliminado pelo Ekranas Panavezys, e terminaria apenas na terceira colocação.

Entre 1990 e 2001, o clube venceu três vezes o Campeonato Lituano (terminando sempre entre os três primeiros colocados) e quatro vezes a Copa da Lituânia (sendo finalista em outras cinco ocasiões). Em seguida, porém, enfrentaria profunda crise financeira que o levaria a um rebaixamento e à falência. Refundado por torcedores, reergueu-se conquistando um tetra nacional entre 2013 e 2016 e recolocando-se como principal força do país.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.