O infortúnio do Watford na decisão da Copa da Inglaterra provocou a alegria em outro canto do país. Em consequência ao título do Manchester City, a Premier League passou a oferecer mais uma vaga na Liga Europa. E, desta maneira, o Wolverhampton confirmou seu retorno às competições continentais após 39 anos. Os Lobos fizeram uma campanha exemplar em sua volta à primeira divisão, sobretudo pela maneira como encararam os grandes. Foram 16 pontos conquistados contra o chamado “Big Six” da liga, o que impulsionou o time de Nuno Espírito Santo à sétima colocação. A aventura europeia é o maior reconhecimento e um laço com a própria história do clube.

O Wolverhampton, afinal, motivou a criação da Champions League há mais de 60 anos. O esquadrão pode ser considerado o grande time do futebol inglês na década de 1950, ao lado dos Busby Babes do Manchester United. Em 1953/54, os Lobos conquistaram a Football League pela primeira vez. Além disso, realizaram uma série de amistosos contra potências estrangeiras no Estádio Molineux, que recém-inaugurara seus refletores para jogos noturnos. No intervalo de pouco mais de um ano, a equipe derrotou Celtic, Racing e Spartak Moscou.

Já o ápice aconteceu em dezembro de 1954, diante do Honvéd. Base da seleção húngara, o timaço estrelado por Ferenc Puskás era visto como o mais forte do mundo. No gramado propositalmente encharcado do Molineux, os Wolves derrotaram os magiares por 3 a 2 – numa vingança pelos 6 a 3 sofridos por sua seleção meses antes em Wembley. Foi o triunfo que valeu a aclamação definitiva de Stan Cullis, um técnico vital à progressão do futebol inglês na década de 1950. Seu jogo direto e veloz ajudou a moldar as ideias do país no período, especialmente pela pressão ofensiva que costumava impor.

Após a partida, os jornais britânicos rasgaram elogios ao Wolverhampton. O Daily Mail proclamou os Lobos como “campeões do mundo”, em rótulo que gerou amplo debate na imprensa europeia. Em resposta, o L’Equipe escreveu um editorial sugerindo a criação de uma competição europeia de clubes. “Antes que nós declaremos que o Wolverhampton é invencível, o deixe ir a Moscou e Budapeste. E há outros clubes renomados internacionalmente: Milan e Real Madrid, para falar de dois. Uma copa mundial de clubes, ou pelo menos uma europeia – maior, mais significativa e mais prestigiosa que a Copa Mitropa e mais original que um torneio para seleções – precisa ser lançada”, escreveu o jornalista Gabriel Hanot. Ele plantava as sementes da Copa dos Campeões, criada na temporada seguinte, em parceria do veículo francês com a Uefa.

O Wolverhampton continuou realizando seus famosos amistosos (com direito a um triunfo sobre o Real Madrid de Di Stéfano em 1957), mas demorou um pouco mais para fazer sua estreia continental. De 1954/55 a 1956/57, os Lobos transitaram entre a segunda e a sexta colocação no Campeonato Inglês. O retorno à glória aconteceu na temporada 1957/58, superando o Preston North End na disputa pela taça. A partir de 1958, o Estádio Molineux foi palco de noites europeias oficiais, com algumas participações marcantes do clube.

A estreia não seria tão animadora assim. Apesar de sua fama, o Wolverhampton caiu logo nas oitavas de final da Copa dos Campeões 1958/59. O sorteio não seria tão benéfico ao time se Stan Cullis, que precisou encarar o Schalke 04, campeão da Alemanha Ocidental. E os Azuis Reais se impuseram contra o esquadrão dos Lobos. Diante de 45 mil no Molineux, o artilheiro Peter Broadbent balançou as redes duas vezes, mas Willi Koslowski buscou o empate por 2 a 2 aos germânicos na ida. Já em Gelsenkirchen, o tento de Alan Jackson pouco serviria na derrota por 2 a 1. Aquela foi a única Champions de Billy Wright, lendário capitão da seleção inglesa e maior símbolo do clube no período. O defensor se aposentou ao final da temporada, assim como ponta Jimmy Mullen, outro venerado pelos torcedores locais.

O Wolverhampton ganharia uma nova chance na Copa dos Campeões em 1959/60, após o bicampeonato inglês. Mantinha a mesma base, contando com os serviços de outros ídolos no Molineux – como Ron Flowers, Bill Slater e Jimmy Murray. Pois os comandados de Stan Cullis foram mais longe. Na primeira fase, despacharam o Vorwärts Berlim, campeão da Alemanha Oriental. Apesar da derrota fora de casa, Broadbent anotou o gol da classificação durante os 2 a 0 em West Midlands. Depois, os Lobos despacharam o fortíssimo Estrela Vermelha nas oitavas de final. Após o empate por 1 a 1 em Belgrado, o triunfo por 3 a 0 na Inglaterra foi o grande momento da campanha, com dois gols de Bobby Mason no final.

O Wolverhampton só não seria páreo ao Barcelona de Helenio Herrera, que arrebentou com os britânicos nas quartas de final. Foram duas goleadas dos blaugranas. Primeiro, no Camp Nou, Ramón Villaverde representou o pesadelo dos visitantes durante a vitória por 4 a 0, na qual ainda marcaram László Kubala e Evaristo de Macedo. E haveria mais na viagem dos catalães ao Reino Unido, onde nem o campo enlameado impediu o show dos culés. Stan Cullis sofreria uma de suas derrotas mais dolorosas.

Durante a chegada ao país, Helenio Herrera provocou os adversários, ignorando o que Cullis construíra: “Na Inglaterra, jogam de uma maneira que nós, do continente, deixamos de fazer muitos anos atrás. Têm muita força física, mas não há método e técnica. Quando se trata de futebol moderno, os ingleses não acompanharam a evolução. É um povo de hábitos, como o chá das cinco”. Em campo, o Barça fez jus às palavras, com o contundente triunfo por 5 a 2. Derrotado com o Honvéd em 1954, Sándor Kocsis teve sua vingança particular e anotou quatro gols em solo britânico. Destaque também a Eulogio Martínez, em exibição deslumbrante. O paraguaio não se cansou de humilhar os defensores adversários com seus dribles pelas pontas.

Aquela seria a última Champions do Wolverhampton. Em compensação, o time manteve sua série de conquistas ao faturar a Copa da Inglaterra em 1959/60 e assegurou a participação na primeira edição da Recopa Europeia. Na enxuta competição, os Lobos estrearam nas quartas de final e registraram uma baita virada para cima do Austria Viena. Após a derrota por 2 a 0 no Praterstadion, a revanche veio em grande estilo no Molineux. Goleada por 5 a 0, com dois tentos de John Kirkham, outros dois de Broadbent e um de Mason. O algoz seria outro britânico, o Rangers, nas semifinais. Os escoceses venceram a ida por 2 a 0 no Estádio Ibrox e seguraram o empate por 1 a 1 na visita à Inglaterra, suficiente para a passagem. A eliminação marcou o hiato de uma década do Wolverhampton no cenário continental.

O retorno aconteceu nos anos 1970, quando a melhor geração do clube já tinha se desmanchado. O Wolverhampton terminou a Football League de 1970/71 em um honroso quarto lugar e carimbou o passaporte à Copa da Uefa. Faria bonito, em mais um torneio que acabara de ser criado pela Uefa. Sob as ordens de Bill McGarry, os Lobos tinham como principais nomes alguns futuros membros de seu hall da fama, incluindo John McAlle, Kenny Hibbitt, Dave Wagstaffe, John Richards e Derek Dougan. Conseguiram alcançar a final, apesar do vice.

A campanha do Wolverhampton começou repleta de goleadas, colecionando placares elásticos contra Acadêmica de Coimbra, ADO Den Haag e Carl Zeiss Jena. As pedreiras apareceram a partir das quartas de final. Primeiro, os Wolves despacharam a Juventus de Pietro Anastasi, Franco Causio, Fabio Capello e Helmut Haller. Após o empate por 1 a 1 em Turim, Dougan e Daniel Hegan asseguraram a classificação com os 2 a 1 no Molineux.

Depois, o Wolverhampton viajou à Hungria nas semifinais, para pegar o Ferencváros de Florian Albert e László Balint. O empate por 2 a 2 em Budapeste se tornou valioso, complementado por novo 2 a 1 na Inglaterra, gols de Steve Daley e Frank Munro. Por fim, uma decisão doméstica contra o Tottenham. E os rapazes de Bill Nicholson prevaleceram. Martin Chivers anotou os dois tentos no triunfo dos Spurs por 2 a 1 em West Midlands. Já em White Hart Lane, os londrinos ergueram a taça após o empate por 1 a 1. Pat Jennings, Alan Mullery, Steve Perryman e Martin Peters eram outras feras dos campeões.

Ainda com bons desempenhos nacionais na década de 1970, incluindo a conquista da Copa da Liga Inglesa em 1974, o Wolverhampton apareceria outras duas vezes na Copa da Uefa. Não iria tão longe. Em 1973/74, após eliminarem o Belenenses, os Lobos fizeram uma épica batalha com o Lokomotive Leipzig na segunda fase. Os auriazuis venceram por 3 a 0 na Alemanha Oriental e passaram graças ao gol fora de casa. Duro golpe aos ingleses, já que a goleada por 4 a 1 no Estádio Molineux não foi suficiente. Um ano depois, a trajetória na Copa da Uefa 1974/75 seria ainda mais modesta. A queda aconteceu na primeira fase, contra o Porto. Liderados por Fernando Gomes e Teófilo Cubillas, os portistas ganharam por 4 a 1 em casa. Assim, nem mesmo a derrota por 3 a 1 em West Midlands atrapalhou.

Por fim, a última aparição do Wolverhampton no cenário continental ocorrera em 1980/81, graças ao título da Copa da Liga Inglesa em cima do poderoso Nottingham Forest. Naquele momento, os Lobos já eram meros figurantes no Campeonato Inglês e logo emendariam três rebaixamentos consecutivos, que levaram o time à quarta divisão em 1986. Reflexo dos tempos, a eliminação ocorreu novamente na primeira fase. Com Emlyn Hughes usando a braçadeira de capitão e Andy Gray vestindo a camisa 9, o time treinado por John Barnwell perdeu a ida contra o PSV por 3 a 1. Desta forma, pouco valeu o triunfo por 1 a 0 no Molineux, gol de Melvyn Eves. Desde 1° de outubro de 1980, a bola não rolou mais no estádio por competições da Uefa.

O Wolverhampton ainda terá que comer grama nas preliminares da Liga Europa 2019/20. O time estreará na segunda fase qualificatória e precisará passar por três etapas se quiser se inserir nos grupos. Algumas decepções recentes com ingleses indicam que o favoritismo e o poderio financeiro nem sempre preponderam na competição continental. De qualquer forma, a equipe de Nuno Espírito Santo possui muitos jogadores tarimbados e já demonstrou como lida bem com partidas decisivas. Um sonho pode ser realizado neste oportunidade. Um sonho que, afinal, é alimentado no Molineux desde os anos 1950.