Durante sete temporadas, o Wigan permaneceu como o “clube que nunca foi rebaixado” na Premier League. Com dois acessos em três anos, o time estreou na elite do Campeonato Inglês em 2005/06 e conseguiu se sustentar com uma estrutura modesta para os padrões da liga. Nunca passou da décima colocação e em algumas oportunidades escapou do descenso por milagre, mas fazia um trabalho notável. A queda, curiosamente, aconteceu na temporada em que os Latics conquistaram a Copa da Inglaterra em cima do Manchester City. Desde então, o caminho tem sido bem mais penoso e o Wigan oscilou entre a segunda e a terceira divisão. Ainda assim, nada tão preocupante quanto o atual momento, com o anúncio da insolvência da agremiação nesta quarta-feira.

A partir de agora, o Wigan passará a ser gerido por uma administração judicial. A nova gestão externa determinada ao clube trabalhará para contornar as dívidas e evitar o agravamento da situação. Esportivamente, os Latics perderão 12 pontos na tabela da Championship. A equipe voltou bem no retorno da segundona, com três vitórias consecutivas, mas ocupa o 14° lugar. Somando 50 pontos, o Wigan está a oito pontos da zona de rebaixamento. Com a dedução, desceria à última colocação do campeonato e ficaria a cinco pontos de sair da zona vermelha. A pena só será ratificada ao final da campanha, já que pode ser aplicada na League One, caso o descenso aconteça mesmo sem a subtração.

Para entender a ascensão e a situação atual do Wigan, é necessário apresentar um nome: Dave Whelan. O antigo dono dos Latics, que cresceu na cidade, representa uma história dentro da história. Whelan atuou profissionalmente como zagueiro do Blackburn. Porém, aquela que deveria ser a grande partida de sua carreira acabaria abreviando sua trajetória nos gramados. Na decisão da Copa da Inglaterra de 1960, o defensor sequer terminou o jogo contra o Wolverhampton, ao ter sua perna quebrada por uma entrada dura de Norman Deeley. Dispensado pelos Rovers, levou dois anos para voltar a jogar, defendendo o modesto Crewe Alexandra por quatro temporadas. O incidente, de qualquer maneira, também permitiu que procurasse novos rumos.

Whelan montou uma rede de supermercados inspirada no modelo americano e o negócio prosperou no final dos anos 1960. A venda de sua cadeia de lojas rendeu £1,5 milhão em 1978 – uma fortuna para a época. Passou a se dedicar à JJB Sports, um varejo de artigos esportivos que se expandiria ainda mais. O ex-jogador se tornou um dos líderes de seu setor no Reino Unido e construiu uma fortuna. Isso permitiu que, em 1995, ele voltasse os seus olhares ao futebol. Whelan nunca pôde atuar pelo Wigan, seu clube do coração, que em seus tempos profissionais figurava apenas nas divisões regionais. Assim, seu sonho de fazer o time prosperar aconteceria na cadeira presidencial.

Quando Whelan comprou o Wigan, a equipe militava na quarta divisão. Sua promessa era levá-la à Premier League. O primeiro acesso veio em poucos meses, assegurado na temporada 1996/97. Os Latics subiram mais um degrau em 2002/03, chegando à segunda divisão, pouco depois de inaugurarem um novo estádio. Já a escalada à elite se confirmou em 2004/05, com o vice-campeonato da Championship. Era um clube de pouca tradição, mas que fazia movimentos interessantes no mercado e sabia pinçar jogadores, assim como apostar em treinadores. Preferindo descobrir novos talentos a trazer medalhões, o Wigan pavimentou sua permanência na primeira divisão. Um personagem vital seria Roberto Martínez, jogador da equipe entre 1995 e 2001, que acabaria reconhecido pelo estilo arrojado como montava suas formações.

Martínez ficou no Estádio DW até 2013, despedindo-se com o título da FA Cup. A partir de então, a reconstrução após o rebaixamento não seria simples. O Wigan montou um elenco caro para voltar imediatamente à Premier League e não conseguiu a promoção em 2013/14. Já as novas mudanças para 2014/15 deram menos certo ainda e, com um plantel inchado, os Latics caíram à League One. A instabilidade resultou em uma gangorra de acessos e descensos seguidos. Enquanto isso, Dave Whelan começava a se afastar do clube. Às vésperas de completar 80 anos, passou a presidência ao seu neto em 2015, antes do rebaixamento à terceirona. Já em 2018, depois de recolocar o Wigan na Championship, a família Whelan vendeu sua participação na agremiação para a International Entertainment Corporation, uma companhia baseada em Hong Kong.

Diferentemente de Dave Whelan, os novos donos do Wigan não tinham qualquer ligação sentimental com o clube. Eles passaram a ver basicamente o negócio. A nova gestão elevou a folha de pagamentos sem que isso tenha melhorado tanto os resultados em campo e registrou um déficit de £9 milhões em seu primeiro balanço. Já indicavam, inclusive, insatisfações com a falta de rentabilidade na Championship e também com o Brexit, calculando um prejuízo nos investimentos dentro do Reino Unido.

A pandemia piorou as previsões e a a International Entertainment Corporation preferiu vender o clube. No último mês de maio, por aproximadamente £40 milhões, a companhia anunciou o repasse do Wigan ao Next Leader Fund – outra empresa sediada em Hong Kong, encabeçada pelo executivo Wai Kay Au Yeung. A transação precisou ser avaliada pela Football League, que aprovou a venda ao analisar as finanças dos novos donos. Só que os fundos prometidos pelo Next Leader Fund não entraram no caixa da agremiação e, diante do cenário já delicado, os Latics entraram em insolvência.

Um dos novos administradores externos, Gerald Krasner explicou a situação à BBC Radio Manchester: “Não acho que a forma como o clube é conduzido tenha representado um grande problema na insolvência, porque o Wigan era administrado muito bem. Mas o financiamento que deveria chegar dos proprietários não entrou nas contas. Não tive contatos com eles e não sei os motivos. Pode ser algo relacionado à pandemia. Temos dois objetivos: garantir que o time chegue ao final da temporada, preservando os empregos; depois, encontrar um novo comprador”.

Krasner deu sinais de otimismo. Ele participou de outras administrações judiciais em clubes insolventes no passado, como no Leeds United e no Bournemouth. “Precisamos de dinheiro muito rapidamente para lidar com a situação. Acho que conseguirei organizar isso, o que nos dará algum tempo para respirar. Coloquei meu pescoço em risco algumas vezes, principalmente no Leeds, mas ainda não deixei nenhum clube falir e estou otimista de que resolveremos o problema”, complementou, salientando ainda que já surgiram os primeiros interessados em comprar o clube outra vez.

O próprio Dave Whelan, mesmo afastado do Wigan, manifestou sua intenção de ajudar de alguma maneira. “Vou ter que meter o bedelho e dar uma olhada, para ver se consigo descobrir o que causou isso. Preciso tentar, porque as pessoas em Wigan estão absolutamente chocadas – inclusive eu. O Wigan é o Wigan e eu construí o estádio, então verei se posso auxiliar de alguma forma”, disse o magnata de 83 anos, ao Talksport. Histórias de donos como ele são exceções, afinal.

O presidente da Football League previa um rombo de £200 milhões nos clubes que compõem a segunda, a terceira e a quarta divisão do Campeonato Inglês. As competições foram suspensas em março e apenas a Championship resolveu retomar suas atividades, em 20 de junho. League One e League Two encerraram prematuramente suas edições, deixando para definir somente os playoffs de acesso dentro de campo. Os dirigentes avaliaram que os riscos de retornar à liga sem público não valiam, com agremiações muito mais dependentes do dinheiro das bilheterias em suas receitas. E a situação indica que o Wigan não deve ser o único caso de insolvência.