A crise política vivida pelo Chile desde o último mês de outubro gerou diversos desdobramentos, inclusive no futebol. Por conta dos protestos, e da própria adesão de jogadores e torcedores aos movimentos sociais, o Campeonato Chileno se encerrou sem cumprir as últimas seis rodadas. Com uma ampla vantagem na liderança, a Universidad Católica foi declarada campeã. O problema maior ocorreu na Copa Chile, com uma vaga na Libertadores em jogo. A definição do classificado iniciou um imbróglio resolvido apenas neste sábado, sem um consenso: a Unión Española preferiu dar W.O. na semifinal e, assim, garantiu a Universidad de Chile nas preliminares do torneio continental – pegando o Internacional logo de cara.

Tudo começou quando o término precoce do Campeonato Chileno também bateu o martelo sobre as equipes que representariam o país na Libertadores. Colo-Colo e Palestino, na zona de classificação da liga, acompanhariam a campeã Universidad Católica. Restava, então, uma vaga ao país. A federação chilena reafirmou sua intenção de usar a Copa Chile para garantir o quarto participante. Os protestos realizados pelos torcedores nos estádios, todavia, não traziam perspectivas de que a partida seria organizada em breve. Então, com a permissão da Conmebol, a federação preferiu postergar os embates semifinais para 2020.

Católica, Colo-Colo, Unión Española e Universidad de Chile já tinham se garantido na semifinal da copa. Assim, necessariamente, Unión Española ou Universidad de Chile ficariam com a última vaga. As duas equipes deveriam fazer a definição dentro de campo, em semifinal marcada para o último sábado. A Unión, entretanto, não aceitou a decisão. Por ter feito uma campanha melhor que La U no Campeonato Chileno, a equipe dizia que a vaga era seu direito. Para tanto, se agarrou a uma declaração do vice-presidente da federação e também em sua crença de que, se a copa estava sendo retomada, a liga também deveria.

Desde novembro, quando o Campeonato Chileno foi finalizado, a Unión Española defendeu sua posição. As tensões aumentaram na última semana, quando os indicativos de W.O. ficaram mais claros. A diretoria marcou um amistoso para o sábado, mesma data da partida contra a Universidad de Chile. Por fim, os Rojos emitiram um comunicado explicando que a desistência da semifinal se deu em protesto. Assim, o elenco sequer viajou a Temuco, onde ocorreria o embate – por mais que jogadores e comissão técnica tenham manifestado sua preferência por atuar. A diretoria ameaça lutar nos tribunais por aquilo que vê como seu direito.

Ao final, a Universidad de Chile conquistou a classificação sem entrar em campo. Além do W.O., a Unión Española receberá uma multa da federação. E o mais interessante é a reviravolta que acontece ao redor de La U. O clube lutava contra o rebaixamento no Campeonato Chileno de 2019. Na tabela oficial, terminou inclusive no Z-2, mas o descenso foi revogado por conta da interrupção da liga. Agora, além da participação na Libertadores cair no colo, os Azules também poderão encerrar a temporada com taça.

Presidente da federação, Sebastián Moreno foi duro ao comentar a situação: “A Unión Española desrespeita todo o futebol chileno. Sinto muito por tudo isso. É uma lástima, porque a Unión Española é muito mais que uma sociedade anônima e um proprietário. São parte destacada da história do futebol chileno e não merecem isso. Eu me preocuparei em aplicar a máxima sanção. O que eles estão fazendo é nos retroceder em 30 anos na história do futebol chileno. Nós nos solidarizamos com os jogadores, que são obrigados a se alinhar com o presidente para não perder sua fonte de trabalho. É uma situação incômoda e lamentável”.

O adversário da Universidad de Chile na final será o Colo-Colo. No sábado, o Cacique derrotou a Católica na outra semifinal. Leo Valencia arrancou o empate por 1 a 1 com um gol de pênalti aos 50 do segundo tempo. Já a definição da vaga foi definida na própria marca da cal, com o triunfo dos colo-colinos por 4 a 2. O duelo também foi marcado pelos seguidos protestos contra o presidente Sebastián Piñera, com direito a sinalizadores atirados em campo e a gritos de “assassino igual a Pinochet”. A final acontecerá na próxima quarta, em Temuco.