Em tempos nos quais a maior parte do mundo evita aglomerações por conta da pandemia, já soa estranho ver estádios parcialmente ocupados em alguns países da Europa. Mais impensável ainda é uma situação como a do Vietnã, em que as arquibancadas andam completamente lotadas. E o final de semana registrou um surreal episódio de superlotação na V-League. Segundo a organização da partida, o Estádio Ha Tinh vendeu 10 mil ingressos, metade de sua capacidade. Entretanto, muito mais gente se espremia nas tribunas e o público precisou ocupar a pista de atletismo ao redor do gramado, para evitar uma tragédia. Felizmente, não há registro de feridos.

O Vietnã está há quase dois meses sem registrar transmissões comunitárias do coronavírus. Foram apenas 334 casos no país de 97 milhões de habitantes, sem nenhuma morte computada. O governo local tomou medidas imediatas e teve méritos sobretudo pelo alto número de testes realizados, com a maior média mundial de exames efetuados por paciente infectado. Também há um projeto de conscientização forte e mesmo de rastreio dos contatos – o que sofre acusações por outro lado, dentro de um sistema de controle do regime político. Fato é que, com a austeridade das ações, os vietnamitas não enfrentaram uma crise sanitária. E isso permite que o futebol retorne com público.

A V-League foi paralisada em março, retomando apenas no início de junho. Neste momento, o Vietnã tenta acelerar o retorno de suas atividades para manter o crescimento de sua economia. E o futebol se insere nesta visão, com a pandemia sob controle por ora. A ideia de permitir o público está ligada à própria recuperação do esporte após três meses parado, bem como à importância dos torcedores na atmosfera dos jogos. Enquanto isso, o país mantém algumas medidas preventivas na entrada dos estádios.

“É uma boa notícia, porque o futebol precisa de torcedores. No entanto, seguiremos rigorosamente as medidas de prevenção. Os torcedores que entrarem no estádio terão que usar máscaras, controlar a temperatura e higienizar as mãos”, declarou Nguyen Hup, presidente do Quang Nam FC, ao VN Express. As máscaras, entretanto, vêm sendo usadas por uma minoria dos presentes nas arquibancadas.

Os públicos massivos já tinham sido registrados no final de semana anterior, durante a volta da V-League. Ainda assim, nada se compara ao que ocorreu no Estádio Ha Tinh. Os torcedores superlotaram as tribunas com capacidade para 20 mil presentes e, diante do risco de alguma fatalidade, os policiais preferiram abrir os portões em um dos setores. A confusão paralisou o jogo por volta dos 20 minutos. Enquanto parte das pessoas estavam em pé na pista de atletismo, outros locais continuaram abarrotados.

A presença do Hanói FC, dono de três dos últimos quatro títulos nacionais, influenciou o alto interesse na partida. Além disso, o dono da casa é o Hong Linh Ha Tinh, antigo time B do Hanói FC que resolveu dar seus próprios passos e estreia na primeira divisão do Campeonato Vietnamita nesta temporada. Assim, este foi o primeiro confronto oficial entre “criador e criatura”. Os visitantes até abriram o placar, mas a torcida da casa pôde comemorar o empate por 1 a 1 aos 42 do segundo tempo. Apesar da negligência da organização e da temeridade que a superlotação representa, ao menos a massa ganhou um motivo para voltar satisfeita para casa.