A CBF tem tentado há semanas passar uma imagem de reforma, de limpeza da lama que a entidade se enfiou, a ponto de ter seus três últimos presidentes indiciados por corrupção em investigação do FBI no Fifagate. Um dos rostos trazidos pela entidade para fazer o papel de dar uma nova imagem à CBF é Walter Feldman, um político questionável e que tem mostrado a verdadeira cara da entidade: mudar para continuar a mesma. O veto ao Flamengo jogar em Brasília é uma daquelas atitudes que mostra mais do que os autores da ação dizem em suas palavras. Mostra mais do que gostariam, talvez.

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Vamos à ridícula situação: a cidade do Rio de Janeiro, que tem três times na primeira divisão do Campeonato Brasileiro, está sem estádio capaz de abrigar seus grandes times. O Maracanã, principal estádio da cidade e dos principais do Brasil, está interditado. Um pouco por causa da Olimpíada de 2016, é verdade, mas muito pela gestão absurda que o consórcio responsável pelo estádio faz. Consórcio, é bom dizer, que traz a Odebrecht, investigada e muito enrolada na Operação Lava-Jato, e a empresa americana AEG. Aliás, o consórcio quer abrir mão do estádio e trava uma batalha com o governo fluminense, como mostra matéria do jornal O Globo.

A entrega do estádio ao Comitê Olímpico Internacional, COI, era dia 15 de abril. Foi antecipada para o dia 1º de março. Isso significa que os jogos poderiam acontecer até esta data? Não. O estádio permaneceu fechado. Os Jogos Olímpicos são em agosto, mas o estádio sequer pôde ser usado pelos clubes em 2016. Pelos clubes, que fique claro. No carnaval, tivemos shows usando o estádio como palco.

Um estádio de futebol que não pode ser usado para futebol, mas pode ser usado para shows. Eis a situação patética que nos encontramos: jogos do Campeonato Carioca, um dos mais tradicionais do Brasil, sendo disputados em Cariacica, no Espírito Santo, e em Brasília, no Distrito Federal, porque a cidade maravilhosa não possui um grande estádio em condições de receber os jogos.

Sim, há São Januário, alguém há de lembrar. É verdade. O Vasco consegue mandar seus jogos lá, inclusive o clássico contra o Flamengo, algo raro de acontecer. Mas não é suficiente, porque o Flamengo jamais mandará seus jogos no estádio do seu rival. O Botafogo tem mandado seus jogos por lá, mas o Fluminense também não quer usar a casa vascaína para seus jogos. O que é compreensível.

Dito isto, é preciso citar então a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, a famosa FERJ. A entidade está em guerra com Fluminense e Flamengo, como se viu no caso da Primeira Liga e também como se viu no Campeonato Carioca de 2015. Uma guerra nos bastidores, mas que por vezes fica transparente como água mineral. Uma guerra na qual os clubes perdem, a federação ganha (inclusive financeiramente, faturando mais que alguns clubes no Campeonato Carioca, por exemplo). Ganha com uma força desproporcional à sua importância. Os clubes são a razão do futebol, porque são eles que levam os milhões de torcedores a assistirem os jogos na TV, a irem ao estádio e a movimentar os milhões de reais que entram nos cofres dos clubes e até da própria FERJ.

Flamengo e Fluminense têm contrato com a concessionária do Maracanã para mandar ali seus jogos. Só que ambos sabiam que o estádio estaria indisponível por boa parte do ano de 2016 por conta dos Jogos Olímpicos. Situação similar também à do Estádio Nilton Santos. Por isso, os clubes solicitaram à CBF, já em novembro de 2015, que pudessem indicar dois estádios para mandar seus jogos, em um ou dois estados. Uma autorização prévia para poder jogar em outro lugar, e este lugar, para o Flamengo, seria Brasília, depois dos dirigentes rubro-negros se reunirem com o governo do Distrito Federal para tratar do assunto nesta semana. A expectativa era conseguir a anuência da CBF e, assim, ter resolvido parte do problema. Jogaria em Brasília enquanto o Maracanã não estiver disponível. Quando estiver, jogaria por lá.

Na Premier League, por exemplo, os clubes não podem mandar seus jogos em dois estádios diferentes. Antes da competição começar, precisam indicar qual será o estádio onde mandará seus jogos. Isso gerou um problema para clubes que estão com seus estádios em reforma, como será o caso de Tottenham e Chelsea por pelo menos uma temporada. O White Hart Lane e o Stamford Bridge, respectivamente estádios de Spurs e Blues, estarão em obras. Os dois clubes precisam indicar um novo estádio e queriam ter a chance de mandar jogos maiores em Wembley e jogos menores em estádios, claro, menores também. Só que a liga não permitiu. A ideia de ter um só estádio é a isonomia: todos os adversários deste clube terão que jogar contra eles no mesmo estádio. Uma regra que faz sentido.

Pensando por esse ponto de vista, alguém poderia olhar para a atitude da CBF e da FERJ e dizer que faz sentido. Faria, se essa regra existisse no Brasil. E, mesmo assim, o Flamengo poderia pedir para mandar todos os seus 19 jogos em Brasília, por exemplo. Seria uma atitude radical, mas diante da situação, poderia ser uma saída. A CBF aceitaria? Certamente também não. Porque quem manda, nesse caso, é a FERJ. E manda porque a CBF quer assim, quer dar poder às suas federações. E, além disso, nós vemos situações vexatórias em relação a mando de campo, com clubes vendendo o seu mando para empresários, para jogar, por exemplo, em Brasília mesmo. Ou mesmo ou Cuiabá, em Manaus ou onde quer que haja elefantes brancos.

A CBF quer assim porque deve a essas federações os apoios que elas deram em diversas questões, inclusive eleitorais. Está aí o Coronel Nunes, que não nos deixa mentir. Eleito democraticamente por federações (e clubes também, é bom dizer, já que tinham voto e não exerceram a sua força para se opor a esse jogo de fantoches patético). E agora?

A CBF justificou o veto a Brasília por questões hierárquicas. Quem veio a público foi novamente Walter Feldman, secretário-geral da CBF, mas que pode ser chamado de passador de pano oficial dos desmandos da entidade, que afirmou ao jornal O Globo o seguinte:

“Como o diálogo não tem sido fácil, existe a ideia de que a CBF pode resolver tudo, mas tem um sistema hierárquico dentro do futebol. Não podemos ultrapassar, por exemplo, entidades como a Conmebol e a Fifa. Não dá, está tudo interligado”, disse Feldman, em uma explicação que não faz sentido algum. Ou melhor, até faz, mas é contrária ao que o dirigente quer dizer. Afinal, se a CBF não pode passar por cima da Conmebol e da Fifa, por que diabos a FERJ pode passar por cima da CBF? Não pode. Mas os dirigentes dizem amém porque, apesar do discurso reformista, querem que tudo mude para continuar o mesmo.

Feldman continuou a explicação ao jornal. “Nunca houve permissão. Houve um pedido do Flamengo em novembro e ficou de se estudar. Se baseava na tese da excepcionalidade por conta dos Jogos Olímpicos. Estudamos o regulamento e passaria por cima do direito dos clubes, que nesses casos, tem que ser consultado. Não há nada que proíba que todos os jogos sejam feitos em estádios alternativo, mas tem que ser consultado o clube visitante e a federação”, explicou o dirigente.

Ora essa, se essa é a questão, bastaria solicitar, então, a anuência dos 19 clubes da Série A para isso e, claro, da Federação Carioca (que, aliás, recebe uma parte da arrecadação mesmo que o Flamengo mande seus jogos em Marte, se isso fosse possível). Mas, antes de tudo, foi feito um veto. Um veto que o secretário-geral da CBF nega, dá uma resposta oblíqua e tenta florear para não dizer que é um veto. Tucanou o veto. O que, aliás, condiz com o que a CBF tem feito nos últimos anos todos, desde que Ricardo Teixeira renunciou devido às denúncias de corrupção. A entidade sempre fala em mudanças, mas continua a mesma de sempre.

A CBF segue se impondo como se fosse a dona do futebol, como se fosse mais importante que os clubes, mais importante que os torcedores. A FERJ faz o mesmo que outras federações, que também exercem seu poder de maneira nefasta. A CBF continua fazendo com que os clubes sejam diminuídos diante das federações. E, aqui, entra também a parcela dos clubes, que saõ covardes para mudar essa situação. Diante de tantos desmandos, tantas bobagens que são feitas, tantos problemas que a CBF e as federações causam, por que não romper com elas? Por que não lutar por melhorias de fato?

A Primeira Liga é um embrião, mas ainda muito distante do que os clubes precisam fazer. O problema é que os clubes, e a maioria dos seus dirigentes, continuam pensando só em si mesmo. Não conseguem se unir em torno de algo melhor. O Flamengo tem uma diretoria que tem feito um grande trabalho em termos administrativos, mas mesmo o clube rubro-negro foi incapaz de usar da sua grandeza para lutar por melhorias.

Por exemplo, fazer com que os direitos de TV sejam negociados como bloco. Por que sabe também que isso significa, provavelmente, uma divisão mais justa, como o Esporte Interativo tem proposto e como a Globo parece ter prometido a clubes como o São Paulo, que fechou contrato com a emissora neste semana. Uma divisão ao estilo Premier League, com 40% do dinheiro total dividido igualmente, 30% por desempenho no campeonato anterior (o primeiro ganha mais que o segundo, que ganha mais que o terceiro, e assim respectivamente) e outros 30% por número de jogos transmitidos. Ou seja: clubes como o Flamengo continuariam ganhando mais por terem mais jogos transmitidos.

O problema do veto da CBF para que o Flamengo mande seus jogos em Brasília escancara o que a entidade máxima do futebol no Brasil é. Escancara também que o problema do futebol brasileiro passa por ela e pelas federações que a sustentam neste modelo nocivo, antes de tudo ao futebol do Brasil. Mas o problema também passa pelos clubes, que continuam brigando quando são atingidos, mas ficam quietos se a ação os beneficia, mesmo que indiretamente. Ou, ao menos, parecem incapazes de se solidarizar com os outros times.

Os clubes podem não perceber, assim como muitos torcedores, mas são sócios do futebol brasileiro. Sua rivalidade em campo é importante, mas a união fora dele também. Algum clube irá se manifestar a favor do Flamengo neste caso de Brasília? Dificilmente. O presidente do Bahia, Marcelo Sant’Ana, se manifestou apoiando o Flamengo e criticando a CBF (obrigado pela lembrança, @georgeafg).

Quem também apoiou o Flamengo foi Mario Celso Petraglia, dirigente do Atlético Paranaense e aliado dos rubro-negros na Primeira Liga (obrigado, @tiobacca).

Continuamos com problemas. A CBF deixou a máscara cair. Resta a quem pode mudar alguma coisa começar a fazer. Ou então continuaremos aqui, falando sozinhos, enquanto as decisões são tomadas por dirigentes que não querem pensar no futebol brasileiro, só em si mesmos.


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