Há pouco mais de 30 anos, o Wimbledon viveu o momento mais glorioso de sua história. A sua Crazy Gang era realmente composta por alguns malucos e o time possuía a má fama de um estilo extremamente duro – além de violento. Mesmo assim, coroou um dos maiores contos de fadas do futebol inglês: da quinta divisão à primeira em nove anos, logo depois os Dons acabaram conquistando a Copa da Inglaterra de 1988, em cima do poderoso Liverpool. A campanha da zebra ainda é aclamada como uma das mais célebres na tradicionalíssima competição e, a bem da verdade, o clube seguiria na elite por 14 anos consecutivos, até sofrer seu primeiro rebaixamento em 2000. A partir da virada do século, porém, a agremiação se reduziu a orgulho e lembranças. O renomeado Milton Keynes Dons virou as costas à sua identidade e à sua torcida. Somente pelas mãos dos próprios torcedores é que o Wimbledon ressurgiu, para uma epopeia mais fantástica. E, neste sábado, reavivou sua mística na FA Cup. A fênix desbancou o West Ham, com autoridade. A vitória por 4 a 2 colocou os auriazuis nas oitavas de final do torneio.

É bom dizer que, se não possui CNPJ direto do antigo clube, o atual Wimbledon é o herdeiro moral e espiritual dos antigos Dons. A torcida é a mesma que se revoltou com a mudança para Milton Keynes e que, no passado, havia vibrado com a Crazy Gang. A diferença é que a nova equipe precisou subir, degrau a degrau, a pirâmide do Campeonato Inglês. Não só por sua base de torcedores, mas também pela história particular, o Wimbledon virou um belo atrativo comercial a parceiros – em especial, o Football Manager que o patrocina. Prima por sua boa gestão de recursos e pelo belíssimo trabalho esportivo. Não à toa, conquistou seis acessos em suas primeiras 16 temporadas de vida, sem nunca retroceder. Chegar à Football League já era um feito e tanto, ainda mais alcançando a League One a partir de 2016. Mas faltava algum épico para resgatar os sentimentos na Copa da Inglaterra.

 

Desde sua refundação, no máximo, o Wimbledon alcançara os 32-avos de final. Até chegou a enfrentar Liverpool e Tottenham, mas sem ter nenhuma alegria além de dificultar um pouco a vida dos gigantes. O pior aconteceu em 2012, quando o próprio Milton Keynes Dons foi o algoz na FA Cup. Ao menos a alma já estava lavada desde 2017, quando os Dons verdadeiros se mantiveram na terceira divisão e viram os usurpadores caírem à quarta. E nesta temporada, embora o time seja candidatíssimo à queda na League One, ocupando a última colocação, a Copa da Inglaterra virou anestésico da torcida. Os auriazuis despacharam adversários de divisões inferiores, até encararem o Fleetwood Town (também da terceirona) e avançarem com uma vitória nos minutos finais. Já era a melhor campanha do clube desde seu renascimento. E os 16-avos de final guardaram o reencontro com o West Ham.

Mesmo que o acanhado estádio de Kingsmeadow seja a nova casa do Wimbledon, era de se imaginar que o West Ham fizesse valer o favoritismo. Não era apenas um representante da Premier League encarando o lanterna da League One. Os Hammers também fazem uma temporada interessante na elite, ocupando a décima colocação, apesar dos tropeços recentes. Por mais que Manuel Pellegrini tenha poupado diversos titulares, a responsabilidade cabia aos forasteiros. Mas os prognósticos, amigo, só duram enquanto a bola não rola.

O Wimbledon teve uma atuação fantástica durante o primeiro tempo. Se para o épico acontecer bastava acreditar, a atitude dos Dons indicava toda a sua crença. Os anfitriões eram muito mais incisivos no ataque e criavam problemas ao mistão do West Ham, fora de sintonia. A partir dos 34 minutos, a surpresa começou a tomar forma. O primeiro gol nasceu a partir de uma saída de bola errada dos Hammers. Kwesi Appiah recebeu na entrada da área e o chute desviado tomou o caminho das redes. Pois os oponentes ficariam mais estupefatos aos 41, depois de mais uma bola perdida no meio. Scott Wagstaff ficou com o caminho livre para puxar o contragolpe e tocar no contrapé de Adrián.

Os dois gols de diferença exigiam uma reação imediata do West Ham. Manuel Pellegrini resolveu fazer suas três alterações logo na volta do intervalo, mandando a campo Felipe Anderson, Lucas Pérez e Ryan Fredericks. Mas o Wimbledon precisou de 35 segundos de bola rolando para fazer o terceiro. Cruzamento da esquerda para Wagstaff desviar para dentro. A melhora dos Hammers, de qualquer maneira, realmente aconteceu. Lucas Pérez descontou aos 12 minutos. Já aos 26, Felipe Anderson anotou um belo gol de falta.

Os grenás precisavam de um gol para forçar o replay e tinham o cenário a seu favor, diante de um adversário já abatido. Só que as façanhas nascem de onde menos se espera. E mais uma delas eclodiu graças a Toby Sibbick, de 20 anos, nem dez jogos completados pela Football League. O defensor saiu do banco, teoricamente, para ajudar a segurar o placar. Dois minutos depois de pisar em campo, aos 43, aproveitou um cruzamento que Adrián não cortou e cabeceou para dentro. Não havia mais como tirar a vitória dos Dons.

O triunfo gigantesco, obviamente, provocou uma comemoração ensandecida em Kingsmeadow. A Crazy Gang de agora são os 5 mil representantes das velhas memórias, que se amontoam nas arquibancadas. E, à beira do campo, havia um personagem especial para servir de elo aos dois momentos. Contratado em dezembro para apagar o incêndio na League One, o técnico Wally Downes foi jogador do velho Wimbledon. Formado pelos auriazuis, ele fez sua estreia em 1979, quando o clube entrou na Football League, e participou da ascensão até a primeira divisão, embora tenha deixado a agremiação meses antes da conquista da FA Cup. Ele também era um membro original da Crazy Gang.

Pouco importa quem o Wimbledon pegará nas oitavas de final da Copa da Inglaterra. A presença (até o momento) de seis times das divisões de acesso na próxima etapa abre o caminho a novas surpresas, ainda que o lanterna da League One seja justamente o pior colocado destes na pirâmide do Campeonato Inglês. O objetivo para o planejamento de longo prazo é a salvação na terceirona e, a oito pontos de deixar o Z-4, a missão não será simples. Enquanto isso, os Dons estão no direito de curtirem o devaneio causado pela magia da FA Cup. É daquelas histórias a se contar aos filhos e aos netos. Afinal, a quem não viveu a tarde em Wembley há 30 anos, esta noite foi a mais próxima de experimentar uma sensação parecida. E isso depois que a paixão desapareceu e renasceu das cinzas.


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