Tem dias que fica difícil falar de futebol, quando alguns dirigentes se esforçam para deturpá-lo. A final da Taça Guanabara é uma dessas ocasiões. Se o torneio não possui grande importância, até pelos regulamentos esdrúxulos elaborados pela federação carioca, ainda assim era um clássico decisivo. E a mesquinharia ao redor da partida gerou uma das situações mais intragáveis do futebol brasileiro nos últimos anos. No país em que os duelos com torcida única se tornam padrão, por muito pouco o Maracanã não ficou sem torcida, entre a intransigência e (muito pior) os discursos agressivos dos cartolas sobre o setor sul das tribunas. Sem querer entrar no mérito de quem se sente no direito a esse ou àquele local, fato é que o imbróglio só desvalorizou o confronto. Pior, colocou a vida de muita gente em risco, pelas confusões consequentes nos arredores do estádio. Com menos de 30 mil presentes, a final aconteceu. E o Vasco conquistou a vitória por 1 a 0, que acabara lembrada por motivos bem menos nobres do que deveria.

O que mais incomoda, nesta história toda, é a falta de consciência e de responsabilidade. Não havia se passado nem uma semana da tragédia no Ninho do Urubu – que contou com belíssimas homenagens tanto de cruzmaltinos quanto tricolores, diga-se – e lá estava a queda de braço acontecendo. Pois não é uma questão apenas de respeitar os rivais, mas sim os próprios torcedores e ter noção das consequências que os atos terão em um evento que envolvem milhares de pessoas. Entre o dito e o não dito, uma multidão ficou à mercê da falta de bom senso.

Não que os presentes nos arredores do Maracanã também não tivessem sua responsabilidade. O problema é quando o próprio ambiente da partida fica comprometido por minúcias, que só colocam em jogo a presença dos espectadores. O clássico com brigas pelo setor sul seria péssimo; o clássico sem torcida seria péssimo; e o clássico em que só permitiram a entrada com 30 minutos do primeiro tempo, depois de muito tumulto, foi péssimo de igual ou até pior forma. Mas nada supera a falta de visão dos cartolas que deveriam estar a serviço dos torcedores e acabam lavando as mãos em um ambiente no qual não se sujam pelos desdobramentos de suas posições.

Dito isto, por mais que a bola rolasse, era estranho acompanhar o Fluminense x Vasco na forma como o jogo se deu durante o primeiro tempo. Maracanã às moscas, bombas explodindo do lado de fora e um jogo de futebol precisando acontecer. Os tricolores mantinham o seu padrão de jogo, trabalhando os passes e buscando as brechas. Enquanto isso, os vascaínos cumpriam o seu plano de compactar a marcação e dificultar a saída de bola. Mas os 45 minutos iniciais pareceram afetados por todo o contexto. Diante das chances limitadas às bolas paradas, o melhor lance aconteceu quando os torcedores já começavam a ocupar os seus lugares, no chute de Yony González que explodiu contra o rosto de Fernando Miguel.

O segundo tempo melhorou. Principalmente porque a posse de bola do Flu começou a se converter em oportunidades claras. Faltou aproveitar. Yony González mostra que foi um baita acerto dos tricolores para essa temporada e poderia ter consagrado Everaldo, mas o companheiro mandou por cima do travessão, em ótimas condições. Uma sensação que Everaldo também sentiria na pele. Aos 17, ele assumiu o papel de garçom frustrado. Fez um cruzamento primoroso para Luciano no segundo pau. De tão livre, o atacante pôde ajeitar o corpo e decidir o que fazer na linha da pequena área. Não tomou a escolha mais sábia, ao cabecear pelo lado de fora da rede.

Com sua atitude, o Vasco esperava forçar os erros e encontrar uma bola salvadora. Se a marcação adiantada era o seu principal caminho, ela também poderia beneficiar o momento ofensivo. E o gol dos cruzmaltinos saiu aos 35, a partir de uma cobrança de falta. Danilo Barcelos mandou o cruzamento em direção à área e ninguém desviou no caminho. Mesmo assim, ela morreu no canto da meta de Rodolfo. Festa do time de Alberto Valentim, que só precisava segurar a diferença. Nos minutos finais, emoção só na confusão que rendeu a expulsão de Luciano, além do cartão amarelo para Andrey. O título era cruzmaltinos, para alegria da maior parte dos 30 mil presentes no Maracanã.

Que o Vasco tenha as suas limitações, o trabalho de Alberto Valentim garante uma boa sequência de resultados no Carioca. E o Fluminense mais uma vez sofre as consequências, sem fazer o seu estilo render bem contra os cruzmaltinos. A eficiência fez toda a diferença, até pela quantidade de chances que os tricolores desperdiçaram. Foi a chave nesta final. Os desdobramentos deste jogo, de qualquer maneira, não se contêm à bola que rola. Fica a lição, que, sabemos, não será assimilada pelos dirigentes.