A Bundesliga perderá um bocado em tradição na próxima temporada. O Colônia se tornou o primeiro clube a consumar o rebaixamento, meses depois de viver o sonho de retornar as competições europeias. E ainda mais tensa é a possibilidade de queda do Hamburgo, que vai à última rodada com o dedo no botão para zerar o cronômetro de seu famoso relógio, naquela que se tornaria uma ausência inédita desde a criação da liga nos anos 1960. Caso os Dinossauros se salvem, a bomba cairia no colo do Wolfsburg, que pode não possuir uma história tão profunda quanto os hamburgueses, mas acumulam mais de duas décadas na elite, com um título e grandes campanhas neste intervalo. No entanto, se o Z-3 causa impacto na segunda divisão, a segundona faz emergir seus bastiões do passado. Confirmados para a próxima temporada, Fortuna Düsseldorf e Nürnberg são camisas igualmente pesadas que faturaram o acesso.

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O Fortuna Düsseldorf se tornou o primeiro a comemorar a promoção, há uma semana. E a festa de sua fanática torcida era mais do que esperada. Os alvirrubros passaram 21 das 33 rodadas disputadas até o momento na 2. Bundesliga ocupando a liderança. Desde outubro, deixaram a zona do acesso direto apenas uma vez, em derrapada isolada ao final do primeiro turno. Mesmo que o início de abril tenha sido difícil, com três derrotas consecutivas, isso não atrapalhou a celebração que se desencadeou na Esprit Arena. Construído às vésperas da Copa de 2006, o estádio poderá voltar a lotar, diante do desânimo geral entre os torcedores que leva seu público a uma “modesta” média de 28 mil por partida – pouco mais da metade da capacidade das arquibancadas.

Dá para entender a falta de confiança que paira em Düsseldorf. Campeão alemão em 1933 e participante costumeiro da Bundesliga dos anos 1970 até meados dos anos 1990, o Fortuna sofreu momentos bastante difíceis desde então. O fundo do poço aconteceu pouco depois da virada do século, quando os alvirrubros acumularam seu terceiro rebaixamento em seis anos, relegados à quarta divisão. Os problemas financeiros eram evidentes e as esperanças para se reerguer vieram justamente a partir da mobilização coletiva. O retorno à terceirona, bem como a inauguração da nova arena, davam algumas esperanças. E o retorno à primeira divisão acabou por se consumar em 2012/13, quando se esperava um restabelecimento mais duradouro. Ledo engano. O Flingeraner caiu imediatamente, retomando sua luta na segundona.

A partir de então, foram cinco temporadas consecutivas na 2. Bundesliga. “Fortuna” não era o que se via em Düsseldorf, nos diferentes sentidos da palavra. O nível de investimento não era dos maiores, por mais que o elenco tivesse um valor de mercado relativamente alto ao longo do período. E sorte definitivamente faltou, entre os entraves na diretoria, as mudanças constantes de técnico e as apostas que não se cumpriram. Como resultado, quase sempre os alvirrubros ficaram abaixo das expectativas, com campanhas na metade da tabela. O que parecia nem mudar desta vez, principalmente quando o goleiro Michael Rensing sofreu uma grave lesão e o atacante Ilhas Bebou assinou com o Hannover 96.

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Pois quando poucos esperavam algo a mais do Fortuna Düsseldorf, a equipe surpreendeu. Protagonizou uma campanha bastante segura na segundona, calcada principalmente na solidez de seu sistema defensivo. As nove vitórias durante as 11 primeiras rodadas deram um impulso inicial, para que o Flingeraner administrasse a vantagem construída. As oscilações não atrapalharam a posição alcançada. Além disso, a confiança em jovens jogadores com rodagem nos clubes da elite ajudou a formar uma base, embora os principais destaques sejam mais experientes: o atacante Rouwen Hennings, figura carimbada nas divisões de acesso na Alemanha, e o capitão Oliver Fink, remanescente da passagem pela elite em 2012/13. Já no comando, Friedhelm Funkel está desde 2016 e recobrou seu rótulo de “rei do acesso”. São seis, um recorde no país, ainda que o anterior tivesse acontecido apenas em 2005.

A promoção foi conquistada na antepenúltima rodada, durante a visita ao Dynamo Dresden. Assim, a Esprit Arena experimentou os seus melhores momentos neste domingo, quando mais de 54 mil lotaram as suas arquibancadas. O Fortuna Düsseldorf ficou devendo um pouco, ao empatar por 1 a 1 com o Holstein Kiel. Nada que atrapalhasse a loucura que se desencadeou no estádio, com milhares invadindo o gramado para festejar. Que seja um sinal de reconciliação com a torcida, depois de tempos tão difíceis. O retorno do público tende a ser fundamental na retomada financeira, para que os alvirrubros desfrutem um pouco mais de estabilidade na elite. Será um momento ímpar, ainda mais pela queda do rival Colônia.

E o empate do Fortuna Düsseldorf, por linhas tortas, auxiliou o outro acesso. Ao segurar o Holstein Kiel (que vai aos playoffs), a equipe deu um empurrãozinho para que o Nürnberg garantisse o retorno igualmente tranquilo à Bundesliga. Outro clube histórico que fez por merecer a campanha soberana na segundona. Der Ruhmreiche correu por fora durante parte do primeiro turno, perseguindo justamente o clube de Kiel. No entanto, bastou ao time do norte cochilar na virada do ano para que os grenás tomassem o posto na zona de acesso direto. A partir de fevereiro, não saíram mais, apesar de certas turbulências. Algo compensado pelo sprint final, com quatro vitórias nas últimas cinco rodadas, inclusive no confronto direto fora de casa contra o Holstein.

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Em termos de tradição, o Nürnberg é ainda maior que o Fortuna Düsseldorf. Era uma das potências do país na década de 1920, ao lado do Schalke 4, e inclusive venceu o Flingeraner na decisão nacional de 1936. A ascensão do ídolo Max Morlock auxiliou a manutenção da força depois da Segunda Guerra Mundial e existiram uma outras glórias na década de 1960, sobretudo o título na Bundesliga 1967/68. A partir de então, os grenás se tornaram o maior ioiô da liga, com oito descensos à segundona e oito acessos, além de uma rápida passagem pela terceirona.

Neste século, figurar no meio da tabela da Bundesliga já vinha sendo bastante ao Nürnberg. Além disso, a conquista da Copa da Alemanha em 2007, evitando a dobradinha do Stuttgart com uma épica vitória na prorrogação, providenciou um gosto da glória que parecia restrito a outros tempos. Em 2014, após cinco temporadas na primeira divisão, os grenás caíram. Precisaram de quatro anos para se recompor, em uma gangorra que incluiu a derrota para o Eintracht Frankfurt nos playoffs em 2016, além de certos flertes com o descenso à terceirona.

Diferentemente do Fortuna Düsseldorf, o Nürnberg não encarou grandes problemas financeiros no atual ciclo, até por ter se adaptado à nova realidade. O problema foram as sucessivas vendas de destaques, que impediram uma continuidade maior. Com os pés no chão, a diretoria grená trouxe reforços pontuais para a atual campanha, sem grandes sobressaltos. Conseguiram manter a competitividade, com um time equilibrado. Na frente, destaque para o atacante Mikael Ishak, autor de 13 gols, após se recuperar de uma séria lesão ligamentar. Já o grande protagonista da campanha foi o meio-campista Hanno Behrens. Capitão do time, o volante foi também o artilheiro, autor de 14 tentos. Aos 28 anos, talvez não tenha mercado a clubes acima na tabela, mas pode ser justamente a espinha dorsal no retorno à primeira. No comando, Michael Köllner assumiu um time que seguia com riscos de rebaixamento na temporada passada. Colocou-o no meio da tabela e, agora, impôs sua transformação. Rodado à frente de categorias de base, inclusive no Bayern, começa a ser especulado por outras equipes.

Neste domingo, o Nürnberg consumou o acesso fora de casa, ao bater o Sandhausen por 2 a 1 – onde ainda assim já houve uma enorme invasão de campo. Mas, depois da recepção que levou 10 mil pessoas às ruas da cidade, o melhor certamente ficará para o próximo final de semana, no reencontro com a torcida no Estádio Max Morlock. Os grenás receberão ninguém menos que o Fortuna Düsseldorf, em celebração coletiva que ainda valerá a conquista da 2. Bundesliga. Atualmente, as duas equipes somam 60 pontos, com o Nürnberg à frente pelo saldo de gols. Quem vencer ficará com a taça, enquanto a vantagem do empate será dos anfitriões. Uma tarde em que os dois históricos compartilharão a apoteose de suas jornadas recentes, embora um deles sorrirá um pouco mais ao final.

PS: Vale ponderar que, apesar dos acessos significativos, o Kaiserslautern é o grande que caiu à terceirona para a próxima temporada. Na última rodada, lutam contra a queda Greuther Fürth (39 pontos), Eintracht Braunschweig (39), Erzgerbirge Aue (40), Darmstadt (40), Dynamo Dresden (41), Heidenheim (41) e Sandhausen (42). Fürth ocupa atualmente a zona da queda automática e Braunschweig está nos playoffs. Destaque à arrancada do Darmstadt, que parecia candidato certo à segunda degola consecutiva, mas vem em ótima sequência.