O Manchester United estava pronto para ver a falência de seu futebol ser decretada neste sábado. A equipe de José Mourinho fez um primeiro tempo horripilante em Old Trafford, tomando dois gols do fraco Newcastle – e podendo levar mais. Parecia haver um contágio de apatia no time, totalmente entregue nos lances do gol e que não conseguiu ameaçar para recuperar o placar. O cenário do jogo mudaria completamente para o segundo tempo. Os Red Devils não jogaram tão bem, é necessário dizer. Contudo, apertaram o botão do pandemônio e, tentando sufocar os Magpies, buscaram a imensurável virada por 3 a 2. Uma injeção de adrenalina na torcida, que oferece um bocado de euforia, mas não muda o pensamento que os problemas são generalizados entre os mancunianos. Na base da loucura, Mourinho se safou, mas fica uma vitória monumental para ser recordada sempre.

O Newcastle precisou de míseros sete minutos para instaurar o caos em Old Trafford. Muito mais ligado na partida, abriu o placar contando com a complacência do Manchester United. Kennedy foi lançado em velocidade e, apenas cercado pelos marcadores, teve espaço para mandar a bola no cantinho de David de Gea. Pois ficaria pior três minutos depois. Em cruzamento na área, Yoshinori Muto pôde dominar, girar em cima de dois espectadores de luxo e encher o pé, anotando um bonito gol. Os Red Devils estavam totalmente atordoados. Não demonstravam qualquer ímpeto e se complicavam sozinhos. Pela primeira vez em um jogo de Premier League (desde 1992/93), os mancunianos tomaram dois gols em menos de dez minutos como mandantes.

Apesar da vantagem, o Newcastle continuava buscando o gol e incomodando De Gea, que faria uma boa defesa em chute de Jonjo Shelvey. A situação levou José Mourinho a queimar sua primeira alteração com apenas 19 minutos, ao tirar Eric Bailly (péssimo até então) e recuar Scott McTominay à zaga. A entrada de Juan Mata deu um pouco mais de presença ofensiva ao Manchester United, embora a equipe quase não tenha criado oportunidades de gol. Na melhor delas, Romelu Lukaku cruzou da direita e Marcus Rashford não concluiu da melhor maneira, mandando para fora. Os Magpies eram muito mais perigosos no ataque e paravam em De Gea. O goleiro operaria um milagre, em cabeçada à queima-roupa de Muto que defendeu em dois tempos.

Para a segunda etapa, mais mudanças no Manchester United. McTominay saiu para a entrada de Marouane Fellaini, o que levou Paul Pogba e Nemanja Matic a atuarem como auxiliares de zagueiro, especialmente para iniciar a saída de bola. O problema é que os Red Devils não tinham qualquer organização. Era um time bagunçado, que buscava mais o resultado pela pressão do que pela qualidade coletiva. A capacidade de seus jogadores servia ao menos para acuar um fraco time do Newcastle, que exibiu problemas sérios ao longo desta Premier League e vê Rafa Benítez sofrer com a falta de reforços. Na melhor oportunidade, Pogba encheu o pé de fora da área, Martin Dubravka fez a defesa e Nemanja Matic desperdiçou o rebote com o gol aberto.

Era uma pressão afobada do United, que demorou a dar resultado. Alexis Sánchez foi a terceira alteração, substituindo Rashford aos 23. E os mancunianos só concretizaram a virada durante os 20 minutos finais, quando finalmente fizeram sua superioridade pesar, canalizando melhor sua vontade para construir as jogadas. O primeiro a marcar foi Mata, em uma cobrança de falta caprichosa na entrada da área. O bombardeio se seguia e Dubravka realizou duas defesaças, em chutes de Fellaini e Smalling. Todavia, o empate acabaria saindo aos 31. Bela trama pela esquerda, em que Anthony Martial passou a Pogba, recebeu de calcanhar e mandou no cantinho. O que parecia improvável estava prestes a se confirmar.

O Newcastle ainda tentou responder e o desvio de Mohamed Diamé terminou salvo em cima da linha por Lukaku. Mas era mesmo a noite da insanidade do Manchester United, que abafou os visitantes e arrancou o empate aos 45. Mais uma vez, Pogba teve boa participação no lance, ajudando a iniciar a jogada e aparecendo na área para continuar a tabela. Ashley Young recebeu na direita e cruzou. Martial não alcançou a bola, mas Alexis Sánchez apareceu às suas costas e emendou de cabeça para dentro. Tremendo alívio dos mancunianos, embora os torcedores estejam distantes da satisfação. A festa da torcida, de qualquer forma, prevaleceu por todo o desabafo que o triunfo proporcionava.

Há muito o que se consertar neste Manchester United. É um elenco cheio de bons jogadores, mas não um time. A falta de resultados indica isso e até se percebe uma falta de confiança, como no primeiro tempo em Old Trafford. Foi preciso uma dose cavalar de desespero para o time reagir e a vitória acontecer, só que diante de um fraco adversário, que não limpa muito a barra de José Mourinho. Justamente o desafeto Pogba sai como protagonista, pela maneira como fez um pouco de tudo no segundo tempo e carregou o time rumo à virada. Sua participatividade foi excelente.

Ao menos o triunfo atenua os impactos na tabela. Depois de quatro partidas sem vitórias, duas delas pela Premier League, os Red Devils chegam aos 13 pontos e assumem a oitava colocação. Pouco para o nível de investimento. O Newcastle é o vice-lanterna, com míseros dois pontos. Cabe a José Mourinho seguir convivendo com os rumores sobre a sua demissão, que não vão cessar tão cedo. Se respira, precisa tirar as lições desta reação para que ela se desdobre em mais partidas – o que parece difícil, considerando a sua intransigência.


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