Os estádios de futebol podem ser verdadeiras válvulas de escape em regimes autoritários. Juntar uma multidão nas arquibancadas é das poucas manifestações populares que não costumam ser reprimidas. Mas, ainda assim, o futebol pode ser o pano de fundo para protestos que ganham voz muito além dos jogos. E a história do Union Berlim ajuda a representar essa luta durante a derrocada da Alemanha Oriental.

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É verdade que nem todos no Union Berlim eram contra o regime e que muitas vezes essa oposição não se fazia evidente. Mesmo assim, a história de um clube surgido no subúrbio operário e que foi dividido junto com a Alemanha o impulsionou como rival do Dynamo Berlim, que representava os privilégios da elite do poder. As arquibancadas lotadas do Estádio An der Alten Försterei era uma grande bandeira. E o espírito de resistência que muitos alvirrubros carregaram continua com o Union até hoje, em uma torcida que segue pregando a solidariedade e combatendo a intolerância no futebol.

A história antes da divisão de Berlim

Por mais que o futebol alemão esconda a história do futebol de Berlim, a capital esteve repleta de clubes importantes a partir da virada do Século XX. E em um subúrbio industrial da metrópole surgiu o Olympia Oberschöeneweide, que se tornou Union em 1910. Dono de duas taças do Campeonato de Brandemburgo, o clube chegou a ser vice-campeão alemão em 1923. E a consolidação acontecia junto aos operários. Os apelidos de “Schlosserjungs” (garotos metalúrgicos) e “Eisern Union” (Union de ferro) faziam referência à origem na classe trabalhadora, em tempos nos quais o esporte estava atrelado à elite berlinense. Além disso, a construção do Estádio An der Alten Försterei ajudou a atrair mais apoiadores.

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Apesar da popularidade entre o proletariado, o Union permaneceu como um time médio entre as décadas de 1930 e 1940, sem conseguir competir com Hertha, Viktoria e Tennis Borussia Berlim. O único sucesso aconteceu em 1939/40, quando foi campeão regional e caiu nas quartas de final do Alemão. Entretanto, em meio à Segunda Guerra Mundial o futebol era assunto menor. A trajetória do Union só teria nova guinada a partir do armistício, em 1945.

O estádio lotado para ver os vice-campeões alemães em 1924
O estádio lotado para ver os vice-campeões alemães em 1924

Oberschoeneweide foi uma das regiões na ofensiva do Exército Vermelho, que culminou na rendição dos nazistas. E, com a divisão da capital entre os aliados, o distrito acabou sob administração soviética. O Union Oberschöneweide, assim como todas as instituições esportivas, foi dissolvido pelas autoridades comunistas, para extirpar possíveis resquícios do nazismo. Ainda assim, os antigos clubes passaram a originar novas instituições esportivas. O passado do Union passou a ser guardado pelo SG Oberschöneweide.

Apesar da divisão do país no final da década de 1940, os vencedores da Copa de Berlim ainda podiam disputar o Campeonato Alemão, e o SG Oberschöneweide parou nas quartas de final em 1947, levando 70 mil pessoas ao Estádio Olímpico. A partir de 1948, a equipe também pôde retomar o Union em seu nome, já que ele não representava o “passado burguês” execrado pelo regime comunista que se formava. Os problemas maiores só começaram a aparecer em 1949, com o estabelecimento da Alemanha Oriental como país.

A Guerra Fria também dividiu o Union Berlim

O Campeonato Alemão-Oriental começou a ser disputado em 1949, ainda regionalizado. Apesar disso, o Union Oberschöneweide permanecia na Copa de Berlim. O que causou um enorme entrave após o vice-campeonato regional em 1949/50, que dava ao time o direito de disputar o Campeonato Alemão-Ocidental. A viagem até Kiel, para enfrentar o Hamburgo, foi barrada pelo regime comunista. Um embargo que provocou a cisão do clube.

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A maioria dos titulares do Union resolveu peitar as autoridades e partiu para o duelo, mesmo sem autorização. A derrota por 7 a 0 eliminou os berlinenses precocemente, mas não os fez retornar a Berlim Oriental. Eles fundaram na parte ocidental da capital o Union 06 Berlim, logo integrado às estruturas do futebol no oeste. E a nova equipe se manteve bastante competitiva naqueles primeiros anos, brigando pelas primeiras posições do Campeonato Berlinense e atraindo bons públicos.

Já do outro lado da fronteira, o Union Oberschöneweide estava enfraquecido. Mesmo assim, foi integrado à Oberliga a partir de 1950/51, embora passasse longe das primeiras posições. E o clube acabou fazendo parte do processo nacional de atrelar as instituições esportivas à indústria. Em 1951, foi rebatizado como BSG Motor Oberschöneweide e ligado à indústria de transformadores elétricos. Os berlinenses também foram obrigados a abandonar o azul de suas cores, que remetiam aos uniformes do operariado, adotando o vermelho.

Partida no Estádio An der Alten Försterei
Partida no Estádio An der Alten Försterei

No entanto, a queda do Motor Oberschöneweide para a segunda divisão em 1953 sufocou o clube. O título da Alemanha Ocidental na Copa de 1954 provocou as autoridades comunistas na tentativa de fortalecerem o futebol na parte oriental. Berlim passou a ser o alvo natural para isso, abrigando dois novos times a partir de então: o Vorwärts Berlim e o Dynamo Berlim, administrados pelo exército e pela Stasi, a polícia secreta alemã-oriental. Enquanto os novos gigantes da capital faziam parte da elite do regime, o Motor Oberschöneweide mantinha suas raízes verdadeiramente populares.

Mas o ostracismo vivido pelo Motor Oberschöneweide, em contraste com o sucesso do Union 06 Berlim, acabou tirando a torcida do time oriental. A passagem entre as metades da capital era viável naqueles tempos, fazendo com que os alemães do leste reforçassem a massa nas arquibancadas no oeste. Algo que se interrompeu em 1961, com a construção do Muro de Berlim. Desde então, quem entrou em declínio foi o Union 06 Berlim, sem o apoio de sua massa fiel. E a equipe de Oberschöneweide voltou a atrair torcedores.

O time do povo ressurge em Berlim Oriental

A partir da metade final dos anos 1950, o Motor Oberschöneweide atravessou sucessivas fusões nas divisões inferiores. A última delas, e mais importante, aconteceu em 1963. O Partido Socialista Unificado da Alemanha fundou o TSC Berliner, clube que seria o representante civil da capital, exatamente para se contrapor aos oficiais Dynamo e Vorwärts. E o departamento de futebol integrado à nova agremiação foi exatamente o que restara do antigo Oberschöneweide. Três anos depois, a última mudança de nome: o Union Berlim ressurgiu, voltando à primeira divisão após dois acessos seguidos a partir de 1962.

A construção do muro também foi decisiva para o Union Berlim renovar a sua torcida, não apenas pelo declínio do Union 06 Berlim. A barreira de pedra também impedia os antigos seguidores orientais do Hertha Berlim a acompanhar o time na parte ocidental da capital. E a alternativa mais palpável para eles se tornou justamente o novo Union Berlim. Da mesma forma, como o trânsito do oeste para o leste era mais permissivo mesmo com o muro, os torcedores ocidentais do Hertha começaram a frequentar o Estádio An der Alten Försterei. Muitos deles, com a camisa alviazul, o que era proibido e desafiado.

O Union ergue a taça em 1968
O Union ergue a taça em 1968

A reestruturação impulsionou o Union Berlim, com a refundação em 1966. Obviamente, não dava para competir com os principais clubes do país, que tinham subsídios estruturais do governo e também permissões para recrutar promessas de qualquer outra equipe. Os alvirrubros se tornaram frequentadores do meio da tabela da Oberliga. Já em 1968, o clube teve a sua grande conquista na Copa da Alemanha Oriental. Após eliminar o poderoso Vorwärts Berlim na semifinal, o Union surpreendeu o Carl Zeiss Jena na decisão, triunfando de virada por 2 a 1. Entretanto, a Primavera de Praga custou a participação dos alemães-orientais na Recopa.

Aquele título foi o único do Union Berlim sob o comunismo. Não era isso, porém, que afastava o público do estádio. Pelo contrário. O recrudescimento do regime e a interferência cada vez maior da Stasi no futebol apenas reforçavam o caráter dos alvirrubros como uma alternativa às manipulações que existiam. Isso mantinha o estádio cheio durante as décadas de 1970 e 1980, mesmo com o clube vivendo entre o acesso e o descenso na Oberliga. Ainda que não houvesse nenhum esforço interno para isso, o Union passou a ser o antagonista natural ao ascendente Dynamo Berlim.

A rivalidade com o Dynamo Berlim

A oposição ao regime era uma das explicações para o frequente público de 15 mil pessoas no Estádio An der Alten Försterei, enquanto o Dynamo Berlim tinha médias de público irrisórias diante de seu sucesso nas competições nacionais – ainda mais com a transferência do Vorwärts Berlim para a cidade de Frankfurt/Oder. Entretanto, a diferença no apoio não pode ser simplificada a isso. Afinal, o Union possuía bases muito mais antigas, enquanto o Dynamo começava a atrair os mais jovens. A maioria da torcida alvirrubra ainda era composta por pessoas comuns. E as críticas ao sistema não era exclusividade deles, ainda mais com as críticas ao poder central crescendo nos anos 1970.

Ainda assim, a oposição ao Dynamo fazia com que a arquibancada nos jogos do Union não fosse apenas para quem gostava de futebol, mas também para quem desaprovava o regime. Muitos deles tratados com mais rigor pela Stasi do que os torcedores do Dynamo, apontados como torcedores. Nesse contexto, ser alvirrubro era uma alternativa para se mostrar contra o autoritarismo do poder estabelecido, ainda que não fosse um time antissocialista.

As arquibancadas no clássico, em 1990
As arquibancadas no clássico, em 1990

Não significa que o próprio clube se negasse a colaborar com o governo ou que a torcida tivesse uma só posição. “Nem todo torcedor do Union é inimigo do Estado, mas todos os inimigos do Estado são torcedores do Union”, afirmava o editor da Eulenspiegel, a revista satírica mais popular do país. Entretanto, a designação da Juventude comunista para organizar as torcidas organizadas e a chegada de um ex-presidente ligado ao Dynamo demonstram como as autoridades não afrouxavam a vigilância sobre o Union. Não à toa, documentos divulgados após a reunificação revelaram que a Stasi mantinha registros de quem frequentava as arquibancadas em Oberschöneweide. E a massa de torcedores comuns, a maioria proletários, passou a ser acompanhada por hippies e punks, que surgiam como opositores da RDA.

Neste contexto, torcer pelo Union nos clássicos era uma maneira de responder à ditadura sem sofrer repressão. Enquanto os jogos entre os Dynamos de Berlim e Dresden contrapunha uma diferença envolta no sucesso dos times e no histórico de privilégios ao time da capital, o dérbi berlinense tinha um pano de fundo bem mais político. “Perdemos mais jogos do que ganhamos, mas nunca a torcida nos abandonou. A atmosfera sempre era fantástica”, definiu Rolf Weber, defensor do clube entre 1970 e 1981, em entrevista ao jornal Guardian.

Partida do Union em 1988 pela Oberliga, contra o Stahl Riesa
Partida do Union em 1988 pela Oberliga, contra o Stahl Riesa

Especialmente no fim dos anos 1980, com a falência iminente do regime comunista, os cânticos da torcida do Union atacavam o poder central: “Die Mauer muss weg” (O muro vai cair) e “Wir wollen keine Stasi schweine” (Nós não queremos os porcos da Stasi). Por mais que os clássicos fossem disputados em campo neutro, as brigas entre hooligans se tornaram comuns nas ruas de Berlim. Os torcedores do Dynamo eram conhecidos pela violência de grupos skinheads, embora também houvesse extremistas que frequentavam os jogos do Union.

Já em campo, a surra quase sempre para o lado do Dynamo. A temporada de 1976/77 marcou a glória para o Union, com duas vitórias por 1 a 0 diante de 45 mil torcedores, mas também marcou o início do jejum. Durante 14 anos, os alvirrubros se acostumaram a perder e a tomar goleadas da equipe da Stasi – como em 1978/79, quando sofreram 24 gols e marcaram apenas dois em quatro clássicos. O tabu só foi quebrado em 1990/91, quando o Dynamo já se chamava FC Berlim, com o triunfo do Union por 2 a 1 na Copa da Alemanha Oriental. Sinal do fim dos privilégios e também dos novos tempos que se desenhavam.

A queda do muro e a preservação da cultura do clube

A decadência da Alemanha Oriental intensificou as manifestações da torcida do Union. E a queda do Muro de Berlim foi a chave para que o clube se tornasse um representante de Berlim, e não somente da parte oriental. O grito das torcidas “Hertha und Union, eine Nation” (Hertha e Union, uma nação) se concretizou em 27 de janeiro de 1990, em amistoso entre as duas equipes no Estádio Olímpico de Berlim. As arquibancadas receberam 51 mil torcedores, na grande festa do futebol que simbolizou a reunificação. A vitória do Hertha por 2 a 1 foi o de menos, diante do reencontro de pessoas que não se viam havia anos.

A união simbolizada pelas torcidas de Union e Hertha em 1990
A união simbolizada pelas torcidas de Union e Hertha em 1990

Na recomposição do Campeonato Alemão, o Union passou do título da segundona alemã-oriental à terceirona da liga unificada. E enquanto o Dynamo Berlim vivia o declínio com a falta de apoio oficial, os alvirrubros buscavam sua reconstrução através da base fiel de torcedores. Os problemas financeiros impediram em duas oportunidades que o clube disputasse a segunda divisão da Bundesliga, mesmo conquistando o acesso, e em 1997 foi declarada concordata. A salvação do Union veio a partir de manifestações de sua torcida nas ruas de Berlim, que motivaram o patrocínio do Studiocanal e da Nike.  Quem também ajudou na campanha foi a cantora Nina Hagen, que gravou o hino da equipe, relembrando as ligações com os punks.

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A partir dos anos 2000, o Union Berlim se firmou na segunda divisão alemã, apesar de uma fase de baixa, quando chegou ao quarto nível em 2005/06. Esta é a sexta temporada consecutiva que os alvirrubros tentam o acesso à Bundesliga. E sempre tendo como marca o envolvimento de seus torcedores, em média de público que chegou a 19,8 mil pessoas por jogo em 2013/14 – a mais alta desde os tempos de Alemanha Oriental.

Neste intervalo, o Estádio An der Alten Försterei chegou a ser reformado pelas mãos da própria torcida, com cerca de duas mil pessoas dedicando 140 mil horas de trabalho para finalizar a ampliação das arquibancadas. Os alvirrubros também organizaram, em 2004/05, uma campanha de doação de sangue para arrecadar dinheiro ao clube. E ainda compraram ações para que a diretoria não precisasse vender os naming rights do estádio.

O histórico mantém o Union Berlim ao lado de clubes como o St. Pauli e o Borussia Dortmund na luta contra a intolerância e o neonazismo. Talvez o passado socialista também o influencie a combater o “futebol moderno”, com a ascensão do RB Leipzig. Mas, dentro de sua fase atual, o próprio Union possui controvérsias, como na revelação que o presidente Dirk Zingler fez parte da ala mais radical do exército durante sua juventude. “Ouvi que, se quisesse ficar em Berlim, precisava servir. E a cidade era importante para mim, como torcedor do Union”, declarou, incentivando outros torcedores contarem como se viraram para não serem perseguidos. Um episódio que serviu para ressaltar que nem todos no Union eram necessariamente engajados na luta contra o regime. E que não deixa de engrandecer o passado de resistência que se construiu no clube.