A Bundesliga implementou o sistema de playoffs em seu rebaixamento há exatos dez anos. Na temporada 2008/09, o Energie Cottbus encarou o Nuremberg, terceiro colocado da segundona, e não evitou o seu rebaixamento. O modelo, porém, historicamente não beneficia quem vem de baixo. Por mais que os times da segunda divisão façam a partida de volta em casa, somente em duas oportunidades eles conseguiram superar o antepenúltimo da elite – na mais recente, com o Fortuna Düsseldorf subindo em 2012. Já neste ano, o Union Berlim tem tudo para negar os prognósticos. Nesta quinta, buscou o empate por 2 a 2 contra o Stuttgart na Mercedes-Benz Arena e poderá decidir diante de sua torcida, na segunda-feira, valendo o inédito acesso.

Sediado no leste de Berlim, o Union surgiu durante o início do século passado e acabou refundado na década de 1960, já sob o regime comunista na Alemanha Oriental. Era um clube costumeiro na primeira divisão, mas sem registrar grandes campanhas, e que se colocava contra o “establishment” representado pelo Dynamo Berlim – o multicampeão apoiado pela Stasi, serviço secreto da ditadura local. Enquanto fizeram parte da Oberliga, os Eisernen nunca passaram da quinta colocação. Além disso, disputaram duas finais da antiga Copa Alemã-Oriental, levando a taça em 1968. Sua fortaleza sempre foi a torcida, parte dela composta pelos antigos seguidores do Hertha Berlim que foram separados de seu time pelo muro.

E mesmo sem o peso de outros clubes da Alemanha Oriental, o Union Berlim conquistou uma notável estabilidade após a unificação, calcada novamente em seus torcedores. Foram eles que ajudaram a salvar a agremiação da falência, bem como participaram do mutirão para ampliar o Estádio An der Alten Försterei. Após atravessar os anos 1990 na terceira divisão, os berlinenses estrearam na segundona no início da década passada, mas logo sofreram dois rebaixamentos consecutivos e pararam no quarto nível. Não demorariam a ascender novamente e, há dez temporadas, se seguram na 2. Bundesliga. Após alguns anos no meio da tabela, a equipe começou a flertar com o acesso, mas quase sempre declinando na reta final das campanhas. Embora também tenha perdido o fôlego em 2018/19, o desempenho já valeu para chegar aos playoffs pela primeira vez, na terceira colocação.

Do outro lado, o Stuttgart acumula decepções. Apesar da capacidade de investimento do clube, o calvário da torcida se amplia nos últimos anos. Os suábios sofreram seu primeiro rebaixamento em mais de quatro décadas durante a Bundesliga 2015/16. Voltaram imediatamente em 2016/17 e até vislumbraram a chance de ir às copas europeias em 2017/18. Contudo, as contratações não se encaixaram na atual campanha e o time voltou a ter um desempenho deplorável na elite. Depois de frequentarem o Z-2 no primeiro turno, os alvirrubros se deram por satisfeitos com a antepenúltima colocação. Estiveram distantes de reagir, com direito a uma goleada por 6 a 0 sofrida ante o Augsburg.

Apoiado pela torcida nesta quinta-feira, o Stuttgart precisava fazer o resultado em casa. Tinha muito mais pressão em suas costas. E mesmo que o retrospecto recente não seja tão bom, com somente duas vitórias desde abril, o Union Berlim soube lidar melhor com a ocasião. Em um primeiro tempo fraco, sem tantas emoções, o gol dos visitantes não saiu primeiro graças a um milagre de Ron-Robert Zieler. Aos 41 minutos, Christian Gentner colocou os suábios em vantagem. Porém, logo no minuto seguinte, Sulleiman Abdullahi empatou aos berlinenses.

Para a segunda etapa, Mario Gómez se mostrou pronto a se tornar o herói. Saiu do banco e, em uma de suas primeiras jogadas, encarou a marcação, em chute desviado que recolocou o Stuttgart na dianteira aos seis minutos. O problema é que de novo o Union reagiria. Marvin Friedrich empatou com uma cabeçada firme, no canto. E a virada só não aconteceu porque Zieler realizou defesas decisivas, salvando a pele dos alvirrubros.

O resultado certamente anima a torcida do Union Berlim. O time poderá jogar em casa e com a vantagem dos empates por 0 a 0 ou 1 a 1. Mas, pela superioridade do elenco, não será surpreendente se o Stuttgart também buscar o resultado fora – há três anos, foi assim que o Eintracht Frankfurt escapou da degola, após empatar por 1 a 1 a ida contra o Nuremberg. De qualquer maneira, diante do nível de confiança e da efetividade de seu futebol na Mercedes-Benz Arena, os berlinenses assumem o favoritismo neste momento. Poderá ser a coroação de uma baita história, com a inédita participação na elite desde a reunificação alemã.