O último jogo da Holanda em 2014 será o mais importante

Contra a Letônia, nas eliminatórias da Euro 2016, Laranja joga para minorar pressão e perigo de precisar recomeçar trabalho

“Se a Holanda não vencer a Letônia, eu me demito. Se perdermos, eu vou tirar minhas conclusões a partir deste resultado. Nem comentei isso com os jogadores. E um empate não me parece suficiente, também.” Foi com essas frases, sucintas e ditas seriamente, que Guus Hiddink colocou ainda mais importância no jogo contra os letões, em Amsterdã, no próximo domingo, pelas Eliminatórias da Euro 2016. Na verdade, a partida pode muito bem ser considerada a mais importante da Laranja em 2014.

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Exagero? Não, se pensarmos que a Copa do Mundo foi mais uma boa surpresa do que qualquer outra coisa. Claro que a seleção holandesa teria a partida mais importante do ano se tivesse entrado no gramado do Maracanã, em 13 de julho, para jogar a final da Copa. Mas a Argentina não deixou. Com isso, a campanha ficou com o 5 a 1 contra a Espanha como vitória mais marcante. Só que aquela partida em Salvador era mais imprevisível do que importante: a Oranje chegava como franco-atiradora, pelas reformulações por que passara antes da Copa, forçosas ou não. Se perdesse, “cumpriria” as expectativas. Mas goleou. E foi surpreendendo, até terminar com um terceiro lugar elogiável.

Agora, não. Exatamente por terem crescido e aparecido durante a Copa é que os novatos precisam ser cobrados de uma maneira mais dura. E também é pelas boas atuações que os veteranos precisam continuar chamando a responsabilidade. Não foi o que se viu nas primeiras rodadas das eliminatórias da Euro: a Holanda impressionou negativamente, com um time enfastiado e frágil na defesa. As duas derrotas (e a má atuação na vitória contra o Cazaquistão) bastaram para Bert van Oostveen, diretor de futebol profissional, chamar Guus Hiddink para uma conversa de avaliação do trabalho, dias após o revés para a Islândia.

Da conversa, ambos saíram com uma promessa: fazer o que se chamou de “plan van aanpak” (em holandês, o “plano de abordagem”), para que a comissão técnica encontrasse os problemas que a seleção enfrenta e os resolvesse. Se colocado em prática, seria muito bom. Só que o tal plano foi motivo de discordância desnecessária entre Hiddink e Van Oostveen. Acompanhando o rei Willem Alexander em visita deste à Coreia do Sul, como “embaixador cultural” – pela Copa de 2002, obviamente -, o técnico reclamou: “Eu li sobre esse plano de abordagem aqui e ali, mas não é um termo que eu uso. Nós só tentaremos entrar em ascensão nos próximos jogos”.

Bastou essa reclamação para Van Oostveen esclarecer, com uma finíssima alfinetada no empregado: “Não importa como chamamos. O importante é que isso leve às vitórias e a um melhor futebol. Foi o que conversamos na reunião, Guus e eu, durante a reunião de avaliação. Logo, estamos totalmente de acordo com relação a isso”. Paralelamente, Hiddink viajou a Manchester e tratou de conversar com o capitão Van Persie, para pedir que este o ajude mais nas conversas com os jogadores. E Robin gostou: “O técnico deixou claro que quer ver tudo diferente e melhor. Ele foi direto, duro, até. E sobrou até para mim. Mas era necessário”.

E Van Persie escutou os conselhos. Já na segunda-feira, quando os jogadores convocados iam chegando a Noordwijk, viu-se uma reunião durante os treinamentos. Ela envolvia apenas jogadores. E só dois deles mais jovens, Wijnaldum e Blind. De resto, havia Van Persie, Sneijder, Robben, Huntelaar, o cortado Nigel de Jong… todos na faixa dos 30 anos, calejados e capazes de tentar comandar o barco dentro de campo.

E talvez todos tivessem algo a resolver, como elucubrou Ruud Gullit na mesa-redonda “Studio Voetbal”, da NOS: “Há quatro rapazes que não conseguem se sentar à mesma mesa: Sneijder, Van Persie, Huntelaar e Robben. São todos egos sensíveis. Há coisas ali, e eles têm de se sentar para resolver”. Gullit ainda lembrou vários episódios onde os egos quase se chocaram destrutivamente. Os desentendimentos “leves” entre Van Persie e Sneijder, na Euro 2008 e na Copa de 2010; a raiva mal disfarçada de Huntelaar por ter ficado no banco durante a Euro 2012, enquanto Van Persie jogava pessimamente; e o desejo crescente de Robben em tornar-se capitão da Oranje.

Seja como for, de algum modo, todos os veteranos conseguem deixar suas diferenças fora do campo. E exercem bem o papel de líderes de um elenco ainda jovem. E que foi mudado para o amistoso contra o México, na última quarta, até para que os últimos ajustes fossem feitos antes do jogo contra a Letônia. Na lateral esquerda, Jetro Willems recebeu nova chance de Hiddink, após quase um ano fora da seleção. Na zaga, sem o adoentado e cortado Martins Indi, Joël Veltman foi escalado ao lado de Vlaar, outro que voltava após duas convocações de fora.

E finalmente, uma alteração que mereceu algumas observações. No gol, Jasper Cillessen foi trocado por Tim Krul no amistoso. É verdade que o goleiro do Ajax cometeu falhas em suas duas últimas partidas pelo clube (contra Barcelona, pela Liga dos Campeões, e Cambuur, pelo Campeonato Holandês). Mas nada dava a entender que Krul receberia a chance no amistoso. Hiddink foi lacônico: “Tenho três goleiros do mesmo nível. Não sou de mandar recado. Cillessen teve uma ótima fase na seleção, e continuará assim. Mas Krul merecia jogar num amistoso”. Fica a dúvida sobre eventual mudança no gol, que só será respondida com os próximos jogos.

Seja como for, as coisas ainda não deram certo no amistoso contra o México. Houve melhoras, é verdade. Sneijder teve seus bons momentos na quarta-feira, Robben mostrou a rapidez de sempre e Depay anda cada vez mais desinibido. Além disso, Blind está à vontade como volante. Entretanto, Hiddink não deixou o 4-3-3 de lado. Resultado: a defesa holandesa cansou de correr atrás da rapidez mexicana, com Hector Herrera, “Chicharito” Hernández e Carlos Vela (este, o melhor do jogo). Pior, Vlaar lesionou-se precocemente – foi cortado nesta quinta – e deu lugar a De Vrij. As falhas de posicionamento de Veltman, Van Rhijn e Willems foram claras. E o México pôde comemorar a vitória por 3 a 2, que não é uma revanche completa da eliminação na Copa do Mundo, mas ameniza a frustração.

Na saída do jogo, Robben vociferou: “Não temos segurança e estabilidade lá atrás, por isso sofremos tantos gols”. Hiddink não deixou por menos: “Esse tipo de falha não pode ser cometida por jogadores de seleção”. Perdido em várias hipóteses – cogita-se até recuar Robben para a meia-direita, enquanto Van Persie e Huntelaar fariam a dupla de ataque -, Hiddink se lembra da promessa de demissão: “É aquilo mesmo, não falei da boca para fora”.

E o treinador fará de tudo para que a Letônia não seja algoz de mais um vexame holandês. Por isso, o jogo do próximo domingo pode ser o mais importante da Holanda em 2014. Porque não se trata “apenas” de uma Copa do Mundo, mas de um trabalho que começou agora, e que talvez terá de voltar à estaca zero.