Internazionale e Shakhtar Donetsk se enfrentam na semifinal da Liga Europa reeditando um confronto que remete a outros tempos dos clubes. Será o segundo encontro das equipes por competições europeias, o primeiro em 15 anos. E a realidade era bastante distinta naquele momento, tanto a italianos quanto a ucranianos. A Inter começava a recuperar sua força nacional, sob as ordens de Roberto Mancini. Já o Shakhtar vivia o início do projeto de Mircea Lucescu e ganhava representatividade além das fronteiras. Naquela época, todavia, ainda se enfrentaram para definir quem ia à fase de grupos da Champions League 2005/06.

Na temporada, apenas campeão e vice da Serie A tinham seu lugar confirmado na etapa principal da Champions. A Inter terminou a liga na terceira colocação, mas vinha de um momento ascendente, com a celebrada conquista da Copa da Itália em 2004/05. Aquela campanha marcava o início de uma era vitoriosa aos nerazzurri, encerrando um jejum de 16 anos sem qualquer troféu nas competições domésticas – apesar de três Copas da Uefa neste ínterim. Além do mais, por duas vezes nas três temporadas anteriores, os interistas tinham sido frustrados pelo Milan nos mata-matas da Champions. Era hora de se reerguer.

O Shakhtar Donetsk, por sua vez, não tinha vaga garantida na fase de grupos como campeão ucraniano. Treinada pelo italiano Nevio Scala, a equipe havia conquistado o título inédito da liga em 2001/02. Os Mineiros apostaram em diferentes comandantes depois disso, até que Mircea Lucescu assumisse as rédeas em 2004/05. Foi a partir de então que o clube estabeleceu sua dinastia no Campeonato Ucraniano, partindo para um bicampeonato nos primeiros meses sob as ordens do romeno. Até então, o time possuía um histórico modesto nas competições continentais, com apenas uma aparição na fase de grupos da Champions, em 2000/01.

Tanto Shakhtar quanto Inter entraram diretamente na última fase preliminar da Champions, definindo entre si quem chegaria aos grupos. Walter Samuel e Luis Figo estavam entre os reforços de peso dos interistas naquela temporada, mas não entraram em campo nas eliminatórias da Champions. As novidades se concentravam em David Pizarro, Pierre Womé e Santiago Solari. Já no Shakhtar, um jovem Fernandinho seria opção saindo do banco, logo após deixar o Atlético Paranaense aos 20 anos.

Lucescu começara a montar sua colônia brasileira em Donetsk. Matuzalém e Elano estavam entre os destaques na armação da equipe, enquanto o centroavante Brandão comandava o ataque. Jadson era outro que costumava a sair do banco. Exceção feita a Brandão, todos haviam desembarcado junto com o treinador. Razvan Rat e Ciprian Marica também encabeçavam uma legião romena. Entre outras figuras já estavam o polonês Mariusz Lewandowski e o tcheco Tomas Hübschman na zaga, além de duas bandeiras do Shakhtar: Anatoliy Tymoshchuk era o capitão na época, enquanto Darijo Srna ocupava a lateral direita.

A Inter de Roberto Mancini, de qualquer forma, era mais forte. E também pautada no talento brasileiro, com Júlio César fazendo sua estreia no gol, após retornar de empréstimo ao Chievo, e Adriano vestindo a camisa 10 no ataque. Era uma equipe repleta de figurinhas carimbadas dos nerazzurri: Javier Zanetti usava a braçadeira na lateral direita, Iván Córdoba firmava parceria na zaga com Marco Materazzi, a dupla de volantes era composta por Juan Sebastián Verón e Esteban Cambiasso, Dejan Stankovic auxiliava na ligação mais à frente. Já no ataque, enquanto Obafemi Martins foi o colega do Imperador na ida, Álvaro Recoba ocupou a posição na volta.

Na época, o Shakhtar ainda mandava suas partidas no Estádio RSC Olímpico, sua casa antes da construção da Donbass Arena. E a Inter abriu uma boa vantagem desde o primeiro encontro, ao vencer por 2 a 0. O nome da noite seria Adriano, naquele que foi o 100° compromisso interista na história da Champions. Após primeiros minutos em que os anfitriões foram superiores, os italianos começaram a pressionar ainda na primeira etapa, com boas chances desperdiçadas e uma bola de Materazzi na trave.

Os gols ficaram para o segundo tempo. Aos 23 minutos, o Imperador acertou um passe de calcanhar, a defesa cochilou e Oba-Oba Martins tocou na saída do goleiro Jan Lastuvka. Dez minutos depois, o centroavante deixou também sua marca. Aproveitou o cruzamento de Zé Maria, que entrara no lugar de Solari pouco antes, e cabeceou direto às redes. Ficava difícil de imaginar uma reviravolta no reencontro em Milão.

O duelo no San Siro não teve público. A Inter cumpria punição pelos tumultos causados pela torcida nas quartas de final da Champions 2004/05, quando sinalizadores foram atirados no gramado durante o clássico contra o Milan. Ainda assim, cerca de 2 mil pessoas se reuniram ao redor de um telão no lado de fora do estádio. E as esperanças do Shakhtar em virar seriam esfriadas logo aos 12 minutos, num tiro rasante de Recoba. Os ucranianos até empataram aos 24 do primeiro tempo, numa saída ruim de Júlio César que Elano não perdoou. Porém, os nerazzurri seguiriam melhores e poderiam ter vencido, com o goleiro Lastuvka segurando o empate por 1 a 1.

A Inter faria uma campanha razoável naquela Champions. Liderou o seu grupo e eliminou o Ajax nas oitavas de final, mas sucumbiu ao surpreendente Villarreal nas quartas, com o gol fora de casa pesando ao Submarino Amarelo. Já o Shakhtar também passou em seu grupo na Copa da Uefa, eliminado pelo Lille nos 16-avos de final. As glórias continentais ficariam para depois, com a conquista da própria Copa da Uefa pelo Shakhtar em 2008/09 e da Champions pela Inter em 2009/10. Muitos dos futuros vencedores já estavam presentes naqueles primeiros embates de 2005.