Durante o final da década de 1990, Dinamarca e Croácia contavam com duas das melhores seleções da Europa. Não se enfrentaram na Copa do Mundo de 1998, marco importante às duas equipes, mas tiveram confrontos anteriores. Na Euro 1996, os croatas interromperam o sonho dos então campeões continentais. O duelo realizado em Hillsborough contou com uma atuação histórica de Davor Suker, comandando a vitória por 3 a 0. O último gol, aliás, tem seus requintes de crueldade. O artilheiro deu uma cavadinha humilhante para encobrir Peter Schmeichel e fechar a conta aos 45 do segundo tempo. O troco viria nas Eliminatórias para o Mundial de 1998. Os dinamarqueses venceram um jogo e empataram outro, relegando os croatas à repescagem.

Antes disso, porém, há uma partida que serve de marco em comum às duas seleções. Em 1990, a Iugoslávia vivia os seus últimos dias, em tensões e conflitos já evidentes. Apesar das rusgas, a equipe nacional se mantinha com um elenco multiétnico. E tinha na Dinamarca sua principal adversária durante as eliminatórias da Euro 1992. Pois a última vitória significativa conquistada pelos iugoslavos unidos aconteceu justamente diante da torcida em Copenhague, em 14 de novembro de 1990 – um resultado que também abalou as estruturas dos escandinavos.

Àquela altura, a Iugoslávia já se impunha no Grupo 4 das eliminatórias da Eurocopa. Nas duas primeiras rodadas, havia derrotado Irlanda do Norte e Áustria. Já pela terceira rodada, aconteceu a visita à Dinamarca. Entre os 13 jogadores que entraram em campo no Idraetsparken, haviam quatro croatas, além de cinco bósnios, dois macedônios, um esloveno e apenas um sérvio. No comando, o técnico Ivica Osim, bósnio de origem eslovena. O jogo, aliás, era significativo a um personagem importante: foi a penúltima aparição oficial de Zvonimir Boban pela seleção iugoslava. Em maio de 1990, o meio-campista havia se envolvido na batalha campal ocorrida entre torcedores de Estrela Vermelha e Dinamo Zagreb, em evento considerado como um dos estopins à Guerra da Iugoslávia. O jovem quebrou o nariz um policial com uma joelhada e, por isso, foi suspenso da equipe nacional, perdendo a Copa do Mundo de 1990. Voltara a ser convocado nas semanas anteriores.

Quando a bola rolou, outro croata seria protagonista. Considerado um dos principais talentos da geração que despontava, Robert Jarni fechou a vitória da Iugoslávia. Os visitantes fizeram uma partidaça e bateram a Dinamarca por 2 a 0, em resultado que ficou até barato pela superioridade dos balcânicos. Depois de um primeiro tempo dominado pelos iugoslavos, mesmo desfalcados de jogadores importantes, o racha no elenco dinamarquês se evidenciou durante o intervalo. Enquanto o vestiário estava completamente silencioso pela atuação apagada, em outra sala, era possível ouvir o técnico Richard Moller Nielsen se queixando da impotência de seus comandados.

O bósnio Mehmed Bazdarevic abriu o placar aos 32 minutos do segundo tempo, após uma jogadaça de Safet Susic. Sete minutos depois, Jarni decretou o placar final, completando de peixinho o cruzamento da direita. O resultado permitiu que os iugoslavos disparassem na liderança. Enquanto isso, a Dinamarca patinava, com fortes críticas a Moller Nielsen. O técnico não conseguia manter os preceitos de Sepp Piontek e, mesmo com um elenco talentoso, transformava o futebol envolvente que consagrou a “Dinamáquina” durante os anos 1980 no mais puro pragmatismo. Não surpreendia que, nas arquibancadas, o nome de Piontek era gritado pela torcida, misturado às vaias. Michael Laudrup, o elo entre o esquadrão que explodiu nos anos 1980 e o futuro da seleção, anunciou sua aposentadoria da equipe nacional.

“Somos uma piada”, falou o craque, sem censura, aos jornalistas que o cercavam após a partida. Opinião firme que o meio-campista de 26 anos manteve ao explicar sua decisão ao jornal Politiken: “Eu jogo futebol por alegria e ambição. Mas, nos últimos anos, eu não senti essa felicidade ao jogar pela seleção. E, então, agora que as ambições também desapareceram, eu decidi parar”. Michael acabou seguido por seu irmão Brian, então com 21 anos, visto como uma grande esperança por seus compatriotas. O jovem, inclusive, foi bem menos polido em suas palavras para escancarar a insatisfação com o comandante, razão principal do afastamento. “Eu respeito Richard Moller Nielsen como pessoa, mas não como técnico. Desta forma, acho melhor parar agora. Não penso que minha carreira na seleção se encerra agora, mas não devo voltar enquanto ele permanecer”, apontou. Os dirigentes da federação, ao menos, se mantiveram ao lado do treinador, assim como outros jogadores importantes do elenco.

Aquela derrota, aliás, marcava outro rompimento à Dinamarca. Havia sido a última apresentação da seleção no velho Idraetsparken. O estádio que acompanhou o desenvolvimento do futebol no país e serviu de casa à equipe nacional por mais de 80 anos seria demolido, dando lugar a uma moderna arena. O futuro, de qualquer maneira, não trazia boas perspectivas aos dinamarqueses. Os descaminhos do futebol, da geopolítica e da vida, no entanto, guardariam outro destino às duas seleções. As ambições da Iugoslávia se esfacelaram logo depois. Enquanto isso, a seleção dinamarquesa reviveu, mesmo sem os seus protagonistas.

Muito graças à mentalidade defensiva, a Dinamarca se recuperou nas eliminatórias. E uma vitória fundamental aconteceu em Belgrado, no reencontro com a Iugoslávia em 1° de maio de 1991. O jogo acontecia no Marakana, diante de 16 mil torcedores, quase um ano depois do histórico Estrela Vermelha e Dinamo Zagreb no Maksimir. O país desmoronava, mas a seleção continuava unida entre as diferentes etnias. Quatro croatas estiveram em campo novamente naquela ocasião, incluindo Robert Jarni e Robert Prosinecki, futuros heróis em 1998. Desta vez, entretanto, o resultado seria diferente. O oportunista de Bent Christensen aproveitou os contra-ataques e anotou os dois gols na vitória escandinava por 2 a 1.

Aquele foi um dos últimos jogos da Iugoslávia com croatas em campo. Dias depois, golearam as Ilhas Faroe por 7 a 0 – com tentos de Boban, Prosinecki e Suker, além da presença de Jarni. Em junho de 1991, a Croácia e a Eslovênia anunciaram as suas independências, postura seguida pela Macedônia em setembro de 1991 e pela Bósnia em março de 1992. Naqueles meses, a seleção iugoslava disputou mais seis partidas, duas delas pelas eliminatórias da Eurocopa. Alguns croatas, como o goleiro Tomislav Ivkovic e o meia-atacante Mario Stanic, ainda defenderam a equipe, assim como alguns macedônios e bósnios. Apesar da reação da Dinamarca, as novas vitórias sobre Ilhas Faroe e Áustria deram a liderança do Grupo 4 à nação esfacelada, valendo a teórica classificação à Eurocopa. Teórica.

Enquanto a seleção tentava manter uma mínima noção de unidade, a Iugoslávia vivia o derramamento de sangue com a guerra que se escancarou a partir de 1991. Assim, quando a seleção iugoslava já estava na Suécia, pronta para disputar a Eurocopa de 1992, veio a notícia devastadora ao elenco. Os crimes contra a humanidade e a violência estarrecedora levaram a ONU a aplicar sanções internacionais aos iugoslavos. Inclusive, recomendaram o banimento de seus times em competições esportivas. Somente 13 dias antes da estreia no torneio continental, a Uefa optou por seguir a ordem, evitando atritos com a comunidade internacional. Os eslavos estavam banidos e teriam que voltar para casa. Seriam substituídos pela Dinamarca, vice-líder do Grupo 4 das Eliminatórias.

Então, aconteceu o conto de fadas na Euro 1992. Apesar do descontentamento com Moller Nielsen, a seleção dinamarquesa negou todos os prognósticos. Os azarões ainda não contavam com Michael Laudrup, que recusou a tentativa de aproximação às vésperas do torneio continental. Em compensação, desde abril de 1992, viram Brian se tornar novamente uma liderança, ao lado de nomes como Peter Schmeichel, Lars Olsen, Kim Vilfort e John ‘Faxe’ Jensen. Além de defenderem seu país e de tentarem fazer os críticos engolirem as suas palavras, os escandinavos tinham outra responsabilidade na Suécia.

“Parecia que tínhamos tomado algo de jogadores que atuaram bem e mereceram estar no torneio. Havia um senso de diversão, assim como a consternação de que a nossa presença não se dava por uma razão divertida”, afirmava Vilfort. Visão complementada por Brian Laudrup: “Muitos no elenco se sentiram realmente mal pelos iugoslavos e esse sentimento nunca se dispersou ao longo do torneio. Nós realmente sentimos que, se estávamos lá, teríamos que jogar nosso máximo”. Apesar do gosto amargo aos iugoslavos, os dinamarqueses fizeram jus à oportunidade. O pragmatismo valeu uma campanha surpreendente, com a vitória na decisão sobre a Alemanha. Kim Vilfort anotou o gol histórico, que valeu a maior façanha do futebol escandinavo.

Em julho de 1992, dias depois da conquista da Dinamarca, a Croácia disputou sua primeira partida oficial como uma seleção independente. Até havia feito três jogos a partir de 1990, mas sem seus principais destaques. Já na estreia oficial, perderam para a Austrália, mas contavam com jogadores que disputaram a Euro 1996 e a Copa de 1998 – como Slaven Bilic, Igor Stimac, Drazen Ladic e Goran Vlaovic. Em agosto de 1993, ainda com Moller Nielsen no comando, Michael Laudrup resolveu baixar a guarda e voltou às convocações da Dinamarca. Já o retorno da Iugoslávia aos gramados aconteceu com o fim do embargo, em dezembro de 1994. Neste momento, era um time formado apenas por sérvios e montenegrinos, com as lembranças das eliminatórias da Eurocopa de 1992 sendo apenas símbolos de um passado rompido – esportivamente e também politicamente.