Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Tradicional força e celeiro de craques do futebol carioca e brasileiro, o America viveu seu último grande momento no cenário nacional no Campeonato Brasileiro de 1986, chegando às semifinais da competição. Na verdade, o torneio já havia atravessado o ano seguinte quando o clube rubro começou a surpreender e desbancar favoritos com um time jovem, aguerrido e aplicado taticamente dirigido por Pinheiro, no qual se destacavam o talentoso meia Renato (a revelação do campeonato) e o eterno goleador Luisinho Lemos. E, há exatos 30 anos, essa história – que vale a pena ser relembrada desde a origem – chegava ao fim.

Prólogo: Campeão dos Campeões

A boa fase do time tijucano começa no início de 1982, com a eleição de Lúcio Lacombe para a presidência do clube. Disposto a recolocar o America entre as principais forças do futebol brasileiro, ele investiu pesado (mais de 100 milhões de cruzeiros, uma fortuna para a época) para montar uma equipe capaz de incomodar os favoritos. Com os reforços vindos principalmente do futebol paulista, o clube conquistou o acesso à Taça de Ouro durante o Campeonato Brasileiro.

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No período entre o fim do Brasileiro e o início da Copa do Mundo, a CBF organizou a Taça dos Campeões, torneio que reunia os principais clubes do país, para mantê-los em atividade. Dirigido por Olegário Tolói, o Dudu, ex-volante da Academia palmeirense nos anos 60, o America surpreendeu, terminando em primeiro num grupo com Atlético-MG, Cruzeiro e Grêmio, despachou a Portuguesa no Pacaembu nas semifinais e venceu o Guarani na decisão.

No Campeonato Carioca que viria a seguir, o time oscilou na Taça Guanabara, e Dudu foi substituído pelo antigo ídolo americano Edu Antunes Coimbra, que comandava os juvenis. Praticando um futebol francamente ofensivo e liderado pelos gols do centroavante Luisinho Lemos (de volta após passagem pelo Las Palmas), a equipe se recuperou no segundo turno, venceu Vasco e Flamengo no caminho e conquistou a Taça Rio com vitória categórica de 4 a 2 sobre o Fluminense na última rodada, classificando-se para o triangular final do Estadual. Porém, duas derrotas de 1 a 0 em duelos muito equilibrados contra Flamengo e Vasco encerraram o sonho do título.

time 1982 com luisinho

Mesmo sem pôr fim ao jejum no Estadual e apesar da venda do meia Elói para o Vasco ao fim da temporada, o balanço de 1982 era bastante satisfatório para o America, assim como era promissor o ano seguinte. Ainda mais porque começavam a despontar dois bons valores dos juvenis: o lateral Jorginho (que começou na esquerda, mas também podia jogar pelo lado direito) e o zagueiro Donato (que também podia atuar como lateral).

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No Brasileiro de 1983, o America estreou vencendo o Atlético-MG de Reinaldo, Cerezo, Nelinho e Éder por 2 a 1 dentro do Mineirão. Na segunda fase, fez 4 a 2 no Grêmio de De León e Tita no Maracanã. Em ambas as etapas, terminou na liderança de seu grupo, o que o colocou rapidamente como o carioca mais cotado ao título. Mas na terceira fase a campanha foi decepcionante, com apenas uma vitória (vinda na última rodada) e um empate.

Mesmo assim, a expectativa e a confiança seguiram em alta. Em agosto, o clube excursionou à Europa pela primeira vez em seis anos, conquistando o Troféu Costa Dorada, na cidade espanhola de Tarragona, batendo o Valencia e o Dundee United, campeão escocês. Na volta, fez excelente campanha no Estadual, ficando em segundo na soma dos turnos, atrás apenas do Bangu. Mas como não conquistou nem a Taça Guanabara nem a Taça Rio, acabou de fora das finais. Como consolo, restou a artilharia de Luisinho, autor de expressivos 22 gols em igual número de partidas.

Crise e pés no chão

O ano de 1984 foi o último da gestão Lacombe. Diante do desapontamento pela falta de títulos, o time começou a ser desmanchado: perde de saída, e de uma vez só, o técnico Edu, o lateral Aírton e o volante Pires para o Vasco (de contrapeso, veio o volante Serginho). Mesmo assim, a equipe agora treinada por Gilson Nunes – outro ex-jogador do clube – fez campanha bastante aceitável no Brasileiro. Terminou novamente na liderança de seu grupo nas duas primeiras fases, superando Cruzeiro, Atlético-PR, Botafogo e Coritiba, mas outra vez caiu na terceira fase. O elenco reduzido começara a pesar.

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No segundo semestre houve uma profunda reformulação no elenco, afastando até medalhões, como Luisinho (que vai para o Palmeiras emprestado junto com o ponta Gilcimar) e Gilson Gênio (cedido ao Grêmio). Até mesmo revelações recentes da base, como Jorginho e Donato saem para os rivais Flamengo e Vasco, respectivamente. Na contramão chegaram quase uma dezena de reforços, a maioria oriunda do futebol paulista: do São Paulo vieram o goleiro Waldir Peres e o centroavante Marcão. Do Santos, o lateral Betão e o zagueiro Pagani. Do Palmeiras, o lateral Denys e o meia Cléo. Da Portuguesa, o meia Heriberto.

A lista se completava com outros jogadores que haviam feito seu nome naquele estado, mas agora defendiam outras equipes, como o zagueiro Tecão (ex-São Paulo, que estava no Bangu), o meia Murici (também ex-São Paulo, vindo do México) e o ponta Lúcio (ex-Ponte Preta, Guarani e Palmeiras, vindo do Flamengo na negociação de Jorginho). No entanto, o novo time fracassou em campo, terminando num modesto sexto lugar na classificação final, bem longe dos ponteiros, e as dívidas cresciam a ponto de motivarem uma greve dos jogadores.

time 1984

No ano seguinte, incluído em um dos grupos dos grandes no Brasileiro, o America fez campanha bastante modesta, apesar de colher algumas boas vitórias diante de Cruzeiro, São Paulo e Portuguesa em São Januário, além de um surpreendente triunfo sobre o bem cotado Bahia em Salvador. Ainda no começo da campanha, perdeu o técnico Evaristo de Macedo para a Seleção Brasileira, recebendo o treinador da equipe sub-20, Jair Pereira. No segundo semestre, com a política de pés no chão do novo presidente Álvaro Grego, o time fez campanha de recuperação ao longo do Estadual, chegando a terminar a Taça Rio na terceira posição.

O time que encerrou aquele Campeonato Carioca formou a base do elenco de 1986. Se a equipe cumpriu campanha inferior à do ano anterior e teve que lidar com protestos da torcida, pelo menos viu despontar uma grande revelação: o ponta-direita Maurício, 23 anos, descoberto no Bonsucesso e que passara a ser cobiçado por clubes do Brasil e do exterior. Acabou assinando com o Botafogo, já no início do Brasileiro.

Na competição nacional, o America (dirigido desde a metade do Carioca pelo antigo preparador físico Djalma Cavalcanti) entrou sem grandes perspectivas, sorteado em um grupo difícil, no qual Flamengo, Corinthians e Grêmio apareciam como donos certos de três das vagas. O time rubro brigou num bloco intermediário contra Atlético-PR, Goiás, Ponte Preta e Joinville, e acima dos azarões Paysandu, Botafogo-PB e Sergipe. Pelo regulamento inicial, os seis primeiros colocados de cada um dos quatro grupos avançariam, mais os quatro melhores entre os demais. Mas, ao fim da primeira fase, uma polêmica entre Vasco e Joinville fez com que a CBF aumentasse o número de classificados.

Os primeiros passos do feito histórico

O começo da campanha foi bastante irregular. Na estreia, vitória por 1 a 0 sobre o Botafogo-PB em João Pessoa, gol de Luisinho. Mas nos jogos seguintes, duas derrotas (1 a 0 para o Sergipe em Aracaju e 2 a 0 para o Flamengo no Maracanã) seguidas por um empate (0 a 0 com o Corinthians, também no Maracanã). Três pontos ganhos e apenas um gol marcado em quatro jogos. Mas mesmo assim, houve grande surpresa quando, no vestiário do estádio antes do jogo contra o Corinthians, Djalma Cavalcanti anunciou aos jogadores que estava deixando o America para aceitar uma boa proposta financeira do Piauí.

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Seu substituto seria Pinheiro, ex-zagueiro do Fluminense e da Seleção Brasileira nos anos 50 e 60, e que tinha carreira de treinador quase restrita à base tricolor (além de esporádicas passagens pelo time de cima) e à dupla tradicional de Campos (onde nascera), Americano e Goytacaz. Paternalista, de personalidade simples e estilo ‘boleiro’, o novo treinador logo abriu o elenco para o diálogo: “Aqui todo mundo fala. Não gosto de jogador calado”.

pinheiro

Consciente da inferioridade técnica e da inexperiência da maior parte de seu elenco frente aos grandes, Pinheiro passou a armar o America defensivamente. Era um time forte no bloqueio, vigoroso e que saía em rápidos contra-ataques valendo-se especialmente da inteligência do meia Renato e da malícia do veterano centroavante Luisinho. Outra providência foi transferir os jogos como mandante do Maracanã para o alçapão de Caio Martins, em Niterói. Lá, o America era especialmente duro de ser enfrentado: não perdia no estádio há quase seis anos – invencibilidade que manteria durante aquela campanha.

Nos dois primeiros jogos sob o comando de Pinheiro, dois grandes resultados: vitórias sobre o Paysandu em Belém (1 a 0, gol de Ramon, driblando o goleiro) e a Ponte Preta em Caio Martins (3 a 1, com dois gols de Luisinho e um de Renato). Em seguida, no entanto, um empate travado com o Atlético-PR em Niterói (0 a 0) e duas derrotas fora de casa para Goiás (um apertado 3 a 2) e Joinville (um elástico 4 a 1) colocaram a classificação em risco.

Na última rodada, o America recebia o Grêmio e precisava vencer de qualquer jeito. Porém o bom retrospecto recente contra o Tricolor gaúcho, para quem os rubros não perdiam há seis anos em competições oficiais, era animador. Dito e feito: mesmo com o adversário fechado, a vitória (2 a 0) e a vaga vieram no fim. Bene aproveitou a sobra de um escanteio para abrir o placar, e Luisinho deu números finais ao jogo marcando num rebote de Mazarópi. O America terminava a primeira fase na sexta colocação entre 11 clubes.

Começando a aprontar

Na etapa seguinte, o America seria alinhado em mais um grupo difícil, com quatro adversários paulistas (São Paulo, Palmeiras, Santos e Ponte Preta) e dois cariocas (Botafogo e Bangu), além do catarinense Joinville e do paraibano Treze. Em tese, pelos prognósticos, a campanha terminaria ali, já que havia candidatos mais consistentes às quatro vagas para as oitavas de final. Mas, sem tanto alarde, o time de Pinheiro começou a aprontar das suas.

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Na estreia, vitória de 1 a 0 sobre o Bangu em Caio Martins. No jogo seguinte, derrota pelo mesmo placar para o Santos na Vila Belmiro, num jogo em que o goleiro Pimenta foi expulso e seu reserva, Régis, entraria sob as traves para não sair mais. No terceiro jogo, em Niterói, o Palmeiras abriria o placar com Mirandinha logo aos 30 segundos, mas o America não deixaria barato, empatando logo na saída de bola com Ramon. E o 1 a 1 permaneceria até o fim.

america 86 - luisinho

O mesmo placar, aliás, seria repetido no jogo seguinte contra o temível São Paulo no Morumbi: Careca passou a Müller na esquerda e este chutou forte para abrir o placar. Mas depois Luisinho, cobrando pênalti marcado após toque de mão de Oscar na área, deixaria tudo igual. Depois de uma derrota para a Ponte Preta em Campinas, devolvendo os 3 a 1 da primeira fase, o America se recuperou batendo o Treze em Caio Martins (1 a 0, outro gol de Luisinho) e o Botafogo no clássico do Maracanã (2 a 1 de virada, com gols de Ramon e Luisinho – mais um – numa pedrada em cobrança de pênalti).

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O primeiro turno da segunda fase se encerrou com mais uma derrota para o Joinville, pedra no sapato americano naquela campanha e que curiosamente era dirigido pelo ídolo rubro Edu: 2 a 0 em Santa Catarina. Aquele, no entanto, seria o último revés do America nesta fase. Na abertura do returno viria uma boa vitória sobre a Ponte Preta, novamente em Caio Martins: 2 a 1. No primeiro gol, Paulo Henrique avançou em velocidade e cruzou da linha de fundo para cabeçada certeira de Renato. E no segundo, Denílson soltou uma bomba cobrando falta, o goleiro Sérgio deu rebote e Luisinho conferiu.

Veio então uma sequência de empates, aberta com o 1 a 1 diante do forte time do Palmeiras no Parque Antártica. Foi o inverso do jogo do turno em Caio Martins: o America abriu o placar em cabeçada fulminante de Luisinho após cruzamento de Paulo Henrique, mas o Alviverde empatou em cobrança de falta de Mirandinha. No jogo seguinte, um bom duelo com o São Paulo em Caio Martins entre a garra americana e a técnica tricolor que, no entanto, terminou sem gols.

america - corrente

Depois, mais três empates: 0 a 0 contra o Botafogo no Maracanã, 1 a 1 com o Joinville em Caio Martins e um suado 1 a 1 diante do Bangu em Moça Bonita: com um a menos desde o primeiro tempo, após a expulsão do zagueiro Denílson, o America saiu atrás no marcador, mas empatou graças a um gol antológico de Renato. Lançado por César por elevação na altura da marca do pênalti, o meia ganhou a disputa pelo alto com o adversário, dominou a bola no peito, girou e disparou de primeira um petardo que estufou as redes banguenses.

Veio então a pausa de fim de ano, paralisando o torneio na metade de dezembro para retornar só na última semana de janeiro de 1987. Na volta, no dia 25, o America faria partida decisiva pela classificação contra o Santos, adversário direto. Se vencesse, garantiria a vaga nas oitavas com uma rodada de antecedência. Em caso de empate, precisaria vencer o Treze em Campina Grande. Já se fosse derrotado, só mesmo uma combinação de resultados impediria a eliminação.

Mas nem foi preciso fazer contas: o Santos foi mais um a cair no alçapão de Niterói. O gol da vitória e da classificação saiu numa bomba em cobrança de falta do zagueiro Denílson, que o goleiro santista Nilton pegou e largou, caindo dentro do gol. Na última rodada, com time misto, o America ficou no empate em 1 a 1 com o Treze em Campina Grande, enquanto os principais talentos se poupavam para a fase seguinte.

O mata-mata do Brasileiro

O adversário das oitavas de final foi a Portuguesa, que vinha de grande campanha nas duas primeiras fases e, portanto, tinha as vantagens de jogar por dois resultados iguais e de decidir o duelo em casa. Mas no primeiro jogo, em Caio Martins, o America reverteu a situação, vencendo por 1 a 0, gol do ponta César Rabelo, incorporado ao elenco durante a pausa do fim de ano. Na volta, no Pacaembu, o time de Pinheiro segurou a pressão da Lusa, contra-atacou com perigo e saiu com um empate em 0 a 0 e a surpreendente vaga nas quartas de final.

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O duelo seguinte seria o jogo que colocaria o país inteiro de olho no time carioca. O adversário das quartas era o Corinthians, que havia eliminado o Grêmio na fase anterior com dois empates – resultados que dariam ao America a vantagem de jogar agora por resultados iguais e decidir a vaga em casa. Ironicamente, o técnico alvinegro era Jorge Vieira, o mesmo que levara os rubros a seu último título carioca, em 1960. Embora não viesse praticando um futebol dos mais convincentes, o Corinthians era destacado favorito e contava com jogadores tarimbados, como os goleiros Carlos e Valdir Peres, além do lateral Edson, dos meias Biro Biro e Cristóvão, do centroavante Edmar e do ponta João Paulo.

Na partida de ida, no Pacaembu, o America bloqueou os espaços ao Corinthians, que não deu um chute ao gol durante toda a etapa inicial, e matou o jogo no segundo tempo: aos sete minutos, Luisinho recebeu de Paulo César na esquerda e enfiou para Renato na área. O meia só teve o trabalho de deslocar Valdir Peres para abrir o placar. Depois, aos 28, Ramon escorou cobrança de escanteio e a bola sobrou para Luisinho conferir, mesmo caído. A vitória por 2 a 0 deixava os cariocas bem perto das semifinais.

A enorme vantagem trazida para o Rio ficaria ainda maior no primeiro tempo do jogo de volta no Maracanã, quando Ramon abriu o placar com um leve toque sobre Carlos. Na etapa final o Corinthians viraria o marcador com dois gols do zagueiro Jatobá, pondo fim a 11 jogos de invencibilidade do time de Pinheiro na competição. Mas não era o suficiente para encerrar ali a campanha rubra. O America iria às semifinais para medir forças mais uma vez com o estelar time do São Paulo de Careca, Müller, Silas e Pita.

A dramática semifinal

No primeiro jogo, no Morumbi, o Tricolor paulista dominou amplamente, tentando fazer prevalecer sua maior qualidade técnica. Mas, além da chuva e do gramado um tanto pesado, esbarrou na forte marcação americana e nas defesas milagrosas do goleiro Régis. O time rubro, que jogava para tentar pelo menos um empate, ainda provocou alguns sustos em contra-ataques puxados por Luisinho e Renato. Somente a dez minutos do fim o jogo sairia do 0 a 0, quando Careca recebeu de Silas, limpou o lance e bateu de pé esquerdo rasteiro, cruzado, de fora da área. A bola passou por entre várias pernas americanas e são-paulinas, morrendo bem no canto esquerdo do goleiro do America. Um gol chorado.

O jogo da volta, disputado em 18 de fevereiro de 1987 em um Maracanã com pouco mais de 50 mil torcedores, foi um épico. Precisando vencer, o America saiu de suas características defensivas e pressionou o São Paulo. No primeiro lance de perigo, Pedro Paulo passou a Renato no lado direito da área, e o meia chutou. Gilmar deu rebote nos pés do mesmo Pedro Paulo, que errou na conclusão, mandando por cima do gol.

luisinho vs são paulo-crop

O São Paulo deu o troco em cabeçada de Careca, que passou bem perto da trave de Régis. Na segunda grande chance tricolor, aos 41 minutos, saiu o primeiro gol do jogo: Careca foi lançado do lado esquerdo da área do America e aparou de cabeça para o meio, onde Pita testou para a defesa de Régis. O rebote sobrou novamente para Careca, que num lance magistral, tocou por baixo da bola, encobrindo toda a defesa americana. Paulo César ainda tentou tirar de bicicleta, mas a bola já havia ultrapassado a linha.

Depois do baque, o America voltou do intervalo atacando mais, e empatou o jogo aos 27 minutos. Após bola alçada na área procurando Luisinho, o camisa 9 desvia com a cabeça para a conclusão de Renato, tirando de Gilmar. Animado, o time carioca ainda criou ótimas chances de gol. Numa delas, Renato chutou forte da entrada da área, Gilmar espalmou e a bola quicou por baixo de seu corpo, continuando a trajetória até quase a linha do gol, quando o arqueiro conseguiu voltar e fazer a defesa.

Ao contrário da primeira partida, agora era o São Paulo quem surpreendia nos contra-ataques, como na jogada em que Müller apanhou de sem pulo uma bola mal espanada pela zaga do America e acertou a trave de Régis. No último lance de perigo, já bem no fim da partida, Renato bateu firme de fora da área e a bola bateu no peito de Gilmar, saindo para escanteio.

Nos vestiários após o jogo, o guerreiro Luisinho Lemos caiu em lágrimas. Valente e enfrentando de igual para igual o time de maior qualidade técnica do campeonato e que tinha jogadores de primeiro nível em todos os setores, o America ficou por um gol de ir à decisão do Brasileiro com o Guarani e também de garantir vaga na Taça Libertadores. Mas, de qualquer maneira, já havia alcançado ali um feito histórico: ainda que aquela equipe fosse mais limitada que as de três ou quatro anos antes, o clube cumpria sua melhor campanha na história da competição.

O elenco da grande campanha

O time-base da equipe semifinalista do Campeonato Brasileiro de 1986 sofreu constantes modificações ao longo dos 32 jogos da campanha. Houve até contratações e dispensas em meio à maratona da competição. Mas os 11 titulares quase sempre giravam em torno dos nomes a seguir.

No gol, um dos destaques da equipe foi o jovem goiano Régis, 21 anos, vindo do Vasco por empréstimo em troca pelo veterano Paulo Sérgio. Ganhou a posição do pernambucano Pimenta (ex-Náutico) no início da segunda fase. Mais tarde, Régis teria passagem como titular da camisa 1 cruzmaltina, antes de se consagrar no Paraná Clube como exímio defensor de pênaltis.

figurinhas

Na lateral-direita, o também jovem Polaco, 20 anos ao início do torneio, chegara no ano anterior vindo do São Borja gaúcho e tinha no currículo o título sul-americano sub-20 com a Seleção Brasileira. Marcador duro e ótimo apoiador, foi convocado novamente para as Seleções de base, ficando de fora durante boa parte da segunda fase. Seu substituto neste período foi o maranhense Dedé, revelado pelo próprio America, e que mais tarde defenderia o Vasco.

A vigorosa dupla de zaga era formada pelo também gaúcho Bene, ex-júnior do Internacional com passagem rápida pelo Olaria, e o carioca Denílson, outro garoto campeão sul-americano sub-20 com a Seleção no ano anterior, dono de chute forte em cobranças de falta. Na lateral-esquerda, despontava o baiano Paulo César, vindo do Itabuna, e que ganhara a posição de titular com a chegada de Pinheiro, substituindo seu homônimo (e mais experiente) Paulo César Carioca.

Do meio para a frente, três jogadores foram intocáveis. O volante gaúcho Müller, revelado pelo Novo Hamburgo e vindo do Internacional, jogador combativo que atuava mais plantado à frente da defesa. O meia Renato era o toque de classe da equipe. Revelado pelo próprio clube durante o Estadual de 1984, chegara a ser escalado na ponta-direita no começo da carreira, mas depois de instalado em sua verdadeira posição, crescia a olhos vistos. Jogava de cabeça erguida, distribuindo passes e lançamentos precisos.

E havia ainda o onipresente Luisinho Lemos, centroavante, 35 anos completados durante o torneio. Apesar da idade, mantinha a agilidade e o deslocamento incessante que o marcaram desde o início da carreira. Mantinha também o bom preparo físico: foi o único do elenco a atuar em todas as partidas como titular. Além, é claro, do faro de gols: foi o artilheiro da equipe naquele Brasileiro, balançando as redes 13 vezes. Era um perigo constante para as defesas adversárias.

luisinho bicicleta

As demais posições do meio e do ataque eram ocupadas com mais frequência por cinco jogadores, que se revezavam. O mais experiente era o volante Serginho, 26 anos, revelado pelo Vasco no início da década, e que chegara ao America no começo de 1984 como parte da negociação que levou Pires e Aírton a São Januário. Voltava após uma passagem pelo Santos por empréstimo no segundo semestre de 1985. Além dele havia o meia Pedro Paulo, de apenas 18 anos, outra talentosa revelação do elenco; e o versátil César, que podia jogar tanto como falso ponta pela esquerda quanto de segundo volante ou meia-armador.

Na frente, outro “quase titular” era o centroavante Ramon, vindo do Volta Redonda. Jogador mais lento e menos técnico, mas eficiente para prender a defesa adversária e atuar como pivô, além de marcar gols importantes. E havia também o ponta-esquerda Paulo Henrique, emprestado pelo Flamengo, filho do ex-lateral-esquerdo rubro-negro de mesmo nome dos anos 60, e que não ficaria até o fim da competição, negociado com o Sporting Braga português na virada para 1987. Na reta final, durante o mata-mata, a posição seria ocupada por outro César, o Rabelo, jogador rodado com passagens pelo Botafogo e vários outros clubes, e que vinha treinando no Andaraí e acabaria incorporado ao elenco.

Epílogo: A queda meteórica

A temporada de 1987, iniciada com o Campeonato Carioca em março, seria um completo anticlímax depois da surpreendente campanha no Brasileiro. No Estadual, o time trocou de técnico diversas vezes – Pinheiro, demitido ainda na Taça Guanabara, é substituído por um novato chamado Vanderlei Luxemburgo e vai para o Bangu, onde conquistaria a Taça Rio – e perdeu jogadores importantes no elenco, entre eles Luisinho, que deixa o clube para jogar no Qatar. Acabou apenas na oitava colocação, dois pontos acima da zona de rebaixamento.

Mas o pior viria no segundo semestre. Excluído da Copa União, recusa-se a disputar o chamado Módulo Amarelo por considerar tratar-se de uma segunda divisão do Brasileiro, e perde todos os seus jogos por W.O. Passa os quatro meses da competição praticamente inativo, apenas disputando amistosos, o que faz com que seus jogadores percam os holofotes atraídos no ano anterior e se desvalorizem.

No ano seguinte, viria o golpe final na grandeza do clube. Mesmo voltando à atividade e trazendo antigos ídolos como o meia Elói e o técnico Edu, só consegue se salvar da queda no Carioca na última rodada, graças a uma goleada sofrida pelo Goytacaz contra o Flamengo. Enquanto os últimos remanescentes do time de 1986 deixam o clube – Renato e Paulo César vão para a Gávea, Polaco para as Laranjeiras – o America é incluído no Brasileiro de 1988, mas tem que disputar o torneio recorrendo a novatos vindos dos clubes pequenos do Rio e ex-juvenis dos grandes. De experiente, há apenas o goleiro Paulo Vitor, ex-Fluminense.

A queda é anunciada desde o começo do torneio, e o time se arrasta, vencendo apenas duas de suas 23 partidas (contra Palmeiras e Santa Cruz, ambos em São Januário). Menos de dois anos depois de ter sido semifinalista do Brasileiro, o America termina a última participação de sua história na elite nacional como o lanterna. O encolhimento vem depressa. Dentro de pouco tempo o clube estará na terceirona nacional, e dali para o limbo absoluto. Perde espaço até no Estadual, no qual também deixa a elite. Hoje, trinta anos depois de seu último grande feito, o America vive à sombra do que já representou.

*Gostaria de dedicar esta matéria à memória do ponta-esquerda Paulo Henrique, falecido no Rio na última segunda-feira, aos 52 anos, quando o texto já havia sido concluído.


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