O Uberlândia de 1984: Orgulho de Minas Gerais no cenário nacional daquele ano

A conquista da Taça CBF, equivalente à Série B nacional, pelo Uberlândia em 1984 já teria sido memorável por si só, pelos fortes adversários que deixou pelo caminho e pela decisão marcante contra o Remo. Mas também valeu para colocar o clube na elite nacional ainda naquele mesmo ano, superando as campanhas dos dois grandes do estado, Atlético e Cruzeiro. Como se não bastasse, aquela equipe ainda revelaria nomes que mais adiante defenderiam gigantes do futebol brasileiro e chegariam até mesmo à Seleção. Foi a temporada em que o Verdão do Triângulo Mineiro se tornou o grande orgulho do futebol das Alterosas.

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Desde a criação das Taças de Ouro e de Prata (espécie de primeira e segunda divisão) pela recém-fundada CBF no Brasileirão de 1980, o torneio vinha sofrendo mudanças apenas pontuais em seu formato. Para 1984, entretanto, elas seriam um pouco maiores, a começar pela nomenclatura. O torneio principal voltava a se chamar Copa Brasil, como havia sido entre 1975 e 1979. Já como competição secundária, era instituída a Taça CBF, precedida por torneios seletivos nos principais estados e disputada inteiramente no sistema de mata-mata.

A outra novidade dizia respeito ao acesso de clubes durante o torneio principal. Se em todas as edições anteriores eram quatro os clubes vindos da Taça de Prata que subiam para disputar a de Ouro a partir da segunda fase, agora apenas uma equipe – a campeã – da Taça CBF seria alçada à Copa Brasil, e uma etapa à frente, entrando já quase na reta final quando apenas 16 clubes seguiam para disputar o título nacional. Esse funil mais estreito e o próprio formato do torneio acirravam ainda mais a competitividade no novo torneio.

Convidado em janeiro de 1984 para a disputa do torneio seletivo, o Uberlândia quase abriu mão de participar. Mesmo com o ótimo quarto lugar obtido no recém-encerrado Campeonato Mineiro de 1983, a diretoria alviverde tinha sérias dúvidas sobre se o time estava à altura da competição nacional. Temia-se um vexame. Mas o presidente Pietro Carlo Paladini, que assumira o clube no início do ano, mudou de ideia. Sócio majoritário de uma empresa de produtos agropecuários, ele não só confirmou a participação como injetou ânimo novo no Verdão.

Com o apoio de empresários e comerciantes da cidade, conseguiu dinheiro para trazer reforços, aprofundando o elenco e contribuindo com uma dose extra de experiência. O maior deles era o lateral-esquerdo Carlos Alberto Batata, revelado pelo Olaria, com passagem por Botafogo e Inter de Limeira. Filho do antigo atacante Baltazar (o “Cabecinha de Ouro” do Corinthians e Seleção), seria o novo capitão da equipe. Os outros reforços vieram do futebol mineiro: o armador Carlos Roberto, do Guarani de Divinópolis, e o ponteiro Zé Carlos, do América.

Fundado em 1922, o Uberlândia Esporte Clube despontou no cenário estadual ao estrear na elite mineira em 1963, sem nunca ter sido rebaixado até aquele momento. Sua melhor colocação havia sido um terceiro lugar em 1968, além dos quartos lugares obtidos em 1970, 1971 e 1979 – quando mandava seus jogos no alçapão do Estádio Juca Ribeiro, hoje parcialmente demolido – e na já citada campanha de 1983, um ano após a inauguração do moderno Estádio Municipal João Havelange, o Parque do Sabiá, para mais de 50 mil torcedores.

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Ainda nos anos 1970, disputou pela primeira vez o inchado Brasileirão da época. Em 1978, a campanha foi fraca, com apenas três vitórias em 18 jogos e uma modesta 64ª posição entre 74 equipes. Já no ano seguinte, com o veterano craque Dirceu Lopes no time, o Verdão surpreendeu pela primeira vez ao alcançar a terceira fase do certame, deixando o Fluminense pelo caminho. E, mesmo depois de eliminado, encerrou sua participação numa nota alta, vencendo o Atlético-PR por 3 a 2, o que valeu uma excelente 11ª colocação entre 94 clubes.

O Uberlândia ainda esteve perto de disputar a elite nacional também em 1980, quando esteve pela primeira vez na Taça de Prata. Sob as ordens de outro antigo craque, o “Príncipe” Danilo Alvim, venceu o Grupo E da primeira fase, terminando à frente de clubes como Goiás e América-MG. Porém, o clube do Triângulo Mineiro cairia diante do Bangu nos playoffs de acesso, vencendo por 2 a 0 no Juca Ribeiro, mas sendo goleado por 4 a 0 em Moça Bonita. Nos três anos seguintes o Verdão ficaria afastado dos torneios nacionais. Até chegar a Taça CBF.

Contratado inicialmente para o cargo de supervisor, Vicente Lage, conhecido como 109, nome bastante rodado e popular no futebol mineiro como jogador e técnico, acabou tendo de aceitar dirigir a equipe, que mesclava – além dos reforços já citados – alguns nomes experientes que compunham o elenco há várias temporadas com muitos garotos promovidos das categorias de base e que se destacariam e se afirmariam naquela campanha. Com eles, Vicente armaria um time compacto na defesa, rápido na transição e muito veloz no ataque.

O elenco

O time-base começava com a experiência do goleiro Moacir, 30 anos ao início da campanha, e que trazia no currículo passagens pelas categorias de base do Fluminense, pelo interior paulista, pelo Gama e pelo Moto Club. Uma segurança sob as traves. No miolo de zaga, o jovem Batista, 22 anos, revelado pelo próprio Verdão em 1979, fazia dupla com o xerife Zecão, outro jogador bastante rodado pelo futebol mineiro e que aportara no clube em 1980, vindo do Ituiutaba. Era um dos líderes do elenco e teria papel fundamental na conquista.

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Na lateral-direita, o novo dono da posição era Luizinho, que atuara pela esquerda no ano anterior e agora trocara de lado com a saída do antigo titular Gilmar. Jogador de chute potente com o pé direito, marcava firme, apoiava bastante e era o cobrador de faltas do time. Pelo outro lado, o já citado Carlos Alberto Batata também era um nome importante no apoio, tanto pelo meio, como um armador, quanto pelo flanco esquerdo. Embora tivesse chegado apenas naquele ano, teve rápida adaptação e se consolidou como um dos líderes e símbolos da equipe.

Outro nome experiente do time titular era o volante Chiquinho, revelado no Botafogo, mas que, sem muito espaço no clube carioca, passaria pela Caldense e pelo São Bento, antes de chegar ao Uberlândia em 1981. Curiosamente, tanto ele quanto Batata atuaram no Alvinegro e no clube de Sorocaba, mas em épocas diferentes. Mais à frente ficava o meia-armador Eduardo, jogador muito dinâmico e hábil na transição de jogo. Uma das crias da base promovidas ao time titular em 1984, despontaria como uma das revelações daquela campanha.

O principal organizador das jogadas ofensivas era o talentoso meia Carlos Roberto, camisa 10 do time. Revelado pelo Valeriodoce e com passagens pelo Atlético-MG de Telê Santana e pelo Goiás em meados da década de 1970, era um jogador criativo e habilidoso com o pé esquerdo, mas que também ajudava na proteção à defesa e tinha como maior característica os lançamentos precisos em profundidade municiando os três velozes homens de frente. Um dos três reforços trazidos para a Taça CBF, se transformaria em peça-chave do Verdão.

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O trio de ataque contava com o ponta-direita Geraldo Touro, trazido do Villa Nova em meados de 1983. Jogador de arrancada imparável e cruzamentos precisos, também fazia gols decisivos, características que faziam dele um terror para os defensores adversários. Já na esquerda atuava outro atacante rápido e experiente, Zé Carlos, vindo do América-MG como o terceiro reforço para 1984. Havia ainda um 12ª jogador no elenco: o ponta-esquerda Maurinho, mais um prata-da-casa que vinha aparecendo bem no time desde o estadual de 1983.

Por fim, outra grande revelação daquela equipe era seu centroavante, o garoto Vivinho, 22 anos ao início do torneio. Nascido e criado no bairro operário da cidade, fizera algumas partidas no time de cima em 1983, mas seu físico franzino solapava suas chances. Até que, após um regime de engorda, tornou-se o titular no comando do ataque, mas atuando sem posição fixa, utilizando sua velocidade, habilidade e movimentação constante para confundir as defesas e aparecer sempre em condição de marcar alguns dos gols cruciais da campanha.

O caminho até a final

No Torneio Seletivo mineiro, os oito clubes convidados se dividiam em dois quadrangulares, com o campeão de cada um avançando para a competição nacional propriamente dita. O Uberlândia ficou numa chave com o rival Uberaba (que havia disputado os Brasileirões de 1981 e 1983 vindo da Taça de Prata em ambos), o Nacional também de Uberaba e o Guarani de Divinópolis. A vaga veio até com certa facilidade: na última rodada, em 19 de fevereiro, o Verdão precisava apenas do empate em casa diante do Zebu, mas venceu com autoridade por 3 a 0.

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O time perdeu nos pênaltis o título do Torneio Seletivo para o América em jogo único, mas não havia o que lamentar, uma vez que a classificação para a Taça CBF já estava garantida. E enquanto o Coelho seria desclassificado logo na primeira rodada, superado pelo Volta Redonda, o Verdão seguiria sua trajetória rumo ao título nacional, começando por desbancar o modesto Nacional de Itumbiara (que no ano seguinte se afastaria do futebol profissional). Um tranquilo 3 a 0 no Parque do Sabiá antecedeu uma derrota por 2 a 1 em Goiás, a única da campanha.

A parada seguinte, porém, apresentava-se muito mais difícil. O adversário seria o Guarani, um dos favoritos ao título do torneio e que começara sua campanha arrasando o Avaí com direito a uma goleada por 5 a 2 em Florianópolis. O Bugre contava com um elenco de nível de primeira divisão. O goleiro era Wilson, futuro Corinthians. Na lateral-direita, Cocada (ex-Flamengo e futuro Vasco, irmão de Müller) disputava posição com o ex-vascaíno Paulinho Pereira. No miolo de zaga, Júlio César, o titular da Seleção de 1986, fazia dupla com Wilson Gottardo.

A quantidade de nomes expressivos era ainda maior nos outros setores: O meio era formado por (Dorival) Júnior, o garoto Neto – então com apenas 17 anos – e Rubens Feijão, ex-Santos e Bangu. Já na frente, havia o ponteiro direito Chiquinho Carioca, revelado pelo Olaria e reserva de Tita no Flamengo campeão da Libertadores em 1981; o centroavante Roberto Cearense, que havia se destacado no Sport, pelo qual chegou à Seleção de Telê Santana; e o ponteiro esquerdo Rômulo, cria da base do Atlético-MG e que teria passagens por Vasco e São Paulo.

O primeiro jogo aconteceu no Parque do Sabiá numa sexta-feira de Carnaval, dia 2 de março, e terminou num 0 a 0 frustrante para a torcida da casa. Tudo levava a crer que a trajetória do Uberlândia no torneio pararia por ali, diante de um adversário reconhecido como mais forte. Mas o mais surpreendente foi a decisão de Vicente Lage, que liberou os jogadores para curtir a folia, uma vez que o jogo da volta, no Brinco de Ouro, só aconteceria no outro domingo, dia 11. O treinador foi muito criticado pelo gesto, mas o tempo lhe daria razão.

Jogando com o sistema defensivo muito sólido e atento, e saindo em velocidade nos contra-ataques, o Uberlândia surpreendeu o time campineiro ao sair na frente com um gol de Zé Carlos aos 35 minutos do primeiro tempo. Na etapa final, ainda perdeu outras chances, mas pôde segurar o resultado favorável com muita garra e aplicação, conquistando uma classificação tida como improvável. Foi naquele momento que a confiança na equipe começou a crescer, fazendo com que a cidade o abraçasse, empurrando-o nas fases seguintes.

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Nas quartas de final, o Uberlândia voltou a Itumbiara, agora para enfrentar a equipe de mesmo nome, que vinha de eliminar o Tiradentes-DF e o XV de Piracicaba. No primeiro jogo, disputado no Estádio Municipal Juscelino Kubitschek, o Verdão arrancou uma boa vitória por 2 a 1 com gols marcados pelos laterais: Batata abriu o placar no primeiro tempo, o ponteiro Henrique empatou para os goianos na etapa final, mas Luizinho decidiu para os mineiros com um gol crucial no último minuto, garantindo a vantagem do empate no Parque do Sabiá.

Para o jogo de volta, dois dias depois, o Uberlândia levaria ao estádio cerca de 16 mil torcedores, mais do triplo do público presente à partida contra o Guarani. No entanto, sofreria um bocado diante do Itumbiara, que saiu na frente pouco antes do intervalo com gol de Péricles. O resultado levaria a decisão da vaga para os pênaltis. Mas outra penalidade, convertida por Chiquinho aos 14 minutos da etapa final, empatou o jogo em 1 a 1 e carimbou a classificação. Entre os quatro finalistas da Taça CBF, o Uberlândia já via a Copa Brasil bem de perto.

O adversário nas semifinais era o perigoso Botafogo-PB, que havia sido o responsável por eliminar outro grande favorito ao título da competição, o Sport (derrotado em plena Ilha do Retiro por 2 a 0), além do Icasa na primeira fase e do Itabuna na terceira. Mas, mesmo jogando no Almeidão, em João Pessoa, o Uberlândia não tomou conhecimento da torcida e do time da casa e aplicou uma goleada de 4 a 0. Luizinho abriu o placar no primeiro tempo e, na etapa final, Geraldo Touro anotou o segundo e o ponteiro Maurinho fez os outros dois.

A enorme vantagem obtida na partida de ida transformou o jogo de volta em algo praticamente protocolar. Ainda mais depois que Eduardo abriu a contagem logo aos 12 minutos. E no início do segundo tempo, aos nove, Geraldo Touro ampliou. Com um jogador a menos após a expulsão do lateral Valmir, o Belo não teve a menor chance sequer de salvar um resultado honroso. O Verdão, por sua vez, estava a um passo da elite. Na outra semifinal, o Remo também não teve maiores dificuldades para eliminar o Inter de Santa Maria-RS.

A dramática decisão contra o Remo

Dirigido por José Dutra, ex-jogador do clube, o Leão estava disposto a tudo para retornar à elite nacional, da qual não participava desde 1980 (o Paysandu foi o representante paraense na Taça de Ouro em 1981, 1982 e 1983, e a Tuna Luso havia disputado a Copa Brasil 1984). E antes de passar pelos gaúchos, havia deixado para trás Rio Negro-AM, Maranhão e Comercial-MS. O time azulino reunia nomes que fariam história no clube, como o zagueiro Darinta e o centroavante Dadinho, maior artilheiro do Remo em todos os tempos.

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A primeira partida decisiva foi disputada na noite de quarta-feira, 28 de março, diante de quase 22 mil torcedores no Parque do Sabiá. Com o Remo fechado, buscando levar um empate para o segundo jogo em Belém, o Uberlândia teve de suar muito para dobrar os paraenses. Mas acabou premiado pela insistência no último minuto. Da intermediária pelo lado direito, Chiquinho alçou a bola para a área e Vivinho se atirou na jogada, acertando um sem-pulo inapelável, sem chances para o goleiro Bracali e colocando um fim à agonia da torcida da casa.

“O time todo já estava esgotado, mas sabíamos que uma vitória seria importante. Eu já estava com o meião abaixado, porque sentia câimbras. Fiquei olhando o lance lá da intermediária e fui caminhando para a área. Chiquinho bateu com muita qualidade na bola. Saltei e peguei com o pé direito de primeira. Só vi a torcida comemorando, quem estava saindo voltou. Foi uma emoção muito forte, sinto saudade daquele jogo”, relembrou Vivinho ao livro “1984 – A maior conquista do futebol de Uberlândia”, de Lucas Papel e Rafael Duarte Oliveira Venancio.

Ao fim de uma partida tão dramática, a descarga emocional seria inevitável, como lembrou o ponta Geraldo Touro ao mesmo livro: “O jogo foi muito difícil. No final do jogo, no vestiário, só via os jogadores deitados no chão, chorando. Depois do gol, só via Luizinho chorando de um lado, Zé Carlos do outro. Para o Uberlândia era algo inédito”. Quatro dias depois, a equipe viajaria a Belém agora precisando apenas do empate para levantar a Taça CBF e conquistar a 16ª vaga na terceira fase da Copa Brasil. Mas o drama seria bem maior.

A partida em si transcorreria sem maiores problemas e com alguns lances emocionantes. Por duas vezes o zagueiro Zecão salvou gols do Remo em cima da linha, com Moacir já batido – o segundo deles aos 38 minutos da etapa final. O Uberlândia também teve grandes chances: Geraldo Touro chegou a driblar o goleiro Bracali, mas perdeu o ângulo para finalizar e acertou o pé da trave. Eduardo também acertou o poste num chute de fora da área. No fim, o empate em 0 a 0 premiou um obstinado Verdão, campeão com justiça.

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Os problemas extracampo, porém, haviam começado desde antes de a bola rolar, quando os atletas do clube mineiro foram transportados do hotel ao estádio numa velha jardineira, sendo expostos à hostilidade dos torcedores na chegada ao Mangueirão. Durante o jogo houve relatos de pedras atiradas das arquibancadas na direção do banco de reservas do Uberlândia. Mas nada disso se compararia ao enorme tumulto ocorrido imediatamente após o fim da partida, fazendo com que aquela final ganhasse um componente de tragédia.

Naquele tempo, o placar eletrônico do estádio tinha um cronômetro digital marcando o tempo da partida, algo mais tarde proibido pela Fifa. Na reta final do jogo, ele começou a parar, primeiro aos 33 e depois aos 37 minutos. E estava congelado nos 42 minutos há algum tempo no instante em que o árbitro carioca Wilson Carlos dos Santos apitou o fim da partida. No relógio do juiz, porém, o segundo tempo já havia se estendido para além dos 46 minutos. A confusão foi a senha para que torcedores remistas pulassem para dentro do gramado.

Enquanto os jogadores do Uberlândia davam entrevistas e tentavam começar uma volta olímpica, o lateral Carlos Alberto Batata levou um soco no queixo. Quando olhou para os lados para tentar identificar o agressor, viu um torcedor do Remo caído no chão, desmaiado. Começava ali um pesadelo para ele e para o lateral Luizinho, acusados de bater no torcedor, levando-o à morte. Os dois foram presos e indiciados por agressão, permanecendo detidos em Belém por alguns dias, vivendo sob a tensão e a expectativa de que os fatos fossem elucidados.

Até que o laudo médico os absolveu: o torcedor remista falecera vitimado por um aneurisma não decorrente de golpes externos. A invasão por parte dos torcedores ainda provocou cerca de uma centena de feridos. Nos vestiários, o técnico Vicente Lage também foi agredido por um repórter de rádio. O presidente Pietro Paladini levou um gancho de 80 dias da CBF por trocar pontapés com outro torcedor do Remo. Mas o caso do cronômetro, de quem teria partido a decisão de paralisar o relógio, não chegou a ser apurado nem resultou em punição.

Minas com o Uberlândia

Classificado para a terceira fase da Copa Brasil, o Uberlândia logo se viu numa situação inusitada: era o único mineiro entre os 16 clubes que seguiam na briga pelo título nacional. Atlético e Cruzeiro, os dois que haviam disputado a primeira divisão desde o começo, já estavam fora do páreo. Mesmo com craques como Nelinho, Luizinho, Reinaldo e Éder, o Galo de Rubens Minelli ficou pelo caminho no Grupo J da segunda fase, atrás dos classificados Vasco e Grêmio e à frente do lanterna Joinville. Já o Cruzeiro havia protagonizado um autêntico papelão.

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Na primeira fase da Copa Brasil, as equipes eram distribuídas em grupos de cinco, nos quais os três primeiros se classificavam diretamente, o quarto seguia para uma repescagem e apenas o quinto era inapelavelmente eliminado. Incluído no Grupo F ao lado de America-RJ, Atlético-PR, Brasil de Pelotas e Rio Branco-ES, o Cruzeiro conseguiu terminar na lanterna, somando apenas seis pontos em oito jogos. Nem mesmo a troca de técnicos (Hilton Chaves deu lugar ao veterano Oswaldo Brandão) evitou a humilhante queda precoce, na 33ª colocação.

Agora contando com a torcida não apenas da cidade, mas de todo o estado de Minas Gerais, o Uberlândia entrou no Grupo Q, que tinha como favorito destacado o Vasco e indicava ainda uma briga acirrada pela segunda vaga com o Coritiba e o Fortaleza. Dirigido por Edu Antunes Coimbra, o time carioca despontava como um dos principais candidatos ao título apresentando um futebol superofensivo, marcante em goleadas como os 9 a 0 na Tuna Luso na primeira fase e nos 6 a 0 sobre o Joinville na segunda. Havia anotado 30 gols em 14 jogos.

Além do destaque de sempre em Roberto Dinamite, o Vasco exibia o meia-atacante Arturzinho em momento brilhante. E mais: no gol, Roberto Costa e Acácio se revezavam, com o primeiro se assenhorando da posição naquela fase. Nas laterais, Edevaldo (reserva de Leandro na Copa de 1982) e Aírton tinham muita força no apoio. O uruguaio Daniel González era o caudilho da zaga. No meio, a proteção de Pires e a operosidade de Marquinho liberavam todo o talento de Geovani e Mário. E na frente havia ainda o talento do ponteiro Mauricinho.

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O Fortaleza, por sua vez, era uma das surpresas do torneio. Na primeira fase já havia enfrentado o Vasco, com uma vitória para cada lado. Também derrotara o São Paulo no Castelão (2 a 1). Mas nada comparado com o que faria na segunda etapa, quando já saiu arrancando um empate diante do Santos na Vila Belmiro (1 a 1) e derrotando o Palmeiras em pleno Morumbi (1 a 0). Acabou como o primeiro do Grupo K a se garantir na etapa seguinte, e eliminando o Alviverde da disputa de modo surpreendente. Seu destaque era o goleiro Sérgio Monte.

Bem mais oscilante era o Coritiba, de volta à elite após três anos de ausência. Embora já contasse com vários nomes que ajudariam o clube a levantar o título no ano seguinte (como o zagueiro Gomes, o meia Tóbi e os ponteiros Lela e Édson), o Coxa se classificara na repescagem na primeira fase, após terminar atrás de Grêmio, Santo André e Náutico no grupo. E na etapa seguinte, a vaga só veio no último jogo, quando o time bateu o já classificado America-RJ, líder da chave, e superou o Botafogo. Seu treinador era o velho ídolo Dirceu Krüger.

Em meio a esse equilíbrio entre as forças secundárias, o Uberlândia rapidamente se apresentou como forte candidato à vaga. O time estreou em 8 de abril diante do Vasco no Parque do Sabiá, e parou numa atuação espetacular de Roberto Costa na meta adversária. Entretanto, o empate sem gols diante do favorito do grupo, mesmo em casa, não foi tão ruim. Até porque Fortaleza e Coritiba ficaram no 1 a 1 no Castelão no mesmo dia. Já na partida seguinte, contra os cearenses mais uma vez em casa, no dia 11, o time venceria a primeira.

Imprimindo um ritmo muito veloz, o Uberlândia controlou boa parte do jogo, com destaque para a atuação de Eduardo no meio-campo. E marcaria o único gol do jogo aos 37 minutos da primeira etapa por meio de Geraldo Touro. No segundo tempo, o Fortaleza teve o lateral-esquerdo Clésio expulso aos 23 minutos, mas o Verdão não conseguiria aproveitar a vantagem numérica para ampliar a contagem. De qualquer modo, a primeira vitória foi muito comemorada, já que colocava o time na liderança da chave com os mesmos três pontos do Vasco.

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Na terceira rodada, no dia 15 de abril, o Uberlândia faria seu primeiro jogo fora de casa, diante do Coritiba no Couto Pereira. O time da casa não fez uma boa etapa inicial, mas conseguiu sair na frente no placar com um chute cruzado de fora da área desferido pelo lateral-direito André – um gol que encerrava uma invencibilidade de mais de 600 minutos de Moacir na meta mineira. Para piorar, o lateral Luizinho acabou expulso perto do fim do jogo, assim como o técnico Vicente Lage, que teria de ser substituído pelo auxiliar Odilon Lara no jogo seguinte.

Mesmo com os desfalques, a equipe se reabilitaria na visita ao Fortaleza no Castelão na noite de quarta-feira, 18 de abril. Diante de um Tricolor cearense que jogava suas últimas esperanças no torneio, o Uberlândia se fechou na defesa (com Batista cumprindo atuação excepcional na zaga) e matou o jogo nos contra-ataques, explorando a velocidade dos ponteiros. O grande artífice da vitória e destaque da partida seria Geraldo Touro, autor dos dois gols do jogo – o primeiro aos 44 minutos do primeiro tempo e o segundo já aos 38 da etapa final.

A vaga que escorreu por entre os dedos

O empate sem gols entre Coritiba e Vasco no Couto Pereira no mesmo dia deixou o Uberlândia em ótima situação no grupo. Em segundo lugar com cinco pontos, receberia na penúltima rodada os paranaenses (que tinham quatro) e poderia garantir a classificação antecipada às quartas de final em caso de vitória. Porém, não seria um jogo fácil naquela tarde/noite de domingo, 22 de abril. O duelo começou bastante equilibrado, com chances de parte a parte e os goleiros Moacir e Jairo tendo de se desdobrar em chutes de média e longa distância.

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O Uberlândia saiu na frente aos 38 minutos de partida quando Chiquinho pegou um rebote da defesa na meia-lua e abriu na direita para Geraldo Touro. O ponteiro cruzou forte e rasteiro para Vivinho completar na segunda trave. E o time da casa poderia ter ampliado a vantagem pouco antes do intervalo, mas a cabeçada forte de Vivinho parou numa defesa espetacular do veterano Jairo. Outra grande chance veio no início do segundo tempo, numa arrancada sensacional de Zé Carlos, com Geraldo Touro chegando atrasado por milímetros para concluir.

Depois disso, porém, o Coritiba reequilibrou as ações e acabou chegando ao empate com um bonito gol de Lela, que recebeu de Tóbi na esquerda, gingou na frente do lateral Luizinho e bateu cruzado, do bico da grande área. A bola encobriu Moacir e entrou no ângulo. E ainda poderia ter virado num contra-ataque em que Édson chegou a driblar o goleiro, mas chutou na rede pelo lado de fora. No fim das contas, o resultado havia sido justo, embora frustrante para o Uberlândia, que saíra de uma situação de virtual classificado para outra mais desconfortável.

O clube do Triângulo Mineiro continuava um ponto à frente do Coxa, mas o cenário da última rodada era bem menos favorável: os paranaenses receberiam o eliminado Fortaleza, que só havia somado um ponto naquela etapa (justamente diante do mesmo adversário no Castelão), ao passo que caberia ao Uberlândia visitar o líder e já classificado Vasco em São Januário. Para piorar, nem mesmo o empate ajudaria os mineiros: nesse caso, se o Coritiba vencesse, levaria a vaga pelo critério do confronto direto, o segundo previsto pelo regulamento.

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No intervalo dos dois jogos de 25 de abril, o Uberlândia havia conseguido heroicamente segurar o poderoso ataque vascaíno até ali. O problema era que o Coritiba já vencia folgadamente o Fortaleza por 2 a 0. Quando um gol contra do zagueiro Vavá logo aos dez minutos da etapa final no Couto Pereira pareceu recolocar os cearenses no jogo, a torcida mineira se animou. Mas não só o empate do Tricolor de Aço não veio, como também o Vasco acabou furando a retranca do time de Vicente Lage e marcando com Roberto Dinamite a sete minutos do fim.

Depois de perder a vaga nas quartas de final do Brasileiro por um ponto, o Uberlândia teria pela frente o estadual, mas agora sem seu comandante Vicente Lage, que deixou o clube. Seu lugar foi ocupado pelo paranaense Borba Filho, naquela que seria a primeira de suas oito passagens pelo clube. Com ele, o time chegou a liderar o Mineiro até a metade do primeiro turno, mas uma queda de rendimento na reta final derrubou a equipe para o quinto lugar, ficando de fora das semifinais do turno no desempate pelo número de vitórias com o América.

Borba em seguida retornaria ao Paraná para dirigir o Pinheiros, entrando Dawson Laviola, nome conhecido do futebol mineiro, no comando do time. A campanha no returno, porém, seria muito ruim, com o Verdão terminando apenas em 12º entre 14 clubes, o que também fez com que ficasse apenas em nono na classificação geral. Mesmo assim, o título da Taça CBF ainda renderia frutos, com o clube novamente sendo incluído entre os participantes da primeira divisão do Brasileiro – agora novamente chamado de Taça de Ouro – na edição de 1985.

Dirigido por Fidélis, ex-lateral de Bangu, Vasco e Seleção, o clube cumpriu campanha discreta no Grupo D, uma das duas chaves formadas apenas por equipes ditas pequenas. Entre 12 times, o Uberlândia ficaria em 10º no primeiro turno e em oitavo no segundo, terminando também em 10º na soma das duas etapas, à frente apenas do Villa Nova-MG e do Corumbaense-MS, bem longe de beliscar uma das quatro vagas do grupo na segunda fase da competição. Aquela seria a última aventura do Verdão do Triângulo Mineiro na elite nacional.

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Da equipe histórica que venceu a Taça CBF e fez bom papel na Copa Brasil de 1984, dois jogadores se projetariam para o futebol nacional, chegando até à Seleção. Um deles foi o zagueiro Batista, vendido ao Atlético-MG em março de 1985. No Galo, formou ótima dupla com o experiente Luizinho, sagrando-se quatro vezes campeão mineiro e semifinalista dos Brasileiros de 1985 e 1986 e da Copa União de 1987. Com Carlos Alberto Silva, disputaria os Jogos Olímpicos de Seul e chegaria a marcar um gol num amistoso com a Alemanha Ocidental em 1987.

Batista também atuaria na estreia de Sebastião Lazaroni no comando do Brasil, uma vitória sobre o Equador em amistoso em Cuiabá em março de 1989. Curiosamente, o zagueiro jogaria ao lado de Vivinho, velho companheiro de Uberlândia e então no Vasco, para onde se transferira em 1986. Em São Januário, Vivinho se sagraria campeão carioca em 1987 e 1988 e brasileiro em 1989. Também ficou marcado por um gol antológico sobre a Portuguesa, que mereceu até placa no estádio. Pela Seleção, faria três partidas e um gol contra o Paraguai, em 1989.

Depois do Galo, onde atuou até 1990, Batista teria passagens pelo Guarani, Atlético-PR e Tirsense de Portugal. Vivinho, por sua vez, seguiria para o Botafogo também em 1990, onde conquistaria mais um título carioca. Mais tarde defenderia ainda Atlético-PR, Goiás, Fortaleza e retornaria ao Uberlândia em 1996, pendurando as chuteiras na Cabofriense no ano seguinte. Em setembro de 2015, ele teria morte repentina aos 54 anos. Outro já falecido daquele elenco é o zagueiro Zecão, vitimado por complicações no fígado aos 56 anos, em junho de 2014.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui. Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.