Algumas coisas o dinheiro não compra. Brincadeira. É que às vezes demora um pouco. O Paris Saint-Germain tensionou as regras do Fair Play Financeiro e a capacidade de fazer vista grossa da Uefa até o limite quando desembolsou € 400 milhões por dois jogadores, mais outros milhões em outros jogadores, mas ainda não conseguiu alcançar, pelo menos na mesma plenitude, o principal trunfo da Atalanta para as quartas de final da Champions League, nesta quarta-feira: um coletivo, um estilo, uma identidade.

O PSG avançou muito com Thomas Tuchel nesse quesito e talvez esteja mais preparado do que nunca para chegar pelo menos a uma final. É certamente o time mais bem organizado do Projeto Neymar e dá até para estender o elogio à passagem de Laurent Blanc. Mas, se o sucesso vier nesta Champions League, o mais provável é que seja fruto da qualidade dos seus principais jogadores, e sem dúvidas há mérito também em arrumar o time para que eles possam brilhar.

A Atalanta, com faturamento três vezes menor que o do PSG, tem seus destaques individuais, e pode até ser que um deles, especialmente Papu Gómez, seja decisivo, mas o futebol maravilhoso que apresentou nas últimas duas temporadas depende das ideias de Gian Piero Gasperini e da maneira como ele amarra todas as suas peças para que o produto final seja superior ao que as condições financeiras do clube indicam.

“Eles têm um estilo totalmente único”, afirmou Tuchel. “Eles atacam com todos os seus jogadores, vão à frente o tempo inteiro e pressionam em todas as regiões. O número 10, o Gómez, está sempre livre para flutuar. Ele tenta combinar com outros jogadores em pequenos espaços. Eles gostam de jogar nos dois lados, com alas muito ofensivos que fazem cruzamentos, mas também chutam de longa distância”.

Esses alas são Robin Gosens, pela esquerda, e Hans Hateboer pela direita. Os três zagueiros – Rafael Tolói, José Palomino e Berat Djimsti – dão o suporte. Marten de Roon e Remo Freuler começam as ações no meio-campo, com Mario Pasalic mais à frente. Papu Gómez tem, como disse Tuchel, total liberdade para se movimentar e encostar no centroavante Duván Zapata ou Josip Ilicic, que, com problemas pessoais, retornou à Eslovênia e não estará disponível. Há uma variação com os dois meias centrais e Gómez atrás de dois atacantes.

É um time muito ofensivo que tem o quinto melhor ataque da Champions League – empatado com outros dois times – e o melhor da Serie A nos últimos dois anos. Na última edição do Campeonato Italiano, chegou a 98 gols. A defesa, porém, é a quarta pior da competição europeia, atrás de Genk, Estrela Vermelha e Tottenham, em grande parte porque levou quatro gols do Dínamo Zagreb e cinco do Manchester City na fase de grupos. Marcou 16 vezes e foi vazada as mesmas 16 vezes.

Apesar do alerta de Tuchel para os chutes de longa distância, apenas um desses gols foi marcado de fora da área e as estatísticas passam outros sinais de que a Atalanta muda um pouco suas características quando vai para a Europa. Na Champions, tem sete pontos percentuais de média de posse de bola a menos do que na Serie A – 48% x 55% –  e também chuta cinco vezes a menos a cada partida. Consequência natural de mais precauções que são necessárias em jogos fora de casa ou contra gigantes do continente.

“Com nosso histórico, eu preferia dois jogos. Estamos jogando contra um time que nunca enfrentamos antes e não temos parâmetros diretos. Historicamente, sempre fomos melhor no segundo jogo, contra Dínamo, Shakhtar e Manchester City”, afirmou Gasperini, em relação aos adversários da fase de grupos. A Atalanta perdeu os três primeiros jogos, mas se classificou com um empate contra os ingleses e vitórias contra os outros dois rivais.

Neymar, do PSG, com a nova camisa para a temporada 2020/21 (Divulgação/PSG)

Embora não tenha os “parâmetros diretos”, como disse, Gasperini deve saber como o PSG vem jogando. Tuchel encontrou na formação 4-4-2 a melhor maneira de encaixar todos os seus talentos. O lado esquerdo é forte, com o ofensivo lateral Juan Bernat aproveitando o corredor aberto quando Neymar parte com a bola dominada para dentro. Idrissa Gueye tem sido importante para o equilíbrio defensivo e a cobertura por aquele setor. Na reta final da Ligue 1, assim como no jogo de volta contra o Borussia Dortmund e na final da Copa da França, quando esse esquema foi usado, o zagueiro Thilo Kehrer também fechou mais pelo lado direito.

Um rejuvenescido Di María, principal garçom do Campeonato Francês, faz a armação pela direita para dois atacantes, idealmente Mbappé e Icardi. O francês havia se machucado na final contra o Saint-Étienne e chegou a preocupar. Recuperado a tempo, Tuchel afirmou que “quer terminar o jogo com ele em campo”, o que indica que deve colocá-lo no segundo tempo. Sem Mbappé, Tuchel adotou uma variação bastante usada nesta temporada, com três jogadores no meio-campo e mais três no setor ofensivo, que deve ser mantida para o jogo desta quarta.

O problema é que, além de Mbappé estar retornando de lesão, Verratti está machucado e Di María será desfalque por suspensão. Edinson Cavani e Thomas Meunier já foram liberados ao fim de seus contratos. O mais esperado é que Marquinhos seja usado no meio-campo, ao lado de Ander Herrera e Gueye, duas contratações menos badaladas desta temporada que ajudaram a formar um elenco mais completo. O ataque teria Sarabia ao lado de Icardi e Neymar.

“Neymar é um dos melhores jogadores do mundo. Um problema para todos os times que o enfrentam. Eu acho que a melhor maneira de defender contra ele é jogar bem, com todos focados. Vamos tentar fazer isso como time, com nossa organização. Nós enfrentamos muitos bons jogadores. Ele é um deles”, afirmou Gasperini.

A questão para o Paris Saint-Germain acaba sendo sempre a mesma. É muito difícil avaliar exatamente em qual patamar coletivo se encontra porque a força bruta dos jogadores que consegue comprar costuma ser suficiente para vencer 95% das suas partidas. Na fase de grupos, ganhou de um Real Madrid que ainda cambaleava no começo da temporada e faturou a Tríplice Coroa nacional sem muitos problemas, embora tenha precisado dos pênaltis contra o Lyon e vencido o Saint-Étienne por apenas 1 a 0, em dois jogos travados, os únicos oficiais que o clube realizou desde março.

A maneira como se impôs contra o Borussia Dortmund nas oitavas de final é o que mais passa confiança de que o PSG está coletivamente mais forte para brilhar em uma Champions League com jogo único, campo neutro e um longo tempo parado.  Essas condições excepcionais seriam ponderações válidas caso fracasse. O duelo contra um time tão coeso e ciente de quem é será um ótimo termômetro do quanto ele avançou como conjunto.

NA TV
Atalanta x PSG
Quarta-feira, 12 de agosto, 16h (horário de Brasília)
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