O ano deveria ser de boas lembranças ao Kaiserslautern. Completam-se duas décadas de sua última conquista na Bundesliga, a quarta de sua história, quando surpreendeu a todos logo após assegurar o acesso na segundona. No entanto, justamente em meio às memórias, veio o ponto mais baixo da história dos Diabos Vermelhos. Nesta sexta-feira, pela primeira vez, o clube foi rebaixado à terceira divisão do Campeonato Alemão. A derrocada não é surpresa a ninguém, considerando os anos de crise e coadjuvantismo na segundona, assim como a campanha claudicante nesta temporada. De qualquer maneira, a consumação da queda expõe a realidade claudicante de uma instituição tradicionalíssima.

O Kaiserslautern se estabeleceu como uma força no Campeonato Alemão a partir dos anos 1950. A equipe da Renânia-Palatinado ascendeu graças à sua geração dourada. Filho ilustre da cidade, Fritz Walter sobreviveu à Segunda Guerra Mundial para conduzir os Diabos Vermelhos ao topo da Alemanha. Ao lado do irmão Ottmar Walter, encabeçou a equipe que ainda viu eclodir outros talentos, como Horst Eckel, Werner Kohlmeyer e Werner Liebrich. Todos os cinco nasceram na cidade e iniciaram a carreira no clube. Todos os cinco participaram das conquistas da liga nacional em 1951 e 1953. Todos os cinco foram titulares na final da Copa de 1954, que rendeu o primeiro título mundial aos germânicos, no mítico duelo contra a Hungria. Não à toa, o quinteto está imortalizado em bustos de bronze, localizados em frente ao Estádio Fritz Walter.

A partir do advento da Bundesliga, o Kaiserslautern viu os seus decanos se aposentarem, mas se manteve como um time médio no campeonato. Costumava figurar em posições intermediárias na tabela, de vez em quando pintando na Copa da Uefa. O início dos anos 1980, aliás, marcaram um momento no qual os Diabos Vermelhos eram figurinhas carimbadas no torneio continental. Uma era na qual se destacavam alguns jogadores importantes à própria seleção, como Hans-Peter Briegel e Andreas Brehme. Já a volta ao topo aconteceu de maneira um tanto quanto surpreendente. O FCK já havia caído de nível no fim da década de 1980, terminando num modesto 12° lugar a Bundesliga 1989/90. Na temporada seguinte, porém, os alvirrubros tomaram o país de assalto e reconquistaram a liga nacional após 38 anos. Entre os principais nomes do elenco, estavam Miroslav Kadlec, Thomas Dooley, Stefan Kuntz e Brunno Labadia.

Voltando a frequentar as primeiras colocações na sequência da década de 1990, o Kaiserslautern sofreu uma queda abrupta a partir de 1995, resultando no rebaixamento inédito em 1996, apesar do título na Copa da Alemanha. Então, aconteceu a grande epopeia do clube. Conquistou a segunda divisão em 1997 e emendou com o seu quarto título do Campeonato Alemão em 1998. Time forte, comandado pelo tarimbadíssimo Otto Rehhagel e que além de contar com Olaf Marschall empilhando gols no ataque, ainda viu a eclosão de Michael Ballack. O sucesso não se manteve, mas os Diabos Vermelhos continuavam como bons figurantes na tabela, assim como preservavam o papel de apresentar ídolos à seleção. Miroslav Klose foi o último grande destes.

O ponto de virada ao Kaiserslautern acontece a partir de 2002. Otto Rehhagel deixou o comando da equipe e as várias contratações de medalhões caros pesaram contra as finanças do clube. Os Diabos Vermelhos se aproximaram da falência, salvos a partir da venda do Estádio Fritz Walter para um consórcio encabeçado pela prefeitura – e isso em meio à reforma para a Copa de 2006. Como consequência, a equipe começou a frequentar a metade inferior da tabela na Bundesliga. Em 2006, enfim, aconteceu o segundo rebaixamento. Sofrendo as consequências das más gestões, o FCK passou quatro anos na segundona, até conquistar o acesso, mas começava a se transformar em time-ioiô. Apesar de uma boa campanha na volta em 2010/11, alcançando a sétima colocação na elite, o desastre se repetiria na temporada seguinte. Com um ataque pouquíssimo produtivo, os alvirrubros ficaram com a lanterna e acabaram relegados pela terceira vez à segunda divisão.

Então, aconteceu a sequência recente do Kaiserslautern na segundona. Até parecia que o novo acesso não demoraria, com três temporadas seguidas na briga – inclusive com uma derrota nos playoffs para o Hoffenheim. No entanto, os Diabos Vermelhos despencaram ao meio da tabela na temporada passada. E quando planejavam um novo horizonte com o técnico Tayfun Korkut, ele saiu de maneira bastante inesperada no final de 2016. A decisão do treinador, motivada principalmente pelos entraves internos e pela fragilidade das finanças, pegou os dirigentes de calças curtas. Diante da mudança de rota, evitar o rebaixamento já tinha sido um motivo de alívio em 2016/17.

Na atual campanha, o elenco passou por uma notável renovação. Dezesseis jogadores chegaram ao clube, 13 deles sem contrato ou vindos de empréstimo dos times da primeira divisão. Além disso, as limitações financeiras fizeram a diretoria vender as duas principais promessas – o zagueiro Robin Koch e o goleiro Julian Pollersbeck. O grupo formado era essencialmente jovem, com a menor média de idade entre os concorrentes da segundona. Para piorar, em meio à pré-temporada, ocorreram trocas em cargos importantes do FCK, responsáveis pela gestão do elenco. Como era de se prever, a situação movediça culminou na frustração.

O Kaiserslautern passou 27 das 32 rodadas disputadas até o momento na lanterna da segunda divisão alemã. Contratado em janeiro, após a desistência de Korkut, o técnico Norbert Meier deixou o cargo após sete rodadas. Jeff Strasser chegou para o lugar, mas sofreu um problema de saúde e precisou sair. Por fim, Michael Frontzeck assumiu a bomba em fevereiro. Até melhorou o desempenho no segundo turno, conquistando cinco das sete vitórias dos Diabos Vermelhos na campanha. Ainda assim, a guinada foi insuficiente. A sequência de derrotas recente derrubou os alvirrubros. No final de semana passado, a derrota em casa para o Dynamo Dresden deixou esperanças mínimas. Já nesta sexta, a equipe chegou a abrir dois gols de vantagem fora de casa contra o Arminia Bielefeld, mas permitiu a virada por 3 a 2. O tropeço selou o rebaixamento.

Em teoria, por sua estrutura e por sua tradição, o Kaiserslautern seria candidato a logo voltar à segundona alemã. Mas o cenário ainda tem outros poréns. Segundo os dirigentes, 90% do elenco não tem contrato para o próximo ano e outra renovação profunda do grupo tende a acontecer. Além disso, a agremiação ainda corre atrás das últimas garantias para assegurar a licença da liga. Não deve ser empecilho, com os primeiros contratos de patrocínio já fechados, mas não deixa de ser uma preocupação. Para os próximos meses, há empréstimos a cobrir. Inclusive, um financiamento coletivo de €6 milhões que o clube terá que reembolsar aos torcedores em 2019, com 5% de juros.

Neste momento de crise, até mesmo o apoio da fanática torcida tem minguado. De 42 mil torcedores em média na última aparição na elite, o público atual do Kaiserslautern gira em torno dos 22 mil – o menor desde a década de 1980. Com menos gente, fica mais difícil de pagar os custos de utilização do estádio e os €3 milhões de aluguel pagos ao consórcio que o administra. Em consequência, a prefeitura procura um novo dono à arena. E em uma espiral que não parece ter fim, o bom desempenho esportivo será fundamental para recuperar as receitas. O problema é saber como chegar a isso, quando se veem mais problemas que soluções.