Por andré Magalhães, (no Twitter, @andrelourentipublicado originalmente no Medium no dia 6 de agosto

Em novembro de 2017, o Fortaleza Esporte Clube anunciou Rogério Ceni como treinador do clube para a temporada seguinte, no ano do centenário do clube e no retorno à Série B do Campeonato Brasileiro. Seria o segundo trabalho de Ceni como treinador, após uma curta passagem pelo São Paulo, demitido três meses antes.

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Avançando o tempo para o começo de agosto de 2018, o Fortaleza de Ceni é líder da Série B, campeão do primeiro turno da competição e com oito pontos de vantagem do primeiro time fora da zona de acesso à primeira divisão. O time vem jogando de uma forma muito consistente, possui boas chances de acesso e mostra que o trabalho de Rogério pode classificá-lo como um dos melhores treinadores do Brasil em 2018 — pelo menos até agosto. Aqui estão alguns motivos.

O começo de Rogério Ceni no campeonato estadual foi animador, com o clube terminando a primeira fase do Cearense com o melhor aproveitamento (7 vitórias e 2 derrotas em 9 jogos). Na segunda fase, uma queda de rendimento deixou a equipe em terceiro lugar e classificada para a semi-final. Duas vitórias fáceis contra o Floresta abriram caminho para a disputa da final contra o grande rival Ceará. Porém, o adversário foi um grande empecilho para os tricolores: duas derrotas na final, somadas com um empate e outra derrota nas fases anteriores.

Com o revés no estadual, o time se preparou para a Série B sob dúvidas de seu rendimento contra equipes superiores. Caso do rival, recém-ingressante na Série A do Campeonato Brasileiro. De qualquer forma, Rogério permaneceu no cargo para seguir a missão: o acesso à Série A no ano do centenário. Um objetivo ousado para uma equipe sem tanto investimento e que vinha de um acesso da Série C (é bom lembrar disso).

Com a permissão para usar o clichê, o futebol é resolvido dentro das quatro linhas e nos 90 minutos. E o Fortaleza começou empolgando seus torcedores com três vitórias em três jogos. A euforia pelo começo de campeonato logo se tornou em uma ótima fase, com o time perdendo sua primeira partida apenas na 10ª rodada. Embalados por Gustavo Henrique, o Gustagol, o Tricolor assumiu a liderança na 5ª rodada e lá ficou até então.

Baseando-se em um futebol ofensivo, prezando pela manutenção da posse de bola (conceitos que Rogério Ceni sempre manifestou seu interesse em aplicar), o Fortaleza terminou o primeiro turno da Série B do Campeonato Brasileiro com a melhor campanha: 11 vitórias, 4 empates e 4 derrotas em 19 jogos, 37 pontos somados. Segundo melhor ataque da competição, com 28 gols marcados, e melhor defesa, com apenas 13 gols sofridos.

Outros dados que refletem esse estilo de jogo de Rogério Ceni estão em texto publicado pelo jornalista Mauro Cézar Pereira em seu blog na ESPN. Entre algumas estatísticas, vale a pena ressaltar algumas: 1º time do campeonato em passes trocados, 1º em posse de bola, 2º que mais finaliza, 20º em faltas e 20º em lançamentos. Ou seja, um time que valoriza o passe, mesmo com elenco limitado, e tem sua estratégia de jogo bem definida.

Voltando um pouco no texto, mencionei que o Fortaleza vinha de um acesso na Série C da temporada anterior. Por pertencer à divisão inferior, é difícil que esses times consigam desenvolver uma boa campanha logo no ano seguinte. E, como se a pontuação e os dados não bastassem, isso é um dos fatores que tornam o trabalho de Rogério Ceni ainda mais especial.

A transição da Série C para a B apresenta algumas dificuldades. A primeira delas é a mudança no calendário: a terceira divisão é um torneio que dura de maio a outubro e possui uma fase final em mata-mata. Enquanto isso, a segunda utiliza o sistema de pontos corridos com 38 rodadas, durando de abril até o final de dezembro. A Série C desse ano terá 169 partidas no total, contra 380 totais da Série B. Além disso, as equipes precisam adaptar seus elencos para a disputa de um torneio com um nível mais elevado.

Portanto, a meta para equipes que conseguem o acesso costuma ser a permanência na segunda divisão, para depois consolidar o elenco e brigar por objetivos maiores. A dificuldade de subir logo de primeira é algo provado pela história. Desde a adoção do regulamento com 20 clubes em pontos corridos, em 2006, apenas sete times conseguiram subir da Série C para a B e da Série B para a A no ano seguinte. São eles: América de Natal (2006), Ipatinga (2007), Vitória (2007), Atlético Goianiense (2009), Guarani (2009) e Chapecoense (2013). Já são cinco anos sem que isso aconteça.

Porém, estamos falando de acesso no final do campeonato, que dura 38 rodadas. O Fortaleza foi líder do primeiro turno, mas ainda há outra metade do campeonato a ser jogada e muita coisa pode acontecer. O que vale, nesse momento, é analisar a campanha atual do Fortaleza com outros clubes que vieram da Série C no mesmo período do campeonato.

No ano passado, vieram da terceira divisão ABC, Boa Esporte, Guarani e Juventude. Ao final da 19ª rodada, o Juventude era o melhor dos quatro, ocupando a 5ª colocação com 31 pontos (6 a menos que o Fortaleza). O time gaúcho terminou na 9ª colocação e foi o melhor entre os que subiram: o ABC, por exemplo, foi rebaixado.

Em 2016, subiram Brasil de Pelotas, Londrina, Tupi e Vila Nova. Com metade do campeonato concluída, o melhor posicionado era o Brasil, com 30 pontos também na 5ª colocação (7 a menos que o Fortaleza). Os gaúchos terminaram na 11ª colocação, o Londrina conseguiu a 6ª e o Tupi foi rebaixado.

Já em 2015, a melhor colocação de um recém-promovido no primeiro turno foi de 7º lugar, com o Paysandu, também com 30 pontos. A equipe paraense terminou o campeonato na mesma posição. Macaé e Mogi Mirim, duas equipes promovidas, só puderam provar o gosto da segunda divisão por um ano e foram rebaixadas. Detalhe: o Macaé havia sido campeão da terceira no ano anterior.

No ano de 2014, o melhor recém-promovido também ocupou o sétimo lugar no primeiro turno. Nesse caso, o Luverdense, com 28 pontos (9 a menos que o Fortaleza de 2018). O Vila Nova foi o clube que subiu e logo voltou para a Série C. Ao final das 38 rodadas, o melhor colocado proveniente da Série C foi o Santa Cruz, em 9º.

2013, enfim, foi o último ano que uma equipe vinda da terceira divisão subiu para a primeira. A Chapecoense encerrou o primeiro turno na segunda colocação, com incríveis 40 pontos (3 a mais que o Fortaleza), e terminou como vice-campeã da Série B. O Paysandu foi o azarado da vez, que subiu da C para voltar a disputá-la em 2014.

Como os dados mostram, é dificil para uma equipe com acesso recente já brigar pelos quatro primeiros lugares. O retrospecto dos campeonatos anteriores mostra que, no máximo, essas equipes disputaram pela metade da tabela nos últimos cinco anos. Por isso, o Fortaleza conseguir ser o líder do campeonato e ter passado 17 de 19 rodadas na liderança é um feito impressionante, superando expectativas. E, para não ser injusto, o segundo colocado CSA também veio da Série C. Mas isso seria tema para outro texto.

O futebol brasileiro é baseado no imediatismo e o trabalho de Rogério Ceni ainda está no começo pelo Fortaleza, mas o desempenho do clube comparado com equipes na mesma situação somado à atual campanha colocam o goleiro-artilheiro entre os melhores treinadores do futebol brasileiro em 2018.

Dados:

Futdados — http://futdados.com/serieb/

Footstats — footstats.net

Classificação da Série B2017–19ª rodada — http://blogs.diariodepernambuco.com.br/esportes/2017/08/07/classificacao-da-serie-b-2017-19a-rodada/

Brasileirão: Veja a classificação da série B após o fim do primeiro turno — https://www.torcedores.com/noticias/2016/08/brasileirao-veja-classificacao-da-serie-b-apos-19a-rodada

A 19ª classificação da Segundona 2015 — http://blogs.diariodepernambuco.com.br/esportes/2015/08/15/a-19a-classificacao-da-segundona-2015/

Primeiro turno da Série B 2006–2014 — http://blogs.diariodepernambuco.com.br/esportes/2014/08/31/primeiro-turno-da-serie-b-2006-2014/


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