Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Como é que se comemora um título dividido por quatro? Foi nessa insólita situação que se encontraram botafoguenses, corintianos, santistas e vascaínos há 50 anos, após a rodada de que decidiu o campeão – ou os campeões – do Torneio Rio-São Paulo de 1966, o último da chamada “fase clássica” da competição. Com os quatro empatados em pontos na liderança e sem a perspectiva de realização de um quadrangular de desempate, já que a antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD) exigiu a liberação dos convocados para a extensa – e em última análise, fracassada – fase de preparação para a Copa do Mundo da Inglaterra, o quarteto alvinegro foi proclamado campeão por suas respectivas federações estaduais, as organizadoras do certame. Mas a história daquela acidentada competição também sofreu com uma série de outros problemas, ficando inclusive ameaçada de cancelamento.

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O primeiro grande obstáculo à realização do Rio-São Paulo veio de fatores extracampo, mas não teve nada a ver com a cartolagem, e sim com a natureza. Em meados de janeiro de 1966, o Rio de Janeiro foi castigado pela pior enchente do século XX na cidade, deixando 250 mortos e mais de 50 mil desabrigados. Nos dias que se seguiram, muitos desses desamparados foram levados para o Maracanã, o que levou à interdição do estádio por tempo indeterminado. O Flamengo, por exemplo, havia acertado a organização de um torneio de pré-temporada com participação da seleção da URSS e foi obrigado a transferi-lo para São Paulo, enquanto os soviéticos, que chegaram a desembarcar na cidade, tiveram que disputar amistosos em outras capitais brasileiras. Sem o principal estádio carioca disponível a princípio até março, os dirigentes se reuniram com o governador do então estado da Guanabara, Francisco Negrão de Lima, e seus assessores. Estes chegaram a pedir o cancelamento do torneio, mas o supervisor da CBD, Carlos Nascimento, refutou de maneira veemente a hipótese, já que considerava a competição fundamental para a observação de jogadores visando à convocação da Seleção Brasileira para a fase de preparação para a Copa. Pelo calendário da entidade, a divulgação da relação dos convocados estava prevista para sair no fim de março.

Depois de adiadas várias partidas agendadas para a cidade nas primeiras rodadas (inclusive Bangu x Flamengo, marcado para a abertura, e que ironicamente acabou sendo o último jogo disputado, com os campeões já conhecidos), a solução provisória encontrada foi levar alguns confrontos para o estádio de São Januário – contrariando a vontade dos clubes cariocas, que temiam públicos menores e prejuízos financeiros ao mandarem seus jogos na casa do Vasco. E os números das três primeiras partidas do torneio no Rio, realizadas na Colina, pareciam dar razão à insatisfação. A competição foi enfim iniciada numa quarta-feira, 9 de fevereiro, com o duelo tricolor entre Fluminense e São Paulo, com pouco mais de 2.500 torcedores presenciando a vitória paulista por 3 a 1. No sábado, apenas 577 pagantes viram o Bangu derrotar a Portuguesa por 2 a 1. E no dia seguinte, nova derrota do Fluminense, desta vez para o Corinthians por 2 a 0, diante de 3.108 espectadores. No mesmo domingo, 13, aconteceu o primeiro jogo na capital paulista, com o São Paulo recebendo o Flamengo em partida originalmente marcada para o Pacaembu e transferida de última hora para o Morumbi. O time da casa venceu por 2 a 0 e assumiu provisoriamente a liderança do torneio. Liderança em termos, na verdade, já que Botafogo, Palmeiras, Santos e Vasco ainda sequer tinham estreado no torneio. Os quatro excursionavam pelo exterior, o que também ajudou a espremer um pouco mais o Rio-São Paulo no calendário.

Entretanto, o torneio tinha lá suas atrações. A maior delas era, sem dúvida, a contratação de Garrincha, então com 32 anos, pelo Corinthians. O Botafogo, que já tinha um substituto pronto para o Mané no jovem Jairzinho, também fizera uma grande contratação naquele início de temporada tirando o centroavante Parada do Bangu. O Flamengo, campeão carioca em dezembro de 1965, mantinha o atacante Silva, o Batuta, eleito o melhor jogador do último torneio do Rio, mas via o talentoso meia-armador Fefeu também pegar a ponte aérea e ir defender o São Paulo. Numa negociação entre cariocas, o Fluminense levava para as Laranjeiras o bom atacante vascaíno Mário “Tilico” (pai do ponta de mesmo nome que defendeu os dois clubes, além de São Paulo e Cruzeiro nos anos 80 e 90), afastado em São Januário por indisciplina. Além destes, alguns jovens despontavam: o Santos – que não teria Pelé, liberado para curtir a lua-de-mel de seu primeiro casamento – apresentava o ponta Edu, de apenas 16 anos; no Flamengo, os problemas de lesão de Almir Pernambuquinho abriam espaço para o centroavante César (o futuro “Maluco” do Palmeiras). E o Botafogo mostrava aos paulistas o atacante Roberto Miranda.

Após as três primeiras partidas em São Januário, o Rio voltou a ficar sem os jogos por quase duas semanas, em virtude do movimento de Carnaval (o desfile das escolas de samba, então realizado na Avenida Presidente Vargas, aconteceu no domingo, 20 de fevereiro). A expectativa era de retorno no sábado seguinte, dia 26, com o confronto local entre Vasco e Bangu com uma boa notícia: a reabertura do Maracanã. Enquanto isso, a bola continuou a rolar em São Paulo, com a Portuguesa envolvida em três das quatro partidas do período. Com o calendário desencontrado, enquanto Palmeiras, Santos, Vasco e Botafogo ainda não tinham sequer estreado, a Portuguesa já havia disputado quatro de suas nove partidas. A essa altura, o Corinthians, com três vitórias em seus três jogos, era o líder isolado.

O primeiro jogo no Maracanã aconteceu no sábado, 26 de fevereiro, com a vitória do Vasco sobre o Bangu pelo placar mínimo, graças a um gol contra do meia Roberto Pinto. No Pacaembu, o São Paulo venceu bem o Santos (sem Pelé) por 3 a 2. No domingo, Botafogo e Palmeiras fizeram suas estreias no campeonato e ambos perderam: o Alvinegro caiu diante do Fluminense por 3 a 2, e o Alviverde foi derrotado pela Portuguesa por 1 a 0, em jogo bastante violento. Na quarta-feira, 2 de março, dois grandes jogos: no Pacaembu, o Corinthians estreou Garrincha, voltando de uma inatividade de seis meses, diante de pouco mais de 44 mil torcedores, mas o Vasco estragou a festa, vencendo por categóricos 3 a 0. Enquanto isso, no Maracanã, o Botafogo, ex-clube de Mané, perdia para o Flamengo por 2 a 1, em virada obtida aos 42 minutos do segundo tempo. Três dias depois, os cruzmaltinos alcançavam a liderança, ao lado de corintianos e sãopaulinos, ao baterem o Fluminense por 2 a 0.

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No domingo seguinte, dia 6 de março, foi a vez de São Paulo sofrer com a chuva e a inundação. Com a transferência do Mercado Municipal para a praça Charles Miller, nas imediações do Pacaembu, pelo prefeito José Vicente Faria Lima, o estádio foi fechado, impedindo a realização do clássico entre Corinthians e Palmeiras. Naquele dia, apenas o Maracanã recebeu jogo, com um movimentado empate em 1 a 1 entre Flamengo e Santos. No meio da semana, o Vasco bateu o São Paulo no Maracanã por 1 a 0 e disparou na liderança, com quatro vitórias em quatro jogos e ainda sem sofrer nenhum gol. Na quinta-feira, dia 10, acontecia o esperado reencontro de Garrincha com o Botafogo, também no Maracanã. E o Corinthians voltaria a sofrer, goleado por 5 a 1.

A invencibilidade vascaína caiu diante do Palmeiras (2 a 1) no Pacaembu no dia 13, deixando o São Paulo – que na véspera havia batido o Bangu por 1 a 0 – empatar na frente. O próximo teste para os cruzmaltinos seria o clássico diante do Flamengo, no jogo de maior público para partida simples no torneio (54.793 pagantes), e que terminaria empatado em 1 a 1. Enquanto isso, Palmeiras e Santos venciam e seguiam sua recuperação. A rodada do fim de semana seguinte embolaria de vez a classificação: no sábado, Botafogo e Palmeiras ficaram no 0 a 0 no Maracanã e o Corinthians venceu o vice-líder São Paulo por 2 a 0, enfim com atuação extraordinária de Garrincha, autor de um dos gols. E no domingo, enquanto o Flamengo goleava o Fluminense por 4 a 1 no Rio, o líder Vasco apanhava de 5 a 2 diante do Santos no Pacaembu.

Herói contra o São Paulo, Garrincha voltou a decepcionar no jogo seguinte, o adiado clássico contra o Palmeiras, realizado na segunda-feira, 21. Aos 43 minutos do segundo tempo, o ponta perdeu a chance de empatar o jogo e colocar o Corinthians na liderança junto com o Vasco ao desperdiçar um pênalti, chutando fraco para a defesa de Valdir. E o Alviverde venceu por 2 a 1 e subiu para a ponta da tabela, na qual, entretanto, não teria vida longa. Jogando sua quarta partida em oito dias, mostrou cansaço e perdeu por 3 a 2 para o Santos no Pacaembu, na quarta-feira, 23. A vitória alçou o Peixe à liderança provisória do torneio, com 10 pontos. Enquanto isso, no Maracanã, o Botafogo começava seu sprint final, batendo o Bangu por 3 a 1. Na quinta, no entanto, o Vasco ganharia uma sobrevida, retomando a liderança ao derrotar a Portuguesa – que encerrava sua participação – por 1 a 0 no Maracanã mesmo jogando mal e sendo vaiado pela própria torcida. Na capital paulista, o Corinthians seguia vivo após bater o Flamengo por 3 a 1, acabando com as chances rubro-negras de conquistar o título.

Chegaria então o fim de semana decisivo do torneio. Às vésperas da última rodada, já era aventada nos jornais a possibilidade do título dividido, no caso de uma específica combinação de resultados (que, incrivelmente, acabou acontecendo). Aliás, comentava-se inclusive a chance de um empate quíntuplo na liderança, já que o Palmeiras também poderia terminar com 11 pontos caso vencesse o São Paulo no sábado, 26 de março – mas o Alviverde viu suas expectativas morrerem ao perder por 4 a 2 para o Tricolor. Assim, no dia 27, os quatro postulantes ao título entraram em campo nas seguintes condições: o Vasco era o líder com 11 pontos, seguido por Santos e Corinthians, ambos com um a menos, ao lado do São Paulo, que já havia encerrado sua participação. O Botafogo (que só tinha chance em caso de empate quádruplo) vinha mais atrás, com nove, mesma soma do já eliminado Palmeiras. E, curiosamente, os alvinegros se enfrentariam.

No Pacaembu, em jogo bastante tumultuado, corintianos e santistas ficaram no 0 a 0, mas não faltou polêmica e emoção. Coutinho e Mengálvio foram expulsos ainda no primeiro tempo, e o Corinthians teve a chance da vitória em pênalti de Zito em Garrincha, mas Laércio defendeu a cobrança de Flávio. Empatados na tabela, os rivais paulistas aguardaram notícias do Maracanã, onde Vasco e Botafogo entraram em campo um pouco mais tarde, já que a partida entre Fluminense e Bangu, que seria jogada na véspera, havia sido cancelada em virtude de um temporal (mais um) e transferida para a preliminar do outro clássico, em rodada dupla. Assim, os cruzmaltinos precisavam de um empate para levantarem o título sozinhos, mas quando enfim souberam disso já não podiam fazer mais nada: o Botafogo vencia por 3 a 0 com dois de Jairzinho e um de Parada, que se sagrou artilheiro do torneio com oito gols, dois a mais que o rubro-negro Silva e o vascaíno Célio.

No balanço final, embora tenha sido uma competição de tiro bem curto, o Rio-São Paulo teve quatro campeões com trajetórias bem sinuosas até o título. O Vasco, enquanto teve fôlego, começou arrasadoramente, graças a um sólido sistema defensivo, típico do técnico Zezé Moreira. Mas quando “virou o fio”, somou apenas os pontos suficientes para não perder o título. Já o Botafogo de Admildo Chirol, hesitante no começo, valeu-se da arrancada final, correndo por fora, para alcançar a liderança. Do lado paulista, o Corinthians de Oswaldo Brandão acumulou pontos importantes bem no início do campeonato, rateou nos primeiros jogos com Garrincha, mas logo voltou a se mostrar competitivo. Já o Santos do técnico Lula, o mais regular mesmo desfalcado, mostrou a força de seu elenco – coisa que o Palmeiras de Mario Travaglini, outro que contava com um grupo bem qualificado tecnicamente, não conseguiu mostrar desperdiçando pontos bobos, embora tivesse sido o mais prejudicado pela sequência massacrante de jogos. Entre os demais, o Flamengo de Armando Renganeschi chegou a sonhar com o título, mas seu fraco desempenho na capital bandeirante não o permitiu voos mais altos. O São Paulo de Aymoré Moreira também não teve consistência para conservar a liderança obtida na primeira metade do campeonato. Já o Fluminense dirigido por Tim, em fase de transição, em momento algum chegou a brigar realmente pela taça, enquanto Bangu (de Zizinho) e Portuguesa (de Jim Lopes), fora uma ou outra boa vitória, fizeram apenas figuração.

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Mas este tipo de análise quase não é encontrado nos jornais da época. Se não chegou a passar em branco na imprensa, o desfecho do torneio também não chegou a merecer nem de longe o maior destaque nas páginas dos jornais. Acabou quase sempre relegado aos pés de página, ofuscado por dois outros fatos, ambos relativos à Copa do Mundo que viria. O primeiro era a divulgação da faraônica lista de 45 convocados (que depois chegaria a 47, com a inclusão dos “italianos” Jair da Costa e Amarildo) para a fase de preparação para o Mundial, anunciada logo na segunda-feira seguinte. Desta lista, 41 atletas atuavam por clubes que disputaram o Rio-São Paulo: foram sete do Santos (incluindo Pelé, que não jogou o torneio interestadual), seis do Palmeiras, cinco de Botafogo e São Paulo, quatro de Corinthians, Flamengo e Vasco, três do Bangu, dois do Fluminense e um da Portuguesa. Completando a relação estavam Tostão (Cruzeiro), o centroavante Alcindo (Grêmio), o zagueiro Leônidas (America do Rio) e o ponta Nado (Náutico). O segundo fato a ganhar destaque era o fim do dramático episódio do roubo da taça Jules Rimet em Londres, encontrada pelo cãozinho Pickles num terreno baldio embrulhada em um jornal.

Em relação à imprensa, também vale destacar que os regulamentos dos torneios e a maneira como eles eram divulgados pelos jornais na época diferem bastante dos de hoje e podem parecer bem curiosos aos olhos dos torcedores mais jovens. Era bastante comum, por exemplo, ler nos jornais a classificação dos campeonatos por pontos perdidos, em vez de pontos ganhos. O público dos jogos nem sempre era informado, mas a renda era de lei. E não se fazia muita cerimônia com equipes empatadas na tabela. Se a briga fosse por título, ou por alguma posição crucial para o andamento da competição (por exemplo, a definição do último classificado para um turno ou uma fase seguinte), na maioria dos casos marcava-se um jogo extra. Caso o desempate fosse irrelevante, simplesmente deixava-se daquele jeito mesmo. Não havia a exigência de se estabelecer minuciosamente os critérios de desempate em um torneio. Número de vitórias, o mais utilizado no Brasil hoje, era então quase raro de ser utilizado. Havia o saldo de gols, ou outro mais comum – e hoje virtualmente extinto: o goal average, que consistia na divisão dos gols marcados pelos sofridos. O regulamento do Torneio Rio-São Paulo de 1966 não previa qualquer critério de desempate. Mas, utilizando os critérios mais usuais da época, é possível estipular alguns desempates extraoficiais possíveis. Dos quatro, o Botafogo teve o melhor saldo de gols e também o melhor goal average. Vasco e Corinthians venceram mais jogos – e dentre os dois, os cruzmaltinos tiveram saldo melhor em um gol. Há ainda a possibilidade de utilizar os resultados dos confrontos diretos do turno. Nesse caso, também o Botafogo levaria vantagem por ter vencido Vasco e Corinthians e empatado com o Santos.

Como se vê, havia várias possibilidades de desempate, caso algum critério fosse previsto no regulamento. Mas para uma competição atravessada por diversas intempéries e que quase não foi realizada, o fim inusitado acabou não sendo tão espantoso assim. Na verdade, a sensação que ficou foi a de que o torneio valeu mais para observações do que para apontar um vencedor, dada a (pouca) repercussão de seu desfecho, especialmente quando comparada ao que envolvia a Copa do Mundo. E se a preparação para esta já seria caótica, não era possível esperar muito esforço de organização para o campeonato interestadual. E assim acabou a fase clássica do Rio-São Paulo. Ao fim do torneio daquele ano já se comentava a disposição de se ampliá-lo, convidando os clubes mineiros para a competição. Nos meses que se seguiram, a proposta acabou estendida um pouco mais, passando a incluir também gaúchos e paranaenses. E para 1967, estava criado o Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Mas essa já é outra história.


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