Conquista decisiva para firmar a popularidade do futebol no país, o primeiro título da Seleção Brasileira em sua história, o Campeonato Sul-Americano (atual Copa América) de 1919, completa seu centenário nesta quarta-feira, 29 de maio. A vitória por 1 a 0 sobre os uruguaios com gol de Arthur Friedenreich no estádio de Laranjeiras veio em dramático jogo extra, cujo desfecho só se deu após duas prorrogações. E trouxe o esporte antes tido como mero passatempo importado para dentro da identidade cultural do povo brasileiro, na época em plena formação.

O CONTEXTO DO PAÍS

O Brasil de 1919 tinha cerca de 30 milhões de habitantes, quase metade (14 milhões) morando na região Sudeste. Segundo o Censo que seria divulgado no ano seguinte, a cidade do Rio de Janeiro, capital federal, era a única a superar o milhão de habitantes: tinha pouco menos de 1,158 milhão, quase exatamente o dobro de São Paulo, segunda colocada com 579 mil. E a própria cidade mais populosa do país era bastante diferente em sua configuração espacial.

O perímetro nobre do Rio era o que se estendia da Glória à Urca, na Zona Sul banhada pela Baía de Guanabara, além de seus bairros internos, como Laranjeiras e Catete, e de outros na zona Norte, como a Tijuca e o antigo bairro imperial de São Cristóvão. Áreas mais tarde celebrizadas, como Copacabana, Ipanema e Leblon, ainda tinham urbanização bastante incipiente, além do acesso mais difícil, já que alguns túneis ainda não haviam sido abertos.

O café era a base de sustentação da economia brasileira, representando 66% das exportações do país. E vivia momento de alta no mercado externo. Quem lucrava com isso era a elite cafeicultora, especialmente a de São Paulo, que dividia o poder com a aristocracia de Minas Gerais. Vivia-se a época posteriormente denominada República Velha, onde imperava a “política do café-com-leite”, na qual paulistas e mineiros alternavam-se à frente do governo federal.

Por outro lado, era também um Brasil que se industrializava: ao fim de 1919, contabilizava 13 mil empresas, sendo seis mil criadas só no período da Primeira Guerra Mundial. Entre estas novas fábricas estava a da Ford, que inaugurara naquele ano sua primeira montadora de automóveis no país, em São Paulo. A mão de obra que sustentava este desenvolvimento advinha em grande parte da massa de imigrantes europeus, que fugiam dos conflitos no Velho Continente.

Dentro desse cenário, era ainda um país em processo de criação de uma identidade nacional e de referenciais culturais próprios. Um ano antes, Monteiro Lobato havia publicado “Urupês”, livro de contos no qual apresentava seu mais famoso personagem, o Jeca Tatu. Já em 1919, a poetisa Cecília Meireles, 18 anos, lançava seu primeiro livro, “Espectros”. No mesmo ano, o pintor Di Cavalcanti realizava sua primeira exposição individual em São Paulo.

No Rio, dois anos depois do lançamento de “Pelo Telefone”, composição de Donga considerada o primeiro samba gravado, era realizado no extinto Teatro Lírico, no Largo da Carioca, o primeiro concurso de músicas carnavalescas. O futebol, porém, ainda sofria com um certo ranço elitista, o que o tornava desprezado por alguns intelectuais, escritores e cronistas. Mas aquele Campeonato Sul-Americano a ser realizado na cidade seria um ponto de virada nesta condição.

Houve obstáculos para a realização do torneio, entretanto. A persistente divergência entre as federações paulista e carioca, que disputavam a hegemonia do jogo no país, foi um deles. Mas o maior foi a pandemia mais mortal do século, que ficou conhecida como Gripe Espanhola (embora seu primeiro foco tenha sido detectado nos Estados Unidos, em março de 1918) e matou, segundo as estimativas, entre 50 e 100 milhões de pessoas ao redor do mundo.

No Brasil, que entrou na rota do contágio no segundo semestre de 1918, o número de vítimas chegou a 35 mil, sendo 12,7 mil apenas na cidade do Rio de Janeiro. Entre elas, o presidente eleito da República Rodrigues Alves, que faleceu em janeiro de 1919 e não chegou a tomar posse. No futebol também houve perdas: morreram João Cantuária, jogador-símbolo do São Cristóvão cuja morte abalou o meio esportivo carioca, e o atacante Archibald French, do Fluminense.

O PALCO DOS JOGOS

E seria justamente no campo do Tricolor que o Sul-Americano se realizaria. Mas não no campo cercado, com arquibancadas de madeira, no qual o time do Fluminense e outros que disputavam o Campeonato Carioca haviam se acostumado a jogar. Para sediar o torneio, a Confederação Brasileira de Desportos solicitou ao clube que construísse um estádio de concreto, e o presidente do clube, Arnaldo Guinle, movimentou os recursos necessários com os sócios.

O estádio da Rua Guanabara (atual Pinheiro Machado), no bairro de Laranjeiras, o primeiro de concreto do país, ficou pronto a tempo de receber o jogo de abertura do torneio, entre Brasil e Chile, no dia 11 de maio. Enquanto o palco do Sul-Americano (cuja realização havia sido adiada em vários meses devido à Gripe Espanhola) recebia os últimos retoques, a visita das delegações se tornava um acontecimento social na capital federal.

As delegações de Argentina, Chile e Uruguai vieram juntas no navio brasileiro “Florianópolis”, que ancorou no dia 3 de maio no antigo Cais Pharoux, onde atualmente fica a estação das barcas, na Praça 15 de Novembro, centro do Rio, após uma escala no porto de Santos. Apesar da chuva que caía naquela manhã, o vapor foi recebido por lanchas com bandeiras da CBD, da Federação Carioca, do America, do Flamengo e do Fluminense.

Em seguida, um cortejo de setenta automóveis levando as delegações (que incluíam jogadores, dirigentes, jornalistas e árbitros) desceu a Avenida Rio Branco até a Lapa, onde as três seleções visitantes ficariam hospedadas. Também ficaram definidos os locais dos treinos: os chilenos se exercitariam no America (em Campos Sales), os argentinos no Flamengo (no campo rubro-negro da Rua Paissandu) e os uruguaios no Botafogo (em General Severiano).

Nos dias que se seguiram até o início do certame, as delegações foram levadas a vários passeios. Conheceram os prédios do Teatro Municipal e da Biblioteca Nacional (então inaugurados há menos de uma década), visitaram o Corcovado, a Quinta da Boa Vista e o Museu Nacional, foram recebidos com festas, banquetes e chás dançantes nos principais clubes da cidade, fizeram excursões a Niterói e Petrópolis e assistiram a espetáculos teatrais.

OS ADVERSÁRIOS

Os chilenos tinham a equipe considerada mais fraca, algo admitido até por eles próprios. Além da falta de preparação adequada, com quase nenhum treino, tinham um time inexperiente, com sete estreantes entre titulares. Os nomes mais conhecidos eram o goleiro Manoel Guerrero e o centromédio Héctor Parras, que já havia atuado no futebol carioca defendendo o America e o Flamengo (pelo qual se sagrou campeão da cidade em 1915).

Os argentinos, por sua vez, lamentavam alguns desfalques, como o do centromédio Francisco Olazar e do centroavante Alberto Marchovecchio, ambos do Racing (que acumulou títulos nacionais naquela década), mas confiavam principalmente na dupla de zagueiros formada por Roberto Castagnola e Armando Reyes, também do clube de Avellaneda, no goleiro Carlos Isola, do River Plate, e no ponteiro Pedro Calomino, do Boca Juniors.

Os grandes favoritos, no entanto, eram os uruguaios, que contavam com um escrete fortíssimo, além de terem sido os vencedores das duas edições do torneio realizadas até aquele momento. Mesmo sem ter trazido o atacante José Piendibene, adoentado, e o defensor Antonio Urdinarán, deixado de fora sem explicações, eram muitos os destaques, como os irmãos atacantes Héctor e Carlos Scarone, o centromédio Alfredo Zibechi e o ponta-esquerda Ángel Romano.

Curiosamente, os goleiros Cayetano Saporiti e Roberto Chery deveriam se revezar nas partidas, já que o primeiro, apesar de mais experiente, estava um tanto gordo e fora de forma. Entre os novatos, o nome apontado pelos uruguaios como provável revelação era o médio Rogelio Naguil, de apenas 19 anos e que defendia o Nacional. Mas um dos nomes mais comentados durante o torneio foi o do atacante Isabelino Gradín, do Peñarol.

Meia-esquerda velocíssimo (fora campeão e recordista sul-americano de atletismo nos 200 e 400 metros rasos), Gradín era um dos primeiros astros negros do futebol do continente. Não era o único no elenco uruguaio: havia o centromédio Juan Delgado, também do Peñarol. Também não era estreante, uma vez que tinha participado do torneio de 1917. Mas chegou a ser aplaudido por um grupo de marinheiros, negros como ele, ao desembarcar na cidade.

Apesar de jogadores negros já não serem exatamente uma novidade nem no futebol carioca (em especial nos clubes de origem operária – como o Bangu e o Carioca, do Jardim Botânico – ou da Zona Norte – como o Vila Isabel e o Andaraí), nem no paulista, a Seleção Brasileira contava apenas com um jogador de ascendência negra direta: o atacante Arthur Friedenreich, um dos destaques da forte equipe do Paulistano, filho de mãe negra e pai alemão.

OS ‘ASES’ BRASILEIROS

Fried já era bastante conhecido no Rio, onde havia jogado pelo seu clube, pela seleção paulista e também pelo Flamengo, como convidado na primeira partida internacional da história dos rubro-negros, contra o Sportivo Barracas argentino em 1917. Despontava como um candidato a ídolo popular, um Gradín brasileiro. Mas naquele momento, outros nomes do escrete nacional – então polarizado entre cariocas e paulistas – recebiam mais destaque.

O goleiro Marcos Carneiro de Mendonça era um deles. Mineiro de Cataguazes, integrou uma família por muito tempo ligada ao America, mas que deixou o clube ao se desentender com uma ala da diretoria rubra após a conquista do Carioca de 1913, e rumou para o Fluminense, clube que defendia quando, no ano seguinte, entraria para a história do futebol brasileiro como o primeiro goleiro da Seleção. Com o tempo, tornaria-se um símbolo tricolor.

Outro nome de prestígio na época era o zagueiro Píndaro de Carvalho, nascido em São Paulo, mas que viera para o Rio estudar e começara no futebol com passagem curta pelo Fluminense, antes de integrar o grupo de jogadores que deixaram as Laranjeiras para fundar o futebol no Flamengo. Apelidado “Gigante de Pedra”, ele se consagrou na defesa rubro-negra, formando dupla sólida com Emmanuel Nery e vencendo dois títulos cariocas.

Além de Friedenreich, os paulistas também tinham seus muitos nomes de destaque. Com efeito, formavam a base da Seleção. Entre eles, figuravam os primeiros ídolos da história do Corinthians: Amílcar Barbuy, centromédio extremamente técnico e de grande liderança, e o atacante Neco, que podia atuar em várias posições do quinteto ofensivo, e também era um jogador de grande habilidade, sendo famoso também por seu pavio curto e jeito rebelde.

O time que estreou contra os chilenos tinha Marcos no gol, Píndaro e Bianco (do Palestra) como zagueiros. A linha média era formada por Amílcar pelo centro com Sérgio (do Paulistano) pela direita e Galo (do Flamengo) pela esquerda. Na linha de frente, o botafoguense Luiz Menezes era o ponta-direita, com Neco na meia por aquele lado e Friedenreich de centroavante. A chamada “ala esquerda” tinha dois santistas: o meia Haroldo e o ponteiro Arnaldo.

O PRIMEIRO DESAFIO

Naquela tarde de 11 de maio, o jogo começou nervoso, com os brasileiros errando muito e os chilenos ameaçando, deixando impaciente a multidão de homens de chapéu de palha e gravata borboleta e de mulheres que a todo momento retiravam suas luvas e as torciam. Este gesto daria origem ao termo “torcedor(a)”, o qual inspiraria bem-humorada crônica social na revista semanal carioca Careta, equiparando a importância do público à dos jogadores em campo.

Felizmente, para os torcedores brasileiros, Friedenreich abriu o placar aos 19 minutos, batendo forte para vencer o goleiro Guerrero após receber passe de cabeça de Arnaldo. Dali em diante, a Seleção deslanchou. Fried fez a assistência para Neco anotar o segundo e, logo depois, marcou ele próprio o terceiro, pouco antes do intervalo. Na etapa final, o atacante do Paulistano anotaria mais dois, com Arnaldo também balançando as redes, e a goleada fechou em 6 a 0.

AS TURBULÊNCIAS

A vitória folgada também serviu para afastar algumas crises que haviam surgido. A primeira seria marcante como a eclosão da rivalidade entre cariocas e paulistas e havia começado no fim de 1918: a CBD remetera a São Paulo o dinheiro da passagem para que os jogadores bandeirantes viessem ao Rio para a disputa do Sul-Americano naquele ano. Quando o torneio foi cancelado, a entidade pediu a verba de volta – e os paulistanos se negaram a devolver.

Os atletas já haviam gastado todo o dinheiro em roupas novas, malas e presentes. Quando soube disso, a CBD resolveu puní-los com suspensão, algo ao que se opuseram com veemência a imprensa paulista e a Associação Paulista de Esportes Atléticos, que ameaçou não ceder seus craques à Seleção. O tempo passou e a questão foi esquecida. Mas ao chegarem ao Rio, os jogadores paulistas foram recebidos com indiferença pelo público carioca.

O atacante Neco, porém, sabia que o clima não permaneceria assim por muito tempo: “Quando o inimigo for comum, as coisas vão mudar”, declarou. Entretanto, nem todo o meio futebolístico entrou na corrente. Preterido na convocação, o médio Sylvio Lagreca, do São Bento paulistano, abriu o verbo em entrevista ao jornal A Gazeta, na qual afirmava que a lista obedecia a critérios políticos e que incluía atletas sem qualidade para defender a Seleção.

O jogador havia participado dos treinamentos antes da convocação final, mas seu desempenho foi criticado pela imprensa (“Lagreca está pesado”, escreveu o Jornal do Brasil) e ele acabou voltando a São Paulo, após um suposto desentendimento com Amílcar. Alguns dias depois de serem publicadas as críticas do médio paulista, o ponteiro-esquerdo santista Arnaldo refutou cada uma das acusações nas páginas do mesmo A Gazeta, encerrando o caso.

UM INCIDENTE TRÁGICO

A rodada inaugural do Sul-Americano foi concluída no dia 13, dois dias após a goleada do Brasil, com a vitória do Uruguai sobre a Argentina por 3 a 2. No clássico do Prata, o mais antigo do continente, a Celeste abriu dois gols de frente em 23 minutos com gols dos irmãos Carlos e Héctor Scarone. A Albiceleste descontou com Izaguirre e empatou na etapa final com um gol contra de Varela. Porém, Gradín deu a vitória aos uruguaios a cinco minutos do fim do jogo.

No dia 17, os orientais (como os uruguaios costumavam ser chamados então) voltaram a campo para enfrentar o Chile. Dispostos a evitarem uma nova goleada, os andinos se portaram com mais firmeza na defesa e chegaram a ter um gol de Alberto France anulado por impedimento quando o placar era de 0 a 0. Mas não puderam evitar os gols de Carlos Scarone e José Pérez que deram a segunda vitória à Celeste no torneio, ainda na etapa inicial.

Um trágico incidente, porém, marcaria o jogo, ainda que na ocasião tenha passado despercebido pelos jornais. No fim da partida, o goleiro uruguaio Roberto Chery defendeu um forte chute de um atacante chileno e sofreu o esmagamento de uma hérnia não curada. Após o encerramento, foi levado imediatamente a um hospital, onde foi submetido a várias cirurgias, mas não resistiu e faleceu em 30 de maio, um dia depois da final do torneio.

Em sua homenagem, as seleções de Brasil e Argentina voltaram a campo de Laranjeiras no dia 1º de junho para disputarem um troféu denominado Copa Roberto Chery, com renda revertida para o traslado do féretro e para auxílio da família do goleiro. Naquela ocasião, a Seleção atuou vestindo a camisa do Peñarol, clube de Chery, enquanto os argentinos utilizaram o uniforme do Uruguai. O jogo terminou empatado em 3 a 3 e a taça foi cedida ao clube aurinegro.

A SEGUNDA VITÓRIA BRASILEIRA

Antes disso, é claro, Brasil e Argentina haviam se enfrentado no dia 18 de maio, pela segunda rodada do Sul-Americano. No time brasileiro, mesmo vindo da goleada sobre os chilenos, três mudanças foram feitas. Uma na linha média, onde o tricolor Fortes substituiu Galo. E as outras duas no ataque, com a entrada do estreante ponta-direita Millon (do Santos) no lugar de Luiz Menezes e a do goleador Heitor (do Palestra) na vaga de Haroldo.

Assim como na estreia, a Seleção começou nervosa, e os argentinos obrigaram Marcos a fazer grandes defesas. Até que aos 22 minutos o novo titular Heitor justificou sua escalação abrindo o placar para o Brasil, que foi em vantagem para o intervalo. Na volta, porém, com apenas trinta segundos, Carlos Izaguirre empatou para a Argentina. Mesmo com Friedenreich muito marcado, o time brasileiro não se intimidou e, empurrado pela torcida, foi para cima.

O desempate veio logo aos 13 minutos, quando Amílcar pegou de primeira uma bola que o goleiro Carlos Isola soltou. E já aos 32, Millon completou uma triangulação com Fried e Arnaldo para marcar o terceiro gol brasileiro e sacramentar a vitória por 3 a 1. Com o resultado, Brasil e Uruguai chegavam à última partida em igualdade de condições. Quem vencesse a partida do dia 25 seria o campeão. Em caso de empate, porém, um jogo extra seria marcado.

A PRIMEIRA BATALHA CONTRA A CELESTE

Tidos inclusive pelos brasileiros como favoritos ao título (“É o conjunto de melhor técnica”, escreveu o Jornal do Brasil), os uruguaios eram muito respeitados – até temidos – pelo que faziam em campo. Mas fora dele, o sentimento era outro. Durante o torneio, apesar de toda a diplomacia compartilhada pelos cartolas, houve hostilidades de parte a parte. Como conta o jornalista Roberto Sander no livro “Sul-Americano de 1919 – Quando o Brasil descobriu o futebol”.

“O cozinheiro do hotel onde se hospedava a seleção uruguaia chegou a declarar que se negava a preparar a comida do jeito que eles desejavam. Era, segundo ele, ‘para não dar azeite para as molas dos orientais’. Estes, porém, também não primavam pela boa educação. Praças de cavalaria do 12º Distrito Policial chegaram a ser chamados por conta do ‘hábito dos jogadores uruguaios de dirigir pilhérias às pessoas que passam pela porta do hotel’”.

No dia do jogo, a CBD chegou a fazer publicar nos jornais um apelo aos torcedores para que não hostilizassem os adversários (no jogo entre Uruguai e Chile, Carlos Scarone foi vaiado ao chutar uma bola na direção da arquibancada), e lembrassem-se de que “os uruguaios e os brasileiros estão empenhados numa competição desportiva fraterna, o que seria profanar a elevação dos intuitos de confraternização sul-americana, da qual os brasileiros são paladinos”.

Vaias à parte, os uruguaios chegaram a ter a taça quase nas mãos no jogo do dia 25. Mesmo com o estádio abarrotado de gente, saíram marcando logo dois gols antes mesmo da metade da etapa inicial. Primeiro foi Isabelino Gradín, que chutou forte para vencer Marcos aos 13 minutos. Depois foi a vez de Carlos Scarone aproveitar um cruzamento do ponta-esquerda Rodolfo Marán para ampliar a vantagem aos 18 minutos, prenunciando uma vitória fácil.

Donos do jogo desde o início, os uruguaios atacavam como se atuassem em casa, como descreve o Jornal do Brasil: “Os orientais moviam-se constantemente às barras patrícias, procurando com seus forwards qualquer brecha por onde pudessem conquistar um goal. Gradín, o terrível preto do Peñarol, manteve a primazia dos avanços. A todo momento era visto escapulindo pela extrema, dando dribblings sucessivos com o fim de deslocar a defesa contrária”.

Mas quando Friedenreich começou a jogar, o Brasil se refez do impacto inicial e acordou para a partida. Numa falta cometida por Naguil, Arnaldo bateu forte, Saporiti não conseguiu segurar e Neco, num lance de puro oportunismo, descontou para a Seleção. Antes do intervalo, o Brasil chegaria a marcar com Arnaldo, de cabeça após cruzamento, mas o gol seria anulado após reclamação dos uruguaios de que a bola teria saído pela linha de fundo.

O Brasil voltou para o segundo tempo com o controle das ações e empurrando os uruguaios para seu campo de defesa. E arrancaria o já mais que merecido empate aos 15 minutos, quando Neco recebeu passe de Friedenreich e disparou um petardo de longa distância para deixar tudo igual no marcador, o que forçaria o jogo extra, dali a quatro dias. Naquele momento, não só a cidade do Rio, como outras capitais do país já haviam sido tomadas pela febre do futebol.

A FEBRE DO ‘FOOTBALL’ SE ESPALHA

Os jornais cariocas comentavam a repercussão dos jogos da Seleção Brasileira em praças como São Paulo e Belo Horizonte. E trens lotados de torcedores vindos da capital paulista chegavam ao Rio nos dias de jogos do Brasil. Nem todo mundo, no entanto, conseguia assistir às partidas no estádio. Mas não era problema: na Avenida Rio Branco, no centro do Rio, os jornais afixaram enormes placares nos quais penduravam os acontecimentos dos jogos.

As informações deste tataravô do tempo real da era da internet eram recebidas nas redações por telefone. Antes do início do torneio, a CBD havia providenciado a instalação de linhas e aparelhos na sede do Fluminense, por meio dos quais as notícias eram transmitidas aos periódicos. Não havia rádio. Assim, nos dias de jogos, o público se aglomerava em frente às sedes dos jornais para acompanhar o andamento das partidas e vibrar com os gols brasileiros.

O futebol já era o assunto dominante da cidade, e os jogadores tratados como celebridades. Em especial Friedenreich, que se tornou o pivô de um incidente na véspera da final. Convidado a receber uma homenagem numa casa de dança chamada Flor do Abacate, no bairro do Catete, o jogador teve sua saída negada pelos dirigentes. Mas não se fez de rogado: pulou o muro que separava o estádio do Fluminense do Palácio Guanabara para comparecer ao evento.

Descoberto, Fried por pouco não foi barrado, mas o bom senso prevaleceu, para o alívio dos torcedores brasileiros, como se veria mais tarde. A partida extra contra os uruguaios, numa quinta à tarde, foi um grande evento. O presidente da República Delfim Moreira, que estivera no estádio no jogo de abertura contra os chilenos, decretou ponto facultativo nas repartições públicas. O comércio fechou ao meio-dia. Os bancos sequer abriram.

Os jornais publicavam páginas inteiras de prévia do jogo, que incluíam, além de aspectos referentes à partida e aos dois times, informações de serviço como as linhas de bondes e ônibus que passariam pelo estádio, como seria feita a entrada e até os preços das bebidas no bar do clube. Para evitar confusões como as que aconteceram em outros jogos, a CBD decidiu abrir os portões do estádio várias horas antes do início do jogo.

Por volta das nove da manhã, parte do público já havia chegado. Muitas famílias carregando inclusive o próprio almoço em maletas e embrulhos para aguentar a espera até às 14h15, horário marcado para o pontapé inicial. Havia também muita gente aguardando fora do estádio, em cima da pedreira próxima, de árvores e de muros. Quando o árbitro e, em seguida, os times entraram em campo, a expectativa e a ansiedade já eram enormes.

A SEGUNDA BATALHA CONTRA A CELESTE

Quando a partida começou, os primeiros minutos foram de muito estudo, sem chances criadas nem chutes a gol. Em meia hora de jogo, Saporiti só havia feito três defesas. Marcos só faria sua primeira aos 36 minutos. Por outro lado, eram muitas as faltas e impedimentos, revelando um jogo bastante concentrado no meio-campo. O intervalo chegou com o 0 a 0 no placar, e na etapa final o panorama não mudou. Apenas os times pareciam um pouco mais soltos.

O desgaste da partida já era evidente quando, perto do fim do segundo tempo, Saporiti teve de receber atendimento ao sofrer com câimbras. Depois de recuperado, ainda teve tempo de fazer duas grandes defesas que levaram a decisão para a prorrogação. Mais uma vez, brasileiros e uruguaios terminariam empatados após 90 minutos. E continuariam empatados pelos próximos 30, muito devido a uma defesa soberba de Marcos, que salvou a Seleção.

A minutos do fim da prorrogação, com as duas equipes já extenuadas, Héctor Scarone reúne forças para uma última escapada, ficando cara a cara com o goleiro brasileiro. Era a bola do jogo. O tiro saiu forte e no canto. Nas tribunas, o uruguaio Héctor Gómez, que presidia a Confederação Sul-Americana, já deixava escapar o grito de gol. Mas Marcos saltou e conseguiu espalmar inacreditavelmente a bola para escanteio.

“Foi a defesa da minha vida”, afirmaria anos depois o arqueiro. A intervenção garantiu o empate e forçou uma absurda segunda prorrogação: mais dois tempos de 15 minutos, mais meia hora de jogo, que já se estenderia a duas horas e meia no total. E, logo no início, aos dois minutos do novo tempo extra, sairia o gol brasileiro: Neco desceu pela ponta direita e cruzou. Saporiti apenas espalmou, e Friedenreich, oportunista, apareceu para mandar às redes.

Ainda havia, porém, 28 minutos da segunda prorrogação a serem jogados. Era preciso resistir. Mas, contando com a dupla Píndaro-Bianco cumprindo atuação excepcional, a defesa brasileira era uma barreira às tentativas uruguaias. Ao fim da extenuante batalha, os capitães Foglino e Arnaldo se abraçaram, colocando a esportividade acima da rivalidade. Enquanto isso, o gramado era tomado por muitos torcedores, que não cabiam em si de alegria.

O PAÍS EXPLODE EM FESTA

A notícia da vitória correu de boca em boca, e a festa pelo título logo tomou conta das ruas do Rio de Janeiro e de outras capitais. Reverberou até mesmo na Argentina, onde foi saudada pela imprensa portenha. Nos dias que se seguiram, foram muitas as homenagens: Friedenreich, apelidado “El Tigre” pelos uruguaios, recebeu deles também uma placa, em cujos dizeres era considerado o mais espetacular artilheiro de todo o continente.

Os jornais publicaram vasta cobertura da vitória e da festa. O matutino carioca O Paiz celebrou em suas páginas esportivas: “Salve! Denodados campeões!”. A bola do jogo, autografada por todos os atletas, foi colocada numa redoma de vidro e guardada na sede da CBD. Já as chuteiras do novo ídolo nacional Friedenreich, ainda sujas de lama, foram expostas na vitrine da Casa Oscar Machado, refinada joalheria da Rua do Ouvidor, no centro da cidade.

A vitória inspirou um samba, “Goal brasileiro”, composto pelo maestro Luiz Nunes Sampaio e que fez muito sucesso na cidade na época. Mas seria imortalizada na música popular brasileira em outra composição: o choro “Um a zero”, de Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha (na época com 22 anos), composta em parceria com o flautista Benedito Lacerda, e que somente décadas depois ganharia a letra de Nelson Ângelo que a tornaria ainda mais popular.

É difícil imaginar que destino teria tido o futebol no Brasil caso a Seleção não tivesse levantado aquela taça. A conquista centenária parece intrinsecamente ligada ao impulso definitivo ao gosto (e até à paixão) do povo brasileiro pelo jogo vivenciada desde então. O esporte ainda passaria por algumas outras revoluções no país, mas não parece exagero dizer que tudo começou ali. O gol de Friedenreich deu ao país um dos elementos fundadores de sua cultura nacional.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.