O Seattle Sounders possui uma história que vai além de sua própria existência na Major League Soccer. O clube carrega sua tradição desde os tempos de NASL e USL, outras ligas de futebol nos Estados Unidos. A identidade dos Sounders se sustenta através de sua torcida, fanática como raríssimas no país. Ao longo de 11 anos de existência na MLS, a franquia sempre contou com médias de público expressivas e com um estádio barulhento. Já neste domingo, o CenturyLink Field viveu sua experiência máxima no “soccer”. Pela primeira vez, Seattle jogou em casa a decisão da MLS Cup. E o que se viu foi uma cidade vibrante, alucinada pela possibilidade de soltar o grito de campeão. Os Sounders não desapontaram sua gente. Pela segunda vez, a equipe conquistou o título nacional. Diante de 69 mil torcedores, bateu o Toronto FC por 3 a 1 na final.

A inclusão dos Sounders na MLS em 2009 representa um grande ganho à liga como um todo. A MLS passou a contar com um clube de massa, dentro de uma região apaixonada pela modalidade, com rivalidades expressivas. E o mais importante é que o time de Seattle sempre se manteve competitivo. Nas dez temporadas anteriores, a equipe sempre chegou aos playoffs. Em 2014, foi o melhor time na fase de classificação, embora tenha caído para o Los Angeles Galaxy na final da Conferência Oeste. Já nos últimos quatro anos, veio o salto competitivo. Depois de erguer o troféu em 2016 e terminar com o vice em 2017, os Rave Greens disputariam sua terceira final. Prova de uma força que se repete nos momentos decisivos.

O Seattle Sounders, afinal, cresceu nesta temporada. Depois de uma pré-temporada em que o time não ganhou um mísero jogo sequer, conseguiu melhorar na fase de classificação e teve um ótimo aproveitamento em casa, o que permitiu a segunda colocação na Conferência Oeste. Já nos mata-matas, a equipe ressaltou sua tarimba. Venceu na prorrogação o FC Dallas e eliminou também o Real Salt Lake. Seu maior desafio viria na final do Oeste, contra o Los Angeles FC, dono da melhor campanha e favoritíssimo à taça. O triunfo por 3 a 1 na Califórnia, de virada, ratificou o copeirismo do time de Seattle.

Então, a final guardaria o novo embate contra o Toronto FC. Seria exatamente a terceira final contra o Toronto, vítima dentro do Canadá em 2016, mas também campeão diante de sua própria torcida em 2017. O tira-teima colocava frente a frente duas equipes que não despontaram como as mais fortes ao longo da competição, mas conseguiram estabelecer verdadeiras dinastias em suas conferências. Agora, porém, a melhor campanha na fase inicial permitiu ao Sounders mandar o compromisso em Seattle. A decisão inédita finalmente poderia acontecer no CenturyLink Field, casa também do Seattle Seahawks, da NFL.

A expectativa de casa cheia era o óbvio ao Seattle Sounders. As cores do clube inundaram as ruas da cidade e tomaram as arquibancadas, inclusive com um belíssimo mosaico. Mais de 69 mil compareceram ao jogo contra o Toronto, registrando o maior público da história da franquia e também o quarto maior da história dos playoffs da MLS. Seria por essa multidão que a equipe jogaria neste domingo. E os anfitriões fizeram valer o mando de campo, com uma vitória relativamente elástica, em circunstâncias não tão favoráveis.

Durante o primeiro tempo, o Toronto dominou a partida. Os canadenses tiveram mais posse de bola e criaram as principais chances em Seattle. Na melhor delas, o goleiro Stefan Frei precisou aparecer. O suíço, herói em 2016 com uma coleção de defesas na final da MLS Cup, novamente sublinharia sua idolatria. Somente no segundo tempo é que os Sounders encontraram o caminho da vitória. E, depois de abrir a porteira, a equipe deslanchou.

O primeiro gol veio aos 12 minutos, num lance de sorte de Kelvin Leerdam, em chute que desviou no meio do caminho. Aos 31, Victor Rodríguez encaminhou o título com um chute firme da entrada da área. Já aos 45, Raúl Ruidíaz desatou a festa ao receber um chutão, ganhar do marcador em velocidade e tocar na saída do goleiro Quentin Westberg. Voltando de lesão, Jozy Altidore até descontou nos acréscimos, o que não adiantou em nada. A taça ficaria mesmo em Seattle. O espanhol Rodríguez, que saiu do banco para mudar os rumos do embate, ganharia o prêmio de melhor da partida. Já o troféu seria erguido pelo capitão Nicolás Lodeiro, um dos melhores jogadores da história da franquia, por lá desde que deixou o Boca Juniors em 2016.

Um bom número de titulares compõe a espinha dorsal dos Sounders nestes quatro anos. Cinco jogadores estiveram em campo nas duas finais vencidas pela equipe: o goleiro Frei, o zagueiro Román Torres, o volante Cristian Roldán, o meia Lodeiro e o atacante Jordan Morris. Formam uma amálgama importante para o sucesso dos Rave Greens. Porém, a lista de adições mais recentes inclui outros atletas notáveis, sobretudo com rodagem internacional e passagens por suas seleções. O sueco Gustav Svensson, o australiano Brad Smith e o sul-coreano Kim Kee-hee são exemplos.

Já a peça que ajudou a dar um salto de qualidade nos Sounders é Raúl Ruidíaz. Aos 29 anos, o peruano possui uma carreira extensa, que inclui até mesmo uma passagem pelo Coritiba. Por muito tempo, pareceu um atacante que se sentia à vontade apenas com a camisa do Universitario, o clube onde surgiu. No entanto, marcou muitos gols no Morelia e virou investimento dos Sounders. Depois de um bom primeiro ano com a equipe em 2018, em evidencia também por causa do momento de sua seleção, ele repetiria outra boa temporada em 2019. Foi o artilheiro do time na fase de classificação, com 11 gols em 22 aparições. Já nos playoffs, arrebentou com mais quatro gols. Além de fechar o caixão contra o Toronto, também foi o pesadelo do LAFC, com dois gols na Califórnia.

E no comando técnico, os méritos ficam a um verdadeiro homem da casa. Brian Schmetzer não apenas nasceu em Seattle. Ele também jogou nos Sounders ainda nos tempos de NASL, no começo dos anos 1980, e integrou a equipe nas competições indoor pelos Estados Unidos. Depois, voltaria para encerrar a carreira em outra encarnação do clube e se tornaria treinador por lá, dirigindo os Rave Greens em dois títulos da USL. O veterano se tornou assistente de Sigi Schmid após a expansão à MLS, mas assumiria o cargo no meio da temporada de 2016. O resultado? Dois títulos, três finais e a confirmação de que está entre os melhores técnicos do país. Em meio à festa no CenturyLink Field, não negou sua emoção por tudo o que vivia na própria cidade.

O título ainda recai como uma lembrança a Paul Allen, um dos principais acionistas do Seattle Sounders, que faleceu em outubro do ano passado. O cofundador da Microsoft foi importante, ao lado do acionista majoritário Adrian Hanauer, para reforçar a identidade do clube na expansão à MLS e aproximá-lo do Seattle Seahawks, também sua propriedade. E o legado de todo esse processo é um time que, além de vencedor, possui uma comunidade fortíssima ao seu redor. Entre os artificialismos que existem e que se supõem em uma competição relativamente nova, os Sounders representam dos laços mais genuínos e das raízes mais profundas no “soccer”. Por isso, a conquista dentro de casa foi tão significativa.